A salada do diabo

Continuando a desentalação.

Em 2002 era eu um niilista, dos mais convictos, devido à típica idiotice adolescente. A frustração, geralmente motivada por razões bobocas, se converte em birra e revolta, e eventualmente acaba em bebedeiras e outras aventuras juvenis. Mas, não no meu caso, que eu não perderia então a oportunidade de transformar a revolta em idéias, e até num método. Eu acreditava que uma filosofia era, sobretudo, uma “filosofia de vida”, um método de se viver. Atropelado por tantos sentimentos ruins de ocasião, eu queria entender o que era o mundo, e então explicar para mim mesmo, e a quem pudesse interessar, o manual desta vida.

Meu mestre de ocasião foi o senhor Schopenhauer, a quem não culpo por nada, porque fui eu quem bati à sua porta em primeiro lugar. Bem ele não me fez, mas nada fez que não fosse por meu desejo. O fundo do poço, para resumir a questão, era este niilismo, que consiste em acreditar na absurdidade da existência, na total arbitrariedade de tudo, e na vida humana como uma piada cósmica. Piada, porém, que faz sentido de piada apenas para um possível construtor do universo, porque a nós mesmos cabia o sofrimento sem fim da vida sem sentido. O suicídio é a consequência óbvia de tais pensamentos, pois o mundo é pintado como uma cadeia, e a vida como o carcereiro. A solução parece evidente. Mata-se o carcereiro para livar-se da prisão; mata-se a vida para libertar-se do mundo.

Por motivos e artes que só Deus teria as condições de explicar, fui salvo desta confusão medonha e infernal, e catapultado para um cenário mental bem mais decente. Fui conseguir aprender, finalmente, o que era filosofia, conhecendo, como seria óbvio mesmo que se fizesse, um filósofo. Se você quer fazer sapatos você fala com o sapateiro, se você quer fazer pão você fala com o padeiro. Porque, raios, se você quer fazer filosofia, você não fala com o filósofo?

Eu bem que tentei com Schopenhauer, e deu no que deu. Mas era preciso dar mais uma chance. É assim que se faz com uma tradição mais antiga que o Cristianismo. Tive sorte logo na segunda tentativa, com o senhor Olavo de Carvalho. É bom lembrar o seguinte: já então não haveria outra coisa que eu gostaria de fazer mais na vida, do que buscar entender essa coisa toda, o mundo e a nossa vida dentro dele. Enfim, nada mais fazia sentido do que ser filósofo. Ou seja, apesar de ter tido sorte, entendo que se não encontrasse uma direção pelo Olavo, seria por outro caminho de qualquer maneira.

Finalmente pude entender que filosofia era muito mais que “filosofia de vida”. E, mais ainda, pude entender que a perdição e ignorância do mundo, que já pareciam bem insuportáveis antes, eram então realmente motivo de agonia e profunda perplexidade. Digo isso observando o tamanho da filosofia, quantitativamente e qualitativamente; o tanto que já foi feito na história da humanidade. E digo de coisas realmente boas, já excluindo excrescências. Há neste tesouro idéias inacreditavelmente mais inteligentes e superiores a qualquer coisa que se possa comparar nos dias de hoje.

Tudo ia bem com essas novas conquistas. Nunca fui tão feliz como naquela época que vai de 2006 até 2008. Tudo parecia poder ficar melhor ainda no futuro, considerando as possibilidades de, finalmente, eu poder ser útil para alguém, de fazer algo que prestasse da vida. Sempre quis ser professor, desde criança. Mas só agora é que encontrava algo que prestasse para ser ensinado, algo que valesse a pena mesmo.

Tudo ia muito bem, até que fui inevitavelmente espremido pela pressão de um problema, digamos, de sociologia da filosofia, já muito bem abordado pelo artigo, famoso artigo, “O maior problema do mundo“, do mestre Olavo. Em resumo, digamos que quem quer que queira ser melhor que a média deve prestar homenagens submissas aos poderes econômicos deste mundo para se encaixar nele; caso contrário, está condenado ao ostracismo (tão típico, afinal, dos intelectuais e artistas). E é claro que pessoas tão infelizes, as rejeitadas pelo establishment, apesar de estarem subjetivamente animadas e motivadas consigo mesmas, se tornam, de repente, perigosas para si mesmas e para os outros, como eu já havia percebido no meu niilismo de 2002.

Mas, é preciso que se esclareça, não fui pressionado por este problema teoricamente. Não sofro de dores imaginadas. Aliás, costumo aliviar pessoas que sofrem disso, com a naturalidade com que um podólogo desencrava unhas.

