Aquela carimbada especial

Carimbada

Jamais esquecerei da intervenção de uma aluna minha numa aula do Curso sobre Vocação, que dei em Setembro de 2011 (acho que a data é essa, mas tenho um HD externo vivo, um bom amigo de prodigiosa memória, que pode me ajudar a dizer se a data é outra).

Dizia eu então que uma vocação não é apontada necessariamente pelo gosto da pessoa, e que a ação guiada por uma vocação real é caracterizada pela sua individualidade e exclusividade. O melhor que você pode fazer geralmente tem algo a ver com o que só você pode fazer, por ser quem você é, e por estar circunstancialmente instalado na sua situação concreta. Ia explicando essas coisas, e me referi aos trabalhos burocráticos da vida. Sem pudores –que sou um adepto do despudoramento das idéias, da pornografia mental–, disse que qualquer função burocrática só fazia o sentido de ponte, de alicerce, para a realização de outra coisa. Você pega lá o seu empreguinho burocrático para passar os dias e construir a sua vida futura. Só isso faria sentido. A tal aluna protestou. Ela tinha vários protestos nas aulas. É uma situação que como professor posso dizer que é muito mais prazeroso do que a de se falar para uma audiência muda ou indiferente. Disse ela então que as coisas poderiam ser diferentes. Que as pessoas podiam ser especiais em tarefas mais singelas, mais humildes. Até uma carimbada num papel –sim, até isso–, podia ser feito com um jeitinho todo especial, com um capricho individual, etc.

A classe explodiu numa gargalhada unânime, e a própria aluna riu de si mesma, da sua fala.

Era realmente engraçado, porque ela queria defender a dignidade específica da vida burocrática, mas essa tarefa é impossível!

Expliquei com toda a tranquilidade que o ser humano pode fazer qualquer coisa de um jeito melhor ou pior, mas que nem tudo que eu posso me convém, ou seja, não é porque posso fazer algo de forma mais perfeita que isso constitui a minha vocação real. Carimbar papéis jamais, JAMAIS, constituirá a vocação de um ser humano, nem mesmo do mais brutal e animalesco ser humano. Eu vejo uma repartição pública, por exemplo, qualquer que seja, apenas como um depósito temporário de pessoas que ainda não conhecem a sua vocação.

A memória desse causo me veio porque ando lendo muito por aí que o futuro da nação depende em qualificar as massas para as funções tecnologicamente mais exigentes. Em larga escala, se me é permitido falar francamente, essa idéia me soa meio ridícula. Há mais de sete bilhões de pessoas no mundo. O fato do avanço dos sistemas de informação, da inteligência artificial, da robótica, da nanotecnologia, etc., revela de forma clara que o aumento da produtividade NÃO VAI depender de uma massa de pessoas tão bem qualificadas assim. Pelo contrário, quanto mais a tecnologia avança, menos seres humanos são necessários para a produção de quaisquer tipos de bens ou serviços, desde as atividades extrativistas, até a indústria de transformação, de manufatura, etc., etc. Ainda é em trabalhos manuais, artesanais, artísticos, intelectuais, etc., que o ser humano vai continuar sendo mestre por excelência, enquanto a parte chata, repetitiva e nonsense do trabalho vai sendo passado para as máquinas. Isto é simples de ver, e já vem acontecendo faz tempo. Por que, então, os caras continuam com essa conversa de qualificação das massas?

Esses especialistas (ah, os especialistas) falam isso porque não sabem o que falar. Diante da realidade da inovação, do ritmo da coisa, eles no fundo não têm nenhuma idéia de como fazer para segurar o que no longo prazo tende a ser a tremenda falta de uso, de utilidade, da mão-de-obra de uma massa gigantesca da população terrestre. Sem nenhuma imaginação, devem a esta altura estar começando a acreditar no paradoxo do capitalismo, da incapacidade do sistema manter o consumo sem manter a renda, etc. Daí me saem com essa de qualificar o mundo inteiro, e dizem que os problemas de pobreza, de desigualdade, etc., saem praticamente todos da falta de qualificação. Eis um belo engano, bem convincente: é fácil acusar os governos de não incentivarem a educação do povo, e é fácil também, individualmente, acusar as pessoas de não buscarem a qualificação ideal para ocupar uma boa posição no mercado de trabalho. Toda essa ladainha me cansa ao extremo.

O problema da pobreza, da desigualdade, etc., é sempre o problema da produtividade: gerar mais riqueza com menos recursos. Inevitavelmente, entre os recursos a serem cortados nos ganhos de produtividade, está a mão-de-obra humana, cada vez menos necessária em qualquer setor. O problema é que a remuneração da mão-de-obra é que garante a renda que representa o consumo em toda a economia. Sem emprego, não há renda, e sem renda não há consumo. O problema, portanto, está em manter a renda sem manter a sua contrapartida, ou seja, a remuneração da mão-de-obra. Como ninguém sabe como fazer isso, o aumento da produtividade é empacado, não só pelo arbítrio dos industriais que não querem causar o colapso do sistema provocando demissões em massa, mas principalmente pela brutal interferência estatal, tributária e regulatória, que em nome do ideal socialista distributivo engessa de vez o aumento da produtividade. A produtividade não avança, a riqueza não vem, e continuam os problemas de pobreza, distribuição de renda, etc.

Os liberais vêm com essa conversa fiada de aumentar a produtividade através da qualificação das massas, o que não passa de uma ilusão besta, e de uma desconversa.

Desconversam porque não sabem o que fazer, e já estão com aquela sensação ruim, aquele nervosismo, de que talvez tenham que se tornar socialistas, e de que Marx tinha razão…

Não tinha razão. O capitalismo não só está sadio como nunca, como ele –não enquanto ideologia, mas enquanto realidade social—vai dar um nó fabuloso no pensamento socialista, assim que as pessoas juntarem as peças e fizerem direito as contas. O que não podem é me vir com essa história de que dá para manter todos os empregos improdutivos e fazer a produtividade avançar ao mesmo tempo, através da qualificação da mão-de-obra…

Não faz sentido alguém se formar mestre, doutor, PhD, apenas para dar aquela carimbada especial.

 

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