Avaaz e o direito dos caloteiros

TSIPRAS

Não aguento mais receber os e-mails da Avaaz, uma “rede de campanhas” que de longe fede a um esquerdismo globalista dos piores. O bom-mocismo destes cidadãos do mundo é insuportável. Uma coisa é ser politicamente correto. Outra coisa é ser alucinadamente correto. Isto é imperdoável a quem tenha a menor noção do que é o ser humano na sua realidade simples, essa coisa sempre aquém das nossas vãs esperanças.

Estou solicitando novamente a minha exclusão desta lista. Nunca quis me cadastrar. Participei de alguma votação online um tempo atrás e, pelo visto, de acordo com algumas miseráveis letrinhas miúdas devo ter concordado em me cadastrar nessa porcaria. Agora eles me perseguem com cada nova iniciativa, produzindo esse spam socialista. Se mesmo depois da minha exclusão eu receber uma mísera mensagem de apoio a qualquer coisa, volto aqui e solto o berro.

Não que as pessoas não possam se mobilizar para fazer o que bem entenderem na internet. A questão é: o que eu tenho a ver com isso? E, mais: tenho a oportunidade de encher o saco dos criadores dessa coisa, tanto quanto eles conseguem encher o meu? Não tenho. Então a primeira injustiça deles já é essa: dar-se o direito de importunar sem conceder a mesma chance às suas vítimas. Garanto que se fosse discutir seriamente com eles, a reação seria de uma indiferença olímpica ou, se conseguisse eventualmente perturbar o mínimo que fosse essa gente, ganharia como resposta uma mobilização desmoralizante na própria internet. É, hoje não estou muito otimista com o mundo.

Mas como poderia estar? Vejam o assunto do e-mail que eu recebi: “Lute com a Grécia“. Do que poderia se tratar? Mesmo antes de abrir o e-mail, já sentimos aquele odor característico. Lá vêm os justiceiros querendo combater o mal…

Para castigá-los, vou ler e comentar o e-mail inteiro. Vamos ver se vão gostar que alguém realmente leia e entenda o que estão dizendo.

Caros amigos em toda Europa,

Eles não sabem para quem enviam o e-mail? Apesar de ter também uma nacionalidade européia, nasci e sempre vivi no Brasil. Eu poderia ignorar a mensagem a partir daí? Ou será que para os entusiasmados cosmopolitas a Europa é o mundo, e o mundo é a Europa? Sabe-se lá…

Esta semana, a Grécia poderá ser forçada a fazer uma escolha dolorosa: aceitar as políticas falidas da austeridade ou possivelmente sair da zona euro, o que causará caos na Europa“.

A escolha dolorosa que a Grécia JÁ FEZ foi gastar mais do que podia durante anos e anos. Esquecer a história não faz bem a nenhum povo. E não vai fazer bem aos gregos. Porque vocês desconversam e escondem a verdade? Se não soubesse mais das coisas, diria que vocês estão puxando a sardinha para o Putin, jogando mais gasolina no fogo para ver se a Grécia sai do Euro e entra na órbita russa. Mas não os acuso disso. É mais provável que vocês estejam com a agenda globalista e, neste caso, não queiram “lutar” pela Rússia, mas sim contra a Alemanha…

É a Alemanha, buscando simplesmente alguma justiça, que estraga o desenho do bloco continental e, por isso mesmo, o avanço do plano globalista na Europa. Ou estou errado? Aceito idéias, de preferência sem patrocínios e pixulecos.

Eis uma terminologia ideologizada ao máximo: “políticas falidas da austeridade”. Não, senhores. Não são as políticas que estão falidas, são os gregos mesmo. O que os gregos realmente querem? Vocês já pararam para pensar nisso, ou já se arrogaram o mandato para lutar em nome deles?

E não entendi também o que seria, com a saída da Grécia, o “caos na Europa”. Por acaso se o Euro acabar um dia, o mundo vai acabar junto? Ou será que é o globalismo que leva um chute no traseiro?

Sejamos claros: por trás de todo o debate e jargão, há apenas duas coisas que realmente importam:

Esta clareza significa o seguinte: danem-se os interesses das partes (que geram o “debate”, essa coisa incômoda, vício das malditas democracias), e dane-se a complexidade técnica da situação real (o jargão que nos atrapalha, nós que queremos uma vida simples). Por trás destas coisas chatas a Avaaz (ou seria “o” Avaaz?) vai ajudar a nossa vida e dizer o que realmente importa! Ufa! Estamos dispensados de ter que pensar no assunto, eles já pensaram por nós. Que alívio.

