Nenhum Saturno cai bem / Essência e Contingência / Carreira versus vocação / Características piscianas (artigo reciclado)

Nenhum Saturno cai bem

A Casa IV, que representa a figura do pai e do lar, significa justamente a base de sustentação da nossa “primeira vida”, a que vivemos dentro da família na qual surgimos. O lar é construído justamente pelo pai, que sustenta a família. Esta casa rege os assuntos paternos, as heranças, os imóveis, e as questões familiares e domésticas dentro desta esfera de influência.

A Casa X, que representa a figura da mãe e da vocação, significa por sua vez a vida pública, ou seja, aquilo que será vivido já para fora e além do ambiente familiar paterno. A mãe participa da construção da vocação do filho no sentido de que o cria para isto, “para o mundo”. A Casa X é a máxima projeção do indivíduo no mundo, o ápice da sua experiência pública.

O pai responde pela manutenção do lar, pelas condições materiais, enquanto a mãe forma os filhos para que eles cresçam e sejam algo mais que apenas filhos.

Essência e Contingência

Capricórnio produz o zelo absoluto por uma meta, por um objetivo, e portanto uma capacidade enorme de ignorar todo o restante. Por isso ele é o melhor construtor do zodíaco.

Ora, Saturno representa a contingência, a necessidade e a limitação, aos quais as características da natureza do capricorniano típico se ajustam adequadamente: o capricorniano é imensamente realista, austero, e um excelente planejador. Se você pega alguém tão regido por Peixes -e cujo regente é Júpiter, não podemos esquecer- como este aluno, e tenta fazê-lo adequar-se aos modos saturninos exigidos pela sua Casa X, o que você tem é um desastre. A essência pisciana impede por natureza a realização do que a Casa X requer, porque não fornece os seus requisitos fundamentais, e até pelo contrário, os sabota.

Isto não quer dizer, é claro, que um pisciano nato não tenha de lidar com as contingências. Apenas o seu modo de lidar com elas é espontaneamente mais livre e menos restrito, controlado e planejado do que o modo capricorniano.

Filosoficamente, podemos dizer que para que a essência do indivíduo se realize, é preciso que ele aceite o mundo da contingência, que aceite “descer” da sua perfeição ideal para encarnar no mundo real, ao custo de perder algo da sua natureza essencial no processo (perder no sentido de não realizar, aceitar uma privação e um limite). Essa aceitação é a grande lição de Saturno. Só não perde nada na sua descida ao mundo o perfeitamente Encarnado, que é o próprio Deus. Todos nós encarnamos imperfeitamente, ou seja, representamos de forma piorada a idéia que Deus tinha de nós quando nos pensou inicialmente, quando formulou a nossa essência. A nossa forma piorada de ser se desenvolve pelo contato e pela mistura com o que não faz parte da nossa essência pura no pensamento divino, que é o próprio mundo do contingente, ou melhor ainda, da acidentalidade. Isto é universal.

A diferença específica deste mapa, com relação a este conflito, é que a maneira pisciana de realizar o encontro da essência com o contingente é muito diversa da forma capricorniana, quase que totalmente oposta. O Peixes atenua, desvia, alivia, abstrai, esquece, ignora, salta. E o Capricórnio enfrenta frontalmente, escala, persiste, segue uma direção até o fim. O que esta Casa X requer me parece escapar tanto da natureza essencial do aluno, que se ele se deixar levar pelas necessidades relativas à sua carreira, ou sua missão pública, pode se frustrar imensamente com isto, sem conseguir colher quaisquer resultados relevantes.

Carreira versus Vocação

Esta sequência põe a Casa X e seus assuntos acima dos da Casa IX, tanto tecnicamente (a Casa X é angular, e a Casa IX é cadente), quanto historicamente (sempre foi mais frequente a autoridade espiritual se curvar aos reinos e aos impérios do que o contrário). Saturno vem depois de Júpiter nesta sequência porque, para os assuntos deste mundo, ele é o representante do poder temporal supremo, que é justamente ligado à situação humana encarnada de limitação e restrição. Toda a magnanimidade e o otimismo espiritual jupiteriano da Casa IX é soterrado pela brutal força física da pressão saturniana na Casa X, a pressão do tempo e da escassez, do limite que não pode ser ultrapassado neste mundo, do que simplesmente não é possível.

