Procura-se o ser humano

Diogenes

O UOL publicou hoje uma notícia sobre uma pesquisa científica com o título “Consciência tem pouco controle sobre decisões, indica nova teoria” (http://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/redacao/2015/06/25/consciencia-pode-ter-menos-controle-sobre-escolhas-do-que-se-acredita.htm).

A notícia, como o Chacrinha, certamente não veio para explicar, mas para confundir. Senão vejamos.

Primeira linha: “A consciência, aquele diálogo interno que parece controlar seus pensamentos e ações, pode ser bem menos poderosa do que se pensa.”

Esta introdução parece bastar ao UOL para definir o que é consciência, ou pelo menos nos lembrar de uma definição qualquer de consciência que seja tão óbvia e clara, que nem pareça necessário quaisquer esclarecimentos a respeito. É como se dissessem: “sabe a consciência? aquele diálogo interno? então… pá pá pá”, e seguem em frente com grande naturalidade. A incoerência interna da própria frase mostra que não passa de uma figura de linguagem, um recurso que só pode ser usado quando temos a certeza de que o sentido desejado da sua aplicação não será perdido. Exceto, é claro, quando você vem para confundir, e não para explicar. Como é que um “diálogo interno” pode “controlar seus pensamentos e ações”? Desde quando um diálogo tem poder para fazer alguma coisa? Ou eu estou ficando burro mesmo, ou as pessoas não sabem do que estão falando.

A notícia segue divulgando e citando o estudo da revista Behavioral and Brain Sciences (http://journals.cambridge.org/action/displayAbstract?fromPage=online&aid=9795408&fileId=S0140525X15000643). Conforme tentamos entender do que se trata o assunto, cresce aos poucos a impressão de que a confusão não está só na notícia do UOL, mas na própria coisa noticiada.

Infelizmente o abstract do artigo da revista também não define o que é a consciência. Seria preciso ler o artigo na íntegra para ver se em algum ponto alguém se preocupou em definir o que é o objeto do próprio estudo em questão, o que creio que deve ter ocorrido. Vejam só, eu ainda quero acreditar na boa fé das pessoas. Não consigo ler o artigo pois este custa US$ 40.00 e a grana não está me sobrando a ponto de eu pagar para ver se estes nobres cientistas, que estão faz dez anos pesquisando este negócio, conseguem definir a consciência antes de começar a falar dela.

No geral, a julgar pelo que tomei conhecimento até aqui, o que me parece é que ainda estão procurando o ser humano. Explico.

A suposta passividade da consciência deriva do fato do estudo buscar explicações para a consciência no sistema nervoso. O sistema nervoso, como parte do corpo, é naturalmente passivo. Ele é, no máximo –mecanicamente falando– um transmissor das sensações desde a experiência física até a consciência humana. Acontece que se decidimos colocar a própria consciência humana dentro do sistema nervoso, ela terá necessariamente, quer se estude o assunto por dez anos, dez séculos ou dez milênios, a mesma passividade que é característica do veículo que lhe foi atribuído, i.e. o sistema nervoso. Porém, se a nossa experiência nos diz que nós tomamos decisões, e mais ainda, que nós nos referimos à elas responsavelmente, conscientemente, essa autonomia parece contradizer a pesquisa que atribui passividade à consciência humana, tal como eles a posicionam. Ao invés de simplesmente descartar a idéia de que a consciência esteja localizada no corpo, os cientistas preferem seguir com sua premissa e declarar, então, que não é a consciência que toma decisões, deve ser uma outra coisa qualquer que ainda não foi localizada. Estão procurando o ser humano, mas continuam não encontrando.

E não vão encontrar nunca, porque o ser humano cientificamente considerado foi despedaçado. Mutilaram, jogaram os pedaços para lados diferentes, e agora ficam se perguntando: “onde está?”.

Desde Descartes a alma e o corpo não se bicam mais. E desde Kant, a alma não só não tem mais nada a ver com o corpo, mas sequer pode ser conhecida em si mesma. A carnificina foi tão convincente que hoje em dia temos que tomar até algum cuidado ao falar em voz alta sobre a alma, porque qualquer um pode presumir que estamos a falar de algo que não existe, e que nós não batemos bem da cabeça. Mas o fato é que depois dessa autópsia macabra operada pela filosofia moderna, não será mais possível encontrar cientificamente aquele ser humano que todos continuamos acreditando que somos: integrados, unitários, totais. Ao invés de abandonarem Descartes, Kant e toda essa estrovenga moderna, os cientistas preferem abandonar a sua própria intuição da realidade vivida.

Uma pena. Mas, graças à Deus, não vivemos numa ditadura cientificista, pelo menos ainda não. Então podemos fazer diferente. Lonergan, Zuribi e outros decidiram fazer diferente.

Mas a coisa pode ficar ainda um pouco pior, vejam só. O UOL cita o professor de psicologia Ezequiel Morsella: “Para o professor, uma das dificuldades de se estudar a consciência está no uso da própria consciência para estudá-la. ‘Durante a maior parte da história humana, a caça e a coleta e outras preocupações mais urgentes requeriam ações voluntárias executadas rapidamente. A consciência parece ter evoluído para esses tipos de ações, e não para entender a si mesma’, concluiu.”.

Espantoso! O que é que fizeram Sócrates, Platão, Aristóteles, e mais tantos outros filósofos nos últimos dois mil e quinhentos anos, meu Deus do Céu?! Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, Leibniz… todos uns coitados. Pobres filósofos! Achavam que estavam entendendo a realidade humana, mas na verdade estavam cegamente ocupados com algo não muito mais avançado que “a caça e a coleta e outras preocupações mais urgentes”. Agora, para a nossa sorte, a consciência que “parece ter evoluído para esses tipos de ações” felizmente tomou seu rumo correto, com a moderníssima pesquisa do professor Morsella.

Isto é uma grande palhaçada. E um vexame público dos grandes.

O positivismo mostra a sua grande fraqueza: uma ignorância imensa construída por uma seletividade caprichosa, birrenta, orgulhosa e arrogante. Enquanto os cientistas esmiúçam e espremem o pobre sistema nervoso procurando o ser humano, dizendo “aqui não está! ali também não está!”, a nossa identidade vai parando cada vez mais longe do nosso corpo. Talvez esteja em outro planeta, ou outra galáxia. Quem sabe até um dia um alienígena bondoso não nos faça o favor de trazê-la de volta? Imagine o espanto destes pesquisadores se estudassem Xavier Zubiri, que diz que as nossas sensações são inteligentes! Eles não aguentariam, seria uma crise terrível. A verdade estava debaixo dos narizes deles o tempo todo e eles não viam… seria mais uma devastadora humilhação.

A parte boa da história: enquanto teoria, esse é um problema dos positivistas, não nosso. Podemos seguir tranquilos ignorando essas notícias estranhas sobre pesquisas inúteis.

A parte ruim da história: enquanto realidade social, esses caras têm poder e prestígio, tanto que esse negócio chegou no UOL, um portal de quinta categoria do terceiro mundo. O problema pode se tornar nosso se quiserem fazer alguma coisa prática com isso. Dizem que esse trabalho tem “grandes implicações para o estudo de transtornos mentais”. Mas o que fazer quando o próprio estudo parece ser um tipo de transtorno mental?

 

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