Breve síntese dos doze temas de Filosofia

Hoje quero dar uma aula retomando o quadro geral dos nossos doze temas de filosofia.

Sempre podemos tentar sintetizar as coisas que venho explicando, e tentar com isso pegar a coisa toda da forma mais harmônica possível, pois de fato a proposta é essa. Eu detesto especializações. Porque eu busco a sabedoria mesmo, ou seja, aquilo que nos instala na realidade total das nossas vidas. Quero isso desde criança. E não é possível se operar isto fazendo recortes.

É por isto que não posso ensinar na Academia. É algo tão simples, não é? Sim, qualquer um entende, ou deveria entender. Não adianta se tornar senhor-doutor-professor-diretor na Universidade, ganhar segurança social, financeira, emocional, etc., e perder com isso a abertura para a verdade, que é esta espécie de atração pela harmonia universal. Na Universidade se prossegue como que em um açougue, retalhando o mundo em postas, para poder digeri-las melhor. É o inverso da filosofia verdadeira. A filosofia de verdade exige que as pessoas fiquem mais inteligentes, mais capazes de captar sutilezas e simultaneidades, padrões e arranjos harmônicos. A ciência acadêmica prefere independer do espírito humano, e facilitar a digestão, moendo os dados em pedacinhos, para que as crianças possam tratar. E supõe-se que com isso se ganha mais sabedoria, mas não, com isso ganha-se apenas mais conhecimento, e do tipo mais inócuo e inumano possível, quase maquinal.

Mas não adianta eu me afastar deste modelo moribundo, apenas para criar o meu próprio erro. Desenvolvi doze temas que são sim distintos, mas não são separados, e o melhor entendimento, o mais perfeito possível, de cada um deles depende da compreensão da sua simultaneidade com os demais. Daí minha intenção de fazer um dia os comentários de cruzamento dos temas entre si. Outra hipótese já aventada foi a de transformar os conteúdos teoréticos de cada tema em símbolos seminais a serem plantados e desenvolvidos na forma dum universo fictício, que poderia fazer prosperar histórias fantásticas que atrairiam mais a atenção do público, pela sua imaginação. Digo isto contando com a realidade de que a maioria das pessoas não suporta longas explicações sobre o que quer que seja, que passem de um certo nível de complexidade e abstração.

Por ora quero retomar os temas rapidamente, e sinteticamente, e explicar o que cada um deles requer do indivíduo, como atitude própria consequente do seu mais completo entendimento compreensivo.

1. O primeiro tema, da Temporalidade, invoca as qualidades de Prontidão e Tempestividade. Seria, em termos bastante básicos, uma aceitação da encarnação: você está neste mundo, que é uma dimensão temporal, de mistura. Você tem que aceitar isso. Todos os problemas podem começar de uma reação simplesmente negativa ou deslocada, com relação à realidade simples da mutabilidade temporal. Tudo neste mundo é mais complexo do que deveria ser. A unidade é percebida na multiplicidade, é misturada, mas não confundida. O homem é aquele que poderia se fazer de tonto, se não soubesse, no fundo, que não o é. Se tudo fosse puro fluxo e caos, iriam pelos ares as nossas culpas e pesos, e viveríamos como bichos. Mas nós não queremos, no fundo, a animalidade, porque nós fomos feitos para algo a mais. Sabemos disso porque percebemos alguma permanência dentro do fluxo, no mínimo a permanência do próprio Eu (é a observação válida da filosofia cartesiana, não confessada desta forma, mas embutida como premissa oculta). Então, por mais que queiramos ser absolutamente inocentes como bichinhos, existe o peso de conhecer a verdade no meio da confusão. E, pior ainda, há o peso do funil do presente, isto é, da decisão sobre os diversos possíveis e compossíveis. Então não há apenas uma pressão formidável sobre a consciência, mas também sobre a vontade. Não basta você ter que buscar o que é verdadeiro (porque, no fundo, você sabe que pode e deve), você também tem que fazer o que é o melhor. Isto tudo estaria muito bem, se não fosse a incomodidade do fluxo, da inconstância, da impermanência. Viver neste mundo é como querer ouvir uma bela música de fundo, no meio de uma enorme cacofonia, de uma mistura de show de rock com escola de samba. Nós até queremos ouvir aquela melodia, mas somos atormentados pelos acontecimentos do dia. Este é o mundo da mistura: unidade na multiplicidade, permanência no impermanente, o bem e o mal. É preciso ter coragem para aguentar viver neste mundo, de forma aberta, sem confiar em nenhuma idolatria qualquer que tente explicar (geralmente de forma muito tosca, no fim das contas) o que é este mundo confuso. Esta coragem é o que está insinuado nas qualidades de prontidão e tempestividade, porque é de fato uma qualidade guerreira, de estar à postos, em guarda, ciente de que se vive em guerra, e não em paz. Sem isto, não entendo que seja possível sequer começar a falar em sabedoria humana, pois que os caracteres passageiros da vida vão arrastar a pessoa como uma onda, e levá-la a algum abismo oceânico de ignorância;

