Notas para o CIFI (2)

7) Como desbloquear a trava cultural da concepção socialista?

a) entender o básico da teoria de Infraestrutura e Superestrutura dentro da tese maior da Luta de Classes como realidade fundamental do ser humano;

b) observar a própria reação, e de outras pessoas, a respeito da filosofia como uma atividade inútil, ou seja, o julgamento habitual com o critério utilitarista provindo de uma cosmovisão predominantemente economicista, e compreender a conexão deste juízo com a mentalidade socialista;

c) tomar posição a respeito da cosmovisão socialista: a realidade econômica, configurada na Luta de Classes, é ou não é o fundamento da realidade do ser humano? É possível que outro tipo de valor ou princípio valha mais do que este?

d) caso se tome posição contrária a exclusividade do fenômeno econômico como explicação fundamental da realidade humana, é preciso avançar na avaliação crítica à concepção socialista de mundo, para garantir que o empreendimento filosófico não seja futuramente boicotado por interferências quaisquer advindas da vasta influência socialista impregnada na cultura.

 

8) Como se pode avançar na avaliação crítica da concepção socialista de mundo?

Entendendo o que é fundamentalmente e historicamente a realidade econômica do homem, como surge o socialismo no contexto da história do capitalismo, e no que resulta, na prática, a aplicação da mentalidade socialista.

 

9) Qual é a realidade econômica do homem?

O homem é fundamentalmente, do ponto de vista econômico, o que podemos chamar de pobre, por natureza. A riqueza é historicamente uma exceção que sempre atingiu pequenas minorias da população humana. Essa realidade fundamental, porém, não impede que o homem aja, individual e coletivamente, em busca da prosperidade, ou seja, de uma vida materialmente mais benéfica.

Individualmente, o homem enriquece controlando o equilíbrio orçamentário de suas contas do lado da despesa, de forma que haja poupança suficiente para garantir um futuro melhor para si e para os seus.

Coletivamente, o homem enriquece quando participa de uma sociedade que lhe ofereça a oportunidade de aumentar a sua renda como participante da prosperidade geral.

 

10) Como o homem, individualmente, enriquece controlando o equilíbrio orçamentário de suas contas?

Utilizando racionalmente os conceitos básicos de finanças, quais sejam: a noção do que é Receita, Despesa, Resultado, Lucro, Prejuízo, Investimento, Dívida, Juros e Inflação.

O homem também consegue prosperar individualmente quando consegue aliar à compreensão racional das finanças a devida motivação psicológica que lhe faça tomar o risco de renunciar à possibilidades presentes em nome de possibilidades futuras.

 

11) Como o homem, coletivamente, enriquece ao participar da prosperidade da sociedade em que vive?

A renda do indivíduo tende a aumentar na proporção direta da produtividade da economia da sociedade em que vive, ou seja, a quantidade de riqueza que é gerada em relação aos meios e recursos empregados (a produtividade é um conceito relacional necessariamente).

 

12) O que significa a produtividade econômica na prática?

É a capacidade de gerar proporcionalmente mais riqueza (bens e serviços) com menos recursos (insumos, matéria-prima, mão-de-obra, etc.). Esta capacidade tem um crescimento mais ou menos contínuo e estável no decorrer da história humana, como resultado da sofisticação das relações econômicas elementares da vida da espécie.

 

13) Quais são as relações econômicas elementares, e como ocorre a sua sofisticação?

O ser humano percebeu há muito tempo que a vida em sociedade lhe é mais benéfica do que a vida isolada. A capacidade de mútua ajuda e colaboração permite ao homem conseguir, coletivamente, o que jamais poderia alcançar como indivíduo. É assim que a realidade do amor ao próximo, neste sistema de colaboração, se mostra mais adequada e benéfica ao ser humano. Mesmo hoje, depois de vários séculos de evolução e sofisticação da vida econômica em sociedade, que se tornou bastante complexa, podemos observar na nossa experiência imediata a interferência direta da ajuda humana para a nossa vida prática (exercício de rastreamento dos objetos presentes).

