Nem sempre é gostoso ter razão

Em Junho do ano passado, logo após voltar de uma viagem aos EUA e encontrar a baderna nacional sobre os tais “vinte centavos”, disse para mim mesmo e para quem mais quisesse ouvir que seria muita ingenuidade não observar que, fora quaisquer margens eventualmente abusivas das empresas de ônibus, todo o restante do aumento reprimido pelos protestos seria mais cedo ou mais tarde custeado pela própria população. Não existe almoço grátis, seu bando de ignorantes. Vocês deveriam protestar contra um governo que não se preocupou em controlar a inflação em geral, não adianta reclamar de um aumento aqui e, ao ter suas reivindicações satisfeitas, voltar para casa feliz. O trouxa vai pagar a conta do mesmo jeito. O problema é que o brasileiro não se vê como parte da sociedade: ele se vê como portador de direitos, mas não de obrigações. É uma imbecilidade sem fim. Agora leio na última edição de EXAME que fizeram a tal conta a que eu me referi. “Na época, pouca gente se preocupou em perguntar quem pagaria a conta que, fatalmente, viria como consequência do congelamento [dos preços das passagens]. Segundo levantamento da Urban Systems, empresa especializada em análise de dados, a soma dos custos em dez das principais cidades do país chegou a quase 500 milhões de reais apenas nos primeiros oito meses. Inclui-se nesse valor o aumento dos subsídios repassados pelas prefeituras aos concessionários, além de desonerações nos impostos estaduais e municipais pagos pelas empresas ―ou seja, dinheiro que deixa de entrar nos cofres públicos. Do total, 60% recaíram sobre as finanças de estados e municípios. Em algumas capitais, coube exclusivamente às empresas de ônibus absorver o aumento dos custos para fazer frente ao congelamento. Mesmo nesses casos, quem anda de ônibus ficou com parte do prejuízo ―em cidades como Belo Horizonte e Rio de Janeiro, a frota deixou de ser renovada na mesma velocidade de antes” (reportagem de Flávia Furlan). Pois é, Flávia, eu estive dentro da “pouca gente” que se preocupou, mas ninguém dá ouvidos à razão. Eu desgosto com o Brasil e, como diz o Olavo, só não tenho vergonha de ser brasileiro porque não tenho culpa. O brasileiro não consegue ligar causas e efeitos. De qualquer modo, nem sempre é gostoso ter razão. Definitivamente, no que diz respeito às minhas previsões atuais sobre a situação do Brasil até 2019, não será gostoso mesmo verem-nas cumpridas. Mas, pelo visto, não vai ter jeito não.

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