2. O segundo tema, da Realidade, invoca a qualidade da Aderência, que é muito próxima do que se disse do primeiro tema. A atitude requerida é a de adesão incondicional à realidade tal como ela se apresenta, nos seus fatos concretos. Digo isto porque todo mundo sabe como é fácil achar o mundo bom, e a vida boa, quando tudo vai bem. Mas basta que aconteça algo que perturbe os humores, e o mundo se torna um lugar hostil, e a vida um tormento. Ora, é preciso haver alguma objetividade aí, para que não se seja escravo das paixões. Esta objetividade resulta de uma passividade com relação à natureza física, ou seja, uma verdadeira delimitação dos nossos juízos de “bem e mal” ao que lhes são os objetos devidos, ou seja, as ações humanas, principalmente as nossas próprias. Então, se um terremoto violento sacode a terra e mata umas centenas de milhares de pessoas, e deixa tantos outros milhões vivendo em condições muito difíceis, é preciso que se aceite estes fatos, cuja dimensão supera de muito longe a nossa capacidade de julgamento. O maior desafio para a aderência é, obviamente, aceitar a realidade quando ela não lhe convém, quando ela parece querer te ferir. Mas é preciso aceitar, de qualquer maneira. Desenvolve-se, assim, ao longo do tempo e lentamente, um amor sincero e total à realidade criada, a que está sob uma tutela superior ao homem. O indivíduo dócil que aceita o sol e a tempestade, o dia e a noite, o calor e o frio, este começa a se relacionar com o fundamento de tudo, porque sua mente não está contestando o que é incontestável, ou seja, não exerce nenhuma força de bloqueio. A aderência, que é uma passividade, busca aliviar a mente, desobrigá-la de exercícios inúteis e funestos de julgamento de fatos, para que suas energias sejam depositadas nas vias mais lucrativas e devidas ao espírito humano. Não se luta contra os fatos, mas faz-se deles aliados nossos, cenário da vida, enredo divino;

