É preciso saber viver? Não me diga…

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Algumas conversas recentes quase me despertaram certos impulsos homicidas, um sentimento parecido com o que tenho quando ouço aquela música estúpida chamada “É preciso saber viver“.

Não é preciso ser muito mais esperto que qualquer quadrúpede para entender em dez segundos que todo e qualquer argumento que faça propaganda do bem enquanto tal é tão redundante e desnecessário quanto o é dizer que uma bola azul é uma bola azul. Tenho vontade de voar e estraçalhar o pescocinho (Marte na I) de quem alardeia as coisas boas da vida como se estivesse contando vantagem, e que dá por óbvio as causas do bem, como se estas estivessem explícitas nas situações.

O bem é a coisa mais evidente do universo. Já a sua causa eficiente é de complexissimo domínio.

Toda reclamação, todo sofrimento, todo tédio, mas também toda alegria, toda satisfação, absolutamente tudo, tudo sempre se refere ao bem em última análise, seja pela sua presença ou pela sua privação. O fundamento de tudo é o bem, porque ele é que dá o valor relativo de cada coisa, sendo ele mesmo não relativo a nada, mas absoluto na sua própria perfeição, necessária por definição. Logo, se qualquer jumento me diz que “é preciso saber viver”, ou insinue qualquer coisa parecida, ele está me dizendo a coisa mais evidente do mundo. Não é uma novidade que o bem é o bem, que o certo é o certo, e que o melhor é o melhor.

Agora, o que espanta não é tanto que se diz o óbvio (porque em filosofia é comum se dizer o óbvio, e muitas vezes é mesmo preciso), mas a atitude de dizê-lo com ares de superioridade, fingindo um domínio que não existe. Ou seja, é o gabar-se do bem, como se fosse uma espécie de esfera de domínio público, conquistável, administrável. Se a minha vida está caminhando maravilhosamente bem, minha primeira obrigação é agradecer a Deus e saber que eu não presto, que eu não mereço nada disso! É o contrário do que os apóstolos do “bem viver” fazem! Eles se orgulham de uma espécie de domínio do bem, da posse das “regras do jogo”. E ousam insinuar, para cima das mais altas teologias e filosofias produzidas pelos mais puros espíritos humanos, que conhecem o caminho do bem. Como uma pessoa pode não se enxergar numa situação dessas? Como pode se arrogar tanta superioridade, estando numa posição tão frágil?

A inconsciência presente ao redor me deprime como uma doença, como uma pestilência invencível, asquerosa e inevitável, onipresente. O pior não é a confusão do perdido, do sofrido, do que passa atribulações, porque deste esperamos que esteja mais perturbado de algum modo, nós compreendemos isso. O pior é o desequilíbrio dos abundantemente abençoados, que fazem pouco caso das causas profundas das coisas, e usam as graças da sua vida como medalhas para ostentar alguma superioridade que estão muito longe de possuir.

O abençoado presunçoso é como um macaco dançando em cima de uma navalha. Ele não percebe que não depende de si, mas de Deus, tudo de bom que haja na sua vida. E abusa com uma confiança obscena destas graças, quase como uma criança. Digo quase, porque é direito pleno, no meu entender, sentir-se criança nas mãos de Deus, e usufruir gostosamente das coisas boas que nos são dadas. Mas a premissa primeira do sentir-se criança diante de Deus é reconhecê-Lo como o provedor total da vida, como Pai. O presunçoso e arrogante não dirige-se para o alto, mas para si mesmo como causa do bem, o que o torna não uma criança, mas um bicho meramente inconsciente Da mais pura e evidente realidade que o cerca.

Certa vez já estranhei, faz mais de dez anos, uma conversa com um colega de escola que nunca mais vi na vida. Me dizia ele, referindo-se a outros colegas de classe que ele com certeza considerava inferiores, que o problema deles era que não sabiam “as regras do jogo”. Ele não se referia a nada específico, mas à vida em geral, querendo ainda me puxar como cúmplice da sua idéia, porque tanto eu quanto ele éramos então supostamente conhecedores de tais leis da vida. O sujeito evidentemente não me conhecia bem, pois que desde cedo, filosoficamente, minha atitude sempre foi muito mais de criticar as crenças sociais do que aboná-las. Mas então eu entendi de onde ele tirara tal conceito a meu respeito. Eu trabalhava, tinha minhas responsabilidades bem além da média dos meus coetâneos (Saturno na I), pagava minhas contas, me vestia elegantemente, etc. Para ele tais características eram sinal de superioridade. Eu sei, da minha parte, que havia sim alguma superioridade em ser mais responsável, mas que esta de longe não era a posição que ele imaginava. Apenas num certo aspecto da vida eu tinha lá as minhas vantagens, assim como os outros também tinhas as deles em certos campos da vida.

