Simplificação como método, e um programa de trabalho

Gostaria de abordar duas questões nesta aula, em primeiro lugar falando novamente da metodologia filosófica geral —um assunto sempre em pauta para nós—, e em segundo lugar sobre um possível programa de trabalho para o futuro próximo.

Simplificação através da objetividade de uma cosmovisão ampla, e da reflexão sobre a morte

Todas as vantagens que temos por ter nascido “depois” (leia-se, depois já de alguns milênios de experiência de várias civilizações e culturas diferentes) são compensadas pelas suas desvantagens respectivas, especialmente no campo intelectual. Não quero fazer aqui uma Filosofia da História, não é esse o caso. Há apenas a sensação nítida, para quem quer que estude algo além do script acadêmico ou do mainstream da opinião pública contemporânea, que algo foi perdido. As pessoas de tempos atrás, sejam os antigos ou os medievais, simplesmente sabiam coisas que nós já não sabemos mais. Se você estudar qualquer ciência tradicional, como cosmologia, astrologia ou alquimia, esta sensação aumenta ainda mais.

Nós “vivemos” melhor que eles, mas apenas sob a perspectiva utilitarista e materialista mais baixa dos nossos tempos. Se você começar a experimentar pensar com a cabeça de um antigo ou de um medieval, não vai achar que se vive tão melhor assim hoje em dia. Ou será que vai?

Esta é uma querelle velha e espinhosa. Por um lado, é verdade que o que nos sobrou dos velhos tempos é apenas o filet, o mais precioso, os melhores entre os melhores, depois da lenta e contínua depuração crítica dos séculos. Ou seja, se se pensasse como um antigo qualquer, e não com a cabeça de um gênio, talvez a vantagem dos tempos modernos se mostrasse mais evidente. Por outro lado, que razão teríamos em optar por usar os critérios dos piores ou dos medíocres, justamente quando temos a vantagem de conhecer o melhor dos tempos idos, e quando podemos usar esse melhor como modelo de aferição da atualidade?

Minha preferência é por um caminho intermediário, entre o historismo e o seu contrário. Creio que no fundo os homens são mais ou menos sempre dos mesmos tipos, e querem mais ou menos sempre as mesmas coisas. O fundamento da realidade não mudou. O que interessa, no fundo, é a mesma coisa de sempre. E, ainda assim, há uma alternância temporal, que dá um tom diferente a cada época, e que não pode ser ignorada.

Então, primeiramente, não é o caso de dizer que os tempos idos foram definitivamente melhores que os nossos. Não pode ser, porque se somos ainda seres humanos, se não viramos outra coisa, então as mesmas possibilidades de antes estão aqui hoje conosco, todas elas, e de forma completa. O que ocorre é que a abertura ou a oportunidade para que determinadas possibilidades se efetivem hoje em dia se tornou mais escassa e difícil. Isto sim, definitivamente aconteceu. E é desta perda que eu quero falar, trazendo novamente o problema da nossa metodologia filosófica, da nossa atitude diante desta situação.

Reconhecer que há um problema, embora ele não seja terminal, é o primeiro passo. Então, existem possibilidades maravilhosas ao entendimento humano, ao fortalecimento da nossa personalidade. Mas estas estão hoje em dia soterradas por um mundo confuso. Entender, em seguida, que este problema pode ser enfrentado de uma maneira mais adequada, mais direta, é o segundo passo. Nós temos que entender, de uma vez por todas: Deus, o fundamento de todas as possibilidades, de toda a realidade, pode hoje dar como dom qualquer benefício que Ele queira a qualquer um, conforme apenas a Sua vontade. Para Ele tudo é fácil. E esta é uma das coisas mais simples e mais gratificantes que podemos falar de Deus, porque toda facilidade é agradável. Toda essa massa de bloqueios, impedimentos e confusões da cultura moderna são um problema para nós apenas. Você, sozinho, lutando contra todo o caos moderno, tende a perder a briga. Neste caso, de “independência” do sujeito, a ajuda divina lhe traz um benefício de forma muito indireta ou mediada, digamos assim, pois você confia na sua própria inteligência individual, na sua razoabilidade pessoal. Embora isto seja de certa maneira um exercício de fé em Deus, esta fé é muito tímida, já é algo muito fraco e apagado.

Qualquer técnica filosófica que preste parte de uma premissa inicial que rompe com o establishment pacificador de problemas, e o faz em nome de algo maior, de uma visão, ou ao menos de uma busca, que seja mais abrangente do que aquela presente na comunidade atual.