3. O terceiro tema, da Inteligência, requer da nossa parte Atenção e Receptividade. Percebemos claramente que há uma continuidade bem visível aí, entre os primeiros dois temas, e este terceiro. O que ocorre, agora, é que nós precisamos passar a uma fase seguinte no grande processo de aceitação. Não é isso? Os três primeiros temas exigem da nossa parte a aceitação do mundo e da vida. Primeiramente, na forma de um fundamento, de um princípio básico, que é o de que este mundo é do jeito que ele é, e que não há o que se fazer com isto. Esta primeira disposição te instala no tempo, dentro do fluxo, com o peso de saber que apesar de estar dentro dele, você tem que buscar o que está fora e acima, o ideal do verdadeiro e do bem. Em segundo lugar, a aceitação passa a um nível mais material, o nível físico mais básico. A dimensão dos fatos é inalienável, insofismável, e requer da nossa parte uma aceitação bruta total, uma adesão plena. Contra fatos não há argumentos. Se você começar a brigar com a realidade, ela ganha todos os rounds, e você sai muito torto, muito desequilibrado. Mas agora, em terceiro lugar, nós temos uma tarefa que já é mais ativa da nossa parte, que já requer que você faça efetivamente alguma coisa com o mundo que está aí. Você deve ser capaz de concentrar sua energia para melhorar a percepção, pois que isto se liga proporcionalmente ao caráter inteligível da realidade, o seu aspecto de permanência. Se você viver desligadamente, inconscientemente, você “perde o bonde”, digamos assim. A última etapa da aceitação já é a de uma escolha, ou seja, a de querer uma vida consciente, de saber o que está se passando. Nas duas etapas anteriores você só tinha que aceitar o seu aspecto animal, por assim dizer. Agora você pode efetivamente adestrá-lo, doutriná-lo, e você faz isso tornando-se “discípulo da realidade”, um “leitor do mundo”, um aprendiz da verdade. Para isto é preciso prestar atenção, e isto também é uma receptividade ao seu modo, porque implica em você gerar pouco barulho para si mesmo. A premissa é de que o mundo não só tem a força dos fatos concretos, mas tem a inteligência do logos que o construiu. Se você se enche de discursos, de crenças e de idéias estabelecidas, você impede a descoberta de novidades que a realidade lhe pode trazer, e lhe quer trazer, via experiência. O silêncio é o símbolo máximo desta tarefa, a capacidade de receber inteligência de fora, para construir silenciosamente a sua. Na verdade, a sua inteligência é como um espelho: ela será tanto mais brilhante quanto mais fortemente replicar a luz que vem de fora. O homem está para o logos como a Lua está para o Sol: seu brilho mais intenso reflete uma luz que não é sua, e portanto a sua virtude é deixar brilhar em si esta luz. Isto só é possível, para começo de conversa, aceitando que a sabedoria não é um produto da cabeça humana, que nós não temos inteligência nenhuma, mas que a realidade é que nos ensina a ser lida, que ela mesma carrega suas formas, seu eidos;

4. O quarto tema, da Morte, requer da nossa parte, ou conduz, o Desprendimento. Esta atitude é muito simples. É uma espécie de lembrança, depois de tão adequada e completa instalação na realidade deste mundo, como vimos nos três temas precedentes, de que esta experiência toda é passageira. Tudo o que você conhece pela experiência contingente desaparecerá deste mundo, seja antes ou depois de você mesmo passar, sejam objetos simples da natureza, sejam pessoas, o que quer que seja. E você não pode se esquecer nunca disto, caso contrário, estará vivendo numa ilusão, estará preso numa fantasia. É preciso estar desprendido de tudo, não no sentido de ser indiferente às coisas, mas no sentido de ser capaz de ver o arco, a curva temporal de evolução das coisas, e então poder se relacionar adequadamente a cada situação. Importam mais as idéias e os valores que você carregará até o último suspiro, do que as modas do dia, as fofocas, etc. Sobretudo, esta tarefa enobrece o homem, torna-o maduro, “ereto perante a vida”, por assim dizer. Não que seja preciso, em face da realidade da destruição do mundo inteiro e de si mesmo, ser insensível, ou mesmo perder a sadia jovialidade. A questão é apenas ser livre. Este é o sentido de aceitar a morte, ser livre desta própria vida neste mundo, porque ela não te contém. A morte não é limitação, mas passagem. Se vivemos já sabendo do passamento das coisas e de nós mesmos, é preciso pesar as coisas de acordo com esta balança, deste juízo. Se há mesmo algo de positivo com o desejo da morte, este algo é o desprendimento. É uma capacidade vivida com felicidade, por exemplo, quando falamos da “morte do homem velho”, uma figura tão importante da religião, e a única metempsicose realmente válida. Para que o novo surja é preciso que o velho pereça, então o desejo do melhor requer o desprendimento do estabelecido. Nenhuma conservação absoluta é pertinente, pois que a entropia é uma lei de perfeição, uma defesa contra a corrupção, em nome do melhor, que requer nascer. O desprendimento é, ao seu modo, uma arma fortíssima contra a idolatria, pois que não aceita o rebaixamento da alma diante de nenhum contingente, por mais conveniente que seja, em memória do melhor sempre possível.;

