Dialética histórica

Leviathan e Behemoth

O mais brevemente possível —porque já está cansando mesmo—, é preciso evidenciar esta limitação maciça, grosseira mesmo, da “direita” em geral, no Brasil, de entender o que qualquer socialista bem educado conhece como “dialética histórica”.

A mentalidade revolucionária, através de seus movimentos socialistas e esquerdistas,  em suma do movimento revolucionário no seu amplo sentido, não se identifica perfeitamente, jamais, com nenhuma entidade, partido ou pessoa. As entidades e as pessoas representam o movimento revolucionário dentro da dialética histórica conforme a conveniência para o próprio movimento, podendo ter, em dias diferentes, tanto papéis de identificação essencial, quanto de oposição.

Não existem idéias revolucionárias “puras”, que possam ser defendidas ou atacadas de uma vez por todas, e que se possa grudar nos inimigos. As idéias revolucionárias são disseminadas dentro da dialética da história, ou seja, dentro do jogo das forças políticas e culturais previamente existentes, usando destas forças tal como elas já se apresentam, as “reclamações do povo”. Se você deseja a revolução, você deseja o poder, e cada vez mais poder, não importando muito em nome do quê você age. Sempre tem alguém querendo alguma coisa, e querendo ser defendido e protegido, esse é o verdadeiro volksgeist. O máximo de unidade que há na mentalidade revolucionária é a idéia de representar sempre o ideal futuro reclamado no presente pelas massas, seja qual for a composição momentânea do caldo ideológico. A dialética histórica é a pretensão de captar o significado profundo dos fatos da história através do conhecimento do desfecho desta mesma história. O próprio marxismo, apesar do seu tamanho e influência, é apenas uma forma de aplicação da dialética histórica.

Todas as idéias e tendências que existem dentro da sociedade podem ser usadas para os fins de obtenção do poder, exceto as idéias que são essencialmente anti-revolucionárias, do conservadorismo, do tradicionalismo das religiões, etc., que possuem uma outra narrativa, não-hegeliana, sobre a história. Todo o resto pode ser usado conforme a conveniência do momento, em nome do futuro ideal.

Essa característica do movimento revolucionário, de não poder ser identificado definitivamente como A ou B dentro da sociedade, o torna bastante resistente a ataques. Aliás, o terrorismo islâmico, fruto da penetração de revolucionários europeus e soviéticos dentro do Islam, possui esta mesma característica, o que o torna um inimigo formidável para as democracias ocidentais, através da guerra assimétrica.

Pois bem. Se você quiser combater o movimento revolucionário, a sua primeira obrigação é não participar do seu esquema dialético, ou seja, não jogar com os elementos com os quais próprio o movimento está querendo que você jogue para que ele vença. A única forma de resistir ao jogo revolucionário é, assim como num debate com o diabo, você não querer ser mais esperto que ele. Não se vence isto com malícia, porque a malícia é a própria essência da máquina revolucionária. Para ser um conservador de verdade, você tem que denunciar o movimento revolucionário em todas as suas formas. Como diria o nosso Nelson Rodrigues, “sou um reacionário: minha reação é contra tudo o que não presta”.

Não é preciso estudar Hegel. Mas é preciso aceitar que o revolucionário estudou, e que isso não permite mais pensar imediatamente da forma linear, da lógica política tradicional, do tipo “amigos” e “inimigos”. Existem, sim, os dois lados; mas, se teoricamente esta distinção é clara, na prática do jogo político, a identificação se torna um problema, por causa do método dialético. E aí é que está a questão. A direita não entende a dialética histórica revolucionária como o que ela é: um método político, prático.

A “direita” brasileira, em sua grande maioria, não tem capacidade para compreender as sutilezas esquerdistas em ação. Compreendem teoricamente as “idéias” esquerdistas, mas na hora da briga, não conseguem ver o que está acontecendo. Porque você está se preparando para o debate de idéias, enquanto o seu oponente está se preparando para o homicídio.

A superioridade esquerdista é acachapante. Intelectualmente, hoje, o esquerdismo nem apresenta tanta superioridade assim nos seus representantes mais eminentes, mas, como a sua técnica política já está pronta faz tempo, a esta altura eles já são dialéticos espontaneamente, foram bem adestrados para isso.

É triste, mais triste ainda do que ver a cachorrada esquerdista em ação, assistir a direita brigar uma luta perdida desde o início, e isso por sua mais pura ignorância e, muitas vezes, ignorância pretensiosa, com uma trágica confiança em si mesma.

E já é, não tanto motivo de tristeza, mas até de riso, ver os militantezinhos de direita achando que já superaram de longe Olavo de Carvalho, sem conhecer um décimo do seu robusto pensamento, especialmente em filosofia política, e se achando os novos combatentes legítimos de uma direita mais inteligente. É ridículo. Pateticamente desproporcional. Sinal dos tempos.

Uma farsa grotesca se desdobra bem diante do focinho dos esclarecidos de plantão, e eles, se achando muito espertos, acham que estão assistindo alguma disputa real, onde, aliás, suas opiniões poderiam significar alguma coisa. Não sentindo sua própria pequenez e irrelevância, os nossos direitistas modernosos não conseguem sentir a força real do oponente, e preferem mesmo acreditar no teatro do dia, do que ceder a um pensamento que tacham de conspiracionista, paranóico e fatalista. Isto se chama falta de humildade. A punição, imediata e inescapável, é participar deste circo como palhaços.

A esquerda merece dar uma surra nestes, porque mesmo que sua causa seja injusta, há alguma beleza na submissão do fraco teimoso e indolente diante de uma força superior e bem preparada. Só espero, eu mesmo, não me tornar um sádico no decorrer deste processo. Gosto de crer que às vezes só a humilhação total, o fundo do poço, pode resgatar o senso da realidade, e isto é melhor do que viver confortavelmente de ilusões. É uma forma de educação, no fim das contas.

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