O meu caso foi real. Eu precisava afinal sair do estado de gambiarra econômica-social da minha ocupação profissional, “ajeitada” por meu pai. Precisava definir que caminho iria trilhar, para garantir o meu sustento, de uma forma organizada e propositiva.

Até tentei seguir o caminho típico universitário, apesar de muitas ressalvas teóricas e alertas de especialistas. Evidentemente precisava fazer isso por desencargo de consciência, mas era verdadeiramente UMA PIADA.

Fui atrás da idéia de suceder o meu pai no seu modesto negócio de contabilidade, e já estava vendo a confusão em que ia me meter, a distância de léguas que ia ficar da filosofia, quando surgiu então uma grande solução, providencial, através de um convite para trabalhar com outro negócio, na família. Que garantiria a tão desejada “segurança financeira”.

Não sei porque ainda chamo isso de “solução”, porque se eu ganhei e ganho dinheiro com esse sistema, o fato é que nada de bom se sucedeu no campo filosófico. Que era, recordando, o sentido da coisa toda. Bem pelo contrário, estou colecionando decepções desde 2008, quando se deu a tal solução.

“Solução” é eufemismo, pois trata-se, novamente, de uma gambiarra. É um remendo que paga bem, mas me sequestra e me exclui da vida que gostaria de ter.

Tudo o que fui inventar de fazer em matéria de ensino de filosofia depois deste turning point de 2008 acabou mal. Eu percebi isso até antes dos episódios mais desastrosos (a partir de 2011) ocorrerem. Na verdade, e até como prova de como sou um guri esperto, devo dizer que depois de uns três meses em meu novo emprego, eu já sabia que aquilo seria uma catástrofe para a minha vida intelectual. Mas, não querendo jogar fora nenhuma graça divina (e é disso que se trata, nunca mérito meu) por falta de informação, fui paciente aceitando e vendo no que ia dar. Infelizmente devo dizer, hoje, que eu estava mais certo do que nunca. Não fiz, em 2008, o que tive coragem de fazer dez anos antes, em 1998, quando abandonei a escola: dizer que, o que não presta, não presta, e ponto final. Sem acordos com o que não presta.

E se os outros não me entendem, esse problema, pensando bem, é deles.

Nota astrológica: o Gugu, ao ler o meu mapa, disse que as decisões mais importantes da minha vida serão justamente as que ninguém ao meu redor conseguiria entender.

Mas fiquei no acordo, no jeitinho.

Também é fato que se não saí deste sistema insano até agora, não foi só por prudência exagerada da minha parte, mas porque demorei para dar um diagnóstico decente dos fatos.

Inicialmente, errei alegando a famigerada desculpa número um do fracasso humano sobre a Terra: “falta de tempo”. Pensando bem, até recentemente sustentei esta idéia ridícula de que falta tempo para ser eu mesmo e para viver a minha vida, mal consciente de que as minhas próprias idéias filosóficas (se me é permitido falar assim) sobre o tempo, a liberdade e a responsabilidade humana estouram completamente com essa desculpinha miserável.

Não é falta de tempo. Tempo falta para ir no dentista, no supermercado, no Detran, etc. Não pode faltar tempo para se viver a vida: a vida que faz sentido, a vida de verdade.

Excluída a hipótese de uma vida com sentido, sobra a hipótese de sobrevivência procrastinatória, que é mais ou menos como descontar uma duplicata no banco: a cada dia que passa você apenas sobrevive. Você sacrifica a vida de hoje, medíocre, em nome de algo que pode acontecer um dia e que faça sentido. Fica devendo “mais vida” para você mesmo no futuro. A dívida cresce, e pode chegar a ser insuportável.

No meu caso passou do insuportável várias vezes, e lembro especialmente de uma crise no final de 2009. E com tons niilistas, surpreendentemente. Não é preciso exorcizar o demônio uma vez, é preciso estar pronto para fazer isso a vida inteira. Mas, novamente, para proteger o meu próprio status quo de cidadão bem empregadinho, mudei e mexi em tudo o que pude na vida em busca de “novidades”, tentando me enganar e esquecer que eu já conhecia muito bem o que me faltava.

Fui pulando como macaco, de galho em galho, de projeto frustrado para crise existencial, e de crise existencial de volta para projeto frustrado, várias e várias vezes. A vida volta a parecer uma piada, o esforço de um vôo de galinha.