5. O quinto tema, da Liberdade, invoca por sua vez as atitudes de Presença e Robustez. Uma única alma humana é, afinal, de certo modo, maior que o universo inteiro das contingências e acidentes, pois permanece, mantém-se, enquanto tudo passa e se transforma. Esta tarefa deve, no entanto, ser feita com cuidado, pois é a parente próxima do orgulho, que é o mais terrível erro. Ser presente e robusto, o que é isso, então, senão é o ensoberbar-se? Ora, esta atitude consiste em garantir a autoria legítima das próprias ações, assumindo-as. Sobretudo das ações internas, secretas, as disposições espirituais. O homem responsável ocupa o espaço máximo legítimo dentro da sua própria vida, como autor da sua vida, de vontade soberana. Então não se trata se se elevar acima da sua própria posição, não é isso. É um reconhecimento do peso real que a vontade já tem, da sua autonomia. Meus desejos, meus impulsos, minhas idéias, tudo isto é parte do meu quintal, e eu cultivo aí o que eu quiser. Não posso responsabilizar nenhum outro, pois se outro tem poder sobre mim, este poder foi outorgado por minha permissão Ser presente é ser o dono deste pedaço, é negar a alienação deste poder, é assumi-lo. É responder conscientemente pelos erros, e buscar dobrar com a vontade a mente e o corpo, para que obedeçam a autoridade espiritual máxima. A mente se coloca vítima dos jogos de linguagem do mundo, da mentira, da construção lógica sedutora e sem lastro real. E o corpo se coloca vítima das suas paixões animais. Esta máquina de corpo e mente é, portanto, altamente seduzível por forças externas, sejam as mais baixas e animalescas, sejam as mais refinadas e elegantes. Como defender-se das pressões externas quanto a direção da própria vida, especialmente quando estas mostram-se, pelos seus frutos, perniciosas? É preciso ser presente e robusto, justamente. A alma diz, por fim: “eu é que decido, e a mente e o corpo obedecem em sincronia”. Esta é autoridade a ser defendida, sob pena de se dissolver a autonomia da vontade dentro do caldo irresistível do mundo, o assalto das mais encantadoras paixões e idéias;

