Quando o otimismo é demais / O assunto “sucesso” / O limite da inteligência operativa (artigo reciclado)

1) Quando o otimismo é demais

Refiro-me ao otimismo natural da posição [Júpiter na Casa I], que implica numa expectativa de que as coisas se resolvam naturalmente de algum modo. Isto não quer dizer que eles [os nativos com esta posição] não tenham iniciativa nenhuma, mas parece que a disposição mais espontânea é a de esperar, e não a de fazer as coisas acontecerem por própria deliberação.

Júpiter, o benéfico maior, traz não somente a sorte e a fortuna, mas a sensação de que já se pode contar com o bom termo das coisas. Até certo ponto, quando ele está na Casa I, simboliza pessoas espirituosas, de bom ânimo e disposição, animadas e entusiasmadas, confiantes. Para além de um certo ponto, porém, a situação pode decair para um problema.

Por um lado, em excesso, o otimismo funciona como um debilitante da vontade, pode tornar as pessoas pusilânimes, fracas. Elas querem que tudo fique bem sem que seja necessário fazer nada para isso. Por outro lado, também é necessário observar que quando as coisas não vão bem, esta posição pode significar uma tal recusa dos fatos que a pessoa exagera os aspectos negativos, na inversão do seu costumeiro script otimista. A pessoa pode dizer que “tudo está perdido”, porque não está acostumada a “dosar o mal” (ao contrário de uma personalidade [mais] marcial ou saturnina, que sabe conter danos, calcular prejuízos, suportar sofrimentos, etc.).

Em uma palavra, poderíamos definir o risco de Júpiter na Casa I como o de se ter uma personalidade meio mimada por natureza, caso o planeta esteja perto do Ascendente, ou, caso esteja mais distante, de ter tido uma infância deslumbrante demais, quase lúdica, e com isso a pessoa passa a viver a vida toda em busca do paraíso perdido, o paraíso da infância.

Evidentemente, outros aspectos de cada mapa precisam ser pensados para se criar um entendimento mais completo.

2) O assunto “sucesso”

Pude notar, de imediato, que a grossa parte da literatura do assunto [sobre a busca sucesso enquanto tal] é relativamente muito recente, com pouco tempo de existência, não passando de dois ou três séculos. Isto implica num panorama mais estreito da discussão intelectual sobre o assunto, ou seja: os sábios ainda não tiveram a habitualidade suficiente para tratar a questão profundamente, devido se tratar de uma novidade. Não sabemos sequer se a literatura e as ciências absorverão a questão do “sucesso mundano”, tal como o discutimos, como um assunto especialmente meritório das atenções gerais dos pensadores.

Nós sabemos que o assunto de um sucesso específico, do sucesso de certos procedimentos humanos, é algo tão velho quanto qualquer arte humana para se fazer qualquer coisa. O que é recente é a discussão do assunto como uma chave sociológica específica, a da possibilidade de ascensão social para todo e qualquer cidadão que o queira, conforme determinadas regras de universalização das oportunidades.

Esta idéia é estranha para a humanidade. Desde que o mundo é mundo, a grossa parte das massas vive conforme a lei que regia os seus antepassados, sendo muito comum um filho de sapateiro continuar sendo sapateiro como seu pai, e jamais ver nada de estranho nisso, porque isso seria da natureza das coisas. Foram milênios de experiência acumulados deste modo. O conceito de que qualquer um pode atingir qualquer posição social –bastando o conhecimento das “regras do jogo” e a posse dos meios de ação–, isto é realmente muito novo. Assim como é nova, consequentemente, a febre das gerações noviças que desejam escalar as posições sociais como se a sociedade fosse uma montanha, quase como se fosse um esporte.

G. K. Chesterton aborda o problema genialmente no seu artigo The Fallacy of Success (http://www.gutenberg.org/files/11505/11505-h/11505-h.htm#THE_FALLACY_OF_SUCCESS), cujo primeiro parágrafo reproduzo abaixo:

There has appeared in our time a particular class of books and articles which I sincerely and solemnly think may be called the silliest ever known among men. They are much more wild than the wildest romances of chivalry and much more dull than the dullest religious tract. Moreover, the romances of chivalry were at least about chivalry; the religious tracts are about religion. But these things are about nothing; they are about what is called Success”.

Podemos supor que a reação de Chesterton seria a mesma de qualquer pessoa normal dos séculos anteriores, diante das propostas de “segredo do sucesso” que vemos na literatura contemporânea de negócios e administração.

Um vício observável em vários destes documentos contemporâneos é o de não definir o conceito de “sucesso”, tomando-o como subentendido pelo leitor, e sem fazer a menor questão de quaisquer esclarecimentos a esse respeito. Sem definir propriamente o seu objeto, estes autores escrevem sobre nada no fim das contas (como diz Chesteston), mas supõe astutamente que o leitor preencherá a lacuna com todos os seus sonhos particulares. Daí ser uma literatura capaz de vender tanto.

