O petrolão deflagrou em mim todo um processo regressivo

Senador Arthur Virgilio

Recentemente eu disse que a política nos faz falar. Citei também a guerra, e não foi por acaso. Porque o que interessa, para alguns ao menos –e certamente para mim mesmo–, não é que qualquer coisa seja dita, mas a verdade. É a política dos tempos de revelação do mensalão, como de agora do petrolão, que faz a gente querer falar não de abobrinhas e farsas, mas da realidade, nua, crua, e do que realmente acreditamos em nosso coração. Não por acaso, é um tempo de delatores. Os delatores são os inspiradores de toda essa literatura da sinceridade política.

A paz não permite isso. A paz é boa aliada da verdade quando as pessoas são bem educadas. Se reina a estupidez e a ignorância, só a guerra pode fazer surgir a esperança de um mísero grito verdadeiro, de um apelo sinceramente comovido com o estado de coisas, pois que a vidinha não pode mais seguir normalmente. Nos tempos de boçalidade, a paz é a última pá de terra jogada em cima do cadáver da verdade, é o consenso pela mediocridade de longo prazo, que permita a todos viver sem sustos, sem receios.

No dia 24 de julho de 2005 o senador Arthur Virgílio subiu à tribuna do Senado Federal.

Entre várias coisas, disse: “presidente Lula, na melhor das hipóteses o senhor é um idiota!”. Eu ouvi aquilo, eu entendi aquilo.

Alguém estava falando o português, finalmente. Era possível isso acontecer no parlamento, vejam só. Um outro senador deu seu testemunho: “quando fiquei sabendo [do discurso], disse ao motorista: ‘corra, porque essa eu não posso perder’.” É um espetáculo triste? Não!

A verdade só é triste para quem vive de ilusão.

E toda ilusão tem aquele conforto de vidinha. Aquele conforto bourgeois, da nossa vidinha que passa na mesma, com os sustos dos infartes e dos tumores, mas que fora isso passa muito bem, obrigado. De repente os delatores mostram toda uma realidade infartada, apodrecida pelo câncer do ceticismo, pela ousadia das vidinhas confortáveis que deixam a política largada aos “profissionais” do ramo.

Ser um idiota é isso, é ficar em si mesmo, é comer pipoca com guaraná na arquibancada, enquanto o circo pega fogo. Às vezes os palhaços, os delatores, gritam para a platéia: “está pegando fogo! esta merda está pegando fogo!”. E por um momento o destino da nação reside naquele olhar vago do espectador, naquela indecisão tímida, naquele conflito terrível –um terremoto dos sentimentos– que é todo o dilema que há entre ser alguém e viver uma vidinha.

 

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2 respostas para “O petrolão deflagrou em mim todo um processo regressivo”

  1. Bin, esse certamente é um dos melhores artigos teus dos últimos tempos. Embora esteja dizendo “o óbvio”, está esfregando na cara o porquê da coisa ter se estragado a esse ponto, ter ficado tanto tempo na geladeira. Bem que disseram que esse ano seria agitado. E os ingênuos achando que as eleições ano passado eram o grande agito e que após elas tudo voltaria ao marasmo e camaradagem de sempre… é só o começo. E já sabemos como fazer nossa parte nisso aí. Que cada um pegue o que é teu e vá pra guerra sem pudores intelectuais.

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