Lákhesis

Para que seja imortal, a alma precisa ser livre.

A Liberdade é dada, a despeito de todo o mal possível, em virtude de um projeto superior, que dignifica e eleva a própria alma ao seu estado ideal. Tudo o que não presta no mundo é resultado desta dádiva, para que o próprio mal fique neste mundo, nesta ratoeira, nesta “ilha de Lost”; o projeto é que o mal fique preso para sempre, e a alma, liberta, alcance o seu fim.

A Liberdade da alma consiste em poder contrariar a sua própria essência, a sua própria forma. Sem tal liberdade, a alma não teria a sua parte de poder, que é requerida para que a sua semelhança com o Absoluto seja completa.

Ora, ser livre para contrariar a si mesmo consiste, em primeiro lugar, em negar a sua circunstância mais terminal, o conjunto das graças e das desgraças da vida humana.

O Destino da alma humana, como apresento no Tema IX, é a reunião destas forças externas incoercíveis que pressionam o indivíduo a seguir o seu caminho conforme a determinação superior do seu próprio fundamento, que não forma só a sua esseidade individual, mas toda a acidentalidade do mundo exterior. Mas, por mais potente que seja tal pressão, é dada a Liberdade (Tema V) ao homem para que aceite ou não o caminho indicado.

A aceitação do Destino, nestes termos, não pode ser a submissão forçada a um esquema externo sem sentido, por pura crença ignorante. Tem de ser a aceitação aberta, que busca ser informada pelas determinações do Destino, a fim de que a alma possa trilhar o caminho individual que lhe é próprio.

Como um escultor, trabalhando o mármore, usa de várias técnicas, o Destino trabalha a alma humana de maneiras diferentes. O mármore ainda não trabalhado é a alma humana em estado bruto. O escultor, às vezes, vai limpar ou polir, ou fazer trabalhos delicados para dar graça à sua obra. E, às vezes, vai tirar grossas lascas de material, com golpes mais violentos, para extrair o que não faz parte do objetivo.

O Destino humano traz, assim, os seus momentos de beleza, que fazem sentido e inspiram, como também traz os seus momentos de negação, de privação. E tudo isso, conjuntamente, colabora para que a alma possa tomar aos poucos a sua forma ideal, essencial, que estava escondida por traz da brutalidade inicial.

Ser otimista ou pessimista, simploriamente, consiste em aceitar mais as graças ou desgraças, sem captar o fundo mútuo, o denominador comum, entre estas duas situações humanas, ou seja, o objetivo formador da alma mais de acordo com o seu projeto essencial. Ser realista, por outro lado, consiste em aceitar a realidade externa como condição equivalente e necessária para a vitória da essência, a formação da alma de acordo com seu ideal individual.

Mas é praticamente impossível, sem que haja uma revelação direta, que a alma consiga desenvolver os dons da aceitação do seu Destino, sem que ela esteja aberta a conhecer este destino como seu, como sua própria vontade profunda, e não como uma imposição externa. Mas, a abertura da alma ao conhecimento e consequente aceitação do seu Destino, não é uma atitude espontânea do indivíduo. Espontaneamente, o indivíduo é aquela “alma brutalizada”, sem chances de desvendar, com suas próprias forças, o significado profundo que lhe aparece na própria vida. Ora, sem a providencial revelação direta ao indivíduo do sentido do seu Destino individual —a qual podemos sempre desejar, mas nunca podemos exigir—, o que resta ao ser humano é a educação da alma, através da transmissão da tradição de revelações passadas, que lhe permita aprender esta arte. A escolha do Tema IX entre os Doze é significativa da importância deste aprendizado, que é absolutamente fundamental.

Compreendi recentemente no simbolismo astrológico que os antigos realmente sabiam o que estavam fazendo, e só o podiam fazer mesmo através da revelação, e não há como ser de outro modo.

O “caminho da Lua” (um termo que uso licenciosamente, por ora), que consiste na trajetória por Saturno e Júpiter, é, no simbolismo destes dois planetas, em grande parte o que eu queria dizer com o Tema IX, se não for até exatamente isso. Saturno simboliza as “marretadas no mármore”: o “não”, a privação, a restrição, a limitação da vida, não contra a alma, mas a favor dela, pois aquilo que é negado é justamente o que não participa harmonicamente da forma ideal daquela alma. De repente, ao invés de tragédias e fracassos, Saturno vai na verdade simbolizar a libertação do que não é viável, do que não é bom para aquela essência, do caminho que não deve ser trilhado. Júpiter, por sua vez, simboliza a valorização, a abundância de graças, de graciosidade do que é gratuito. Porque, sem a recepção também desta forma de pressão externa, a alma se perde no mundo, continua “brutalizada”, sem uma coisa que lhe atraia ao que é bom e superior. Este é, sem dúvida, um aprendizado de longo prazo, para a vida inteira. Daí que estes dois planetas são os mais lentos e mais distantes, representando as tendências e pressões que devem ser aceitas como inescapáveis, e isso benevolamente, a favor da alma, libertando-a do que não lhe tem serventia, e concedendo a ela o que lhe sustenta e inspira.

A própria Lua, no seu simbolismo, tem mais a ver já com o Tema XI, ou seja, já a identificação da alma não apenas com o seu Destino circunstancial, mas com a sua razão íntima de ser o que é individualmente, a sua esseidade. Este já é o processo da Individuação. Porém, para que esta Individuação se processe ordenadamente, é necessário antes percorrer o caminho da aceitação, seja da negação libertadora, ou da gratidão pura. E isto ocorre naturalmente, porque a alma primeiro encarna neste mundo. Para que se religue à sua origem e cumpra a sua trajetória mais perfeita, ordenada pelo Céu, é preciso lidar antes com a Terra, porque aqui embaixo mesmo é que existem os sinais do caminho a percorrer, através da convergência das acidentalidades da vida, desde o nascimento.

Vejam só vocês o que é o simbolismo natural… quanta beleza, e quanta verdade. A alma, no “caminho da Lua”, deve ser como o mármore: dócil, aceita o trabalho do escultor em si mesmo, porque deseja ser formado, para se tornar algo mais do que é.

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