Todos ao seu redor estão querendo “pacificar” a realidade, ou seja, diminuir o estresse das tensões naturais advindas das contradições presentes na vida real. Isto é feito de milhões de maneiras, desde que o mundo é mundo. E todas estas formas podem ser resumidas no fim das contas como doxa, opinião. O mundo da opinião é o mundo da pacificação, o mundo das decisões, das definições, das tomadas de posição. A premissa da existência da doxa é simples: eu não tenho tempo para pensar livremente nas coisas, eu preciso me posicionar, preciso decidir. É o arrastar do fluxo temporal então que, naturalmente, leva o homem a desejar não aquilo que seja verdadeiro, mas ao menos aquilo que pareça ser verdadeiro. Se eu for viver apenas com verdades incontestáveis, não conseguirei me mover no mundo, não poderei agir com eficiência. Eu preciso das opiniões, que são verdades aparentes, e que me permitem agir no mundo, justamente porque eu tenho esta capacidade de acreditar nas coisas sem saber. A “fé”, no seu sentido mais baixo e profano, significa esta capacidade ilimitada que temos de acreditar numa montanha de coisas não verificadas e não verificáveis, com fins de tomarmos posição na vida real.

Nós só podemos saber o que é doxa, porque sabemos, por outro lado, o que é episteme. Se temos a experiência de ter opinião, ou seja, de acreditar que uma idéia é verdadeira sem saber de fato, é porque temos também a experiência de ter conhecimento, ou seja, de saber que sabemos de algo efetivamente. Seria impossível conceber a opinião, a doxa, sem conceber o conhecimento, a episteme. E, neste caso em particular, conceber é já conhecer mesmo. Nós simplesmente sabemos que existe a opinião, e existe o conhecimento.

Existe uma participação de uma coisa na outra: uma opinião é um tipo de conhecimento imperfeito, ou é uma tentativa de conhecimento. A opinião participa, de algum modo, do conhecimento. Mas e o conhecimento, participa do quê? Achar algo é conhecer alguma coisa imperfeitamente. Mas, conhecer algo, é fazer o quê imperfeitamente? Nós temos a sensação, mesmo com o conhecimento efetivo de algo, que ele nunca é “completo”. Sempre falta algo, porque tudo na realidade está conectado numa cadeia ilimitada e, na verdade, infinita. Todo o conhecimento que você tem de algo esbarra em outra coisa que você ignora, necessariamente. Ou seja, além da experiência da opinião, e da experiência do conhecimento concreto, há uma experiência além do próprio conhecimento efetivo, que é como uma expectativa ou uma antecipação pelo sentimento de ausência, de ignorância, de algo maior ainda. O que sentimos ausente, aquilo que ignoramos, é a própria Verdade. E esta ausência é, de certa forma, o limite final da nossa forma de ser, porque só Deus é a Verdade infinita, noesis noeseos.

Por que estou dizendo tudo isso? Porque na sua experiência cotidiana, você de certo modo vive todas estas possibilidades do conhecimento humano: desde a mais simples sugestão de algo, um desejo ou uma impressão momentânea, passando pelas opiniões que te orientam a decidir as coisas com eficiência, chegando até as capacidades de concepção científica e, no limite, na contemplação quase mística, ou já mística, em êxtase, do Logos infinito.

Se você quer realmente entender do que se trata a filosofia, você precisa compreender algumas coisas.

Em primeiro lugar, que o ser humano habita “dimensões diferentes”, que são nada mais que possibilidades internas da sua própria alma. Estas vão desde as mais baixas, ou complexas, ou compostas, como os animais com focinho na Terra, até as mais altas e mais simples, como os anjos voltados ao Céu. Tudo isso está dentro das nossas almas, e somos nós os responsáveis por alimentar mais um modo de vida ou outro.

Em segundo lugar, é preciso saber que os níveis mais misturados ou complexos da realidade, os mais terrestres, são os mais ligados ao fluxo da temporalidade, das coisas que passam, que são e deixam de ser, do impermanente. E os níveis mais simples e puros da experiência humana são os mais ligados ao que é atemporal, das coisas que não passam, não deixam de ser, do permanente.

Em terceiro lugar, e consequentemente, é preciso aceitar que 99,9% da população do planeta Terra está lutando, com unhas e dentes, para chegar apenas a uma opinião ótima, ou seja, a uma convicção prática que lhe permita ser maximamente eficiente com o menor esforço possível, para se obter o máximo de vantagens no mundo da experiência temporal, terrestre. Esta é a luta básica do ser humano, é o “pó da terra” que a Bíblia ensina que somos. Pois bem, acostume-se com a idéia de que a grossa maioria dos seres humanos estão vivendo a vida de “pó da terra”. Não há tempo para a busca do conhecimento, porque é preciso chegar antes àquele domínio da opinião ótima, é preciso “vencer a terra”, ou como costumamos falar ou ouvir frequentemente, “vencer na vida”.

E, aí é que está, se você ama o que é permanente (a Verdade, a Beleza, o Bem), você simplesmente não quer saber de vencer na vida, porque esta vida prática é, na realidade, apenas o “pó da terra”. Se você deseja filosofar verdadeiramente, você não quer mais saber de vencer a Terra, você quer o Céu, que é algo infinitamente melhor, mais rico, e mais perfeito!