6. O sexto tema, da Eternidade, requer o aprofundamento no presente, mediante um Atemporalismo. Isto pode parecer muito semelhante ao nosso quarto tema, e de fato é, mas é preciso entender a subida em um degrau a mais neste ponto. No quarto tema, falávamos do desprendimento em virtude da idolatria do temporal, uma atitude que é portanto mais negativa, de negação do que não é permanente e, portanto, que não pode servir para o regulamento da vida. O atemporalismo é uma atitude positiva, espiritual e intelectualmente, de buscar fixar-se positivamente no que é permanente. De forma prática, costumo tratar esta prática como a capacidade de tratar adequadamente das idéias, do eidos, fazendo consequentemente assim a supressão da contingência. Ou seja, você busca a verdade nos seus estudos e meditações, e esta busca eleva-se acima das demais providências vitais, tipicamente de manutenção da vida. É forçoso admitir, então, por estranho que pareça isso, que mesmo os eventos biográficos mais importantes da vida humana típica, como um nascimento, um falecimento, casamento, etc., tudo isto é relativamente inferior, no plano ideal, daquilo que é verdadeiramente permanente. Se se diz, por exemplo, um princípio básico eterno e imutável, como  o que afirma que uma coisa e o seu contrário são necessariamente diferentes e que não se confundem, é preciso ver em um simples enunciado assim uma força que supera todas as emoções conexas com as vicissitudes humanas, e neste reconhecimento consiste o atemporalismo científico, no bom sentido da palavra “científico”. É o assombramento e maravilhamento da alma diante da eternidade, das idéias e princípios eternos, que não permite o entorpecimento pelos eventos, por mais impressionantes que estes sejam. Não sei se isto está claro o suficiente. Este talvez seja o dispositivo mais difícil dos doze. De forma verdadeiramente prática, a atitude a que me refiro é a de uma abertura como que para uma ponte que liga o presente ao eterno constantemente. Não é possível que existem dois mundos desconectados, o da imanência e o da transcendência. O maior abarca totalmente o menor, e o alimenta continuamente. O temporal depende do atemporal em tudo e cada coisa. Se se presta mais atenção ao que está embaixo, isto é, ao que é temporalmente contingente, vive-se o influxo do eterno como se fosse mais um acidente, quando claramente não o é. O atemporalismo é a direção do espírito para cima no momento presente. Se se pudesse condensar esta atitude numa imagem, teríamos que falar de um deslumbramento diante da magia do influxo do eterno no temporal, então seria a imagem de um contemplativo, de um Tales mirando o céu. Ou então, numa imagem bem plástica, seria a de uma testemunha de um milagre;

7. O sétimo tema, da Ordem, leva-nos a atitude de Confiança. Não se enxerga a harmonia de tudo quanto existe, e muito menos de tudo quanto poderia existir, devido a sadia limitação que nos coloca no nosso lugar de seres finitos, contidos na nossa própria vida. Mas, uma coisa é não ver a harmonia, e outra coisa bem diferente é não tê-la como subentendida. Aqui se poderia objetar que alguma vida é lá possível sem se tomar posição de crença quanto a harmonia universal. Respondo que isto não é, no entanto, possível de maneira alguma. Nós temos a expectativa do todo, que não é uma visão, mas é uma previsão. Algo há, fora da minha experiência e do meu conhecimento, e este algo não tem fim. Todo mundo conta com isso, apesar de que poucos, geralmente apenas os treinados em filosofia ou os religiosamente ativos, tenham esta posição conscientemente. Independente do nível de consciência envolvido, o fato é que este dispositivo de relação com o todo se conforma com alguma atitude de tipo muito básico, entre a confiança e a desconfiança. Não tem jeito, tertium non datur. Se você espremer as pessoas, elas revelarão por fim no que acreditam, e mesmo que não revelem, pode-se ter por certo que há no fundo uma destas disposições básicas. A atitude que se recomenda pelo sétimo tema é simples, é a de vergar a alma para que adote a postura confiante na ordem total. E isto é mais fácil de fazer do que parece, porque não se trata de adotar uma doutrina filosófica ou religiosa, mas simplesmente de lidar com o fato bruto da vida num universo ilimitado que nos cerca, e a tendência natural do ser humano, a sua felicidade natural, consiste em acreditar na ordem suprema. Todo mundo quer fazer isso, mesmo quem grite a plenos pulmões que não há ordem alguma, que tudo é um caos sem sentido, etc. Repare que ninguém fala do caos total de forma feliz, como se fosse uma bela novidade. Todos que o fazem parecem estar reclamando de alguma coisa, protestando, porque é evidente que no fundo eles desejam a ordem, ainda querem acreditar nela. A sétima atitude é a de entrega à essa confiança, é a da confissão de que se deseja intensamente esta harmonia, invisível e incontrolável. Ou seja, a confiança é simples e fácil de se obter, porque na verdade todo mundo já a tem profundamente. Basta apenas tomar ciência dela corajosamente, contra todos os indícios contrários que abundam no mundo da mistura. Por isto pode-se dizer que, por ser uma tarefa da consciência humana, esta confiança não é uma disciplina religiosa, no fim das contas. Trata-se, apenas, da arte de ser honesto consigo mesmo. É a criança que, na loja de brinquedos, sem saber se ganhará ou não do pai o presente, pede-o mesmo assim, ignorante, poque confia;

