Na vanguarda da educação e além

Finlandia

A Finlândia é uma nação com uma história interessante. O pouco que eu já sabia do país me veio do estudo da Segunda Guerra Mundial, um assunto que sempre me interessou bastante. As vitórias do exército finlandês contra o soviético marcaram pelo espanto dos relatos da época, sobre como o pequeno e discreto país havia humilhado seu vizinho, aquele gigante folgado. Qualquer povo que dê uma surra nos comunistas merece, é claro, os nossos mais entusiasmados aplausos. No fim das contas os finlandeses conseguiram sair relativamente ilesos –comparados aos seus vizinhos– das terríveis pressões dos totalitarismos europeus do Século passado, tanto o nazista quanto o comunista.

Hoje tomo conhecimento (reportagem especial da Veja de 24/06/15, “Voando para o futuro“) de que a Finlândia continua sendo um país a viver uma história interessante, dado o seu pioneirismo na área da educação. É claro que se muitos dos elogios ao sistema finlandês partem da OCDE, a gente até torce um pouco o nariz –a instituição não é a ONU, mas é globalista o suficiente para termos algumas reservas, muitas até–, porém é notável o quanto os finlandeses parecem estar de fato na vanguarda da educação moderna.

Antes de falarmos deste vanguardismo em particular, porém, observemos algumas coisas.

O fato de que a Finlândia tem 5,4 milhões de habitantes não pode ser ignorado. Isto equivale a 45% da população da cidade de São Paulo, a uns 12% da população do estado de São Paulo, e a algo como 2,6% da população do Brasil. Se existe uma influência da qualidade da prática política sobre a educação de um país (e não creio que alguém conteste isso), e esta não deve ser pouca, então novamente a idéia da pólis no seu sentido tradicional mostra o seu valor: uma comunidade local, demograficamente mais autônoma e com identidade mais “firme” e bem constituída (sem conotações racistas ou xenófobas) revela as suas virtudes. Não que eu queira revisar o mundo agora e dizer que o nosso problema seja o tamanho dos grandes Estados nacionais. Mas, também, não digo que não o seja de algum modo. Teoricamente, e historicamente, pode-se observar a manutenção de várias virtudes políticas tradicionais em grandes países que se organizam em pactos federativos efetivos, e o maior exemplo disso são os EUA. Em resumo e encerrando este ponto: a situação da Finlândia é a situação da Finlândia. A idéia de que o modelo deles possa ser indiscriminadamente imitado é muito limitada, para não dizer tosca.

Também não posso deixar de lado, particularmente, a minha opinião de que toda a idéia de ensino universal é meio problemática. Faz sentido que todos tenham a oportunidade de se educar, sim. Mas não que todos sejam educados necessariamente, para além de seus próprios interesses individuais, e de acordo com um plano determinado, seguindo algum design social pensado como projeto de engenharia de burocratas. A matéria de Veja repete este negócio que já está, se me permitem falar francamente, enchendo o saco: “dar lugar na escola ao desenvolvimento de habilidades requeridas no mercado de trabalho, como resiliência, capacidade de produzir em equipe, etc.”. Essa visão tem como premissa a idéia de que os alunos –e estamos falando aqui em todos os níveis de educação, desde a tenra infância– são potencialmente unidades de trabalho dentro de um plano maior de mundo, e é para isto que vale a pena planejar a educação deles. É neste ponto que os globalistas (e esta idéia está na OCDE também, aliás é daí que a reportagem puxa o modelo) se parecem tanto com os comunistas, ao transformar as populações em partes de uma equação econômica qualquer. Essa visão é desumana. Ninguém tem que usar a escola para isto ou para aquilo, dentro de um plano político maior. Este tipo de mentalidade só pode sair, obviamente, de cabeças iluminadas de burocratas que nunca receberam um voto na vida, e que não têm que responder às populações, porque não as representam de forma alguma. Além disso, são esses usos da educação que limitam realmente a capacidade de pesquisa tanto dos alunos quanto dos professores, no fim das contas. Quaisquer capacidades, ou tipos de competências, não previstas no plano maior da burocracia global, tendem a ser perdidas. A própria prática de se ter um ranking global de educação, onde a performance é medida segundo esses critérios técnico-econômicos, é criticável. Sou tão radicalmente anárquico com relação ao valor da educação em geral, que não acho sequer que a relação direta entre o PIB e a educação revele a qualidade própria do ensino, e muito menos o fariam estes rankings de OCDE, ONU, etc. Até porque o reflexo realmente vital da educação na economia passa necessariamente pela atividade política. Ou seja, não é um efeito mensurável dentro do campo restrito do cenário econômico presente. Um país forte, inclusive economicamente, se faz com uma sociedade forte, i.e., culturalmente robusta e geradora de líderes políticos que desempenhem um papel crucial na condução dos assuntos públicos. O reflexo profundo da educação nessa força é muito indireto e gradual. O poder intelectual tem efeito verificável em um prazo muito mais longo do que o do poder econômico. Querer medir a qualidade da educação usando a produtividade econômica como critério, equivale a diminuir um objeto para que se possa medi-lo com uma régua mais limitada. Em suma: educação de verdade não é a simples qualificação de mão-de-obra.