A primeira é que são as pessoas mais vulneráveis da população grega que sofrem o peso dos cortes brutais nos gastos públicos. Quatro em cada dez crianças vivem em situação de pobreza, tendo a taxa de mortalidade infantil aumentado em 43%, e o desemprego atingido quase 50% entre os jovens!”

Quem votou nos políticos gregos que provocaram esta situação? Foi o povo alemão? Foi o povo europeu? Foram todos os cidadãos do cosmos? Fui eu? Não: foram os próprios gregos.

Os países do Euro não só não atrapalharam a política interna grega, como ajudaram, fornecendo crédito. Muito dinheiro. Tem que ser muito picareta para morder a mão que te ajuda, e se esquecer das próprias irresponsabilidades. Vejo que a idéia de moral hazard já virou uma lenda. Não digo que os gregos sejam picaretas. Como já falei, a pergunta é: o que querem realmente os gregos? Se eles foram ludibriados pelos seus políticos, que se ajustem politicamente, que evoluam. E que façam isso com dinheiro europeu se for o caso, porque não? Mas quererem continuar politicamente bagunçados e irresponsáveis, e ainda receber mais crédito dos outros como se fossem otários, isto é demais. Os gregos poderiam começar a rever a desgraçada condução atual da política do país, e mostrar para a Europa que ganharam algum juízo com esse sofrimento, que provavelmente foi desnecessário. Mas, se depender do Avaaz, tudo o que os gregos têm a fazer é sentar e chorar. É a realização do ancestral sonho esquerdista: defender os oprimidos do mundo. Para isso, é claro que é preciso ter o máximo de oprimidos possível, e assim os esquerdistas colhem a sua eterna clientela.

A segunda é que tudo isso não serviu para nada: o problema da dívida piorou em vez de melhorar. Portanto, mais do mesmo será apenas mais do mesmo: mais dor e mais dívidas“.

Por que o problema da dívida piorou em vez de melhorar? O que seria “mais do mesmo”? É possível saber isso sem entrar em “todo o debate e jargão”? Estou esperando para saber…

Ainda assim, a chanceler Merkel e os credores continuam a impor esta política irresponsável e a afirmar que isto é a vontade popular“.

Espera aí. Cobrar uma dívida é uma “política irresponsável”? Um líder político eleito pela população não representa a “vontade popular”? A vontade popular dos alemães, é claro. Merkel não administra a Grécia, como aliás é óbvio, dada a situação de pindaíba dos gregos. Ela governa a Alemanha. Talvez isso fique confuso para o Avaaz, porque eles pensam que já deveria haver a esta altura um governo europeu em ação? Aliás… não é isso que eles querem no fim das contas com toda essa bagunça? Fica aí a dica.

Esta semana, Alexis Tsipras, primeiro-ministro da Grécia, virou-se corajosamente para a democracia e pediu aos cidadãos que digam ‘não’ no referendo da austeridade; 70% dos membros gregos da Avaaz também disseram que vão votar pelo ‘não’.

Um líder político que apela a um referendo para resolver os problemas do país não é corajoso, é incompetente e covarde: incompetente por não conseguir resolver os problemas, e covarde por querer dividir a responsabilidade com toda a população ao invés de assumir a sua posição política. Que inversão, Avaaz! Esquerdismo em estado puro.

A menção em negrito (deles) aos 70% de “membros gregos da Avaaz”, longe de indicar uma unanimidade na sociedade grega –o que é estatisticamente impossível de se auferir sem saber o quanto este grupo representa proporcionalmente dentro da população grega votante–, mostra apenas que deve ter algo de errado com a agenda esquerdista deles: como pode haver apenas 30% de membros da Avaaz que dizem “sim” para o referendo da austeridade? Investiguem isso, deve ter algo errado aí, é muita discordância com o bem e a verdade, dentro de tal clube de iluminados.

Se formos suficientes a apoiar os gregos, podemos mostrar aos nossos líderes que as pessoas querem parar de infligir danos e que chegou o momento de favorecer a redução da dívida. Assine agora, e quando chegarmos a um milhão de assinaturas, a Avaaz levará o nosso apelo à imprensa“.

Texto lamentável, lastimável, provavelmente por preguiça do tradutor. Também, haja paciência para traduzir esta peça…

Mas o que está escrito está escrito, então é justo que eu pergunte: quem são os nossos líderes? Espero que não estejam falando da Dilma aqui no Brasil. Saibam que ela está numa pior. Se não está conseguindo nem salvar-se, quanto mais à Grécia. Acredito que estejam a falar dos líderes europeus? E quem são “as pessoas” que “querem parar de infligir danos”? Infligir que danos? E infligir à quem? Não faz sentido algum. Vejam que a Avaaz quer salvar a Grécia (ou melhor, a Europa inteira!), mas não consegue nem sequer escrever um e-mail. Você compraria um carro usado da Avaaz?

