Agressividade e consciência (artigo reciclado)

Agressividade e consciência

Eu fiquei satisfeito de já ter podido, … , ter dado amostras, ainda que breves, do que é a vantagem de se priorizar a consciência e a vida reflexiva. …

Eu expliquei então que não é possível evoluir intelectualmente, nem um pouco, se não existir a mínima objetividade necessária para a descrição dos fatos. A objetividade é incompreendida na nossa cultura, e é confundida de forma muito ignorante com “frieza”. Já perdi a conta de quantas vezes fui chamado de frio quando exerci apenas a capacidade básica de perceber e descrever os fatos tal como eles se apresentaram. O que é de fato uma capacidade essencial da nossa inteligência, e ponto de partida da reflexão consciente, torna-se proibido ou recriminado por puro preconceito idiota em defesa de algum suposto “calor humano”.

Tudo começa, psicológica e emocionalmente falando, com o sentimento de injustiça. Este, por sua vez, é originado pela presunção de direitos prévios. Se eu penso que tenho direito a isso e a aquilo, logo qualquer fato que restrinja o exercício pleno destes direitos me parece ofensivo e injusto. Isto é o desempenho natural da psique humana, fruto da nossa carência natural pelo amor, que desde o nascimento é fornecido pelos pais, especialmente pela mãe. Nós nascemos já amados e sentimos que temos o direito de ser amados. Isto, para nós, é a coisa mais normal do mundo desde o início dos tempos. As primeiras dores e choques virão logo na vida, quando percebermos, assim como dizia o Baby da Família Dinossauro, que nem todo mundo “é a mamãe”. Esses são os primeiros “direitos” traídos da vida, e que ocasionam por sua vez as primeiras sensações de injustiça. E daí não para mais.

Nossa maturidade começa com a educação da posição real e universal do ser humano no mundo, não como um detentor de direitos, mas como um ser que tem medo e terror e, depois, fé e esperança. A realidade não é mesmo “a mamãe”, é um ambiente ilimitadamente hostil, enquanto algo de cima não chama o homem para a sua razão de ser. Refiro-me à educação religiosa, em primeiro lugar, e em segundo lugar a filosófica, cultural e intelectual, que ajudam o indivíduo humano a se situar no mundo real, e não numa ficção mental onde o bonitão do protagonista tem todos os direitos do mundo.

Como eu sei bem que a nossa educação em geral é muito ruim por aqui, não espero de ninguém a noção básica de diferenciação entre uma cosmovisão realista e objetiva e uma visão reivindicatória “mimada”. Eu mesmo sei, no meu caso pessoal, o preço que tive que pagar em sofrimento puro, para conseguir entender este negócio. …

A agressividade se desenrola naturalmente e rapidamente, como num acender mesmo de um pavio bem curto, desde o sentimento de direitos prévios até o sentimento de injustiça. Diante da injustiça que sente sofrer, o aluno protesta, e o faz de forma violenta.

O que ele precisa entender é que na realidade o maior prejuízo é seu mesmo, pois não é jamais garantido que a outra parte na disputa ceda subjetiva e espontaneamente ao seu apelo, só por causa do seu sentimento de injustiça. Ou seja, de cara o que há é um sofrimento e estresse do aluno, sem garantias de que isso vá mover um milímetro da posição do outro, que pode até se sentir provocado e reagir pior ainda. Guerras inteiras muitas vezes começam assim, em escalada, através de miudezas que se tornam grandes demais e intoleráveis para todas as partes envolvidas. Antares é, lembrando, uma estrela marcial, militar, e portanto beligerante. A provocação do inimigo e, até antes disso, a identificação do outro como inimigo ou parte oposta é a influência da natureza perversa da alfa de Escorpião.

O aluno pode começar a observar-se mais, para começar. Ao invés de encarnar um papel imediato nas disputas, pode exercer seu lado mais crítico e começar a coletar amostras dos seus próprios sentimentos originários do sofrimento, isto é, dos seus sentimentos de injustiça e de direitos violados.

