Gestão autoregulatória, caracterologia e simbolismo

É possível aplicar conceitos e frames usados na administração de organizações e em doutrinas militares para uso individual, fazendo-se algumas adaptações necessárias. Ganha-se partindo de um esquema mais complexo para um mais simples, na redução da escala, mantendo-se, porém, a qualidade de certas concepções organizacionais.

Com uns 15 anos de idade, mais ou menos, eu considerava essas coisas ao pensar na minha própria vida, em termos de planejamento e organização, como fruto de influências do estudo de história e do trabalho com empresas. Hoje, porém, enxergo que é possível, e até desejável mesmo, dar um salto desta idéia mais técnica e “fria”, para uma coisa mais profunda, partindo das mesmas bases.

O fundamento desta atitude de gestão autoregulatória é a idéia de Liberdade (Tema V) concentrada sobre a vida do indivíduo, sobre o seu círculo de poder “ótimo”, onde ele mais pode agir sobre si mesmo, e onde menos os outros podem interferir diretamente.

Planejamento e execução

Planeja-se e executa-se planos em três níveis bem distintos, do mais amplo ao mais estrito, do maior ao menor. Militarmente faz-se uso dos conceitos de “Estratégico”, “Operacional” e “Tático”.

O nível estratégico diz respeito aos objetivos superiores, mais definitivos e estáveis, de mais longo prazo. Atingir minimamente estes objetivos implica na vitória final. No nível individual a elaboração de uma estratégia assim equivale a um Statement of Purposes. O teor vai muito além do que se espera em determinado cenário ou época. Busca-se aquilo que seja mais realizável dentro dos ideais últimos, e portanto define-se quais valores permeiam este pensamento estratégico, valores estes que servirão para criticar toda e qualquer medida tomada num nível inferior. O nível estratégico é o da liderança máxima, que indica os objetivos fundamentais e essenciais de toda a atividade. É um certo idealismo, sim, mas limitado pela perspectiva concreta de alguma realização, de alguma conquista real.

O nível operacional desce a um nível mais pragmático. É um pensamento de médio prazo. É o “miolo” do planejamento, que une o pensamento estratégico à execução pura, através de metas e prazos. As “operações” ou “campanhas” servem para atingir objetivos parciais, que são justamente as etapas necessárias para se alcançar no fim o objetivo estratégico. O nível operacional estabelece de maneira concreta o que deve ser feito dentro de um horizonte mais limitado, o que permite organizar a ação de maneira mais detalhada e que considera mais detidamente as circunstâncias da ação concreta. Metas e prazos são as ferramentas pragmáticas, de mensuração, que demonstram o sucesso ou fracasso parcial do plano de maneira idealmente inequívoca.

O nível tático, por fim, é o de curto prazo, que busca executar a missão do dia-a-dia da melhor forma, a fim de que se cumpra o objetivo operacional imediatamente superior, a meta e o prazo. Neste nível todas as circunstâncias da ação são maximamente consideradas e enfrentadas para que se dê cabo da tarefa, sempre “apesar dos pesares”. Aqui o idealismo já é o mínimo possível: o problema é fazer as coisas funcionarem para alcançar o objetivo de cada dia.

A relação entre os níveis se dá numa mão-dupla: as ordens descem, e as informações sobem. O “idealismo” estratégico ordena o pensamento operacional, que dá forma de ações ao ideal, e que ordena por sua vez o nível tático, que busca executar a tarefa realmente. O “realismo” tático, por sua vez, é o que lida com as circunstâncias e acidentes reais que obstruem ou dificultam a realização do ideal, e portanto é o responsável por informar o nível operacional, para que o plano executivo das metas e prazos se ajuste às vicissitudes; este informa, por fim, o nível estratégico, para que qualquer elemento puramente idealista e não-realizável do pensamento estratégico seja revisto, ou no mínimo para que se saiba quais são os limites finais da ação no mundo, e consequentemente quais são os fatos que devem ser aceitos como determinações inescapáveis.

Esta relação dupla equivale àquilo que é, em Sun Tzu, o conhecimento de si mesmo e do inimigo. Dizia ele que metade da arte da guerra consiste em você se conhecer: suas forças, equipamentos, treinamento, moral, seu terreno, objetivos, etc. E a outra metade consiste em conhecer o inimigo e os seus recursos. Ora, conhecer-se é justamente o ordenar de cima para baixo, e conhecer o inimigo é o informar de baixo para cima.

Isto tudo é muito lindo como doutrina e como pensamento puro, mas o difícil é colocar em prática.

Geralmente algo sempre falta, seja nas empresas ou nos exércitos. Basta consultarmos os testemunhos. Ou falha o nível estratégico, ou seja, falta liderança para indicar a direção geral dos esforços de todos; ou falha o operacional, que integra o pensamento estratégico com as forças executivas; ou então falha o elemento tático, geralmente por incompetência.