Esse ciclo deprimente foi fortalecido, como sempre é, pela falta de autoconhecimento. Eu sempre acreditei que, ou eu não sabia nada do que estava fazendo com esta porca vida, ou eu sei o que estou fazendo, só não estou me esforçando o suficiente. Daí saem, respectivamente, as crises e os projetos.

Mas uma hora é preciso parar esta dança infernal, e observar os fatos. É a fase que vivo hoje, idealmente uma redescoberta do autoconhecimento como método fundamental filosófico, a busca da objetividade.

Como já disse, a ilusão da “falta de tempo” é a armadilha sinistra do auto-engano, que achata e compara expedientes corriqueiros da “vida de sobrevivência” com as providências sérias da “vida de sentido”.

Qual seria o problema, então, se não fosse falta de tempo?

Será que um filósofo é um bicho desocupado e vagabundo mesmo, que precisa viver como mendigo, ou ser sustentado por alguém de posses, para fazer o seu trabalho? Isto a própria história da filosofia mostra que não é uma verdade necessária, que é apenas um clichê, e aliás, um clichê bem porco, bem comunista mesmo. Historicamente, há demonstrado todo tipo de hipótese de encaixe sociológico que se possa imaginar para o filósofo: há desde aquele filósofo que é perseguido, processado e assassinado, até aquele que vira reitor da Universidade estatal com todas as pompas, que vira doutor da Igreja, ou que é paparicado pelos principados do mundo. Ou seja, não adianta apelar para generalizações estúpidas.

É preciso avaliar o caso concreto. Como pude perder o nível em tão pouco tempo? Como pude ter, por exemplo, escrito coisas em 2007 com um espírito mais forte que hoje, se eu era então menos experiente? É verdade que no passado escrevi também várias bobagens, algumas coisas erradas, e confundi alguns conceitos, e certamente usei um tom insuportável para o meu gosto de hoje. Mas eu estava na direção certa.

Se a falta de tempo não justifica a teoria do turning point de 2008, o que justificaria?

Creiam-me, que pensei em muitas hipóteses. Muitas.

Mas a que parece valer a pena é a idéia de que há uma conexão muito íntima, secretamente íntima, entre o meu modus vivendi desde 2008, e as crenças niilistas de 2002. E isso se dá por uma “salada do diabo”.

Digo isto porque não é o tempo que me falta para filosofar. Tempo eu tenho. O meu espírito é que é diuturnamente martelado pela imbecilidade ao meu redor, de formas novas e criativas a cada tempo, mas incessantemente. É como se eu descobrisse o valor da higiene num dia e, no dia seguinte, fosse viver com porcos no chiqueiro. Não adianta lembrar da higiene: você não está vivendo ela, não é uma realidade para você, é apenas memória. Não quero posar de “sensível demais”, mas estes são os fatos, o ambiente aparentemente inofensivo é tremendamente opressor.

E, mais uma nota astrológica: o meu mapa tem uns 75% de água, justamente o elemento de receptividade e assimilação dos caracteres ambientais. Mas, ora, se a água é tão sensível, chegou a hora de usar uma outra característica sua. Afinal, a água também é o solvente universal. É o que se usa para limpar todas as outras coisas. E está na hora de dissolver esta massaroca.

Qual é a conexão, afinal, entre esta patifaria que vem rolando desde 2008, e o niilismo dos gloriosos tempos de 2002?

É, meus amigos, o que posso chamar de “salada do diabo”.

Eis os ingredientes: materialismo, gnosticismo, progressismo e niilismo. Com isto tudo, e mais uma pitada de perversidade diabólica, você transforma um estudante de filosofia idealista e supostamente esclarecido num idiota que adere sutilmente ao mesmo niilismo exorcizado há mais de dez anos.

Explico.

O meu ambiente profissional —o qual, é importante que se diga, é o único da minha vida que restou no qual sou obrigado a conviver com pessoas que não quero—, é repleto de pessoas que não atinam, mas nem de longe suspeitam, que a vida possa fazer mais sentido do que o ciclo nascer-crescer-reproduzir-envelhecer-morrer.

Não estou me fazendo de superior ao declarar isso. Este é o ciclo da vida. Estou dentro dele, inclusive. O ciclo é a razão de podermos estar aqui hoje. Então não tem conversa de “se fazer de melhor”, ou de superior. Observo, apenas, que um sujeito que contempla a vida e o mundo, além de apenas viver o ciclo em si mesmo, pode apreender outras possibilidades de ação além das que envolvem o ciclo básico da vida, possibilidades “complementares”, se se quiser chamar assim.

