A Sombra e a Escuridão

A Sombra e a Escuridão

A morte de um leão é uma tragédia; a morte de milhões de pessoas é uma estatística. Assim diria um Stalin dos nossos dias, um Stalin pós-Disney.

A notícia que está fazendo correr cachoeiras de lágrimas nesses dias é a morte de um leão africano chamado Cecil, uma espécie de celebridade do mundo animal, numa caçada esportiva feita por um dentista americano.

Nós podemos discutir o dia inteiro, e por mais dias sem fim, o assunto da caça. Aliás, vocês podem, porque eu não tenho o menor interesse por isso.

Eu me interesso pela cultura e pelas idéias. E o fato é que há, sim, um fenômeno evidente e inquestionável da nossa cultura dentro dessa repercussão. Suspeito que estamos diante de uma inversão, nesse mundo virado do avesso.

Senão vejamos.

Se o dentista tivesse sido devorado pelo leão (e isto ocorre no mundo como sempre ocorreu), todos estaria dizendo “bem feito!”, ou seja, o fato de ocorrer uma morte em si não significa nada.

O problema é a morte de um ser inocente, mesmo que este ser tenha entre as suas características distintivas… matar outros seres, alguns indubitavelmente inocentes, como as zebras, as gazelas, criancinhas humanas, etc.

Inocência por inocência, porque não se chora tanto assim, por exemplo, a morte de milhares de cristãos (e mesmo, e principalmente, de mussulmanos) sob as mãos do Estado Islâmico?

Já sei: os leões não tem nada a ver com isso, eles são mais inocentes que os cristãos sírios ou iraquianos, ou que os mussulmanos… que toda a espécie humana, em resumo.

E assim caminha a humanidade, tão humana que já se distancia de si mesma.

Aqui se discute placidamente se os “menores infratores” que estupraram e assassinaram as meninas no Piauí devem ser ou não punidos, como se pairassem sobre o assunto graves e complexas dúvidas éticas, grandes sutilezas metafísicas. Enquanto isso, um dentista que caçou e matou um leão na África se torna o inimigo público número um da nossa civilizadíssima sociedade.

Mais de cinquenta mil homicídios por ano. Civilizadíssima.

Lemos sobre as vítimas dos “menores infratores” quase como que tomando notícia de uma curiosidade sociológica, quase zoológica, enquanto o leão africano ganhou o estatuto de portador dos mais nobres direitos humanos.

Como é possível transformar a vida humana em acervo da zoologia, enquanto a vida animal é sacralizada?

É simples: basta fazer a revolução cultural para inverter o senso das proporções, e para se fazer esquecer toda a história humana.

Basta fazer com que as populações assistam mais filmes como O Rei Leão, e menos filmes como A Sombra e a Escuridão.

 

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