O Diabo, diligente, continua ocupado das nossas idéias

Se a maior vantagem do Diabo é fazer os outros acreditarem que ele não existe, a segunda maior é a sua grande diligência, o seu grande interesse pelas nossas idéias.

Tenho certeza disso. Um dia bom se transforma, nas mãos dele, num tormento miserável. Sufoca-nos. A simples lembrança da realidade divina afasta o tormento, mas nós sofremos de um Alzheimer espiritual terrível, esquecemos de tudo com uma frequência extraordinária, pontual, rigorosa.

Daí que no sufoco alguém pensa, tentando ser muito esperto e querendo dar um nó num anjo (anjo caído, é verdade, mas ainda anjo, inteligentíssimo), que a resposta é não ter muitas idéias, é não gastar-se com nada muito complexo, é “deixar a vida me levar”. Zeca Pagodinho, neste sentido, é de um invulgar sacerdócio satânico. As Cartas de um diabo ao seu aprendiz não são nada, repito: nada, perto da poesia do “vidaaaaa leeeeva eeeeeu!”, desse hino luciferiano.

“Mas e o ‘sou feliz e agradeeeeeeço, por tudo que Deus me deu!’, como fica?”, perguntariam-me, ansiosos. Eu respondo que o Diabo fala a verdade nove vezes para mentir melhor na décima. Isso se chama estimulação contraditória. A terceira grande vantagem do Diabo deve ser fazer os outros acreditarem que ele é burro. Aulinha, então: deixar a vida te levar por gratidão pura é, digamos, apenas um aspecto jupiteriano da vida, entre tantos outros com os quais você tem que lidar. Se você usar esse modo jupiteriano para lidar com tudo, bom, daí o efeito final será o contrário do prometido, e no fim ao invés de agradecer você estará blasfemando pelos seus fracassos da vida, QED.

Mas, voltando. Não é a quantidade das idéias que resolve os problemas, veja bem.

Poucas idéias não resolvem, de fato, porque daí você está deixando a vida te levar, e não sabem bem onde, pode ser talvez ao Inferno, quem sabe? Mas muitas idéias, ah, podem te levar a um buraco sempre mais fundo, por causa daquela diligência diabólica, daquela ocupação demoníaca constante, essa coisa mais espiritualmente desagradável e, não obstante, inevitável nessa nossa vida.

A questão é ter boas idéias, é não entrar na dialética sulfúrica dos infernos, mas buscar a iluminação divina deliberadamente, e buscar na memória da realidade divina. Se não conhece santos que te mostrem qualquer realidade boa, divina, veja as breves santidades de cada dia, porque cada dia reserva um pouco da santidade divina neste mundo, a quem prestar atenção.

Sem confiar em Deus e nessa revelação, o que te sobra é lidar com a delinquência diabólica, que te empurra a ter medo das idéias, e a esquecer da vida refletida, humana, ou então a tê-las efusivamente, abundantemente, quando o próprio diabo se torna o maestro da orquestra mental, com grande diligência.

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