Capitalismo antinatural?

Terminei a leitura do documento do Sr. Médaille. Separei até um trecho para citar. Basicamente ele trabalha em cima das idéias de um outro autor (ou seja, contando direito, são três intermediários até a fonte primeira da discussão), um romeno chamado Sorin Cucerai, que escreveu “The Fear of Capitalism and One of its Sources”. A discussão parte da idéia básica de que a ordem capitalista não é natural, porque força o homem a buscar os meios monetários de sobrevivência e, portanto a sua participação no sistema de mercado e no sistema político (via impostos, cobrados também monetariamente), enquanto na verdade o homem por natureza busca apenas os meios de sobreviver, isto é, a propriedade. A discussão é interessante. Médaille diz num certo ponto, não sei se por inspiração de Cucerai ou não, que este argumento é aristotélico num certo sentido, porque Aristóteles dizia que era natural para um homem comprar o pão de que necessita, mas não seria natural comprar mais pão ou farinha do que precisa para sustentar sua família, ou seja, se o fizesse com objetivo de comércio. Eu ainda nem li Smith, Marx ou Mises (autores que ele cita), então realmente não posso dar uma opinião séria sobre este problema. O que posso dizer é que definitivamente existem problemas no mundo, incluindo pobreza, fome, miséria, etc., mas que é muito difícil não ser injusto ao tentar explicar o fenômeno completamente, e, mais ainda, é extremamente difícil não causar mais injustiça tentando reformar o sistema que, verdade seja dita, não é fruto de uma conspiração de poucos, mas o resultado de séculos de experiência política e social da humanidade. O autor afirma, é verdade, que os conservadores são grandes responsáveis pelo crescimento do Estado no fim das contas. Me considero conservador e, no entanto, não nego este problema. Quero realmente poder estudar melhor esta questão. Sobretudo, a descrição da situação natural do homem me parece meio enviesada, no sentido de que mesmo que se admita que a natureza do homem é de buscar a sua sobrevivência, e não necessariamente os meios monetários de sobreviver, é preciso ser muito ingênuo para ver nesta busca natural do ser humano algum direito seu por natureza. Por natureza, o ser humano não tem direito nem à sua própria vida, analisando objetivamente. Não pode ser o capitalismo um meio de aliviar o peso da realidade humana mais crua, isto é, de fragilidade? O autor coloca no colo do capitalismo a culpa pela fragilidade humana, pela falta da propriedade que garante a sobrevivência. Mas, ora, naturalmente há alguma propriedade a ser possuída? É equivocada a colocação de um problema de incompatibilidade entre o capitalismo e a natureza humana, porque esta é muito anterior e mais primordial do que tudo o mais. A história sendo bem contada, o que é possível pensar é que, já que temos hoje um sistema capitalista que produziu muita riqueza, tecnologia e capacidade produtiva, seria o caso de os poderosos pensarem em meios de ceder grandes pedaços do seu poder para a população, evidentemente com uma garantia sólida de não perder a rédea da situação, e de não ver serem empregadas contra si próprio as concessões. Isto é politicamente muito complicado. Mas concordo com o Sr. Médaille, quando ele diz que “é o poder, não a produtividade, que é arbitrado numa negociação salarial. Um CEO americano ganha 500 vezes o que um trabalhador de linha ganha, não porque seja 500 vezes mais produtivo, mas porque ele é 500 vezes mais poderoso”. Isto é verdade. Ele não precisa ensinar, pelo menos para mim, que o conceito da liberdade tem seus limites, ou melhor, tem um significado mais profundo e puro que escapa do idealismo social da liberdade, ou seja, a liberdade de uns pode ser maior que a liberdade de outros. Eu sei disso. Só que não adianta reclamar e bater porta contra este estado de coisas, porque isto é muito velho, e é da natureza mesmo da vida em sociedade. Se você quiser ter poder sobre os poderosos, para poder então distribuí-lo, você vai ter que concentrar mais poder do que todos, o que é exatamente o comunismo, o sistema mais opressivo do universo. Parece que o Sr. Médaille teme concluir que o seu raciocínio de indignação com o estado do ser humano só pode levar, no fim das contas, à revolta comunista e, pensando bem, ao mais profundo gnosticismo. Porque a miséria e precariedade não podem ser frutos do capitalismo, é resultado da natureza do ser humano neste mundo. Para que se prove isto, basta eliminar o capitalismo, e então veremos o que “sobra”. Sobra mais miséria, é claro. O capitalismo não cria miseráveis, ele é um sistema de contenção da miséria. O seu aperfeiçoamento não pode ser, de maneira alguma, obtido através da conquista do poder sobre os poderosos ―o que leva, como vimos, a um problema pior ainda―, mas através da disseminação da caridade, isto é, a cristianização do capitalismo, que permitirá ao sistema a livre doação de poder e riqueza dos muito poderosos, por eles não temerem o povo, em virtude de alguma garantia advinda do seu próprio poder. Viagem na maionese? Acredito que não. A concessão livre do poder e dos frutos do poder é a forma mais rápida, barata, direta e moralmente válida de você resolver o problema da desigualdade. O comunismo, por sua vez, e toda a mentalidade revolucionária socialista, é um sistema perverso que serve, no fim das contas, para estimular o sentimento gnóstico, e portanto estimular a mesquinharia, a ganância, a cobiça, a inveja, etc. Tudo isto me parece muito simples, mesmo. No fim das contas, as pessoas subestimam o poder real da caridade, a sua força substancial, e o fazem por um sentimentalismo doentio e oco, projetado injustamente sobre a virtude real. Acredito mesmo que o socialismo seja um negócio demoníaco, porque se você ligar os pontos, sempre chega a esta conclusão, de que a visão socialista do mundo e do ser humano é doentia e rebelde na sua essência, mas entenda-se bem, de uma rebeldia luciferina. Mas entendo perfeitamente que não é possível tratar destas questões sem obter antes a devida preparação dos estudos, e por isso me abstenho de declarar quaisquer outras consequências do meu pensamento, por ora.

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