Então já vemos aí essa ressalva importante ao que é nada menos que a globalização da educação. As diferenças entre as características locais de cada país são irredutíveis e, pensando bem, a tentativa de homogeneizar essas realidades já constitui um esforço do próprio plano globalista. Ou seja, é uma agenda não-educativa a priori, por ignorar e buscar mesmo transformar as características locais de cada nação em nome de um projeto de poder. Que a educação tenha que ser globalizada porque os empregos estão sendo globalizados, é, de novo, a criação de dificuldade para vender facilidade: quem disse que cada nação não possa –e mais que isso, não deva– responder por sua escolha como reagir diante do fenômeno das famosas “cadeias globais de produção”? Novamente os globalistas mostram problemas e desafios que só um mundo unido poderia resolver, de forma muito conveniente para eles próprios.

Isto quer dizer que se a Finlândia vai bem de acordo com os critérios globalistas, esta evolução é uma ilusão? Não é verdade. Este pensamento seria simplório demais. Embora o plano globalista seja megalômano por natureza, uma limitação cruel às expectativas dos seus líderes é que ainda não foi possível combinar os resultados com todo o mundo. Para fazer avançar o escopo globalista ainda é preciso agir na surdina, sutilmente, discretamente, e às vezes até secretamente. O que já é um sinal claro de que boa coisa esse negócio todo não é. No fim do dia as pessoas, por mais influenciadas que possam ser pelas diversas pressões advindas do esquema globalista, podem resolver fazer algo diferente. A Finlândia pode estar na vanguarda de um trabalho realmente bom, parcialmente alheio ao projeto de OCDE e afins.

A referida reportagem mostra esse potencial, ao exibir a busca dos educadores finlandeses pela unidade da educação, pela integração das matérias, o que é algo, ao meu ver, fundamental para uma educação realmente séria. Diz a reportagem, referindo-se ao caso Finlandês: “A realidade é multidisciplinar e requer diversos domínios para ser abarcada em toda a sua complexidade. Os gregos sabiam disso. Os finlandeses estão provando que essas e outras abordagens do passado, embora esquecidas no tempo, nunca perderam seu valor“. Ótimo! Que alguém tenha que lembrar uma obviedade como que “a realidade é multidisciplinar”, é algo que pode assustar um pouco. Mas é excelente que as pessoas digam coisas óbvias. Algo me diz que isso escapa um pouco, ou melhor, um bom tanto, dos objetivos globalistas… porque eles não querem necessariamente pessoas mais conscientes e inteligentes, só unidades de trabalho mais eficientes e mais bem integradas nas “cadeias globais de produção”.

É preciso acompanhar estes avanços com atenção. E não podemos deixar de notar, no meio da questão toda, o quanto o Brasil está jogado às traças neste cenário. Uma amostra, ainda da reportagem: “Em um ponto [nas reformas educacionais] ninguém mexe: ler um livro por semana foi, é e sempre será sagrado“. Ah! Por mim mesmo estou tentando me equiparar às crianças finlandesas, mas não consigo. Se eu me enfiar na biblioteca do meu escritório uma miserável hora por dia que seja para ler, qualquer um vai pensar de forma muito espontânea e natural que estou matando tempo, vagabundeando. O Brasil não existe. Em Junho li somente três livros, na média menos de um por semana. E ainda tem gente por aqui que acha que isso é muito, ler por ano algo entre 50 e 60 livros. O que para nós é algo quase heróico, para os finlandeses (e europeus em geral, e americanos, e japoneses, etc.), “foi, é e sempre será sagrado”. Novamente, como diria o Agamenon Mendes Pedreira, a educação no Brasil, para virar uma bosta, ainda tem que melhorar muito.

Esquecendo um pouco o Brasil, que não pode mesmo ser levado a sério no fim das contas, e voltando ao caso finlandês, perguntemos: o que poderia haver para além dessa vanguarda?

