O que é Formação Intelectual?

Não é possível começar uma formação intelectual no nosso cenário mental sem um tratamento preliminar que providencie a relativização mínima do marxismo, um esclarecimento psicológico mínimo que abra a possibilidade da personalidade humana real, um treino na depuração abstrativa simbólica que aumente a capacidade de aprendizado*, e uma introdução decente à filosofia que recupere a idéia de ciência pura. E não me é possível pretender ajudar nessas tarefas apenas escrevendo, no mínimo porque as pessoas em geral não lêem mais nada, e até mesmo porque se lessem a respeito (e um vasto material já existe no mundo para tanto), nada garante que entendessem patavinas.

Quero abordar a questão da formação intelectual com o maior acerto possível dentro da minha capacidade atual. Não tenho o benefício das margens de erro, seja das pesquisas eleitorais, ou das antigas previsões de PIB do Mantega, nosso ex da Fazenda. Só tenho o benefício de não estar morto, e de não estar para morrer em breve (que eu tenha conhecimento), o que significa que sempre posso amanhã ter umas idéias melhores do que as que tenho hoje.

Mas não dá para fugir da questão. Se proponho ensinar a um aluno sequer o que é Formação Intelectual, é preciso buscar definir este objeto o mais adequadamente possível. Digo isso porque não tenho de minha própria mente uma idéia perfeita e fechada a respeito. Confesso abertamente. Tanto é assim, que ofereço uma Introdução ao assunto, e não o serviço completo. Como poderia fazê-lo, se estou eu mesmo dentro do processo de formação a que me refiro? Mais ainda, tenho como referência a idade de 45 anos como o marco para refletir a maturidade necessária à completude desta formação. Estou caminhando por essa trilha, e o máximo que posso fazer –o que não é pouco, porém, dadas as circunstâncias sociais– é chamar mais gente, e mostrar que vale a pena.

A trajetória intelectual não pode ser uma aposta no escuro. Se justamente o ofício da centralização da consciência humana fosse inconsciente no seu próprio desenrolar temporal, isto já seria mais que uma ironia, e não se poderia alegar valor algum à tal busca que fosse maior do que o de qualquer seita ou prática ocultista. Seria insuportável. É preciso um entendimento sobre o que se busca, sobre as vantagens e desvantagens de tal projeto, etc. Minha pretensão é de poder apresentar a formação intelectual neste nível introdutório: dizer o que é, como se faz, e porque vale a pena.

A formação intelectual não me parece ser nada mais e nada menos do que a formação de uma consciência maximamente individualizada, onde a busca da verdade é o norte fundamental para os movimentos da alma.

Mas que pepino eu arrumei agora, pensando bem. Vou ter que definir o que é uma consciência, o que é individualização, o que é busca da verdade, o que é movimento da alma… para resolver um problema tive que arrumar pelo menos outros quatro. Assim seria se eu fosse prisioneiro de algo maior que o meu desejo da verdade para mim mesmo. Graças à Deus, porém, não é este o caso. Eu subordino tudo, e isso inclui especialmente a minha capacidade de me expressar e fixar cientificamente os meus termos, ao desejo da verdade em si mesma. A grande graça deste esquema é que eventualmente a verdade mais científica do mundo surge gratuitamente na sua frente, como um presente do Céu. E não é? A diferença entre a busca científica voltada às exigências do desejo de controle humano, e a busca da sabedoria, está inteira nessa obediência ou não à escrupulosidade. Se a sabedoria é uma inteligência e uma presença, eu posso lhe pedir favores. Se a verdade é um conteúdo natural fixado, tudo o que eu posso fazer é cavar e esculpir, como se trabalhasse com rocha. E no fim, toda a loucura iluminista é esta soberba dos dominadores, que começam querendo escrupulosamente controlar a verdade nas suas mentes, e passam a querer controlar o mundo sob a sua verdade fixada. Tenho mais o que fazer, e acredito em fins mais nobres do que isso. A quem pense diferente, sinto muito. Sigam buscando suas verdades duras, certas, demonstráveis. Sejam felizes! E me deixem em paz. Se não deixarem, nem precisarei me esforçar para provar a sua soberba e desejo de domínio.