Na escala do mero indivíduo, observei sempre que as falhas são de tipo estratégico e operacional, principalmente, por causa simplesmente da ignorância das pessoas. Qualquer dificuldade tática é resolvível mediante a mera aquisição de meios. Porém, é notável que as pessoas normalmente não reconhecem a falha no seu nível devido, e atribuem os problemas ao nível tático, ou seja, ao dia-a-dia.

Pergunte-se a si mesmo, e aos outros ao seu redor, quantos problemas não são resumidos, no fim das contas, mais ou menos aos mesmos motivos, sempre: a “falta de dinheiro” ou a “falta de tempo”. Caso não esteja preparado, você pode se surpreender com a maciça e esmagadora maioria que resume, assim, todos os problemas da própria vida.

Isto significa atribuir ao nível tático (posse dos meios) o fracasso executivo. É verdade que esse problema da falta de meios pode ser real, mas, jamais pode ser um problema final. Dentro de uma estrutura mental decente, as limitações encontradas no nível tático são informadas para para os níveis superiores. Saber o que não se pode fazer, o que não se consegue fazer, é um conhecimento precioso, o conhecimento dos limites que nos dispensa de agir numa direção inútil, de fracasso garantido. Era este o pensamento de Rommel quando ele dizia “só lute uma batalha se você ganhar algo com a vitória”. Mas é trabalho do nível operacional e do estratégico determinar o quê é “vitória”, e não do tático. O nível tático apenas informa os limites e a escassez dos meios encontrados na realidade.

A mera constatação de impotência tática, que é a coisa mais banal e típica do universo, não ajuda em nada a organização de planos, seja de negócios, de guerra ou de uma vida. Alegar a impotência é a desculpa mais esfarrapada do universo, ao menos dentro de um cenário que comporte alternativas reais.

A minha constatação com a observação disto tudo ao longo dos anos, é de que as pessoas não possuem pensamento estratégico e operacional suficientemente refinado para dar conta deste fluxo de ordens e de informações, do ideal ao real e vice-versa.

Inicialmente estas considerações levam a valorizar uma idéia meio anárquica e caótica sobre a realidade da ação humana no mundo, no sentido do que dizia von Moltke: “nenhum plano de batalha sobrevive aos primeiros cinco minutos de contato com o inimigo”. Parece que o ser humano já está em grande vantagem se ele conseguir meramente sobreviver, ou seja, lidar com os meios mínimos para vencer a luta da “vida pela vida”.

Mas, a história humana o prova, nada é mais falso do que isso. Como intermediários entre o celeste e o terrestre, ou entre o ideal e o concreto, como queiram classificar filosoficamente, nós somos os próprios responsáveis por encarnar aquilo que é ideal dentro do real, através de virtudes e potências humanas, entre as quais a inteligência. O papel particular da inteligência neste cenário é justamente o de ordenar, de fazer chegar ao nível tático, através da alimentação das informações do mundo concreto, um plano que seja razoável, realizável e bom.

A dificuldade toda está nos níveis estratégico e operacional, justamente os níveis em que a inteligência ordena a ação, descendo até o nível tático. Em resumo, as velhas perguntas que eu tanto valorizo “quem é você?” e “o que você quer?”, são as indicadoras-mestras do pensamento ordenador do nível tático. Quem não sabe quem é e o que quer, simplesmente não vai a lugar algum. E a frustração de uma vida sem sentido é justificada, a posteriori, como a simples e fatal “falta de meios”, como se o sujeito soubesse mesmo onde queria chegar. Ou seja, é falsidade, mentira, auto-engano.

Não faltam meios, porque os meios dos quais você dispõe e não dispõe são o começo da estratégia, e não o fim. Alegar a falta de meios é estancar arbitrariamente o fluxo de ordenamento-informação entre os três níveis, geralmente não por incompetência tática, mas por falta de inteligência estratégica e operacional.

Não faltam meios. Falta inteligência e sentido ordenador.

Individuação e essencialismo

O problema com este esquema é que há um limite intransponível de uso do modelo empresarial-militar de gestão aplicado à vida humana. E este limite é realmente enorme: uma alma humana sozinha supera em suas profundidades e possibilidades internas todo tipo de esquema organizacional humano, como prova o simples fato de que todas as organizações humanas são, no fim das contas, apenas um tipo de criação das almas.

Embora as perguntas “quem é você?” e “o que você quer?” sejam tão fundamentais para o espírito, elas são, et pour cause, as mais difíceis de serem respondidas. Você gasta a sua vida inteira indo atrás destas respostas, desde que não seja um tolo, um enganado, iludido com esqueminhas.