Não sou incoerente com minhas crenças. Ao meu ver, em educação, quando mais anarquia e liberdade for possível, melhor. “Ah, mas daí teríamos uma vasta população de analfabetos…”, alguém poderia me responder. Eu não acredito nisso, desculpem! A premissa de tal pensamento é a de que o ser humano não quer aprender as coisas, que ele é preguiçoso, descuidado, etc., e que nós temos que salvar essas pessoas delas mesmas com os nossos grandes planos educacionais… não posso acreditar nisso. Se as pessoas não querem aprender, elas não vão aprender, ponto final. O desejo do conhecimento é a base de tudo isso aí. No fim das contas, para escapar das armadilhas socialistas, globalistas, etc., tenho que renovar uma fé no ser humano que não sei nem de onde sai mais, a esta altura. Mas é melhor assim: ou ainda somos humanos potencialmente civilizados, ou então já somos outra coisa, e é melhor esquecer tudo isso, porque qualquer ação seria uma atenuação e disfarce da barbárie. Já estamos na barbárie? Apesar de tudo, e do meu natural pessimismo com o gênero, acho que não.

“Ah, mas os chineses estudam 479 horas por semana, são muito disciplinados, eles vão dominar o mundo enquanto somos indolentes!”, outro alguém poderia alegar. Bom, a história se encarregará dos chineses. Não preciso exercitar muito o vernáculo para mostrar que essa disciplina robótica e insana só está criando unidades de trabalho dentro do projeto comunista de poder. Ou seja, isso não está fazendo bem aos chineses enquanto povo. Só está beneficiando os seus mestres. Que grandes inteligências ou inovações vão sair daí? Só aquelas que os mesmos comunistas roubam através dos seus serviços de espionagem… Lamento muito que se louve e inveje tanto um regime ditatorial como o chinês, a exemplo do que muitos esclarecidos do ocidente faziam com a URSS no Século passado. Quem quiser se iludir que se iluda.

Deixem livres as pessoas para que estudem o quê, como, onde, quando e para quê quiserem. As pessoas precisam ser alfabetizadas, precisam aprender a fazer contas, e para além disso é com elas. Não é que esse meu radicalismo seja tão revolucionário assim, vejam bem: o que estou fazendo, no fundo, é descrever o que já é a realidade.

Mas, voltando. Por mais anárquicos que sejamos em educação, o que se pode pensar para além da vanguarda apontada pelo caso finlandês? Penso o seguinte, ainda dentro do meu “princípio geral da anarquia”, digamos assim:

1) Um resgate profundo das tradições esquecidas. Não sou tradicionalista. Só não quero jogar ouro fora, porque ouro não envelhece. Será difícil entender isso? É preciso explodir as crenças e os preconceitos acadêmicos, cientificistas e ideológicos, e resgatar a tradição ocidental inteira –desde a Antiguidade passando pela Idade Média–, furando o ridículo bloqueio que a filosofia moderna impôs sobre todas as gerações vindouras. Se será necessário destruir mesmo as próprias instituições universitárias, ou se é possível reformá-las, esta é uma decisão que cabe aos próprios interessados: os professores e os alunos. Fica só uma dica: livrem-se dos políticos e, principalmente, dos burocratas de ONU, Unesco, OCDE, etc., urgente! Não são essas lideranças que vão ensinar algo ao mundo ocidental. Pelo contrário, é o resgate desta tradição que vai revivificar a nossa identidade cultural e histórica, em defesa contra os planos globalista, comunista, islâmico, etc., se é que ainda restou alguma identidade a ser resgatada no fundo da alma dos ocidentais. Eu acho até que sim. Se nesta periferia esquecida por Deus que é o Brasil eu consigo pensar à respeito, porque não posso acreditar nas chances dos americanos e europeus, que estão em muito melhor situação?

2) É preciso definir claramente a separação entre o que é o empenho das nações no aumento da produtividade econômica pela inovação (ensino técnico), do que é a educação formativa de nível superior, conectada à tradição ocidental. Esta separação será a responsável por uma GRANDIOSA economia de recursos dos Estados e das famílias, o que por si só constituirá já um aumento relativo na produtividade, pela reaplicação de recursos que são hoje desperdiçados em fins mais úteis. Que se ofereça abundantemente às massas todos os cursos e treinamentos que lhes permitam produzir mais, mas sem planejamentos globais ou estatais, sem currículos obrigatórios, apenas como oferta de oportunidades para a satisfação dos interesses dos indivíduos de cada sociedade. Enquanto isso a educação formativa de alto nível ficará, como sempre deveria ter sido, a cargo dos poucos realmente interessados nesses assuntos, com vocação verdadeira atestada pela qualidade de suas realizações.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s