TED Talks e o progresso da ignorância

TED

Nem preciso começar a dizer que a idéia de que o que se faz depois, em termos intelectuais e civilizacionais, seja melhor do que o que se faz antes é não apenas uma bobagem, mas uma idéia perigosa, porque as pessoas tendem a acreditar nisso.

Acreditam que o que vem depois é melhor porque vêem uma certa evolução em suas próprias vidas, e ao observar flagrantes conquistas positivas na história humana, associam o benefício da sua maturidade individual com uma suposta maturidade coletiva, que beneficiaria então toda a humanidade, etc.

Há já uma literatura que mostra o erro deste pensamento. Enquanto as conquistas “coletivas” (na verdade, conquistas individuais coletivizadas, disseminadas pela sociedade) que beneficiam a comunidade não exigem dos indivíduos uma capacidade que vá além de um manuseio das novas tecnologias, os indivíduos beneficiados se tornam naturalmente indolentes, preguiçosos, e mal formados.

Todo conceito de avanço e de retrocesso é relativo.

O avanço temporal per se não possui qualidades distintas, e é uma força unívoca e indiferente às vontades humanas. Retrocesso, fisicamente falando, temporalmente falando, é algo que não existe. E mesmo o avanço temporal, no mesmo sentido absoluto, não possui quaisquer qualidades no seu movimento, pois que a sua característica fundamental é mesmo essa fluidez. Vale dizer: para o tempo em si não existe retrocesso ou avanço, porque ele é a própria fluidez, ou avanço contínuo do passado ao futuro.

Para se dizer que a humanidade tenha avançado ou retrocedido, é preciso colocar um ponto de referência. Com esse ponto fixo, esse valor ou princípio estabelecido, é possível fazer um julgamento, que será sempre parcial pois esse é, afinal, apenas um ponto de vista.

Enquanto os avanços tecnológicos trouxeram uma vida mais fácil para o ser humano, por exemplo, nós vemos que esse ser humano genericamente referenciado não existe. As diferenças de uso do benefício das inovações tecnológicas variam formidavelmente comparando-se os seres humanos concretos em diferentes classes sociais, ou em diferentes países. Então esse avanço já é imensamente relativo. O que nos leva a observar que o pensamento político não evoluiu tão bem quanto a capacidade tecnológica. Que evolução é essa, então?

A coisa fica pior ainda para o lado dos defensores da idéia de “evolução da humanidade” quando consideramos a inteligência humana, não digo nem na média, mas a capacidade intelectual dos pensadores, dos melhores, dos letrados, etc.

É evidente que a intelectualidade moderna buscou uma roupagem mais fresca ao libertar-se dos pensamentos dos antigos e dos medievais. Não se confessa, porém, que fizeram isso em primeiro lugar porque dava trabalho resgatar a tradição e manter o nível. A humilhação das novas gerações diante do saber dos antigos foi devastadora, impiedosa. Resolveram mudar de assunto, fingir que não sabiam de nada, etc. Isso levou a perdas catastróficas nos grandes centros de pesquisa e investigação, e daí podemos resgatar a origem de muitas loucuras modernas, especificamente o fenômeno totalitário, originado pela mentalidade revolucionária que já é a expressão mesma dessa rebeldia diante do pensamento dos antigos. Quanta coisa não sai desse ressentimento, desse terrível complexo de inferioridade? Imagino, por exemplo, que toda a imaginação socialista não precisasse de mais do que cinco minutos para ser estraçalhada por qualquer mente de porte da Antiguidade ou da Idade Média.

O que se perdeu com essa suposta “evolução” não foi pouca coisa.

Vou dar uns exemplos aqui.

Assisti algumas palestras do TED Talks, sobre assuntos que me pareceram interessantes.

No decorrer das exposições, porém, fui observando esse fato lastimável, de que o ser humano moderno, tão mais “evoluído”, tem em geral um trabalho medonho para dizer as coisas mais óbvias, como se fossem grandes insights geniais, sobre assuntos que uma tradição antiga já tinha enxergado em estruturas intelectuais bem mais robustas e avançadas.

É como se a humanidade tivesse que descobrir tudo de novo… que preguiça!

Por exemplo, numa determinada palestra uma mulher dizia que as pesquisas científicas e o debate em geral eram beneficiados pelo comportamento crítico, até mesmo hostil, dos que não concordavam, e que isso era mais valioso para o trabalho intelectual do que as atitudes de conciliação, a troca de favores e de agrados, o espírito do “deixa disso”, etc. Imediatamente me lembrei dos planetas maléficos da astrologia tradicional: Marte e Saturno. É disso que ela está falando, só que ela não sabe. E acha que está descobrindo um grande negócio. Ela não sabe que essas possibilidades, a marcial e a saturnina, são como que dimensões permanentes da vida humana desde sempre, que têm efeito não só dentro do feudo intelectual e científico mas em todas as realidades humanas, e que atuam concomitantemente com outras pressões representadas por outros elementos do simbolismo cosmológico, que ela também ignora flagrantemente. Temos então toda uma palestra para falar de algo que não alcança sequer o aspecto mais introdutório do simbolismo tradicional, que já é conhecido pela humanidade há milênios, e que ultrapassa o conteúdo da palestra de maneira tão completa e perfeita, que chega a ser humilhante para quem conhece algo do simbolismo tradicional. Mas lá está a palestra, divulgada no TED Talks, no Netflix, etc., e com aplausos entusiasmados…

Em outra palestra, uma pesquisadora falava animada, como que revelando um grande segredo mesmo, sobre o potencial imprevisível de mútuo benefício das relações humanas. Era mais ou menos assim: se você conhece fulano, uma pessoa nova, e se interessa por trocar umas idéias com essa pessoa, mesmo sem o saber você poderá estar investindo em um benefício futuro desta relação, seja por algo vindo desta mesma pessoa, ou algo vindo de outra pessoa que esta primeira conheça e te apresente um dia… entendem? O que está acontecendo? As pessoas estão ficando retardadas? Onde já se viu esse tipo de coisa ter que ser anunciada como uma revelação? Como se não fosse a coisa mais óbvia do mundo. E como se já não existisse um conhecimento mais avançado sobre isso, também oriundo do simbolismo tradicional. Me lembrei, por exemplo, do elemento Ar, que está presente nos signos de Gêmeos, Libra e Aquário. Ora, se a dona pesquisadora ficou tão animada de saber que os seres humanos podem se relacionar e se beneficiar mutuamente, imaginem só como ela reagiria se soubesse o quê esses três signos representam em aspectos mais sutis dessas relações humanas, relacionados ainda com outros símbolos que aprofundam essas relações… Toda a palestra da mulher se resumiu ao que seria um peido explicativo perto do significado do elemento Ar no estudo do simbolismo tradicional. Mas ela não sabe. A platéia não sabe. E lá estão os aplausos e o entusiasmo de um bando de ignorantes.

 

E por aí vai. Eu poderia dar dezenas, centenas de exemplos, sem acabar nunca.

Toda a idéia de”avanço” ou de “evolução” da modernidade é altamente precária e dependente de uma ignorância brutal sobre o conhecimento acumulado pela humanidade ao longo de milênios.

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