Sócrates, o Facebook e a felicidade

De vez em quanto leio alguém explicar o “drama” de não conseguir viver desconectado da internet, especialmente destas ferramentas de massa, redes sociais como Facebook e Twitter. São pessoas que viajam e sofrem de abstinência, quando não conseguem carregar seus gadgets, ou mesmo pessoas que no dia-a-dia sentem que tem alguma coisa errada com essa sua dependência de um modo de vida que, ninguém tem dúvida, não é essencial para a vida humana.

Nós sabemos disso, de que estas coisas não são essenciais, com absoluta certeza, no mínimo por duas razões: 1) há uma massa enorme, na verdade a maioria da população do planeta Terra, que não utiliza estas coisas ou sequer tem conhecimento da sua existência; 2) o ser humano tem alguns milhares de anos de experiência, na qual ninguém sentiu a menor falta de algo que nem existia ainda, e ninguém viveu menos por causa disso.

Se esta experiência tão moderna está tão longe de ser algo essencial, porque vicia tanto?

Bom, podemos abordar isso aí de muitas maneiras. Podemos falar de vícios, ou de manias, que é um aspecto da coisa. Eu, por exemplo, tenho a mania de ler, de consumir objetos de leitura, sites, livros, revistas, jornais… sou obcecado por leitura. Conheço gente obcecada em viajar, viciados em videogame, em brinquedos, em música, etc. Da mesma forma, seria normal então que algumas pessoas desenvolvessem alguma mania ligada a internet, redes sociais, etc. Esta seria a abordagem mais natural do assunto, para mim.

Acontece que esta experiência nova de fazer um site (de novo), com a perspectiva de que seja algo 100% virtual, conectado com Twitter, etc., me levou a me colocar esta questão não como uma dúvida cultural qualquer, mas como uma questão pessoal. E, quando falamos de questões pessoais, como vocês já devem saber, é hora de pegar mais pesado. Resolvi refletir um pouco mais.

Buscando pelos fundamentos de tudo isso, encontrei como sempre o desejo básico do ser humano, que é o de ser feliz. Gosto de usar duas explicações sobre a felicidade, que não chegam a ser definições perfeitas, mas são indicações valiosas no meio da bagunça em que vivemos hoje em dia, nos tempos da auto-ajuda.

Uma é a de Sócrates, de que a felicidade consiste numa vida refletida. O ser humano feliz é o que realiza a sua natureza específica (aí já estou aristotelizando, mas não faz mal), ou seja, a reflexão consciente sobre a sua própria vida, que é o que os animais não sabem fazer. A outra é a de Santo Agostinho, que vai dizer que a felicidade é querer tudo o que é devido, e ter tudo o que se quer. Não vou entrar na chave agostiniana, porque o que me parece pertencer mais ao assunto é a abordagem socrática.

Eu estou com Sócrates, porque com um pouco de experiência você vê que no fim das contas nós não vamos a lugar nenhum. A maior parte da espécie humana tem uma vida razoavelmente simples, que não requer grandes realizações. Hoje em dia as pessoas comemoram qualquer porcaria como se fosse algo muito importante, talvez porque tenham perdido a humildade de ver as coisas simples no seu tamanho real. Qualquer formatura de ensino médio é trombeteada como se fosse o evento do século, ocasião para fotos, música solene, etc., tudo isto é evidentemente uma palhaçada. Lembra os generais de Hitler, que ele ridiculariza na cena daquele filme: “anos e anos de treinamento na Academia para aprender a segurar um garfo e uma faca“. Realmente, analisando a nossa realidade cotidiana, há muito barulho por nada.

Quero dizer, com isso, que nós não devemos esperar uma vida espetacular digna de personagem de cinema, porque isso é para poucos. Mas, o que é para todos, e não é pouca coisa, é a capacidade de ter consciência, de refletir sobre cada experiência como sua, e compreendê-la. Nenhum bicho tem isso, só o ser humano. E é algo formidável, porque daí você vai entender que embora você não seja um superstar neste mundo, você foi criado com uma certa estatura superior e inviolável, cujo núcleo é encontrado nesta atividade consciente. Perdendo-se de vida a fama, pode-se ganhar algo muito maior e mais nobre: a santidade. Porque a santificação está necessariamente disponível para todo ser humano, que é a capacidade de se voltar à origem de tudo e de si mesmo, e buscar pelos fundamentos e pelo sentido da coisa. Ora, quem vive nesta sintonia, vive no mundo real. Viver irrefletidamente, inconscientemente, equivale a viver como um animal, mesmo que seja um animal muito popular e prestigiado.