Eu entendo que este assunto pode não ter mesmo nenhuma importância definitiva para o conhecimento humano. Mas, se tivesse, o estudo teria que se aprofundar não somente com a definição clara dos conceitos empregados, mas na exposição de várias alternativas ideais sobre o assunto, de forma a se poder montar um quadro de hipóteses para a especulação científica. Poderia-se formar ao menos três pólos que representariam posições éticas máximas e radicais sobre o assunto “sucesso”: o ponto de vista da ética protestante, americana e progressista; o da ética vocacional-missionária, religiosa, tradicional; e da ética baseada na concepção de sorte e acaso, e de causalidade mecânica, positivista, cética, etc. Somente um estudo que levasse em conta, no mínimo, estas três posições simultaneamente, e tentasse encontrar todos os pontos de acordo e desacordo entre estas hipóteses, poderia arriscar uma formulação cientificamente defensável deste assunto.

Estamos muito longe disso. E, no entanto, a busca do sucesso é uma premissa de muitos planos de vida, quando não é mesmo colocado como objetivo supremo. Assusta ver que muitas pessoas estejam firmemente empenhadas em ir atrás de algo que não significa nada.

3) O limite da inteligência [operativa]

Observando claramente a situação em que vivemos e a sensação de uma opressora limitação da nossa liberdade, confessamos que o entendimento dos fatos não é suficiente para que a vida seja bem orientada. Para que a Moral valha, é preciso que a vontade seja livre da inteligência. Os testes morais verdadeiros da nossa vida são aqueles em que todo o conhecimento não é suficiente para implicar necessariamente numa decisão determinada, como se fosse a conclusão de um raciocínio.

A batalha espiritual só vale porque a alma arbitra de forma final e essencialmente distinta da inteligência. A inteligência informa a vontade, que é soberana para ceder ou não à Razão. Esta liberdade reproduz o centro mesmo da nossa alma, a manifestação do espírito neste mundo, atualizando por vontade as potências de sua preferência, de forma ligada mas não dependente da Verdade.

Só isso explica que, mesmo sabendo do que nos aflige, não conseguimos nos fortalecer e mudar ainda assim. É claro que isto é um problema moral grave, cujo nome mais comum é covardia.

As nossa geração, especialmente a nascida e criada no meio urbano, vive por demais amortecida da realidade. As experiências fundamentais de medo e terror diante da natureza são transmitidas por meios muito indiretos, seja na cultura, seja no testemunho, e costumam se resumir numa ética geral tipicamente burguesa na qual a maior parte da população é criada para se defender da vida, do esforço, dos riscos, etc. É esta mentalidade que gera um exército de funcionários públicos e de usuários de programas assistenciais. E é esta mentalidade que induz a uma covardia muito feia e, ao mesmo tempo, invisível.

Somos uma geração de frouxos. Nós não pensamos nas causas profundas, mas se pensássemos rapidamente descobriríamos uma raiz gnóstica por trás disso tudo, que é uma crença de que o mundo é hostil, e de que nós temos que nos proteger de tudo. É claro que todo tipo de ideologia maluca vai prosperar no meio de terreno tão contaminado pelo gnosticismo: desde o materialismo mais pueril que desemboca num liberalismo democrático boboca cronocêntrico, até o marxismo e suas vertentes, o ceticismo cientificista, etc. Está todo mundo deprimido e louco.

No meio disso alguém ter fé, fé de verdade, é um acontecimento espetacular, e nos lembra que este é mesmo um dom sobrenatural. Abandonado a si mesmo o homem não pode nada, é um administrador da sua própria miséria e confusão. É só ligado de volta à sua razão de ser, que ele pode assumir a sua vida integralmente. Mas o preço moral é claro e, para o “jovem rico” da história bíblica, caro demais.

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2 respostas para “Quando o otimismo é demais / O assunto “sucesso” / O limite da inteligência operativa (artigo reciclado)”

  1. Mesmo sendo personagem desta postagem e tendo presenciado tudo isso pessoalmente, me chamou muito a atenção o tópico 3. Não lembro onde foi que eu li ontem dizendo que esperança e fé são bastante diferentes, e é aí que tá o problema: tenho esperança e bastante, visto que não largo o osso, não abandono o desejo de fazer as coisas que quero fazer e há esperança de que serão feitas (talvez consequência do tal otimismo). Agora, FÉ, isso os fatos e a lentidão das iniciativas mostra que não há. É fé no sentido espiritual mesmo, fé de que uma força superior está enviando forças, vai proteger das atrocidades, vai amparar se as atrocidades acontecerem no caminho, vai continuar me olhando quando decidir pular fora da placenta confortável e ao mesmo tempo lameada em que me encontro. Não é só covardia, me reconheço como um cara-de-fé-de-merda.

    1. É, meu caro, temos que confessar esta situação antes de mais nada. É tão mais fácil se colocar como vítima… só que tem o seguinte: só há vítima se há injustiça, e só há injustiça se há o autor da injustiça. QUEM nos deve alguma coisa? A resposta é: ninguém. A Fé, falando de forma simpória, é a virtude de confiar no Bem sem garantias, por pura confiança mesmo. A confiança não pode, por definição, exigir ou carecer de provas. Você não confia na sua namorada, ou no sei amigo, ou no seu pai, porque eles deram provas de confiabilidade. Você confia porque decidiu confiar. É esta decisão, ou melhor, a falta dela, que nos deixa boiando no universo espiritual como cocôs ectoplasmáticos.

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