Depois de pagar um parágrafo em tributo aos bem pensantes da ciência iluminada, sigamos. Uma consciência maximamente individualizada não precisará ser forçosamente empurrada para a busca da verdade, porque será da sua mais espontânea e natural vontade fazê-lo. A questão, então, é saber como individualizar esta consciência.

Vou por Ortega y Gasset: “Eu sou eu e minha circunstância“. Eu acrescentaria, para os nossos propósitos: o homem é o homem, a sua circunstância e a harmonia entre as duas coisas. A formação intelectual, individualizante, é a busca do conhecimento desta essência individual, do conhecimento da circunstância que a atualiza no mundo concreto, e do conhecimento da ligação pacífica e ordenada entre estes dois conhecimentos de planos diferentes. Isso não se dá, como é óbvio a quem atente bem, apenas no mundo das idéias e do puro intelecto, já que esta essência mesmo já começa por viver esbarrando nas acidentalidades da vida, e é no meio da bagunça que vai ter que encontrar o seu caminho. E o “seu caminho” é esta harmonia entre as duas realidades, a ideal e a concreta. Dito de outro modo: a formação intelectual é o foco na consciência da própria vida ou, como diria Sócrates, é a experiência da vida refletida.

Se isto não é uma definição, ao menos deve ajudar a se ter uma idéia do que se trata. Mas posso dar ainda mais algumas dicas a respeito. Este processo de formação intelectual se realiza em algumas fases. Vejamos.

1) Humildade e humilhação. De cara, para adquirir algum conhecimento novo, você deve jogar fora ou pelo menos suspender algumas das suas opiniões anteriores. Se isso acontece em geral para qualquer aprendizado, no processo da formação intelectual isso fica mais difícil. Porque você deve reconhecer que praticamente todas as opiniões reinantes na sua comunidade sejam de algum modo contestáveis. Se não fizer isso, jamais poderá seguir buscando a verdade atemporal. Se toda verdade que existe é aquela que a sua comunidade carrega internamente na sua atividade cultural e política, então acabou a sua formação intelectual na mesma hora. E, hoje em dia, entenda-se bem: “comunidade” pode ser o mundo inteiro nos nossos dias, pode ser a nossa época inteira. É humilhante, sim. Porque é a lembrança sempre vexatória de que todo mundo pode estar enganado ao mesmo tempo, e que nenhuma autoridade presente consegue esclarecer a realidade vivida de forma completa. Isso humilha, se for vivido como um processo real e não como uma farsa. Quem se forma neste nível deve ser humilde, e isso significa, sim, se humilhar. Senão diante de Deus, por qualquer razão psicológica ou crença que seja, ao menos diante da realidade da própria ignorância. Não tem como essa fase não ser humilhante, pois você diz para si mesmo: “eu não sei quem eu sou, não sei onde estou e não sei o que tenho que fazer”. O pior: “e ninguém mais sabe!”. É necessário ter coragem e honestidade intelectual.

2) Resistência psicológica. Se ao meu redor todos parecem seguros, coerentes e convictos, enquanto eu estou inseguro e pareço incoerente, todas as minhas relações sociais atestarão repetidamente apenas a minha fraqueza e impotência de viver. Não existe outra possibilidade, exceto o isolamento social. O isolamento é uma possibilidade aberta, e efetivamente alguns sábios e santos a buscam, mas é algo perigoso ao mesmo tempo. O caminho tradicional da formação intelectual é o da resistência. É preciso resistir psicologicamente ao apelo das convicções reinantes socialmente e persistir na busca da verdade, apesar de isso não ajudar a integrar a pessoa na sociedade e, pelo contrário, causar inúmeros desconfortos. Este teste é de fogo, pois é o teste do amor: o que você ama mais, a sua própria vaidade ou a verdade? No fim das contas a resistência que é adquirida nesta fase da formação será para sempre necessária no futuro.

