Um discreto heroísmo

Socrates

A realização do projeto filosófico depende da resistência ou vitória contra pelo menos três possíveis camadas de dificuldade:

1) a dificuldade essencialmente potencial da recusa psicológica dos indivíduos que ouvem e rejeitam o discurso filosófico, porque se identificam pessoalmente com suas próprias opiniões. É impossível não ter de enfrentar uma resistência mínima neste nível, pois a crítica da opinião e a sua depuração dialética constitui essencialmente o método filosófico. Só o ser humano filosofa, aliás, justamente porque só o ser humano vive “entre mundos”. Os seres que são imunes ao desafio dialético são animais ou anjos: ou desconhecem a esfera da razão objetiva, ou estão imersos na própria dimensão da sabedoria e são alheios a qualquer tipo de erro de juízo temporal;

2) a dificuldade acidental social de participar de uma comunidade concreta que hostiliza a busca da sabedoria, cuja cultura esteja impregnada de reações e hábitos frontalmente contrários ao projeto filosófico. É o caso de qualquer comunidade pós-Iluminismo, pós-positivismo, pós-marxismo, etc. Podemos simplificar, para todo o Ocidente, afirmando: é o caso de toda comunidade pós-cartesiana e pós-kantiana. Os frutos mais avançados dos grandes erros modernos são claramente observáveis na nossa época: um tempo onde imperam o ceticismo, o cinismo político e intelectual, os desconstrucionismos de todas as linhas, os niilismos, as ideologias de todas as correntes que  rebaixam a atividade intelectual, etc.;

3) a dificuldade, também acidental, de não contar com aliados ou patronos socialmente relevantes que possam compensar estas dificuldades anteriores, que são inerentes ao projeto. A decadência e alienação do ensino acadêmico frustra os pretendentes à filosofia nos tempos modernos, e os força a agir com pouca força social, quando não até solitariamente. Análogo de certa forma ao próprio cristianismo, o projeto filosófico escandaliza os crentes do intelecto: como pode uma autoridade tão grande ter tão pouco poder neste mundo?

A grande força que compensa a realização do projeto filosófico no meio destas dificuldades é a própria força da sabedoria da verdade que se busca. E esta é uma força adquirida pelo indivíduo, no âmbito da sua consciência. Esta força se manifesta sem valoração social externa, e muitas vezes até mesmo sem sequer o reconhecimento intelectual de qualquer testemunha externa. A invencibilidade da verdade não se converte em quaisquer benefícios ou vantagens sociais, e é totalmente dependente da vontade da consciência individual de cada pessoa que é apresentada à possibilidade do projeto.

Nem mesmo a força da tradição filosófica, por sua vez, garante qualquer tipo de sucesso. Pois a tradição dependerá sempre de que haja o ensino e a transmissão eficiente, que gere o mínimo reconhecimento público do seu valor. Esta atividade geralmente não acompanha proporcionalmente o valor intrínseco do trabalho de cada filósofo. A coletividade está sempre aquém da genialidade dos seus melhores indivíduos, por definição.

Em suma, tudo parece conspirar para o esquecimento e o abandono da possibilidade do projeto filosófico.

O fato de que ele continue avançando, mesmo com todas as dificuldades, ao longo do tempo, só atesta repetidamente a verdade de que os seus realizadores são mesmo amantes da sabedoria. Qualquer coisa menor que um amor verdadeiro não bastaria para que o projeto perseverasse por milênios.

A existência da história da filosofia prova a realidade da sua proposta originária. Por muito menos, outros projetos humanos supostamente mais iluminados e esclarecidos foram abandonados para sempre.

Perseverar no projeto filosófico, buscando a verdade que a comunidade humana necessita e que frequentemente despreza, enfrentando todos esses obstáculos, não deixa de constituir um discreto heroísmo.

E o prêmio dessa atitude modestamente heróica não é outro além da própria reflexão filosófica e do ensino de filosofia: dada que esta é a ação especial do ser humano neste mundo, é nela que ele se realiza mais plenamente. Nada basta mais ao ser humano do que ser filósofo. Não corresponde isto, afinal de contas, nem que seja parcialmente, ao 1º Mandamento?

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