A primeira via para o alívio deste problema é a destruição ou atenuação do sentimento de direitos prévios mediante a aquisição de uma educação superior, que leve ao thambos, ao espanto primordial, que é uma forma de terror cósmico, uma experiência bem descrita pelo autor C.S. Lewis no seu livro O problema do sofrimento. Quando você se vê na sua situação real, ou seja, realmente desamparado e sem garantias de absolutamente nada nesta vida, daí você percebe como são tolas as presunções de direitos que nós temos. Todo o nosso conforto vem de um fino amortecedor social que pode se romper rapidamente, por exemplo quando há um blecaute, um terremoto, ou um desastre qualquer de grandes proporções. Nós não estamos dentro do mundo humano: nós estamos dentro da realidade, e o mundo humano nada mais é do que um sistema de proteção e de conforto, muito pequenininho, dentro desta inabarcável realidade. Esta é a verdade.  A confissão disso, combinada com as virtudes de fé e de esperança (não no “amortecedor” social, mas em Deus), inibe quaisquer sensações artificiais de direitos violados e, consequentemente, de injustiças que demandem vinganças e retratações.

A segunda via para o alívio deste problema vem, ao contrário, da intensificação da visão de Justiça, como um valor verdadeiro na sua posição legítima dentro da hierarquia das coisas. Nós podemos sim desejar a justiça, porque ela é real, mas para fazer isso de maneira correta, é preciso relevar o que é o justo no fim das contas. E aí encontra-se uma equação curiosa: como a justiça depende do conhecimento, quanto mais justiça se requer, mais conhecimento se deve possuir. Não por um acaso, Deus mesmo é capaz de um perdão infinito porque sabe tudo, e tudo compreender é tudo perdoar.

Nós somos obrigados, ao reconhecer a nossa ignorância necessariamente ilimitada dos fatos, a reconhecer também a limitação severa da nossa “justiça”, que acaba não sendo bem a Justiça verdadeira, mas somente uma espécie de ensaio dela, cheia de remendos e gambiarras.

Trazendo para os fatos concretos: se alguém discute uma imbecilidade comigo, o meu direito de me sentir injustiçado é inversamente proporcional ao conhecimento que eu tenho da situação, inclusa a compreensão da outra parte como objeto. Isto quer dizer quer toda sensação de injustiça pode ser vivida –e disso eu sei por experiência— como um teatro e até como uma piada, e você logo já não está mais levando a sério essa coisa de brigar, porque sabe que é sem sentido no fim das contas.

Se você começa a pensar em tudo o que você ignora, em tudo o que você deveria saber para ser capaz de julgar apropriadamente uma situação, logo se vê como um farsante, como um chantagista barato, cheio de uma auto-piedade ridícula, como se fosse um herói ou protagonista de uma série de TV, mas que esqueceu de combinar o script com os outros “atores”, e então sai dando porrada, meio como criança mesmo.

A saída consciente e reflexiva é a contemplação dos fatos na sua riqueza, sem firulas, apenas para saber realmente o que está se passando. Frequentemente descobrimos que os raivosos (quase que no sentido veterinário da palavra) são os outros, e nós é que entramos na onda como trouxas. Amando a sabedoria, ama-se os fatos na sua riqueza mais do que as nossas próprias reações emocionais a eles, e aí é que começa a objetividade de fato. Você não está mais prestando atenção em você mesmo, você não precisa reagir como se estivesse diante de holofotes o tempo todo, representando um papel. Não. Você está no mundo real, um mundo muito mais aberto e sem regras do que se imagina, e você pode fazer muita coisa dentro dele, a começar por entender melhor o que afinal de contas está se passando.

O sujeito raivoso que produz espuma pela boca de repente se torna objeto de estudo, e ele se torna objeto até mesmo de amor, porque é necessário um interesse genuíno mínimo pela pessoa para conseguir fazer isso. Para conseguir conhecer de fato, é preciso amar de algum modo, se identificar (“transforma-se o amador na coisa amada“), e isso não se faz com brigas e discussões de jeito nenhum.

Imagine a cena de um cientista tendo que estudar os tigres in loco, no meio da selva, sem proteção alguma. Nós sabemos que dentro de cinco minutos ele vai passar de sujeito à objeto da ação. O tigre que me persegue age sobre mim predominantemente, determina as minhas reações, e eu não consigo estuda-lo. Se eu coloca-lo numa jaula, num zoológico, consigo entender melhor os seus impulsos, porque eu não faço mais parte deles como “cardápio”. Imagine que a jaula que contém a fera é, no caso das situações de agressividade impulsiva, a própria objetividade, a tal “frieza”. A besta rosna e você, impassivelmente, a estuda e até cuida dela, trata dela como pode, pois agora você a domina de algum modo, você possui um tipo de superioridade sobre ela. Não por um acaso, o inventor dos jardins zoológicos foi um filósofo, senão o maior deles, Aristóteles.

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