Os vingadores

O idealismo contemporâneo é o combustível básico que alimenta os motores revolucionários.

Não é possível mais fazer rebelar as massas contra uma suposta exploração, depois de a história já provar, abundantemente, que o liberalismo econômico é imbatível. Mas, as massas possuem aquela qualidade essencial básica, de serem atiçadas facilmente, através do incentivo à reclamação. Reclamar é a atividade mais típica da massa. Tudo o que precisa ser feito é a condução orientada das reclamações para o alcance de determinados objetivos táticos e estratégicos do movimento revolucionário, na luta política concreta.

Essa condução implica em liderança, não apenas de gangues e da militância stricto sensu, mas das tendências da opinião pública, dentro da guerra cultural. Este é o mundo de Gramsci, e da Escola de Frankfurt.

Ou seja, os líderes revolucionários são hoje —como aliás sempre foram—, idealistas, vendedores de futuro. O topo do movimento revolucionário pode, evidentemente, estar já bastante consciente da falsidade inerente ao idealismo revolucionário, afinal estes são os próprios interessados no poder real. Mas, na hierarquia intermediária, no baixo clero, o movimento requer aqueles idealistas mais ingênuos que são, et pour cause, mais sinceros e influentes na sociedade.

Olavo tem razão, quando denuncia “o maior problema do mundo” como justamente a posição social deste grupo crítico, que não é nem a liderança política nem a massa ignara: são os gênios, maiores ou menores, que não conseguem ocupar posição reconhecida dentro da sociedade concreta, mas que também não conseguem abandonar seu idealismo essencial. Não conseguem fazer parte do mundo, mas também não conseguem se alienar dele. Estes são os agentes cooptados pelo movimento revolucionário, e que eventualmente sobem até os postos mais elevados da hierarquia, tornando-se verdadeiros monstros.

Vou dar um exemplo. Um dia destes estava vendo uma denúncia de uma página de um livro de história usado nas escolas, que “ensinava” a diferença dos modelos capitalista e socialista através de duas imagens: numa figura, os operários trabalhavam exaustivamente em tarefas sem sentido, enquanto o dono da fábrica, de braços cruzados, ficava por trás monitorando tudo como um carrasco; na outra, sem a figura do dono, máquinas avançadas faziam todo o trabalho pesado, enquanto os “operários” podiam ficar livres para fazer as suas coisas: ler, escrever, assistir vídeos, etc. Não vou me dar ao trabalho de explicar o quanto esta propaganda é porca e nonsense. O que me importa aqui é identificar o espírito da propaganda, a sua engenharia.

É evidente que o verdadeiro operário, o trabalhador manual que não possui muita instrução e que geralmente também não quer muita instrução, não é o alvo desta peça. O alvo são os idealistas, aqueles que desejam trabalhar com idéias, arte, etc., e que se vêem aprisionados pelo “sistema”; porque são estes, e não o proletariado, que vão realmente fazer a revolução, que vão realmente se revoltar contra o status quo, e que vão liderar as massas.

O que Adolf Hitler e George Soros podem ter em comum?

Ressalvadas as teses histórico-biográficas que contestem esta hipótese, o fato é que tanto Hitler quanto Soros, nas suas respectivas épocas de formação, possuíam interesses outros, diferentes dos que acabaram perseguindo na vida adulta.

Hitler foi um artista rejeitado. Soros, um pensador rejeitado. Ambos justificaram retroativamente, depois de alcançadas as suas posições de poder no mundo, que não queriam mesmo aquelas coisas de juventude, que o seu destino era outro, como a raposa fala das uvas na fábula de Esopo. Mas, dando-se atenção suficiente às suas histórias, fica marcada a tremenda frustração pela rejeição do mundo, e o retorno furioso dos “titãs excluídos” à cena histórica, “na forma de furacões”.

Não seria melhor ter um Hitler artista, do que ditador? Não seria melhor ter um Soros escritor ou professor, do que financiador de ditadores?

Poder-se-ia alegar que Hitler era um artista medíocre, e que Soros não chegaria a lugar nenhum com a sua Theory of Reflexivity. Mas, justamente o que estou dizendo é que, para todos nós, toda essa mediocridade seria muito mais bem-vinda, do que a ação vingadora destes agentes.

Qualquer pragmatista materialista, positivista-cientificista, vai dizer que o problema é de “educação”, ou seja, de conseguir introduzir estes excluídos dentro do establishment. Tal resposta equivale a uma confissão de ignorância da natureza do problema real.

O idealismo, na sua essência, não pode ser cooptado pelas estruturas sociais de hoje. Porque o idealismo representa justamente a capacidade humana de transcender estas estruturas, de superá-las, e de levar a sociedade a novas conquistas, seja no campo social, econômico, político, científico, filosófico, espiritual, artístico, etc. Sistematizar a criatividade através das Universidades, ou coisa que o valha, equivale a destruir o verdadeiro espírito criativo, que é, e exige ser, essencialmente, livre.