O sistema de trocas (ou de doações mútuas) otimiza a capacidade de geração de bens e serviços (ou seja, aumenta a produtividade geral da sociedade), pois cada um consegue aprimorar e inovar na sua área de atuação. Com o tempo este sistema se sofistica e passa a contar com instrumentos fiduciários, e destes chega-se aos instrumentos creditícios.

Com isso tudo evoluindo através dos séculos foi possível elevar o nível médio de vida das pessoas a níveis inimagináveis desde a concepção normal, antiga, sobre a vida humana como vida de miséria e pobreza.

 

14) Como surge o socialismo no contexto histórico da evolução capitalista?

A partir do desenvolvimento acelerado das economias modernas capitalistas, surge pela primeira vez a perspectiva de que o ser humano seja capaz de vencer ou ao menos atenuar muito a natureza econômica da escassez e da pobreza geral.

Essa idéia é inspirada pela abundância geral e pelo aumento do nível médio de vida na fase posterior do desenvolvimento capitalista. A pobreza passa a ser, ao invés de uma realidade humana historicamente normal, um problema social a ser enfrentado.

Diversas lutas políticas pelos direitos civis, e especialmente a luta contra a escravidão, darão mais incentivo ainda à idéia de revolução econômica, como um tipo de consequência necessária à evolução da política humana.

O socialismo vai interpretar então a história humana inteira como a Luta de Classes, que resultará na concepção socialista de mundo, onde a pobreza já não possui nenhuma naturalidade, mas é um mal social a ser combatido e eliminado, tendo em vista a grande desigualdade social proveniente do mesmo processo de prosperidade histórica. Embora o nível médio de vida da população em geral tenha subido, o aumento do nível de vida também dos mais apossados constitui na mentalidade socialista uma injustiça social, etc.

 

15) No que resulta na prática a aplicação da mentalidade socialista?

A missão de promover a justiça social requer que haja um poder central estatal capaz de coletar as riquezas, administrá-las e distribuí-las na sociedade. Esse poder central e concentrado do Estado socialista gera ao menos três efeitos: a) a ascensão de uma elite política que tende a gerar regimes totalitários e tirânicos, já que não há o jogo de forças opostas dentro da unidade socialista, exceto das forças endógenas ao próprio sistema; b) a escalada da corrupção generalizada dentro do Estado; e c) a ineficiência geral dos serviços públicos, que não conseguem reproduzir eficientemente a ação natural do sistema privado.

Com tirania, corrupção e ineficiência, o Estado socialista acaba destruindo as possibilidades de geração de riqueza, o que leva à se ter cada vez menos recursos para serem distribuídos, e, em última análise, leva à miséria em níveis terríveis, com a escassez de produtos básicos, grandes filas para obtenção de bens elementares, a prática de canibalismo, etc.

 

16) Porque, afinal, toda a ideologia socialista tem o potencial de bloquear a atividade filosófica?

Toda e qualquer formulação de idéias que não se identifique com o ideal revolucionário é classificado como ideologia à serviço da classe dominante, com função de alienar a população da sua realidade econômica e da Luta de Classes. Embora o próprio capitalismo não seja uma ideologia, mas uma realidade que evoluiu no decorrer de milênios, como vimos, o socialismo entende que apenas a sua interpretação da história e da realidade é válida.

Desde esta restrição intelectual extrema é impossível praticar qualquer tipo de atividade filosófica livremente.

Lateralmente, dentro da perspectiva de reação contra a mentalidade revolucionária, os liberais não apresentam por sua vez um imaginário mais independente dos assuntos econômicos, o que gera uma obsessão generalizada na sociedade pelo assunto do dinheiro, do sucesso, etc., que também é altamente prejudicial para o exercício da liberdade filosófica.

Todas as preocupações de viés econômico, sejam socialistas ou liberais, deprimem e têm o efeito de estorvo e empecilho para a atividade filosófica.

 

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