A presença do educador, um ser humano vivo, atento e consciente, completa a experiência de aprendizado de uma forma que nenhum outro fator consegue.

Pode se argumentar que a presença do educador para a transmissão do conhecimento só é necessária no caso da transmissão de crenças, onde o discurso formal é equipado com o aparato retórico para fins de convencimento. Se o discurso é somente transmissor da verdade, aquela que é ela mesma, doa a quem doer, não seria necessário a presença do educador. Isto estaria muito bem assim, não fosse o detalhe de que não estamos equipados para distinguir a verdade expressa na linguagem com tanta facilidade assim. Se bastasse a apresentação contínua de teses e mais teses, criticadas pelo nosso infalível senso da verdade, para que cedo ou tarde percebêssemos o que é verdadeiro em cada discurso, tudo seria muito mais fácil. Mas não é assim que funciona, exceto talvez em domínios muito miúdos da ciência. Em geral nós temos muito mais experiência e interesse no sentimento de confiança, do que na lógica. Nós sabemos que a lógica é um esquema que ordena as coisas, mas não é a própria substância das coisas. A realidade é rica de tal maneira que a lógica não consegue chegar nem perto de expressar como as coisas realmente são. Mas o que falta à linguagem, sobra à consciência. Nosso ponto forte é a nossa capacidade de conhecer, não de expressar necessariamente. Com a devida atenção, qualquer ser humano pode se aprofundar na realidade e tirar deste mergulho o conteúdo de um milhão de livros ainda não escritos. A presença de um educador que é, assim, um “mergulhador na realidade”, não serve para convencer os alunos de nada, mas para dar sinais do que é esta virtude especificamente humana de amar a verdade. A presença do educador fornece um modelo a ser imitado, e assim aprende-se a amar a verdade, como um procedimento quase técnico. Esta possibilidade jamais vai ser aceita ou compreendida pelos amantes de livros, de títulos, etc., que são profissionais em confundir os meios com os fins. Teríamos que lhes dizer que aprender a aprender funciona muito melhor com um mestre vivo e presente do que através dos manuais, assim como se aprende muito mais a pescar assistindo um pescador do que lendo documentos a respeito. Mas isto só é viável em quem ainda preserva algum sentimento de confiança, em quem ainda não fez a viagem para o mundo da dúvida total e da paranóia. Do contrário, toda aproximação humana para esta transmissão legítima e técnica parecerá um plano para a manipulação, e para o domínio das opiniões.

Existe uma diferença essencial entre acreditar em alguém, e confiar em alguém. A confiança ultrapassa os limites de uma credulidade polida e o direito universal ao benefício da dúvida, e alcança um domínio totalmente novo. Aqui já não é o caso de confrontar dados, de inquirir com o espírito desconfiado, e de dar passos precavidos. É um entregar-se sem medo para ser conduzido a um lugar desconhecido por alguém em quem se confia, como uma criança se joga no colo dos pais. É o que temos que conceder aos poetas, e aos autores de ficção, para que eles possam nos levar pelo caminho deles, na percepção deles. Suspeito que uma mudança radical na nossa atitude de confiar nos outros, quando pulamos de literatura para filosofia ou teologia, pareça sinal de um amadurecimento e até do cumprimento de um requisito científico fundamental. A questão é que talvez não seja nada disso, talvez seja apenas medo camuflado com roupas sérias. Alguém pode até achar que esse medo pode ser vencido com grandes escrúpulos e tecnicalidades, mas eu ainda acho que o medo se vence com confiança. Porque estamos falando de amor à verdade, então como é que podemos querer amar e pedir provas ao mesmo tempo? Amar e desconfiar num só ato, desejar sem se entregar, não é este movimento vacilante incompatível com a promessa desta relação? Temer dar um passo adiante no saber, não é temer de algum modo a própria vida? Como se tudo pudesse ser no fim das contas uma conspiração e um golpe contra a nossa boa vontade? Como se fosse natural a expectativa de sermos enganados? Mas daí não é mais Deus quem governa o universo, teríamos que estar presos num plano infernal.

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