Nada do que é criativo, inventivo, genial ou realmente inspirador sai do ciclo nascer-crescer-reproduzir-envelhecer-morrer.

O ciclo é aquilo que temos de comum com os animais. Todas as outras possibilidades essenciais da vida humana, e especialmente as intelectuais, místicas e estéticas, que caracterizam e diferenciam especificamente o ser humano, transcendem infinitamente a vida do próprio ciclo, como é fácil atestar pela experiência e por qualquer simples investigação da história humana, e por comparação com as “civilizações” animais.

Ora, a minha vida, desde moleque, é a contestação expressa, e violenta se for preciso, da limitação ao ciclo animal, reproduzida dentro da vida social. Se tem uma coisa que eu procuro é o sentido que transcende o ciclo, um jeito de furar o esquema social que, eu simplesmente sei que não pode ser o limite final da vida humana.

Ao me ver “enjaulado”, porém, e obrigado a conviver diariamente, e respeitar as opiniões de pessoas que não estão nem aí para coisa nenhuma fora do ciclo, acabo vivendo uma espécie de filme de terror cotidiano, sem a mínima possibilidade de protesto. Ao lado destas pessoas, certamente as mais mal informadas do orbe terrestre, fico a cada dia mais pequeno, murcho, impotente, gasto. E olha que, francamente, a minha mente é forte. Sou especializado em me isolar e em criar defesas. Mas não há ser humano que suporte passar dias e mais dias, semanas, meses, anos, convivendo várias horas pro dia com a merda, sem se sujar um pouco.

Veja você por onde entra o niilismo.

Não é que estas pessoas do convívio sejam niilistas elas próprias. Elas até que são boazinhas e inofensivas.

Mas, o modus vivendi dessa atmosfera social, tão ligado ao ciclo animal, tem as suas consequências intelectuais e espirituais graves, à revelia dos pobres participantes do circo, que nem sabem o que está acontecendo. Estas consequências saem, na verdade, das premissas óbvias desse estilo de vida; premissas que, por sua vez, afetam apenas quem possui “antena” para isso, ou seja, quem está ligado neste tipo de percepção, buscando o significado da vida.

A vida típica, o retrato desse estilo de vida, é bourgeois, ou pretende ser. É a vida de uma sobrevivência básica, do ciclo animal, acrescentada de algum conforto, de alguma segurança, de alguma diversão; enfim, de um sabor, dignidade e decência bem próprios. Os ideais de tal vida não mudam sequer quando o bolso engorda: o nouveau riche é o burguês apenas mais enfeitado, porque dinheiro nenhum compra a nobreza a que me refiro, quando falo das possibilidades mais sérias da vida para além do ciclo animal.

Ora, embora os adoráveis espécimes deste estilo de vida não sejam conscientemente atores do drama da banalidade e mediocridade de suas próprias histórias, o fato é que tal modo de viver carrega consigo, e traz para a convivência, todas as premissas necessárias a sua justificativa. Entende-se: se eles não sabem no que acreditam porque nunca pensaram no assunto, eu posso saber, porque procuro por natureza saber.

E mais do que saber: posso ser infectado. Explico.

O ser humano possui um negócio que se chama moral.

A moral diz respeito ao que o indivíduo respeita e ao que ele não respeita; o que valoriza e não valoriza; a autoridade que ele reconhece, e a que não reconhece, etc.

O convívio tipicamente burguês da educação polida e dos “direitos humanos” nos faz respeitar obrigatoriamente todas as pessoas, como se elas fossem todas respeitáveis, mesmo que não saibamos nada a seu respeito. Isto quer dizer que para ser bem aceito, frequentemente você vai ter que respeitar, ou no mínimo aceitar placidamente, aquilo que você mesmo talvez não respeite, e até odeie. Ora, a depender do seu sistema moral, do grau de profundidade e de sutileza dos seus valores pessoais, esta convivência pode ficar bastante insuportável e criar uma crise interna de consciência.

Não me refiro ao moralismo, cuidado aqui. E também não me refiro aos direitos essenciais do homem civilizado, com relação à ordem e a restrição da violência. Ninguém vai defender os tempos antigos, em que você podia arrancar a cabeça de quem não gostasse muito.

A polidez do respeito contemporâneo não é a civilidade justa do homem ordeiro, inspirado no cristianismo. A polidez é burguesa, é afetação oca de valores inexistentes, é a troca da substância pela aparência, é a farsa social.