Acho que não compraria. E com certeza não deveria vender um, se não fosse à vista. Sabe por quê? Porque eufemisticamente a Avaaz (ou “o” Avaaz, droga!, eu não sei!) chama calote de “redução da dívida”. É engraçado, mesmo, de rir de verdade. REDUÇÃO DA DÍVIDA! Que eu saiba uma dívida pode ser reduzida com o seu pagamento, preferencialmente. Um perdão é sempre possível, mas é preciso mostrar boa vontade, o que não acho que seja o caso por enquanto. Não venda nada à prazo para a Avaaz! Eles podem pedir uma redução da dívida.

Conhecida por mudar de opinião quando o momento assim o exige, a chanceler Merkel ouve o que as pessoas dizem. Depois da crise nuclear de Fukushima e de enormes protestos públicos contra a energia nuclear na Alemanha, ela concordou em desativar as centrais nucleares do país“.

Qualquer um que seja conhecido por “mudar de opinião quando o momento assim o exige” é mais conhecido no jargão (ai, não pode usar!) popular como OPORTUNISTA. Merkel é oportunista, é isso que estão me dizendo? Se vocês estão querendo a ajuda da líder alemã, começaram muito mal. Eita e-mail ruim de doer esse!

Acho que se Merkel tomou alguma medida política, foi considerando mais os debates e os jargões –ou seja, o processo político e a tecnicalidade de cada questão–, do que qualquer gritaria de Avaaz e sua militância. Assim espero, aliás, se o mundo ainda reserva algum juízo.

O vício que existe em muitas dessas correntes de militância na internet é o desprezo pelo debate democrático e pelas questões técnicas de cada assunto. Toda a linguagem empregada denuncia isso de forma explícita.

É verdade que a corrupção política, o desgoverno e os empréstimos imprudentes tomados por governos anteriores são ingredientes do cocktail que derrubou a economia da Grécia“.

Aleluia! Finalmente cederam alguma coisa, por menos que seja, à verdade! Mas cuidado: o diabo diz a verdade para poder mentir melhor.

Vejam como eles atenuam a verdade e, implicitamente, a corrompem: as medidas irresponsáveis dos próprios gregos “são ingredientes” do cocktail, mas não a obra inteira. Que malvados prepararam esse cocktail terrível? Poderiam, por acaso, ser alguns globalistas que quiseram criar dificuldade para vender facilidade? Não, isso seria teoria da conspiração, é claro. Nem a verdade toda, nem meia-verdade: o Avaaz não gosta de verdade nenhuma que não seja a deles mesmos.

Mas, enquanto que 90% dos fundos de resgate ficaram com bancos estrangeiros, são os gregos que têm de enfrentar a austeridade, as privatizações e a desregulamentação, os cortes de pensões e salários, além dos aumentos nos impostos“.

Opa, espere um pouco aí! Quer dizer que a riqueza dos gregos foi sequestrada? É ISSO ENTÃO? Digam claramente! Eles estão enfrentando todas essas coisas à toa, por uma injustiça, ou por consequência do que fizeram? Eu quero uma resposta! Vocês me enchem o saco com esse LIXO desse e-mail, e nem mesmo essa resposta vou ganhar, porque essa honestidade lhes custaria caro, obviamente.

Ainda assim, como muitos previram, o problema da dívida não está a ser solucionado. E enquanto a miséria atinge os mais pobres, os gregos ricos já retiraram muito dinheiro do país“.

Ah, os ricos! Estava demorando para aparecerem, os nojentos, que lá no fundo são sempre os culpados por tudo. Malditos, querem se safar! Será que eles podem fazer isso?

Algo me diz, não sei, que os ricos devem ser uma minoria na Grécia. Certo?

Sendo assim, os políticos gregos que foram eleitos, não o foram por esta minoria, certo? Não exclusivamente, ao menos.

Então o desastre econômico grego, causado por esta liderança política (ou pela “falta de”), ocorreu como consequência da escolha da maioria pobre, certo?

Logo (conclusão do Avaaz): os ricos não deveriam retirar o seu dinheiro do país.

Que lógica impecável, não? Eu sei que não é a lógica do discurso, mas é a lógica da realidade, que é a que interessa no fim das contas.

