Uma fé sem um sucesso, sem uma família, sem uma conta na Suíça

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Ó Deus, teu mar é tão imenso, e meu barco é tão pequeno!

Tenho um amigo que nestes dias anda perdendo o penteado. Não sabe o que fazer da vida. Como eu, ele tem vinte e onze anos de idade. Ou seja, embora ainda seja jovem, já começa a sentir a passagem do tempo sem tanta licença poética.

Dizem que se depois de umas boas tentativas você não arruma o seu sucesso, os espanhóis recomendam: “vá fazer uma família”. Se você faz uma família e continua frustrado, respondem: “vá fazer outra”. Meu amigo não tem um sucesso, e não tem uma família. Pior de tudo: não tem nem sequer uma conta na Suíça.

Porque, cá entre nós, um depósito no cofre de um banco dos Alpes compensa em parte as tristezas desta nossa vida. Esse seria o complemento do brasileiro ao espanhol: se você não tem sucesso, faça uma família, mas se não fizer sucesso nem família, pelo menos abra uma conta na Suíça. Afinal, algum sentido a vida tem de ter.

Como eu, meu amigo tem vinte e onze anos de idade, mas, diferente de mim, não sabe o que fazer. Não que eu esteja assim, digamos, por cima da carne seca, mas tenho umas idéias. Por exemplo, eu sei que não existe proporção determinada entre 31 anos de idade e a vida eterna. E sei que sem fé na vida eterna nós viramos todos crônidas, filhos do tempo e da necessidade. É especialmente como filhos da necessidade, e não como filhos de Deus, que buscamos o nosso sucesso na Terra, a nossa família, a nossa conta na Suíça.

Mas pedir que alguém considere a desproporção infinita entre a vida eterna e os 31 anos de idade, é muita coisa. Anos trás, eu tive a dificuldade de explicar a um doutor advogado que não existia razão possível entre um número qualquer, que víamos numa planilha, e o número zero. Ele não compreendia. Disse eu, tranquilo, claramente: “mas não existe razão sobre zero…”, e não adiantou, ele não entendeu. Se um advogado formado na USP não entende que não existe proporção racional entre o ser e o nada, que esperanças posso ter de que alguém entenda a infinitude que há entre a vida eterna e os 31 anos de idade? Nenhuma esperança.

Precisamos, não obstante, ter uma palavra contra o ressentimento. Se as demonstrações lógicas não funcionam, apelemos para a fé. Não é demais: se não sabes ser racional, que tenha uma boa fé.

Essa boa fé seria mais ou menos assim: todos os tormentos desta vida nos ajudam a ser humildes para entrar na próxima. Para amar a Deus sobre todas as coisas, nós não podemos ter muitas ilusões com essa vida, não podemos ter muitos amores terrestres. Será difícil entender? Lincoln disse que Deus deveria gostar muito dos pobres, já que fez tantos deles. Acham isso uma ironia nada sutil, acham uma piada macabra. Mas não é essa a economia espiritual do mundo? Não é mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha, do que um rico entrar no Céu? O que tem de irônico, de piadista, na fala do senhor Lincoln?

Outro dia eu comentava Lost. Todo o “segredo” de Lost, está na fala de Jacob ao seu irmão: “Só acaba uma vez. Tudo o que acontece antes é apenas progresso”. Ah, Jacob! Todos os miseráveis do mundo, os desgraçados, são chamados à redenção pela sua desgraça mesma, para que abram mão das suas teimosias e idiossincrasias, e possam entrar no outro mundo. Todos os encarnados são chamados ao Céu, mas se todos puderem se corromper ilimitadamente sem receber em algum momento a surra da vida, é o Inferno que vai se encher de almas. É a economia espiritual.

Melhor que Jesus, o próprio Deus, não há:

Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos céus!

Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados!

Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra!

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados!

Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia!

Bem-aventurados os puros de coração, porque verão Deus!

Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus!

Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos céus!

Bem-aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo o mal contra vós por causa de mim.

Deus não está fazendo uma promessa de campanha: ele já está dizendo qual será a régua com que vai medir as almas no Juízo Final.

Meu segredo simples para não ser um ressentido: eu ajudo os outros a obterem o sucesso, a família, e até a conta na Suíça, enquanto vou atrás de outras coisas. Acredito mais no amor, por incrível que pareça, e é isso que me faz querer o bem de todo mundo que não gosto (até certo ponto, que ninguém é de ferro, e eu estou longe de ser um santo).

Meu objetivo é ter todo um espírito comediante. Que acredita que tudo vai acabar bem, ao menos para quem o queira de fato e até o fim.

Por verdadeiro acaso estava eu lendo recentemente o Nelson Rodrigues: “Se o homem é um ser estrita e abjetamente econômico, podemos sair por aí dando tiros na cabeça de nossos desafetos. Por que preservar os valores da vida, ou realizá-los, se tudo é econômico? Somos irresponsáveis e o Poder Econômico tudo justifica e tudo absolve. E nem uma palavra sobre o amor. A Igreja existe para amar. Igreja é amor.

Eu falo uma palavra sobre o amor!

Eu quero ser Igreja! Me incluam nessa!

Isso é uma fé sem um sucesso, sem uma família, sem uma conta na Suíça.

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