3) Pesquisa. Descolado da verdade social e resistente psicologicamente ao estranhamento alheio, o indivíduo que se forma pode então buscar finalmente o autoconhecimento, o conhecimento da sua circunstância, e da harmonia entre os dois. Ou seja, só nesta terceira fase é que começa propriamente a formação intelectual. Os apressados que não prestarem atenção nas fases anteriores confundirão inevitavelmente as opiniões e influências sociais, e jamais conseguirão definir com clareza o mínimo que sabem a respeito de si mesmos, e das circunstâncias.  O autoconhecimento é constituído da verdade essencial do indivíduo, é a apreensão intelectual que a autoconsciência tem de si mesma. Se este conhecimento não é jamais perfeitamente apreensível, também não é jamais totalmente estranho, dada a realidade simples de que nós sempre sabemos nos referir a nós mesmos sem confundirmos nossa identidade com as acidentalidades que a cercam, e, curiosamente, os outros também não nos confundem da mesma forma. Que nós somos algo em essência, isto é evidente. O problema é descascar esta identidade, como uma cebola, e ver o que sobra por dentro. Quase que uma frustração, descobre-se no fim que o que sobra essencialmente é algo tão delicado e sutil quanto uma idéia ou, na verdade, um ideal de vida. O autoconhecimento nunca vai passar disso neste mundo. Já a busca da compreensão do meio em torno, envolve tanto o conhecimento aprofundado da realidade complexa da vida das pessoas mais próximas em torno de nós, quanto das realidades sociais e culturais mais amplas, e suas respectivas conexões históricas e lógicas, até se chegar nas idéias fundamentais que movem o mundo inteiro desde tempos e modelos remotos. Em uma palavra: é o aprendizado da tradição como instrumento de inteligibilidade, para tornar translúcidas as realidades presentes nas circunstâncias da nossa vida individual. E a busca do encaixe entre as duas coisas, é a busca de quais são as melhores coisas que posso fazer dado o que sei de mim mesmo e das minhas circunstâncias (é encontro dos Propósitos, na minha terminologia). Puxa, que pesquisa! Para que o essencial não seja perdido, vamos resumir a tarefa. Tudo consiste em: a) lembrarmos da história da própria alma, ou seja, da a narrativa do que constitui a essencialidade do indivíduo como projeto de gente, como ideal humano; b) lembrarmos da história do mundo, ou seja, das circunstâncias que nos cercam, elas mesmas encarnações de idéias que podem ser rastreadas na cultura até os modelos fundamentais da tradição, seja essa tradição filosófica, religiosa, literária, etc.; c) intuir como é que a história da alma se encontra com a história do mundo, i.e., o que é que deve ser feito para que as duas histórias sejam perfeitamente compatíveis. O desfecho desta formação nunca ocorre, é claro. É a afinação e aprimoramento da capacidade intelectual que leva à ação potencialmente mais eficiente e correta no mundo (como a descoberta de uma espécie de mandamento individual). Sendo assim, enquanto existir vida, existirá a possibilidade de a individualidade se atualizar de forma mais perfeita no mundo.

Como se vê, ao fim, o sucesso é uma jornada, e não um objetivo. A lição que podemos tomar por ora é a seguinte: pare de correr atrás de coisas neste mundo. O objetivo da sua vida não é outra coisa que você mesmo, não porque você seja a medida de tudo o que existe, mas porque até no mais altruísta, elevado e renunciado amor que exista, há um Eu que decide sacrificar-se pelos outros porque descobre ser ele mesmo melhor nisso do que em qualquer outra coisa. No limite da formação intelectual, portanto, abraçam-se subjetividade e objetividade para revelar uma realidade que nos transcende. Mas não fujamos da nossa pequenez! Ninguém vai evaporar pelos ares, sair voando como anjinho, nem andar pelas nuvens. É na dialética nossa de cada dia, da Terra ao Céu, e do Céu à Terra, que vamos firmando essa formação. No fim das contas, não há confusão nenhuma, desde que se entenda a real proporção das coisas. Uma vida humana ainda é apenas uma vida humana: ao mesmo tempo um quase nada entre tantas e diante de Deus, e ainda assim tudo o que nós temos.

Uma coisa, ao menos, já deve ter ficado clara: é impossível buscar a Formação Intelectual sem dedicar-se a isso de forma especial. Ninguém se forma por acidente, enquanto cuida de “outras coisas” . Como se diz, a vida é aquilo que passa enquanto nós estamos ocupados fazendo outras coisas.

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*Na verdade, é possível, sim. O treino é altamente recomendável, mas não é necessário.

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