Rolo de Primavera

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Na hora do almoço vou na tabacaria perto do escritório, peço um expresso, acendo o meu cigarro e fico ali aproveitando uns quinze minutos de paz.

Quem passa e olha pode pensar que sou chique de tomar café na tabacaria, mesmo que não esteja fumando um charuto. Na verdade, só estou economizando a grana do almoço. Filar bóia nestas redondezas sai por 30, 40, 50 reais, não é fácil. Não está fácil. Um pão de queijo é quase um luxo.

Fui no mercado um dia desses comprar um pacote de sacos de lixo, um iogurte, um pacote de macarrão, um suco de laranja… pouca coisa, enfim. Me custou 60 reais! Nessas horas pensamos: será que vamos ter que apelar para o rolo de Primavera?

Nem sei se ainda existe o Primavera. Para quem não sabe, é o papel higiênico para as épocas de aflição financeira, que é mais ou menos o nosso destino no Brasil logo mais, aguardem. O Primavera ainda é uma vantagem perto da situação venezuelana, onde se diz que as pessoas nem isso têm. Eu agradeço pelo meu café, pelo meu rolo de Primavera.

A inflação não é um conceito econômico muito sofisticado. A economia, como um todo –se me permitem a ousadia–, não é tão complexa nos seus fundamentos, nas suas realidades essenciais, quanto nos fazem crer os especialistas.

Ah, os especialistas. Todo especialista parece ser uma espécie de macumbeiro, um administrador do oculto, alguém que mexe com coisas estranhas para além da nossa simples compreensão. O problema é quando a especialização deveria esclarecer e, ao contrário, confunde, quando não inviabiliza mesmo o debate político. Toda família sabe que quando a inflação aperta, é hora do rolo de Primavera. Mas o que fazer quanto às questões públicas, tão complicadas, tão imersas no ocultismo economicista?

Sempre cabe simplificar as coisas, torná-las legíveis, trazer a discussão de volta ao planeta Terra. Acho que até o Delfim Netto concorda com isso (quando o leio nos jornais, fico com essa impressão).

Voltemos à inflação. O aumento da renda reflete idealmente o crescimento do produto. É simples. Riqueza é produção, é produtividade. O aumento da renda deveria sempre refletir um aumento na produção, ou seja, na riqueza gerada. Se renda e produção andarem mais ou menos juntas, a inflação tende a seguir equilibrada, a refletir apenas o aumento real da riqueza, com uma ou outra distorção menor perfeitamente amortizável pelo próprio processo econômico e por uma política monetária competente.

Se, porém, a renda cresce proporcionalmente para muito além da produção, o que nós temos é uma inflação desequilibrada, que vai corroer o poder de compra. Em outros termos: a renda que cresce para além do produto é falsa, é fake.

O que ocorreu no Brasil nos últimos anos foi um crescimento falso da renda, artificialmente impulsionada pelo aumento do crédito, sem ter como contrapartida um crescimento do produto. A demanda cresceu com o aumento da renda, mas a produção não acompanhou. E o motivo disto é simples: não se pode aumentar os investimentos em produtividade da mesma forma como se aumenta a renda através do crédito. Para aumentar a produção é preciso que haja o bom funcionamento de um negócio chamado capitalismo, onde os investimentos da iniciativa privada geram os melhores retornos em produtividade econômica. Mas no Brasil nós não gostamos muito de capitalismo, ou melhor, nós gostamos dos bens e serviços do sistema capitalista, mas não gostamos dos seus produtores, os próprios capitalistas. Não, aqui o Estado é o grande condutor e administrador dos negócios.

Como o Estado brasileiro é, antes de tudo, um estado de obesidade mórbida, os investimentos em produção ficam muito comprometidos. O governo lançou PAC 1, PAC 2, etc., mas a riqueza que é bom, não veio. A razão é simples: o governo não cria riqueza, ele a consome. E no caso do Estado brasileiro, consome em grandes quantidades, glutônicas, obscenas.

Inevitavelmente a inflação vem, e vem com aquela força de locomotiva desgovernada.

A única providência que o governo deveria tomar –e já deveria ter tomado faz tempo, se esse fosse um jogo simplesmente econômico e não também político–, é reduzir os seus gastos, reduzir o seu peso mastodôntico na economia, para permitir que a riqueza seja gerada.

Dilma soube fazer regime, e perdeu lá os seus quilos, como sabemos. Restaria que aplicasse essa sabedoria numa endocrinologia fiscal: quem precisa emagrecer é o Estado brasileiro. Eu preferiria uma Dilma gordíssima, uma baleia, uma rolha de poço, com um Estado enxuto, do que esta Dilma mais esguia, comandante de um país economicamente doente. Melhor o dragão Dilma, do que o dragão inflação.

As famílias sabem o que fazer quando a inflação aperta. Resta ao governo descobrir o rolo de Primavera.

 

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Uma resposta para “Rolo de Primavera”

  1. Durante a leitura ficou na minha cabeça tocando o jingle do antigo comercial desses rolos Primavera. Se pá logo estarão circulando na TV de novo. Uma famosa “passadinha no mercado” custando um ingresso pra show internacional. Que tempos… salve salve VR. Ou melhor, salvem salvem nós disso aqui.

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