Não me escondo atrás dos meus filhos, até porque não os tenho

children

Criança agora virou argumento.

Eu não as tenho, outros as têm. Normal. É da vida. Criança é um bicho muito natural. Todos já fomos crianças. E o que será do mundo, sem as nossas crianças? Não será nada, é certo. Nada.

Só que pára por aí, o assunto pára por aí. Deveria parar. Politicamente, intelectualmente, espiritualmente, nós temos outras coisas, outras questões, que não têm nada que ver com os nossos filhos. Os filhos não entram nessa equação. Não posso deixar de viver plenamente uma vida, porque tenho filhos. Não me escondo atrás dos meus filhos, até porque não os tenho. Não conheci até hoje uma pessoa admirável –repito: admirável– que não deixasse o fato de ter ou não filhos de lado de toda questão filosófica, espiritual ou política que fosse relevante. Essas pessoas admiráveis não dizem: “ah, mas eu tenho filhos para cuidar, chega dessa conversa mole”.

Acontece que o mundo não é habitado apenas pelas pessoas que eu admiro, o que é inteiramente natural e aceitável (eu gostaria que os outros pensassem o mesmo, seria um prazer, uma satisfação na minha vida).

Mas então criança virou argumento, que já é uma outra coisa, veja bem.

As crianças são de repente o agravo da vida. Eu estudo e tenho esforço, tenho trabalho, tenho escolhas, tenho problemas. Mas não tenho as crianças! Sem crianças, a minha leve vida desagravada desse estorvo é incomparavelmente mais fácil do que a dos pais dos pimpolhos, que arrastam consigo essas malas por onde vão, um grande peso, uma cruz. As crianças viraram a cruz dos pais, e quem não é pai de repente vive como sem cruz pelo mundo, sem o mérito da cruz, como se fosse menos humano.

Todos os meus argumentos contra qualquer tipo de coitadismo são pornográficos, obscenos, escandalosos. Como este é um texto sobre crianças, é mister buscar alguma decência.

Mas antes decentes fossem os detentores da suprema reclamação. A paternidade e a maternidade viraram méritos civis, morais e intelectuais, assim, sem mais nem menos, sem nenhum pudor. Digo que a falta de pudor dos nossos tempos é avassaladora. Se o valor de ter filhos reside no amor incondicional, que tal essa onda então, de declarar a vida com filhos como um Sísifo a rolar pedras no Inferno? Não é justo, não falo nem de mim!, mas não é justo com as crianças. Eu não gostaria de ser um argumento, quando criança. Eu preferia ser amado, como aliás, fui, e que bom. Não pode ser simplesmente assim?

Não se esconda atrás dos seus filhos, porque amor não é mérito, nem justiça, amor é Graça. Pelo menos esse analfabetismo espiritual nós precisamos superar!

“Só quem é pai ou mãe sabe o que é ter filhos!”, é dito. É verdade. Só quem é pai ou mãe sabe.

Falam como quem tem uma gastrite, como quem tem uma unha encravada. Só quem tem sabe.

Qualquer mentalidade que equipare um filho a um boleto bancário, a um horário de remédio, a uma reunião com o chefe, é uma mentalidade que me assusta. Isso quando não sai um “ter filhos é uma delícia!”. Essa também é boa. Os filhos estão agora para os pais como outros prazeres, outros gozos da vida, é uma diversão só. Filho virou música de discoteca, virou um pileque, virou um chicabon, virou um samba, uma brincadeira divertida.

Tudo virou argumento para ignorar qualquer coisa que não seja o prazer ou a dor de ter filhos, essa experiência que separa os homens dos meninos.

Só quem é pai ou mãe sabe, é verdade.

E as coisas que eu sou, e que só eu sei? Não há triunfo, não há argumento, há só a solitária realidade, solitariamente testemunhada. Sigo apenas atrás do meu lugar sob o sol, como qualquer um. Sigo, tentando a simplicidade. Meu sonho é ser sempre uma alma simplérrima.

E nisto digo, com tranquilidade: se eu tiver filhos, eles não serão medalhas para grudar no peito estufado, para que eu diga que sou bom, que sou melhor, que sou isso ou aquilo. Meus filhos que se livrem de mim, dessa impostura, desse abuso tirânico. Minha prioridade, minha promessa de campanha paternal, será sempre: “sic semper tyrannis“.

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2 respostas para “Não me escondo atrás dos meus filhos, até porque não os tenho”

  1. Fácil de reconhecer. Conheço desses. Como também tem quem joga a culpa da vida ter sido toda errada ou mal sucedida nos filhos. É a lógica do sempre haver alguém pra levar a culpa. Individualidade, essa sim, é uma maior abandonada.

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