Este desafio é sintetizado ali no nosso velho Tema XI, da Individuação. O autoconhecimento (ou 50% do trabalho, como diria Sun Tzu), é essencial para a ordenação da vida, porque você começa por ter-se a si mesmo como objeto de conhecimento, e passa a respeitar as limitações e os potenciais individuais reais, que muitas vezes superam em importância a falta dos meios externos de ação, que leva injustamente a maior parte da culpa pelos fracassos da vida.

Tal situação nos leva a buscar o que seria uma “ciência do indivíduo”. Não adianta, e o provam as toneladas de livros da literatura contemporânea de auto-ajuda, querer formar uma “regra de vida”, um manual sobre “como saber viver”, etc., porque o problema é cada um conseguir abarcar a própria individualidade única, que é a essência que vai realizar-se, ou não, neste mundo, ao seu próprio modo irrepetível.

Quando se pensa nisso, corre-se o risco de cair num relativismo, por entender que “não há verdades” que o homem pode comunicar com os outros para que possa haver colaboração. Mas não é o caso, nem de longe. Não só existem verdades, como elas realmente ultrapassam de muito longe o círculo das mesquinharias das nossas porcas vidas, e ordenam não só a vida humana ou a sociedade humana, mas o universo inteiro, numa harmonia e numa beleza perfeitas. É a contemplação deste ordenamento, desta verdade num nível realmente superior, que permite ao homem informar-se realmente sobre si mesmo, pois o conecta, o religa, ao que é a sua origem e o seu fim verdadeiros.

A individuação de verdade não consiste em ter um papel no mundo, mas em ser alguém real, ser quem deve-se ser. É a investigação da essência, daí que é uma ciência, embora seja voltada ao individual. Mas não é só ciência pura, pois tal processo de conhecimento (e digo processo pois não há fim possível numa vida para tal investigação) é como se fosse também um processo criativo, do indivíduo que cria a si mesmo por descobrir quem é de verdade, e que se responsabiliza por encarnar essa essência, esta potência de ser. O sucesso, ou a felicidade, não consistem em fazer algo, mas em ser algo, um algo que corresponde a um projeto perfeito não da espécie, mas do próprio indivíduo.

A mera descoberta da possibilidade de encontrar este ideal individual objetivo, é motivo de uma enorme felicidade, totalmente alheia e indiferente aos supostos meios presentes ou ausentes para se fazer qualquer coisa no planeta Terra. Não importa que eu faça ou deixe de fazer nada, importa que eu seja eu mesmo, conforme uma vontade superior. É a descoberta de que Deus não só se ocupou de criar o mundo e a espécie humana, mas ele nos criou, individualmente, para sermos muito mais perfeitos, conforme o pensamento Dele.

Simbolismo caracterológico

A dificuldade de lidar com essa correspondência é a de entender a unidade fundamental por trás de todos os fenômenos, o que no fim das contas se resume a uma grande falta de educação. Boa parte dos Temas que escolhi, para não dizer todos mesmo, são selecionados para dar uma noção mínima a respeito desta correspondência entre a nossa vida e a realidade neste sentido mais amplo, e no sentido verdadeiro, aliás.

O universo é “mágico”, por assim dizer. O mundo tem dimensões simultâneas, portas secretas, camadas harmônicas de significados, toda uma rede de elementos que fazem o sentido das coisas abundar de tal forma que, diante de uma pequena amostra dessa unidade, um cético dos nossos tempos ficaria pasmo de deslumbramento ou de terror. As correspondências, processões, participações, semelhanças, influências, etc., são como ondas ou forças que conectam todas as coisas, e que trazem o seu sentido verdadeiro numa linguagem toda própria, especial e divina, a linguagem simbólica.

Este é um conhecimento muito antigo, o mais antigo de todos, e muito difícil de entender para qualquer um em qualquer tempo, e muito mais ainda para uma mente dos nossos tempos, já deseducada e apodrecida pela “educação” moderna.

O que podemos fazer é entender e praticar o simbolismo, com nossos modestos recursos, através principalmente da dialética, para ampliar cada vez mais o quadro de referências de cada aluno, de forma que assim ele possa localizar na sua própria alma as partes daqueles elementos vistos fora, e possa conhecer-se cada vez mais, através do conhecimento da realidade.

Não é crítica cultural. Não é nem mesmo análise simbólica. É, antes, uma espécie de mergulho no simbolismo verdadeiro, não inventado, mas natural, de todas as coisas criadas, e de todas as coisas que imitam, humanamente, a Criação.

Talvez eu tenha compreendido melhor agora do que nunca antes o que o Olavo quis dizer comparando a Filosofia com a Música, como se a prática filosófica fosse a execução de uma partitura. É evidente. A alma se recorda da verdade da forma mais direta e perfeita através do simbolismo. Eis uma coisa que a filosofia analítica e racionalista perdeu de vista há tempos, arrastando consigo uma horda de esquecidos, e pior, de ignorantes presunçosos.

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