8. O oitavo tema é o do Infinito, que é correspondido pela atitude do Espanto. Não há nenhuma conotação negativa no termo. Ele significa o procedimento se de maravilhar com a infinitude, que é algo conceptualmente concebível e ao mesmo tempo inimaginável, necessário e de domínio impossível sob quaisquer aspectos. Trata-se, aqui, de uma disposição sincera quanto à força do Ser, ou seja, um deslumbramento diante de um poder absoluto. Tudo o que existe, existe por participação no Ser, o que implica que o reconhecimento de qualquer coisa, inclusive de si mesmo, é o reconhecimento do próprio Ser. Psicologicamente, esta atitude se desdobra numa relatividade sadia, isto é, a de tomar toda e cada coisa como relativa a um Absoluto que não é relativo a nada. Há alguma alegria verdadeira em ver a pequenez de tudo, pois isso é o que nos afasta da nossa própria pequenez e mesquinharia. Seria a redução voluntária do sujeito à sua própria insignificância, e a rendição a um poder imensurável, total, perfeito sob todos os aspectos. Ainda é a capacidade de se ligar conscientemente e sem defesas a este sentimento tão básico, que na verdade antecede todos os outros, pois é pressuposto de tudo. O Ser, o Infinito, o Absoluto, é aquilo do qual pouco falamos mas sempre contamos, pois sabemos de algum modo estarmos nele desde sempre. A atitude do espanto deve ser vivida cuidadosamente, ou melhor, humildemente, pois tal contemplação é sumamente destruidora de egos e de cristas. Sem uma disposição correta, cai-se no terror cósmico, numa experiência bárbara da realidade. Tal experiência não é de todo injusta, mas contém em si seus riscos conforme a condução do espírito diante da experiência. Por isto recomenda-se a aquisição da sabedoria humana universal que, no fim das contas e nos seus melhores modelos, lida trabalhosamente com esta experiência básica;

9. O nono tema é o do Destino, que requer a correspondente atitude de Abertura. O destino é aquilo que dá razão de ser às coisas, é o seu telos. Como tudo o que existe possui telos necessariamente, conforme o que vimos no tema sete, é preciso que cada coisa faça sentido ao seu modo dentro da ordem total. Na verdade, a concentração no destino individual está tratada mais propriamente no tema onze, então aqui fala-se mais de absorver a idéia de que o ambiente, as circunstâncias, são movidas por uma ordem interna inescrutável. Usamos antes o termo convergência das séries acidentais, que certamente não fui eu que inventei, mas é o termo que me parece reunir mais perfeitamente os elementos necessários para o conceito de destino. A liberdade humana, representada no tema cinco, é cercada e absorvida de alguma maneira dentro da liberdade total, do Ser, representada neste tema nove, que aparece para o ponto de vista do indivíduo como determinação externa. A ordem absoluta requer que as coisas sejam assim. Ora, se somos cercados de ordem e harmonia, é preciso que tudo signifique alguma coisa para um ponto de vista transcendente, que nos absorve junto com o seu sentido superior. A disposição da abertura consiste em aceitar o sentido das coisas, ou seja, não somente o seu fato simples, como já vimos em temas anteriores, mas o seu sentido próprio e particular aos movimentos da vida. Se se deseja entender melhor isto, é possível ver a abertura como um desejo de enredo, a vontade de participar de uma história da qual somos personagens com alguma autonomia, nas mãos de um Narrador supremo. Abrir-se, nesta linha, quer dizer buscar sentido nas coisas, prestar atenção aos movimentos dos arredores, especialmente em ocasiões de “coincidências”, déjà vu, etc., ou seja, em certos momentos em que as coisas parecem fazer sentido porque o script de alguma forma nos foi parcial e temporariamente revelado. Pode-se, assim, chamar a abertura também de expectativa de revelação, de espera. Mas esta atitude não é ansiosa e medrosa, pelo contrário, é perfeitamente crente de que as coisas estão por se encaixar, na verdade, já estão encaixadas, e só nos falta tomar a ciência. A abertura ao destino é uma espécie de “sede de spoiler” da vida e do mundo, se é permitido falar nestes termos;

