A graça de duas prosas

Tudo mudou por duas prosas. Dois amigos me deram mais do que dois milhões de reais me dariam, porque uma penca de bens não valem uma boa ideia.

Falo de uma boa ideia, boa mesmo, de valer a pena pensar, gastar uns miolos, e gastar a própria vida. Seria tolice tentar mostrar isso em público hoje em dia? Não acho. Tenho uma fé toda nova nas pessoas, uma fé muito maior do que eu merecia ter. Ainda assim, não ignoro os nossos tempos. Cobra-se o pudor nas coisas erradas. Pode-se fazer em público e sem vergonha a maior ousadia sexual, pornografica, escandalosa do mundo. Mas deve-se esconder uma boa ideia, deve-se ter vergonha de pensar coisas boas, coisas nobres. Então eu sou isso, escandalizo por isso, por ser um sem vergonha das ideias.

A graça de duas prosas foi me dar ideia melhor sobre o meu curso. Estão lá as quase noventa páginas, sob minha revisão, e agora preciso melhorar mais, mais. E tudo devo aos meus amigos, esses poucos amantes da sem-vergonhice mental, meus cúmplices. Quem são meus interlocutores? Meus amigos. Quem são meus revisores? Meus amigos. Quem são meus alunos? Meus amigos.

Não estou a fundar uma biografia, ou uma escola. Já é íntimo e pessoal, como se fosse uma gangue, uma máfia, um clube privado. O clube fechado da pornografia mental, onde pensamos sem vergonha, sem pudores. Querer fazer disso uma escola, é quase uma revolução.

Se eu tivesse uns dez amigos, seria uma revolução. O Facebook diz que tenho 66 amigos. É porque a rede social vive de eufemismos. Chama o parente, o conhecido qualquer, os credores e os devedores, todos de amigos. Da mesma forma, apreciar, louvar, ter o mínimo interesse ou amar apaixonadamente, tudo isso é “curtir”. O Facebook é um analfabeto das relações humanas, um analfabeto dos sentimentos.

Ainda bem que o mundo real veio antes do Facebook, e vai continuar depois dele. É um consolo. Mas daí já é uma mudança de assunto, é outro texto.

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2 respostas para “A graça de duas prosas”

  1. Que interessante esse apontamento: está permitido tirar a roupa pra protestar, encenar uma suruba em público como forma de arte (como fizeram faz um tempo num parque em Porto Alegre), publicar imagens pornográficas no facebook, tudo isso sendo aplaudido e compreendido como sintomas dos tempos modernos, mas tendo uma ideia pra apresentar, um conto novo, uma poesia, uma composição, ficamos tímidos, cheios de vergonha de nos expormos. Pudor de expor qual nosso posicionamento ideológico, quais preferências políticas, por medo de ficar mal falado. Mas coloque uma imagem de si próprio pornográfica que serás visto como o modernete do bairro. Tempos loucos.
    Espero saber contribuir na libertação do pensamento e no fim desses pudores nonsense.

    1. Turning and turning in the widening gyre
      The falcon cannot hear the falconer;
      Things fall apart; the centre cannot hold;
      Mere anarchy is loosed upon the world,
      The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere
      The ceremony of innocence is drowned;
      The best lack all conviction, while the worst
      Are full of passionate intensity.

      (The Second Coming)
      W. B. Yeats

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