A felicidade humana está nesta atividade do indivíduo que se dá conta de si mesmo, e descobre como que um universo inteiro dentro de si, e se sente bem com isso. Saber, conscientemente, que se existe, que se tem vontade própria, é algo maravilhoso, é despertar para a realidade do potencial humano em si mesmo, não numa idolatria fanática por ídolos do mundo. Não. É assim: eu sou muito mais do que qualquer ídolo, porque Deus me ama, e eu já estou sabendo deste negócio.

Acontece que a ocupação principal das forças infernais consiste em corromper tudo o que presta, como sempre. Então, como funciona esta internet? Eu acredito que, de algum modo, o que ocorre é o fornecimento de uma experiência que macaqueia e imita de forma muito tosca a experiência da vida refletida, através dos recursos disponíveis de auto-referência. Isto já existe faz vários anos, e começou com os blogs.

Cada autor de blog é um filósofo em potencial, se souber usar a ferramenta para o conhecimento legítimo. É claro que 99,9% das pessoas não conhecem a técnica filosófica, então fica uma coisa entediante, da pessoa contar e recontar a sua vida sem conseguir aprofundar um milímetro, como um bovino a regurgitar no pasto: a grama é sempre a mesma. Eu tive dois blogs no começo dos anos 2000, onde eu tentava escapar desta superficialidade. Cada coisa que eu escrevia já era, embora eu não soubesse ainda, um ensaio de especulação filosófica. Porque eu escrevia tudo com o coração na mão, falava de assuntos terrivelmente importantes para mim, mas não falava poeticamente: tentava saber o que era a verdade mesmo.

Mas daí passou um tempo e os blogs seguiram a tendência da organização moderna do conhecimento, uma orientação acadêmica, positivista e cartesiana: a da especialização. Quando a experiência na internet seguiu a forma cientificista moderna da separação e compartimentação, daí estava tudo condenado. Veja a internet de hoje: a maioria absoluta dos blogs que não sejam diários de menininhas de 15 anos ou meras sessões de regurgitamento de experiências banais, são sites especializados em alguma coisa. Uma especialização é uma grande capacidade de falar de algo através do esquecimento do resto. A via socrática da felicidade fica, assim, bloqueada.

Com o advento destas ferramentas mais modernais ainda, como Facebook, Twitter, etc., criou-se um sistema industrializado da auto-referência estúpida. Hoje, mais do que nunca antes na história, as pessoas têm os meios de falar muito sobre nada. Estas ferramentas são muito alinhadas com o funcionamento do marketing de massa moderno. Assim, o mais novo produto a ser consumido nesta orgia virtual é a própria vida. As pessoas vêem  a si mesmas como produtos, produtos que consome outros produtos. Tal como se fosse uma celebridade (e a idéia é disseminar exatamente este sentimento), o sujeito vai lá e diz no Twitter, sei lá, que comeu um miojo, como se aquilo fosse uma coisa fantástica. E as pessoas começam a acreditar nisso. Este é a corrupção e total decadência da vida feliz socrática, porque é a substituição da verdade pela propaganda, que não é nada menos do que a velha doxa, opinião.

Tenho três consolações a oferecer para este problema:

a) A quantidade de pessoas infectadas por esta babaquice ainda é relativamente pequena dentro da população mundial. E nós temos ainda várias gerações nascidas e formadas antes deste “apocalipse teletubbie“. A coisa deve ficar mais feia no último quarto deste século, quando a última geração anterior à essa meleca vai morrer, e só Deus sabe o que será dai em diante. Mas como eu já não vou estar mais aqui, daí é problema de vocês;

b) O mundo real continua sendo inalcançavelmente mais importante, bruto e maciço do que qualquer mundo virtual que se sonhe fazer um dia. Sempre é possível a besta quadrada levar porradas reais (problemas profissionais, sociais, financeiros, de saúde, etc.) para acordar para a vida de verdade. Em suma: a mentira não vence a verdade, não importa o que aconteça, não importa o quanto ela impressione durante uns tempos. A verdade vem cedo ou tarde se mostrar e fazer seus estragos;

c) Como qualquer ferramenta, a internet também pode ser usada de maneira mais inteligente e benéfica, que é exatamente o que eu estou tentando fazer agora. Sobretudo isso, as boas iniciativas, devem ser vistas como a saída definitiva para o problema, porque se trata de voltar aos trilhos, de voltar à busca verdadeira e sincera da verdade, que é nada menos do que aquela busca da felicidade que Sócrates falava. Se as pessoas puderem aprender a trocar a ampla audiência tola do mundo pela minúscula audiência qualificada de si mesmas, daí começarão a ver as vantagens.

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