10. O décimo tema é o da Hierarquia, que exige do ser humano a atitude de Fidelidade. O que vem antes, vem antes, o que vem depois, vem depois. Ser fiel é obedecer a este esquema, aceitá-lo, e admirar a sua perfeição própria. Costumo dizer que os três temas finais são os temas de amor, no sentido de que aqui o indivíduo já percorreu o mundo desde a experiência mais simples e brutal até a mais sofisticada e sutil, e então lhe cabe saber o que fazer no fim com tudo isso, como dirigir particularmente a minha vida. As atitudes finais são, então, condensados éticos de todo o conhecimento reunido, de forma que não seja preciso manter a consciência focada em todos os temas ao mesmo tempo, para agir da forma mais correta. Se há uma forma mais simples, é a forma das três atitudes finais, correspondentes dos três temas finais. O bom estudioso que tenha absorvido de forma competente e profunda o sentido dos nove temas anteriores pode, agora, tomá-los como premissas para a estrutura final. E isto começa pela fidelidade. Ser fiel, neste sentido, é dirigir o amor maior, o amor que se é mais capaz, à origem de tudo, ao fundamento de tudo, e mais especialmente à fonte de tudo o que é bom. Não é difícil proceder assim, especialmente depois que se passou pelos três temas anteriores, que já é uma direção otimista à transcendência, com confiança, espanto e abertura. Depois de tal jornada, “voltando-se para casa”, para o mundo concreto da mistura, a primeira coisa a se fazer é dirigir-se ao fundamento de tudo e amar este Bem, pois que todas as coisas boas dele dependem necessariamente, e nada pode ser devidamente amado mais que este próprio Bem supremo. Ser fiel é, assim, jamais esquecer da origem e do fim de tudo, do que é alfa e ômega, e ter uma relação com este fundamento tal como se relaciona com uma pessoa. Por que isso? É simples. Pois se chamamos a nós mesmos, imagens participativas e imperfeitas do Poder, da Inteligência e da Vontade supremas do Ser supremo, de pessoas, então quanto mais este termo não deve ser aplicado ao fundamento de tudo, não é? Este é o primeiro amor de todos. E, na verdade, de novo temos aqui apenas um processo de consciência novamente. Pois todo e qualquer ser já ama o Bem fundamental acima de todas as coisas, necessariamente, pois não é possível gostar mais do derivado do que do derivante, mais do menor do que do maior. A questão é, novamente, apenas tomar ciência reflexiva deste fato. Por isto, novamente, não é uma questão religiosa, mas sim filosófica. Esta fidelidade garante que o espírito se orienta corretamente, do superior ao inferior, em toda e qualquer parte;

