Por que gosto mais de corrida do que de futebol

Race Of Champions

Hoje vou esculachar o futebol. Acordei ontem com essa vontade, com essa comichão. E hoje vou derramar o cálice da ira, transbordante, sobre o futebol.

Esse esporte, como os americanos estão mostrando ao mundo, é cheio de bandidos em todos os níveis. O mínimo que se pode falar de futebol, para não ficar no argumento de panis et circences, é que se trata de uma atividade criminosa ou que incentiva a prática de crimes. “Ah, os outros também! os outros também!”, alguém vai me dizer, rapidamente, em defesa da honra futebolística. Não percam tempo com isso, que eu mesmo pensei em outras coisas aqui comigo.

Gosto mais de automobilismo, por exemplo. Mas qual é a razão? Por quê?

Listei:

1) é um esporte mais individual. Existe sim uma equipe, e até parcerias, mas o que cada um faz individualmente influi mais no resultado;

2) a relação entre o resultado e a experiência visual é muito mais clara. Quem está na frente, está na frente fisicamente, literalmente. O mais rápido é mais rápido no tempo e na vista de todos. A telemetria é só a técnica de grafar os fatos que aparecem diante dos nossos olhos, que todo mundo vê;

3) o poder de arbitragem é muito menor. Existe tapetão no automobilismo? Existe, mas não é um apito permanente, interferindo, interpretando, julgando com ou sem justiça. Por definição, quanto mais julgamento, mais possibilidade de injustiça;

4) não existe decisão nos pênaltis. Decidir uma disputa nos pênaltis é a coisa mais horrorosamente injusta que pode haver num esporte. É como se o criador das regras tivesse ficado com preguiça nessa hora.

Eu sei que estou me expondo a uma crítica numérica, a uma multidão furiosa, apaixonada. Dizem, e é incontestável, que brasileiro ama o futebol. Que o Brasil é o país do futebol. Mas o que eu vejo continua sendo o que eu vejo, que posso fazer? A força dos números não me contesta, pensando bem, contesta a unanimidade que, diz-se, é burra.

Por que o brasileiro ama o futebol? Aplicando meus quatro pontos acima, vejamos porque o brasileiro médio gosta de futebol:

1) ele gosta de uma muvuca. Existem os heróis individuais, os astros, mas estes dependem de suas equipes para serem estelares. Ninguém deve ser muito bom por si só, isso ofende o nosso sentimento de pertencimento, de coletividade, de muvuca;

2) ele gosta de uma confusão, da surpresa dos sentidos. Saber claramente que algo está acontecendo é menos emocionante do que uma confusão permanente, onde não se sabe bem como as coisas vão acabar, onde as aparências enganam. Talvez essa seja uma característica do esporte nacional. Já ouvi falar que para o europeu o jogo é um tanto diferente, neste aspecto da clareza dos fatos;

3) ele gosta de um poder total que resolva os problemas e os conflitos. É um amor pela tirania, pelo arbítrio, pela decisão fulminante que desce ao campo como um poder divino. Não há argumento, imagem de câmera, conselho, que obrigue um juiz de futebol a mudar o seu conceito sobre um fato. “Filho da puta!”, gritam, porque gostam de gritar e reclamar, como uma massa infeliz, sempre à mercê dos caprichos desse tirano, que não pode se libertar, que depende dos favores, da misericórdia, do perdão, da graça. O futebol como esporte é meio ridículo, mas esse teatro é um centro cívico, é um catalisador das emoções mais profundas de um povo de servos e escravos, dos amantes de uma tirania, de um poder total, incapazes de se rebelar e de libertar, vivendo de babar de ódio ou de adoração;

4) ele gosta de contar com a sorte. Torcer pela superioridade de um time é menos emocionante do que torcer pela fortuna, essa entidade mística que regula toda uma série de superstições futebolísticas. Há algo de preocupantemente cômico em se acreditar que Deus tenha algo que perder seu tempo, mesmo que infinito, com o resultado de uma partida de futebol. Mas, aos poderes de Deus não há limites que possamos determinar, e nem à fé do homem. A sensação de redenção por aquela sorte de última hora, que desperta uma felicidade tão sincera, tão doce, uma alegria de criança, tem algo que ver com o que nós queremos para depois da morte, só pode ter. Se as pessoas torcessem 10% pela salvação da sua própria alma o quanto torcem pela sorte do seu time numa disputa de pênaltis, a Igreja viveria uma era de santidade como raras vezes viveu em toda a sua história.

Eu falaria ainda de mais algumas coisinhas.

Falaria das consequências políticas de se ter um povo tão maciçamente ligado a um único esporte com estas características acima, por exemplo. Mas não vou falar, porque já antevi o meu tom chato de sociologia pedante. Eu não mereço, ninguém aí merece. Quem é esperto já entende a ligação entre a cultura futebolística e a atividade política do povo, as dicas estão todas aí.

Falaria também da questão estética.