Este impasse amargo não precisa de ser levado a cabo com um referendo na Grécia entre duas escolhas difíceis”.

Os gregos não precisam fazer uma escolha difícil?

Não foi a isso que chegaram por suas escolhas anteriores? Não seria esse o passo seguinte, depois de Tsipras jogar a toalha e admitir a sua incapacidade de resolver a questão? Avaaz infantiliza os gregos e autoriza-se ao mesmo tempo como babá global. Mas é claro, é isso o que fazem os globalistas, qual seria a surpresa?

Um amplo espectro de economistas e poderosos líderes mundiais concordam com uma solução para o país: uma conferência para reestruturar e reduzir a dívida grega, dando espaço para a economia recuperar e assim possibilitar que o país salde gradualmente a dívida ao longo do tempo“.

Ninguém quer destruir a Grécia, exceto, talvez, Tsipra e seu partido e, certamente, os globalistas. A solução da questão grega depende de os gregos aceitarem ou não a sua realidade, em primeiro lugar. Todas as conferências, planos, esquemas e soluções dependem disso. Forçar a barra não é fazer política. Que há solução, é claro que há. Mas quem quer a solução mesmo? De novo: o que querem os gregos?

Temos uma pequena oportunidade nesta semana para mostrar a Merkel e a outros líderes que o mundo diz “não” a estas políticas fracassadas. Assine agora e vamos impulsionar uma transformação fundamental que dê prioridade às pessoas em vez dos bancos“.

Meu Deus, quanta merda pode dizer um esquerdista em tão pouco pedaço de papel, ou de tela!

Para começar, “breve oportunidade” seria melhor que “pequena oportunidade”, mas tudo bem. Olha só com quem estamos falando, não é o caso de pedir demais. O que mais aborrece em seguida é esta idéia de que “o mundo diz ‘não’ a estas políticas fracassadas”.

Que mundo é esse que conjuga verbo? Que autoridade toda é essa que vai dizer a Merkel e a outros líderes um tão sonoro “não”? Será o mundo liderado pela própria Avaaz? Já é o mundo do governo globalista? Esperem um pouco, meus caros. Isso é ejaculação precoce. Se estão achando que a simples ação na internet é suficiente para realizar o desgraçado do plano globalista, estão enganados. Tenham mais paciência e se enxerguem.

Outra coisa, venham cá. Não seria o caso de dizermos o tal “não” às políticas fracassadas dos gregos? Quem é que faliu afinal de contas?

Será possível pensar, um minutinho que seja apenas, fora da inversão revolucionária? Isto tudo é loucura, nada menos que isso.

E que tal esse slogan revolucionário: “impulsionar uma transformação fundamental que dê prioridade às pessoas em vez dos bancos”? Interessante isso, mas para a idéia valer, os bancos teriam que só emprestar dinheiro para eles mesmos, o que não é a realidade, sinto muito. Eles emprestam para pessoas sim, e muito. Mas não estão ajudando ninguém com isso: na verdade e lá no fundo eles priorizam é a si mesmos. Malditos!

Transformar crises em oportunidades é o que uma comunidade do tamanho e com o poder da nossa faz de melhor”.

Confissão cuspida e escarrada do projeto globalista! É exatamente o que eles fazem, pense bem. É como se a própria potestade globalista, essa entidade demoníaca, estivesse falando conosco diretamente. Sai capeta!

“Este pode vir a ser um desastre histórico, mas se muitos apoiarem a campanha, podemos convencer Merkel a mudar de rumo, entrando em ação como representante da social-democracia europeia. Hoje, cabe a todos nós lutarmos por um sistema económico humano, centrado nas pessoas, que pode começar na Grécia“.

O desastre histórico é a falência do projeto globalista, é claro. As pessoas vão continuar a viver as suas vidas, mesmo os gregos. Decisões ruins vão continuar causando crises, e as pessoas vão continuar lutando com os seus problemas. O que está em jogo, no nível estratégico (que alguns chamariam “conspiratório”), é a defesa do projeto globalista. Salvo a hipótese de Putin ter um dedo na questão, o que não seria impossível.

Avaaz quer que nós lutemos com a Grécia.

Quem luta, luta contra alguém ou alguma coisa. Contra quem Avaaz quer que lutemos? Ora, contra os próprios credores, capitaneados pela Alemanha de Merkel.

No fim este e-mail é isso: um chamado ao combate para que forcemos a Alemanha e os outros países credores a agirem contra os seus próprios interesses.

Quem faz isso o tempo todo não é justamente o diabo?

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