Educação atômica

Question Mark

Uma ou duas semanas atrás li um artigo no jornal Valor Econômico (infelizmente não consigo encontrar o link na internet, li na edição impressa), que falava da ineficácia do ensino de Finanças Pessoais. Um grupo de pesquisadores se reuniram, coletaram os dados, e chegaram à conclusão de que a maior parte do trabalho que se faz para ensinar o assunto para as pessoas é ineficaz.

O principal motivo alegado da ineficácia seria a distância no tempo entre o aprendizado do ensino e a decisão financeira dos indivíduos que deveria ser ajustada ao conhecimento transmitido.

Não quero aqui parecer gratuitamente ácido ou crítico, mas esta explicação me pareceu uma desconversa.

Sim, sou aluno de Olavo faz dez anos, e sou leitor de Reinaldo Azevedo, entre outros, que são supostamente “polêmicos”. Eu teria então algum vício polemista recebido destas influências. Mas asseguro a quem possa interessar que não há intenção alguma de polêmica gratuita. Até porque não sou lido –e pensando bem nem quero ser– por qualquer pessoa que não seja aluno meu, ou que ao menos possa ser um dia. Outros podem aproveitar qualquer coisa aqui, claro, mas não estou em busca de uma promissora carreira como blogueiro, nada disso. Posso carregar alguma ironia ou sarcasmo na linguagem empregada mas, se querem saber, para comentar as coisas hoje em dia essa abordagem até que é bastante leve.

Não é ser hipercrítico observar, simplesmente, que a alegação de intempestividade na relação entre o ensino de finanças pessoais e o aproveitamento efetivo por parte dos alunos é somente uma declaração de falta de qualidade deste ensino, e nada mais. É uma desculpa. Quando você aprende aritmética, geometria, gramática ou lógica em um nível básico, é automática a garantia de que este conhecimento jamais será esquecido. Porque a sua característica essencial é ser constituído de evidências que são, digamos, inesquecíveis. Pergunto eu: o conteúdo básico de finanças pessoais escaparia disso? É algo tão mais complexo que esses conteúdos básicos auto-evidentes?

Pode-se alegar –e quase sempre se alega!– que a base intelectual dos alunos médios é muito ruim para que os conteúdos sejam fixados. Mas, ora, a correção deste trabalho se dá justamente pela educação. É engraçado que as escolas, o “sistema educacional”, esses entes sempre impessoais, sejam culpados pela falta de qualidade do ensino de base, e quase nenhum educador ache que possa ou deva pessoalmente trabalhar para melhorar isso a posteriori. Sei que existem exceções. Aliás, eu mesmo sou exceção neste caso: já me ocorreu em aulas de ensino profissionalizante, ter que parar um conteúdo de aula para ensinar coisas mais básicas, como cálculo de proporcionalidade. Nunca me ocorreu a idéia de reclamar de uma base ruim, já que toda ocasião de frustração neste sentido se mostra também ao mesmo tempo ocasião de oportunidade, para corrigir e melhorar o que for possível.

Finanças pessoais não é um assunto, nos seus elementos fundamentais, que possa ser “esquecido” com o passar do tempo, tanto quanto não esquecemos como escrever ou fazer contas, ou simplesmente como pensar logicamente. Pior: as finanças pessoais possuem um atrativo extra que as pobres ciências matemática, geométrica e gramática não têm: o bônus do alto interesse pessoal dos alunos, que ficariam mais ricos ou mais pobres conforme conseguissem entender melhor ou pior o conteúdo. Como é que essas pessoas estão esquecendo algo que é, ao mesmo tempo, tão simples e valioso pessoalmente? Será que são tão burras, ou o ensino de finanças pessoais é que está sendo um desastre?

Os pesquisadores acham que o problema está no modo de educação integral do assunto, mais amplo e completo. A solução seria, ao invés disso, separar o conteúdo por assuntos pontualmente relevantes, que sejam ensinados em um momento mais próximo da decisão financeira do aluno.