E esta farsa pode enlouquecer, literalmente, qualquer um que tenha lá os seus valores morais mais complexos e delicados do que a maioria. Porque você vai ter que enfiar no seu próprio nariz os seus valores, toda vez que tiver que conviver respeitosamente com quem vive contra aquilo que você acredita.

Como nós vivemos na mistura da animalidade com a racionalidade, aos poucos, no tempo que tiver que levar, o adestramento da sua parte animal para ser respeitoso aos outros vai contaminar a parte racional, porque você não consegue mais tolerar a vida dupla, interior e exterior, quando o contraste entre as duas chega aos seus limites finais. Logo o adestrador do animal interior vai adestrar também o ser que pensa, sente, intui… e então chega o dia em que você, de repente, já não sabe direito quem é e o que quer. E começa a pensar como pensam aqueles da sua convivência. É assim que, por ser moral e buscar a integridade e a coerência interna, o ser humano pode alienar seus próprios valores pessoais em nome da boa convivência.

A base fundamental da vida que não quero viver, mas com a qual tenho que conviver, é o materialismo. Não é um materialismo elaborado. Não é científico, e nem filosófico. É um materialismo burguês, utilitário-pragmático, e um tanto epicureu e hedonista. A missão número um de tal mentalidade é sobreviver com dignidade, mas, se possível, também com alguma classe. Não há nenhuma demanda espiritual legítima: a vida material é o começo e o fim de todas as considerações importantes. A vida na igreja é mais um enfeite, parte da superestrutura, assim como qualquer atividade e interesse cultural dificilmente vai passar de um adereço. Lê-se literatura tanto quanto viaja-se para a Europa, compra-se um vaso chinês para decorar, ou pratica-se yoga, tudo com o mesmo “valor cultural”. A vida tem a profundidade de um pires, e a densidade de uma maria-mole. É uma vida idiota. Todo o bem que move o indivíduo esgota-se dentro da idéia de progresso: a evolução que se dá é de mais domínio da matéria, e só por isso se justificaria. O progressismo é materialista.

Mas se o materialismo intelectualmente mal elaborado não afeta as idéias dos progressistas —até porque eles não têm muitas—, qualquer ser moral e espiritualmente mais sensível é massacrado pela premissa materialista diariamente, como que submetido a um processo de lavagem cerebral involuntário.

Ora, esta vida típica, progressista, não é só materialista. Não pode ser, se você tira as consequências. O sujeito que vive primordialmente para a sobrevivência e para o conforto, e para o progresso desta sobrevivência e deste conforto, é aquele que tipicamente se aterroriza no contato com a natureza sem o amortecedor social, e que teme a morte a ponto de transformá-la num mito imaginário, num fato que deve ser apagado e esquecido na vida do dia-a-dia. É o cidadão frágil dos nossos dias, criador da cultura politicamente correta, um buda que não sai do seu palácio para conhecer o mundo real.

Mas, se esse sujeito for um pouco além e procurar conhecer a vida dos seus vizinhos, ele logo vai ver que é um sortudo por conseguir se esconder da vida, da natureza, e do caos do mundo. Mas a realidade se afirma. Fome, peste, guerra e morte assolam as populações. A poucas quadras da sua segurança doméstica, alguém deve estar passando fome ou frio. Para que você permaneça na premissa materialista, é preciso que se aceite uma outra premissa, que é o gnosticismo.

O mundo, pela sua prevalência ontológica material deduzida do progressismo materialista, é um lugar inóspito para a maioria da população, e arriscado para os happy few. Até a pessoa mais segura do mundo pode ter medo de perder a sua segurança, de ser atingido pelo caos que está lá fora. Um caos que ninguém controla: as instituições humanas, a ciência, etc., tudo isto pode ser desfeito como foi feito um dia. Mesmo que o progressista se sinta bem, enfim, se o seu sentimento for minimamente elaborado, embocará num gnosticismo cedo ou tarde, que é a confissão de terror perante a realidade bruta e hostil extra-muros, que ultrapassa os limites da segurança ambiental-social do indivíduo.

Ora, isto quer dizer que o progressismo otimista, seguro e prudente, me oferece no bojo da sua proposta, um materialismo mal camuflado, e um gnosticismo pesado.