Hitler não aceitava o modernismo de Viena. Tinha idéias estéticas muito diferentes das vigentes na moda da sua época. Não sendo aceito, e sem fazer acordo, ele vinga-se mais tarde daqueles que o excluíram, decidindo como seria a arte em todo o Reich na base da canetada ditatorial, e mandando os modernistas mais ativistas para campos de concentração como doentes mentais.

Soros, por sua vez, sem querer curvar-se perante os requerimentos e exigências do ensino acadêmico, volta depois, bilionário, fazendo os reitores beijarem os seus pés, fundando ele mesmo universidades, comprando platéias inteiras de interessados nas suas idéias sobre Reflexivity, Open Society, etc.

Poder-se-ia, ainda, responder que o idealismo é a própria origem do problema, o que equivale, novamente, a uma recusa dos termos fundamentais da questão: o fato de que há pessoas mais capazes e mais interessadas em coisas elevadas, e que se elas não fizerem sua pressão no mundo por bem, o farão por mal.

Há quem diga que Hitler e Soros são simplesmente tipos patológicos, que devem ser excluídos de qualquer consideração sociológica mais séria. A conclusão de tal pensamento poderia ser, entre várias possibilidades, a da construção de hospícios para idealistas, onde talvez eu próprio seria um paciente. Talvez mais modernamente ainda, se poderia criar programas de suicídio assistido para os “inarticulados”, para os “socialmente desajustados”. Ou, no mínimo, deixa-se a esses nossos miseráveis do mundo as “soluções” de sempre: o esquecimento através das drogas, do álcool, de todos os vícios entorpecentes, alienantes.

Enfim, o que é mais fácil é a negação do problema real. E quanto mais forte for a negação do mainstream, maior será a força dinâmica do movimento revolucionário na captação dos talentos idealistas.

O que dói mais para a sociedade é reconhecer que os tipos patológicos são alimentados, são incentivados, pela própria perversidade e limitação das nossas crenças, pelo sufocamento cotidiano das personalidades.

É preciso que os burgueses e conservadores criem os seus próprios espaços para a integração dos idealistas, dos pensadores, dos artistas e dos sonhadores, sem querer reprimi-los com sistemas universitários e mercadológicos altamente broxantes. Sem isto, os revolucionários continuarão trazendo para si todos estes talentos criativos, ou ao menos obterão o nihil obstat dos idealistas inconformados, que não querem militar nas fileiras revolucionárias, mas também não conseguem aceitar a falta de sentido do “sistema”.

É claro que esta questão é complexíssima, e que envolve e exige conhecimentos muito vastos, dos quais por sinal eu não me declaro portador e dominador. Aponto, apenas, para esta questão fundamental, e faço algumas considerações finais:

1) a laicização ocidental tem alta carga de culpa nesta equação. Se o máximo que se permite é a ética protestante capitalista, inevitavelmente os talentos que escapam de tal formulação ficam largados, expostos para a cooptação de revolucionários. Ou seja, é preciso fazer algum resgate da origem dos valores ocidentais na tradição cristã, judaica e romana, e através disso revalorizar talentos que hoje não conseguem ser detectados;

2) é preciso renovar o senso de responsabilidade social antigo e da caridade. É preciso elitizar a burguesia de algum modo, torná-los nobres, e lembra-los então que noblesse oblige. A coisa mais irresponsável nos nouveaux riches, e que escapa completamente ao pensamento da ética protestante, é a idéia de que ao direito de propriedade, origem do enriquecimento às custas da colaboração de toda a sociedade, não corresponde nenhuma obrigação social além do pagamento de impostos e do cumprimento das leis. É isto o que cria a horda revolucionária, por baixo e por cima: luta-se contra o capitalismo tanto reclamando da exploração social, quanto exigindo aumento dos impostos para grandes fortunas. A Igreja deveria liderar a solução deste problema, promovendo a troca da luta de classes pela virtude da caridade. A diminuição da pressão social liberaria o capitalismo para alcançar novos patamares, realmente impactantes, de produtividade. Isto deveria ser uma bandeira permanente da Igreja, porque ela é uma das poucas forças presentes no mundo que ainda tem alguma autoridade para ensinar tal coisa ao mundo;

3) entre os idealistas mais sinceros e ainda não envolvidos pela geléia revolucionária, é preciso criar iniciativas sociais, criar espaços e alternativas, para competir com a agenda socialista. Afinal de contas, é preciso mostrar que existe alternativa para a geração atual, mostrar que não é preciso ficar entre o materialismo pueril, a esterilidade positivista, e a mentalidade revolucionária. É o que, modestamente, estou tentando fazer conforme aprendi, além de vários outros que não são nem acadêmicos, nem empreendedores capitalistas, nem revolucionários.

É muito difícil construir isso, mas vale a pena, para que no futuro haja menos vingadores de vidas perdidas no mundo, e mais artistas e pensadores, ainda que medíocres.

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