Mas de alguma maneira esta “derrota do Bem” é temporária, e acaba sendo “vingada” pela estrutura final do céu com as Casas XI e XII. A ordem agora se inverte: Saturno rege a Casa XI, e Júpiter a Casa XII. Os sonhos e ideais de uma vida possível para além das restrições cruéis deste mundo são incentivados pelo próprio Saturno no seu segundo papel astrológico, que é o de professor e mentor. Mitologicamente até, depois de ser destronado por Zeus, Cronos se torna um sábio que orienta e guia para além dos limites que até a véspera ele mesmo regia de algum modo. Astrologicamente, a Casa XII encerra a roda com Júpiter depois de Saturno, ou seja, de algum modo é a volta do Bem para triunfar justamente no fim deste mundo e no começo do próximo. O que era socialmente lembrado na atividade sacerdotal e de guiamento espiritual na Casa IX, agora no fim da vida e deste mundo inteiro se torna a pura realidade final e definitiva, e os limites deste mundo são realmente rompidos, com o sacrifício final desta própria vida, o holocausto sagrado da Casa XII.

Com isto tudo quero dizer que a Casa X definitivamente não pode representar a vocação plena do indivíduo, mas somente o seu sucesso público mundano, o seu brilho neste mundo. Saturno e Marte na Casa X dizem mais ou menos o seguinte: é difícil para você ganhar reconhecimento público, você vai ter que brigar para isso e, no fim das contas, você não vai mesmo ter isso, essa possibilidade será negada nesta vida.

Características piscianas

O elemento água coloca Peixes ao lado de Câncer e de Escorpião como um cuidador dos outros, com uma missão de cura. O ritmo, a intensidade, a profundidade e a forma de se fazer isso, no entanto, é bem diversa entre os três signos.

Câncer cura nutrindo, protegendo, abrigando, defendendo, cultivando, lembrando e valorizando. E por isso mesmo representa a alimentação, a hospitalidade, as mães e a família em geral (no sentido mafioso do termo), e também a memória e a história, e o patriotismo e defesa da pátria (forças armadas). Câncer cuida por dar, criar ou acrescentar alguma coisa ao que sofre.

Escorpião, por sua vez, cura purificando, expurgando, desvendando, aprofundando. Representa sangue, morte, vingança, investigações, segredos, sexo, etc. É um tanto quanto mais mórbido que os seus companheiros elementais, mas no fim das contas cumpre o seu propósito, porque alguém precisa fazer isso afinal de contas. Ele cuida por retirar, eliminar, limpar o mal do que sofre.

Peixes, por fim, cura “por presença”, de forma mais mágica e espontânea, e também mais rápida. Enquanto Câncer e Escorpião são mais lentos e profundos, o Peixes age de forma mais direta e sem rodeios, sem precisar se aprofundar muito, pois sua missão é de aliviar a dor e de melhorar os humores. O Peixes é mais aberto e espontâneo, e a sua bondade é bem mais incondicional que a dos seus companheiros de água. Ele não cobra nada para ser bom, sacrifica-se gratuitamente, sem pedir nada em retorno. Câncer e Escorpião, em comparação, são bichos meio traiçoeiros e rancorosos, possuem a sua agenda secreta, seus planos de influência e de controle, coisa que escapa totalmente das intenções piscianas, que são mais simples e leves que isso. Comparo o processo de cura do Peixes com o trabalho de um curandeiro, ou de um cirurgião de campanha. Ele faz o que é preciso e com o que tem na mão, embora os outros não entendam como faz isso, como consegue improvisar tão bem e fazer um resultado final satisfatório.

A maior vulnerabilidade de Peixes é, sem dúvida, a de que ele acredita que já está no outro mundo, quando na verdade ainda está neste. Isto o coloca em certas situações de teste de fé muito peculiares. Apesar de tudo parecer conspirar contra o seu espírito otimista e aberto, ele precisa persistir contra tudo e contra todos. A sua boa vontade lhe coloca nas mãos de manipuladores e aproveitadores, e a sua credulidade lhe faz ser enganado e usado para fins mais profundos que pode ignorar, por não ter o espírito de suspeita. O desafio é, apesar de uma série enorme de decepções com a vida e as pessoas, permanecer no caminho correto e não perder o seu ânimo natural, não querer ser mais esperto que os seus inimigos, e não aceitar o jogo sujo que lhe é imposto, enfim, não perder a sua ingenuidade sadia, sinal de ausência de malícia e de perversidade.

Por outro lado, as vantagens de Peixes estão ligadas ao seu regente, Júpiter, e são formidáveis. Há uma natural jovialidade, e um otimismo sincero, que agem muito rapidamente sobre as pessoas ao redor, às vezes por mera presença. Peixes agrega valor imediato ao seu próximo, “põe para cima”, por causa do seu entusiasmo juvenil. Ele é o entusiasta, que apóia todas as idéias, acha que tudo vai dar certo e acabar bem. Por isso é o signo da esperança final, do alívio da dor e do sofrimento, e da consolação aos fracassados. É o irmão mais novo que aceita a brincadeira chata, que ouve o discurso entediante, que acompanha nos passeios inúteis, enfim, que está junto para tudo, que quer sinceramente o bem alheio, seja como for.

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