A lembrança desta possibilidade real para as nossas vidas, a despeito da imensa e esmagadora resistência social ao redor, dos 99,9%, é a única forma de se prosperar filosoficamente (e não só filosoficamente, mas artisticamente, e mesmo espiritualmente). Todas as filosofias já mediadas pela cultura, mesmo pela cultura mais refinada do mundo, sem esta tradição fundamental da busca do saber como algo sagrado (ou seja, de valor inestimável, incomparável com os bens terrestres), são extremamente impotentes e iludidas, no fim das contas. E acabam participando do mesmo sistema da doxa, embora esta seja muito elegante e aparentemente profunda, exatamente como na época de Sócrates haviam, então, os sofistas. Num mundo assolado por uma ignorância generalizada de proporções alarmantes, alguém que fale mais bonito já se torna “formador de opinião” e até, quem sabe, “cientista”. Arrastam consigo, estes beletristas, as pessoas já meio confusas, a uma confusão definitiva e infernal, o que leva as pessoas a rebelião, seja como ceticismo, relativismo, ou até finalmente o niilismo mais extremo.

Eu criei a estrutura dos Doze Temas como forma de simplificação, para que pudéssemos agir mais diretamente na lembrança dos elementos essenciais da nossa experiência de vida, sem corrermos o risco de nos perdermos nos insuportáveis labirintos da cultura mais bem educada do mundo. Confiei, como confio ainda, que a simples tentativa honesta e direta de se narrar objetivamente a nossa experiência de vida nos leva a reconhecer conhecimentos imensamente mais valiosos que toneladas de livros poderiam dar; os quais, por sinal, são muito mais bem lidos depois desta formação mais fundamental, desta educação básica. Os Doze Temas formam uma armadura de uma possível cosmovisão. Mesmo que qualquer aluno queira se desviar do propósito do método, certos assuntos, como a Morte, nosso Tema IV, simplesmente não permitem a desconversa, o trato do assunto como mero “conteúdo de estudo”. A filosofia busca a realidade mesma. O conteúdo da filosofia é o próprio mundo real.

A simplificação é necessária, e ela é a própria atitude de negar a desconversa, a enrolação, e ir mais direto ao ponto. Mas —e isto é o mais importante aqui, é a própria razão de escrever este documento—, esta simplificação objetiva não é apenas o meu método como professor, mas tem de ser o método do aluno também. Se ele não souber narrar para si mesmo, em primeiro lugar, todas as suas experiências da vida do dia-a-dia desta forma direta, procurando uma objetividade sempre mais afiada, sempre mais perfeita, o aluno vai inevitavelmente se intoxicar novamente com os hábitos mentais da atmosfera da doxa que o circunda no ambiente social. Não tem jeito. A alma não pode ser “desligada”: você está sempre se informando, e conduzindo a sua vida, de acordo com alguma régua, alguma orientação. Se você não buscar ativamente esta orientação inspirado nas suas possibilidades superiores, a episteme e até a própria Verdade como modelo de perfeição, fatalmente reunirá e usará as idéias presentes no seu ambiente mais imediato e conveniente. Podemos dizer, de certo modo, que a simplificação da via filosófica é uma espécie de “método crítico”, a capacidade de processar de forma atenta, 24 horas por dia, as informações do mundo, fazendo as devidas comparações. Isto é, em suma, a dialética, o método filosófico por excelência.

Mas (importante!!), a dialética não é a arte de discutir, de comparar discursos, é a arte de buscar o verdadeiro, inspirado pela idéia superior, celeste mesmo, de Verdade. Isto confunde muito, mas muito, a maior parte dos alunos. Acham, frequentemente, que filosofar é discutir idéias, argumentos, melhorar a opinião. Isto é a retórica. A dialética é já uma espécie de relacionamento com a Verdade, de amizade e de amor, entendendo que o Logos forma e ordena todo o universo, e que é amável pela sua própria perfeição. O conteúdo da retórica são discursos, mas o conteúdo da dialética já são as realidades do mundo, e as idéias impressas nesta realidade, no sentido ontológico. A retórica trata do discurso dos homens, que serve para que eles mesmos se movam no mundo, e façam mover uns aos outros. A dialética trata do discurso do Logos, que serve para ordenar e mover toda a realidade, e que ilumina o ser humano com a contemplação do que é real.

É claro, óbvio, evidente, que um aluno incomodado com tudo o que é transcendente e que lhe lembre religiões ou crenças, vai ter uma dificuldade extra para resolver consigo, para entender esta atitude de amor à sabedoria. Vai ter de primeiro limpar as suas próprias opiniões a respeito do assunto, para poder compreender a diferença essencial que há entre discutir opiniões e buscar o conhecimento, no sentido superior e mais nobre de “conhecimento”, o conteúdo do Logos que fundamenta e ordena o universo.

Um programa de trabalho

Gostaria de conversar com os alunos a respeito de um programa de trabalho para o futuro próximo, que envolva algumas atividades mais organizadas que os meros encontros casuais. Segue uma lista de sugestões:

  • Pedidos de comentários a posts do site
  • Envios de perguntas diretas
  • Pedidos de comentários a filmes
  • Organização de encontros com assuntos escolhidos pelos alunos

Como já expliquei anteriormente, aprendi a respeitar minha própria forma de trabalhar, a qual é muito mais fluída e rica no modo reativo, em resposta aos estímulos externos. Estas idéias acima podem servir para que os alunos possam indicar os seus interesses, e para que eu oriente então o trabalho como um todo.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s