Analisando o tipo do sujeito, posso dizer que é exatamente o típico proponente desta asneira de “saber viver”, normalmente um tipo otimista-materialista. Posso descrever o tipo, para vocês checarem se localizam alguém parecido na sua convivência. Em primeiro lugar, hedonisticamente, a prosperidade material é considerada origem autônoma de bens para a vida, seja para usufruí-los ou para ostentá-los. Em seguida, observamos uma certa disposição meio obsessiva com a própria imagem, uma vaidade além da conta normal, e também uma certa paranóia com a própria saúde, o que vem de uma crença no corpo como fonte da identidade pessoal. Depois, há que se observar uma superficialidade muito evidente. Pois que tudo que não se refira diretamente aos prazeres sensoriais, à posse de bens materiais, à saúde do corpo e à autoimagem, parece ser a esse tipo algo superficial e inútil. As ocupações superiores do espírito, seja a ciência, a filosofia, a religião ou as artes, são vistas como hobbies e meros passatempos, ou como ocupações profissionais comuns, como outras quaisquer. Por fim, há normalmente uma grande necessidade de manutenção das aparências sociais. Tudo deve seguir o script do que é aceito pelas crenças da sociedade. Desde a vida familiar, escolar e acadêmica, até o casamento, a profissão, a vida religiosa, etc., tudo tem que ser by the book, nos conformes com a expectativa social.

Daí se vê como as pessoas que se aproximam deste tipo são aparentemente robustas, mas ocultam uma fragilidade enorme. Elas apenas são convencidas. Possuem uma bela fachada, mas está é de papelão. Se você der uma bica forte tudo desmorona.

Porque, primeiro, dependem muito das suas circunstâncias materiais, de saúde, etc. São estas pessoas “normais” as primeiras que se desesperam quando aquela frágil ordem social desaba. É que elas acreditam que a sociedade é fundadas sob as sólidas colunas do bom senso, inabaláveis. Quando dão conta de que tudo aquilo era uma harmonia circunstancial, e que por trás o mundo real impera incontrolável, desesperam-se (1). Seu choque é a revelação de que as suas “verdades” eram meras opiniões, eram doxa. Qualquer guerra, situação de escassez de bens, epidemia de doenças graves, etc., destrói rapidamente o simulacro fingido de ordem.

Segundo, este tipo é altamente dependente da opinião social que o cerca. Se se vive numa sociedade muito ordenada e estável, isto até que não causa grandes problemas. Mas se há algum tipo de revolução em andamento, uma confusão cultural e social do tipo que se vive na nossa era, então a manutenção da vida se torna uma missão quase impossível. O que valia como crença social já não vale mais hoje, e o que ontem era proibido de repente pode se tornar aceito ou até obrigatório. A inversão de valores apresenta um tremendo desafio. A saída que se costuma usar é a mais banal do mundo: é o fingir que não viu. É o viver dentro de bolhas. Pode ser viver para certas diversões, mesmo que ao redor tudo esteja desabando. Pode ser viver em comunidades fechadas, com carros blindados, voar de helicóptero, etc. Ou, mais simplesmente, ignorar no dia-a-dia todos os sinais da desordem social, fazendo ouvidos de mercador. São tipos normalmente protegidos pela sua sorte, de não viver a ruína da sua delicada redoma de cristal.

Claro que isto é apenas um tipo, ninguém é completamente assim. Assim como ninguém tem a influência de um único signo no seu mapa natal (2). Mas esta é uma possibilidade forte de guiamento para a vida, o que já testemunhei várias vezes.

Uso estas situações como testes de paciência. Não sei ainda bem exatamente o que Deus quer de mim, mas seja lá o que for deve exigir muita paciência, porque o meu treino nesta área é forte. É preciso querer saber viver? NÃO ME DIGA?! Se não me dissessem parece até que não perceberia nunca…

Estou faz mais de dez anos buscando entender a experiência humana neste mundo, e sei que isto é objeto de atenção dos maiores mestres e gênios da humanidade. A tarefa não é fácil. Envolve a filosofia moral, a antropologia e a sociologia, e até a epistemologia (podemos saber o que nos é devido?). Na religião, é a própria soteriologia, a ciência da salvação. Como eu posso não ficar fora de mim quando aparece um IDIOTA que mal aprendeu a falar querendo insinuar que as suas toscas crenças são suficientes para dar conta do recado? Como aguentar isso? Quo usque tandem abutere patientia nostra?

(1) São os tipos que desistiam de tudo e se suicidavam mais rapidamente nos campos de concentração, como relatou Viktor Frankl.

(2) Por falar nisso, o signo que encarna melhor essa tipicidade é, sem dúvida, o signo de Gêmeos.

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