Ah, o automobilismo faz desfilar para nós os bólidos tão bem desenhados, feitos por artistas, para o deleite da nossa visão, da nossa concupiscência. Os roncos dos motores, o deslizar balançado dos carros como cisnes na pista, tudo isso é um prazer aos sentidos.

O futebol nos dá vinte e tantos homens vestidos com uniformes de carnaval, um mais feio que o outro. Pode haver beleza nos dribles, nas arrancadas? Até pode, mas o atletismo ganha nisso, aliás, se me permitem, uma lista de esportes olímpicos ganha no quesito da estética do corpo humano e dos seus movimentos.

O automobilismo nos leva para as florestas de Nürburgring, para a charmosa e jamais datada Mônaco, para perto de castelos europeus, e para os desertos exuberantes.

O futebol nos dá sempre o mesmo miserável campo esverdeado com as suas linhas brancas, cercado pela propaganda e pelo torcedor. Fora uma ventania homérica, ou uma chuva torrencial, nada muda a estética do que ocorre no campo.

Por essa pobreza estética, eu diria, o futebol é um sintoma da apeirokalia, da falta de experiência das coisas mais belas. Os grã-finos também amam o futebol? Acho que já perderam o senso de identidade, se é que o tiveram um dia, são nouveaux riches, demagógicos, simplérrimos na sua total abstinência de nobreza aristocrática e, portanto, de sentimentos nobres, de qualquer noblesse oblige.

Para usar um trocadilho futebolístico, meu chute é: muita gente, não pouca mesmo, diz que gosta de futebol mas no fundo não liga muito. Só está lá torcendo e opinando porque todo mundo faz isso, e é do ser humano o sentimento inarredável, inapelável, de querer pertencer, de fazer parte disso que está aí, seja lá o que for. Mas, no fundo, lá no fundo, não gostam tanto disso, devem achar uma bobagem. Escondem isso, porque querem pertencer. A sua felicidade depende deste pertencimento. É o sentimento de uma garrafa de coca-cola perante o engradado.

Eu não gosto de engradados, então falo, despudoradamente. Amo a pornografia mental, a falta de vergonha das idéias.

Alguém poderia escrever todo um tratado com começo, meio e fim, dizendo que os europeus amam o futebol. Que a lição que vale aos brasileiros, não vale porque o europeu compartilha desse amor, e olha só, os europeus são melhores que quaisquer outros, são mais brancos, são mais ricos, são mais tudo.

Antes que o faça, porém, quero salvar esse alguém de um demérito público.

Não falo só do puxa-saquismo com a Europa. Embora é verdade, não faz sentido isso. A Europa é um museu. No que vale mais, a Europa é um museu. As novas gerações européias… quem são? O que querem? Aguardamos para saber.

Mas então, vejamos, os europeus amam o futebol, então não deve ser algo tão ruim assim. Aliás, foram eles que inventaram esse negócio, na sua genialidade européia.

Pois é. Quando surgiu o futebol moderno, como esporte das massas?

Entre o fim do Século XIX e começo do Século XX.

O que ocorreu na Europa no Século XX, depois da difusão desse esporte tão nobre?

Duas guerras mundiais, o genocídio de dezenas de milhões de pessoas, o surgimento do totalitarismo oprimindo populações inteiras, e a perda de relevância política para as duas potências da metade para o fim do Século, os EUA e a URSS.

Que grande avanço essa Europa futebolística teve! Como deu certo!

“Ahá!”, dirá alguem, “isso é falácia! post hoc ergo propter hoc!”

É falácia de resposta aos falaciosos.

Porque, antes, veio esse falaciosíssimo argumento de que o futebol valeria alguma coisa porque foi inventado e é adorado na Europa. Além de ser descaradamente falacioso, esse argumento é preconceituoso, quase racista, e revela um complexo de inferioridade abissal, tremendo.

Não preciso ser refutado, porque isto não é uma tese acadêmica. Tenho mais o que fazer. Só estou dizendo por quê gosto mais de corrida do que de futebol, é muito simples.

Se eu vou ainda respeitar o futebol, é só porque é um esporte amado por Mário Ferreira dos Santos, só por isso.

Mário Ferreira dos Santos vale mais sozinho do que todo o futebol do universo, já jogado, e a se jogar, até o fim dos tempos.

Se ele gostava do esporte, respeitemos. Pode haver, quem sabe, uma sabedoria que justifique esse gosto.

É isso. O único jeito de elogiar o futebol, para mim, hoje, é dizer que o Mário Ferreira dos Santos gosta dele.

Mário Ferreira dos Santos trouxe ao futebol toda uma glória que lhe seria impossível por seus próprios méritos.

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2 respostas para “Por que gosto mais de corrida do que de futebol”

  1. É, não poupou críticas. Mas a relação que fez da paixão do brasileiro por futebol com a situação política do país ficou ótima. Futebol, ao que vejo muito, é reação carente de quem quer pertencer a qualquer coisa.

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