Assim, o progressismo revela-se ponte para o niilismo puro. Porque todo progressismo otimista é apenas um progressismo que ainda não foi informado pela falência final do materialismo utilitarista. O progressista ingênuo é alguém que “ainda não fez as contas”. É alguém que ainda não tirou as conclusões necessárias do seu materialismo. Todo materialismo desemboca no gnosticismo, pois o espírito que vive num mundo onde só há matéria só pode ser prisioneiro deste mundo. O gnosticismo, por sua vez, deve levar ao niilismo, pela simples observação da lei da entropia de todas as coisas; a constatação de que todo progresso material é inócuo, fundamentalmente irrelevante, e sem sentido. Configura-se, assim, a salada do diabo em toda a sua força, fazendo você comer um pouquinho de cada vez, da salada da morte, sem perceber seu veneno.

Não posso, no entanto, estereotipar as pessoas do meu convívio, e retirar delas as reservas todas do progressismo materialista. Devo conceder a elas todas o direito que me dou a mim mesmo. Seja por alguma prática espiritual, ou mesmo por uma fé ingênua mas bastante válida, porque sincera, há certamente caminhos para todos “saírem” desse problema, de algum modo. A vida é sempre mais completa do que se quer que seja, e para o bem geral.

Referindo-me, no entanto, ao meu próprio caso, volto a explicar, e tento fechar a idéia geral.

Sinteticamente: o convívio respeitoso por tempo considerável com pessoas que vivem sob premissas mudas que contrariam violentamente toda a sensibilidade e os valores morais de um indivíduo tornam este alienado da sua própria vida e, portanto, impotente.

Era isto que não conseguia dizer antes. Não dizia, ou porque não via claramente, ou porque, se via, não valorizava suficientemente. O que me levava sempre à desculpa simplória e boboca da “falta de tempo”.

Observe-se que não estou sugerindo soluções. Estou somente observando como acabei de volta num sentimento não tão distante do niilismo antigo, e isto depois de me sentir curado do niilismo, por contato direto com filosofias mais saudáveis. Fui arrastado de volta, muito lentamente, disfarçadamente, para um niilismo muito parecido com aquele antigo.

Ou seja, se desperto para a realidade no seu nível de significado mais profundo, você é influenciado não só pelos livros que lê ou as aulas que assiste, mas pela vida que vive. Quem ama a sabedoria a procura, e procurar o saber consiste em ler os fatos, buscar o sentido das coisas.

Aí fica, então, uma lição, independente de quais sejam as consequências destas constatações todas: a filosofia está na alma de quem filosofa.

Com a filosofia, a vida se traduz em idéias, mas também as idéias se traduzem em vida. É como entrar dentro do “canal” de transmissão que há entre o mundo material e espiritual, e isto gera necessariamente uma exposição do sujeito. Por isso o treinamento é tão importante para o filósofo, para que ele não se perca.

A exposição ao sentido das coisas é o preço que se paga para viver uma vida refletida, que é a única que vale a pena ser vivida.

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2 respostas para “A salada do diabo”

  1. Interessante. Desconfiava que todo o silêncio e uma espécie de anulação de si mesmo que tu vinhas apresentando nos últimos meses desembocaria, no mínimo, em uma conclusão nova. Era a maquininha trabalhando.

    Paulo José, o ator, recentemente repetiu em (não tão) novas palavras qual o problema da classe média: o medo de perder a estabilidade em que vive e se sacrificar buscando manter a estabilidade. Fazer malabarismos pra ficar exatamente no mesmo lugar, temendo o medo de perder esse lugarzeco. Também tenho medo de perder o lugarzeco, por isso rendo-me todos os dias ao ambiente fechado, de ar condicionado, hostil, sem Sol, formal e sem sentido que me paga uns trocadinhos no final do mês.

    Agora que desenhou essa salada me parece bem óbvio. Não que não soubéssemos que o meio e a convivência influenciam sim, afinal é tua a célebre frase “Convivência emburrece”. Mas é mais que emburrecer. Nos faz perder o pique de almejar e buscar mais do que o lugarzeco em que já estamos.

    Não há soluções a sugerir, mas confio no trajeto do teu barco e na continuidade do teu treinamento filosófico, ou descoberta filosófica. E, por favor, sempre que possível, mais textos como esse.

    Abraço.

    1. O mais grave é a perda da própria vida, porque esta é a verdade do que acontece neste esquema. Precisamos confessar o quanto somos vendidos, e então perguntar, o que nós queremos afinal de contas.

      No meu caso vejo um ressurgimento. Estou apenas moderando, temperando a revolta o máximo que posso, e buscando racionalizar o caminho. Mas creia que isto é apenas a ponta do iceberg, a cabeça da pica.

      Abraço

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