11. O décimo primeiro tema é o da Individuação, que corresponde ao fácil dispositivo da Individualidade. Digo fácil, pois se temos no tema sete a ordem harmônica de tudo, e no tema nove o destino teleológico de todas as coisas particularmente, não seria então possível haver uma alma humana sequer que não tivesse o seu próprio telos. A individualidade como atitude é, em termos simples, o amor a si mesmo, o querer bem de si mesmo, para que o melhor de si mesmo floresça. Observa-se que na boca do funil temporal (tema I) a vontade que escolhe atualizar isto ou aquilo o faz conforme uma escala de valor. Se cada ser que decide estas atualizações a todo momento possui a sua finalidade particular, então é preciso que cada decisão possa ser mais individualizada, ou seja, que possa corresponder mais ao ser próprio do indivíduo agente. Qualquer um pode fabricar pães, por exemplo, mas uns o fazem de maneira mais perfeita, e isto deve lá ter algo a ver com a sua finalidade de ser particular. Do mesmo modo, qualquer um minimamente capacitado ou bem dotado pode produzir música, mas sabemos que só Beethoven pode compor a sua 9ª Sinfonia. O amor de si mesmo, nesta individualidade, não se trata de dar-se tratamento especial, regalias indiferenciadas, luxos, etc., absolutamente. Trata-se de buscar fazer o que lhe é próprio, de individualizar-se através da melhor ação no mundo, não qualquer uma que possa ser indiferentemente substituída, mas ação insubstituível, que faz a diferença em função da individualidade. É esta ação, ou ao menos a sua busca, que se chama aqui de individualidade, e que consiste mais adequadamente à idéia de amor de si mesmo, pois é o amor de um Eu que não é tão determinado de fora, mas que consegue imprimir justamente a sua própria determinação na ação, porque é para isto que foi feito;

12. Finalmente, o décimo segundo tema, que é o da Perfeição, dirige a alma para a atitude final de Melhoramento. Este é o último amor, que funciona como retorno final ao Ser fundamental. Senão vejamos: é preciso amar o fundamento de todas as coisas, pois é o Bem supremo unicamente amável e adorável, mas é preciso reconhecer que este Bem, por sua própria perfeição, não carece necessariamente de absolutamente nada. E um amor que não possa ser realizado frustra-se. Para que a alma humana não se frustrasse, não podendo amar realmente o seu fundamento tanto quanto quer, é preciso então proceder ao amor de si mesmo, espelho do amor do próprio Ser fundamental pela alma que aceita e reconhece este amor. Mas este processo ainda não se completa, pois amar a si mesmo não traz a maior vantagem de todas, que é amar outro, beneficiar quem dependa da minha ação sem dominá-la, que é o caso do amor próprio. É preciso um amor final, que vai ser o das almas entre si. Umas com as outras, as almas amantes fazem o bem mutuamente por desejo de agradar ao Ser supremamente amável, mas que não carece de nenhum bem fora de Si mesmo. A carência, incompatível com o Ser Absoluto, é então “terceirizada” a quem comporta carência, ou seja, outros seres habitantes da mesma contingência temporal, especialmente outras almas humanas. O amor próprio foi modelo do que é desejar o bem realmente, contingencialmente, e este agora pode ser reproduzido ilimitadamente para com outros seres contingenciais. Mais ainda, é o ser já individualizado, mais ciente, portanto, das sua melhores e maiores capacidades, o mais apto a amar, mais habilitado a fazer o bem. Mas se este é o amor final, porque se diz que a qualidade é a de melhoramento? Pela simples razão de que ainda estamos neste mundo. O último tema, da perfeição, se religa ao primeiro, da temporalidade. É preciso buscar a perfeição, fazer o melhor, mas este deve ser um melhor possível, por estarmos dentro da contingência. O desejo de perfeição não pode ser satisfeito, portanto, de forma definitiva. Ele é realizado mediante o melhoramento, pela busca do melhor a cada circunstância, para o melhor benefício dos demais. Daí que ações simples, como o perdão sincero, podem repercutir muito mais positivamente de acordo com a ordem natural das coisas, do que o bem indireto, do tipo social e institucionalizado. É sinal de melhoramento verdadeiro uma atitude que custa algum esforço ou coragem de algum tipo, do indivíduo, e que beneficie outros indivíduos diretamente.

Infelizmente não tenho mais tempo, agora, de explorar estes meus doze temas, que já venho burilando desde o ano de 2009. Mas acredito que este exercício foi bom o suficiente para desenterrar as idéias, retirá-las dos sarcófagos empoeirados em que estavam. Minha tristeza é não poder explorá-los como deveria, ou seja, com o ensino direto de alunos inquisidores, e bem dispostos, de boa fé. Mas quanto a isto, já expliquei, e não discuto com os fatos.

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