A política como Díade social, ou algo assim

POLIS

A mente borbulha de idéias. Enquanto labuto incansável na inconsolável análise do orçamento federal em outro texto, me veio a idéia de que a atividade política –ou a da liderança política, mais propriamente–, funciona como uma Díade social, ou algo assim.

A Díade é filosoficamente um negócio meio complexo. Nem sei se uso bem o termo, mas vejo essa potência como aquela que é capaz de intermediar a relação entre uma força mais nobre e simples (chamemos de Uno, para seguir alguma tradição), que é superior e maior, e o mundo indiferenciado da matéria morta, para que se gere hipostaticamente o mundo da variedade temporal, da natureza sensível, etc., encarnando sempre parcialmente as qualidades daquela potência superior transcendente. A Díade “faz a conversa” entre os dois mundos, é a dialética de duas realidades, embora estas realidades não existam num mesmo nível de substancialidade, sendo uma gerada a partir da outra, como encarnação parcial de algumas de suas qualidades.

Mas vejam a política. A questão aqui é a política, não estou querendo mesmo me meter com o neoplatonismo neste momento.

Se há uma tarefa humana essencialmente mais nobre e condizente com a sua natureza específica –chamemos esta tarefa de contemplação, espiritualidade, filosofia, ou o que seja–, ela não pode agir diretamente sobre a vida material do homem que, lembrando a Palavra e invertendo a ordem dos fatores, não vive só de espírito, mas também de pão. Isso significa que há um contato, uma relação necessária, entre a vida material e a espiritual, que deve ser ao mesmo tempo respeitosa à realidade específica do homem enquanto animal racional, e deve aceitar a hierarquia fundamental da realidade, onde o espiritual transcende o animal. Ora, como o homem vai harmonizar em si individualmente essa tensão vital, já é a sua tarefa de vida, de acordo com a sua felicidade de ter ou não boa religião e/ou boa filosofia que oriente. Mas, e socialmente, como encaixamos uma coisa na outra?

Com essa “Díade social”, que é a atividade política. A política ideal é aquela que respeita a necessidade de pão, tanto quanto reconhece a superioridade do espírito, e assim vai burilando o corpo social na busca do melhor ajuste, que permita aos indivíduos revelarem as suas melhores soluções pessoais ao problema da encarnação, e que possam assim retroalimentar a atividade política com as idéias mais nobres de governança, digamos assim. A atividade política é a que intermedia os interesses espirituais e materiais do homem, sem deixar que estes últimos sejam equiparados em valor aos primeiros, que os transcendem infinitamente.

Sem a atividade política corretamente exercida –ou seja, sem essa Díade–, o poder espiritual perde o respeito do poder temporal, se aliena e se prostitui na sua representação terrena, e a sociedade vai para o brejo.

A nobreza da atividade política representa a lembrança que a sociedade tem do seu aspecto de civilização sagrada, decaída, que precisa se lembrar e se religar ao seu sentido espiritual de ser.

Já a decadência da atividade política, ao contrário, representa o esquecimento e a desordem social, pois sem essa Díade o corpo social não recebe mais o modelo da sua forma espiritual e é, portanto, um ente deformado e arruinado.

Qualquer semelhança com a situação no Brasil não é mera coincidência.

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