Isso me pareceu bem estranho. Eles não exemplificaram, mas podemos imaginar.

Como seria? Você vai num banco fazer um financiamento para comprar, sei lá, uma casa ou um carro. E de repente o gerente diz: “não! você tem que fazer um curso antes!”. Então alguém te leva numa salinha para aprender a tomar aquela decisão. Poderia ser um “Curso Intensivo de Financiamento Imobiliário”. É assim que vai funcionar? Os agentes financeiros vão pedir diplominha do cidadão, antes de este tomar alguma decisão financeira?

Acho que isto seria ridículo demais, e além de tudo ineficaz, como acho que são ineficazes hoje os formulários bancários (obrigatórios por Lei) que o sujeito preenche para diagnosticar o seu nível de conhecimento financeiro antes de fazer um investimento de risco. Os agentes financeiros, mesmo obrigados por Lei, et pour cause, interpretam –tanto quanto os seus clientes!– estas exigências apenas como mais um procedimento burocrático, como tantos outros. Esta é a verdade: o conhecimento não pode ser administrado burocraticamente, e muito menos pode ser forçado por Lei!

Mesmo, e principalmente, como método educativo, este modelo que os pesquisadores esboçam para resolver o problema da eficácia do ensino de finanças pessoais é muito ruim. Eles estão achando que separando o conhecimento e ensinando apenas no tempo certo, as pessoas vão entender melhor as coisas. Só que isso equivale a comparar o ser humano com uma máquina, e isso na mais elegante das hipóteses, para não ter que compará-lo a um macaco.

A mente humana busca a ordem, senhores. Buscar a ordem significa integrar, coerir, juntar, harmonizar. Se vocês ensinam as pessoas sobre o assunto finanças pessoais e depois elas esquecem de tudo quando vão decidir as coisas, desculpem, mas é porque este ensino é uma PORCARIA. Se a pessoa não se lembra é porque o conhecimento transmitido entrou por um ouvido e saiu pelo outro, por falta de qualidade pura e simples.

Essa questão remete ao problema das especializações: um conhecimento muito destacado e afastado do resto se torna um conhecimento mais virtualizado, isso quando não se converte em ficção pura e simples. A história da ciência mostra que os especialistas vivem estudando irrealidades, até que descobrem que foram longe demais. Numa escala menor, e bem mais modesta, qualquer conhecimento se torna mais evidente ao aluno quando ele é transmitido como parte integrante da sua realidade, quando se alia e se conecta com outras coisas já conhecidas. A técnica ancestral da busca da verdade, no fim das contas, é essa: partir do conhecido ao desconhecido. O foco especializante é necessário como uma espécie de concessão provisória para dar conta de um campo mais complexo, pelo menos até que as questões principais possam ser solucionadas e reintegradas ao corpo de conhecimento mais robusto e amplo. Os antigos todos sabiam disso. Não é que eles eram gênios porque pesquisavam muitas coisas diferentes ao mesmo tempo: não, eles estudavam a realidade e sabiam que tudo se conectava de alguma forma. Nós é que ficamos burros e decidimos retalhar a realidade em pedacinhos. O melhor caminho é o inverso.

Eu mesmo tive que buscar esse ajuste no meu material de finanças pessoais: de um conhecimento mais autônomo fui ampliando para a observação da realidade financeira como um todo, e hoje sei que não posso ensinar ninguém sobre finanças pessoais sem falar algo de economia política. Os pesquisadores mais “modernos” vão na contra-mão de tudo isso.

A conclusão dos caras deixa as coisas piores ainda do que já estavam. Ao querer separar o conhecimento em pedacinhos teoricamente inarticulados, sem o reconhecimento de conteúdo integral, eles não vão ajudar as pessoas a memorizar os assuntos: vão tornar tudo mais estranho, desordenado e desconexo ainda na mente do povo! Bela solução… vamos atomizar cada vez mais a consciência humana, e ainda chamar isso de “educação”. É a educação atômica. Realmente uma bomba.

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