Das graças uma das maiores, e a mais esquecida

Fiz um vídeo recente sobre a inteligência. Vejo o vídeo. E assisto de novo. Não me convenço a publicar.

Acho-me desnecessário, correndo o verbo sobre o evidente, até sobre o miúdo. E me lembro então de Schuon no seu Para compreender o Islã, fazendo o elogio aberto do intelecto que nos humilha, que nos faz sentir toda a nossa indignidade de favelados espirituais, a desprezar esta graça de Deus.

Mas não sou Schuon, não sou perenialista, não sou nada disso. Nem quero ser: minhas ideias buscam aquela realidade simples e fácil de um sanduíche de mortadela. Nenhuma transcendência pode esquecer a existência pífia e, não obstante, real, de banalidades como os sanduíches de mortadela.

Eis porque querer declarar miudezas se torna ousadia no mundo. Os frescos da magna escrupulosidade repugnam a ousadia de tudo que se mostra simples; os frescos especialistas do academicismo mafioso repugnam a ousadia de tudo que se mostra livre do gangsterismo intelectual; os frescos do ceticismo brutal semi-animalesco repugnam a ousadia de tudo que busca um além, um valor superior.

Basta você querer dizer que dois mais dois são quatro, que este mundo desaba sobre a sua cabeça. Não que este mundo esteja valendo muita coisa, vamos falar a verdade. Mas é triste.

Toda a sabedoria só pode sair ao ar livre usando-se o saca-rolhas mágico dos autorizados, e toda verdade só pode ser apreciada devidamente com os serviços do sommelier intelectual do momento, auto-intitulado portador da gazua que destrava todos os mistérios. Assim acreditam, ignorando porcamente que o argumento de autoridade é o mais fraco de todos, o mais tolo e, arriscando um psicologismo elementar, o mais inseguro, medroso, cagão.

Mas é nonsense essa afetação de exclusividade, esse monopolismo das idéias. Depois não adianta condenar os modernos. Não é esse o vício moderno?

Me lembro bem, do curso de Metafísica em 2011, com Olavo nos EUA. Este curso me marcou por duas coisas. Primeiro, pela concepção da filosofia moderna não como uma fase de luzes, de Aufklärung, mas como um verdadeiro ocultismo, onde os filósofos se tornam “guardiões do portal da verdade”. Segundo, por uma gafe que eu posso ter cometido e até hoje não sei direito se cometi ou não, num episódio daqueles em que você nunca sabe se pensou só consigo mesmo ou se pensou em voz alta… acho que pensei em voz alta e fui mal interpretado, porque recebi uns olhares estranhos. Me senti meio cagado, meio leproso. Bom, ninguém me pediu satisfação, essa é a verdade.

É um mistério que um dia talvez se resolva.

A questão que importa aqui é que a característica marcante da filosofia moderna é essa postura do pensador como um guru místico iniciado nas arcanas artes do além, que se torna o tradutor da sabedoria para os reles mortais, através do domínio do que veio a ser esta ciência moderna. Isso é ideológico, quando não é meramente artístico. Ou seja: é a redução da ciência verdadeira em mera política, ou então a uma expressão lírica de valor estritamente individual, fantasiosa. Para não falar de macumbas e iniciações sinistras, o que cabe aos historiadores determinarem.

Dessa lição não me esqueço mais. Já coloquei na minha caixa de ferramentas o detector de “guardiões do portal da verdade”. Quando alguém assim entra por uma porta, já estou saindo pela outra.

Voltando ao assunto central.

Em 2012 eu escrevi sobre a inteligência, apenas para convidados, na nossa “Academia”. Uma dúzias de páginas ousadíssimas, descaradas, diretas. A inteligência se tornou no meu projeto um tema, meu terceiro tema, a Inteligência com letra maiúscula. É algo fascinante. É aquilo que, entre outras coisas, em cinco minutos pode nos levar ao céu ou ao inferno mental, a nossa capacidade de tomar como real qualquer coisa possível, e a nossa consequente capacidade de crer. Isso já depois do básico, da tarefa básica da inteligência, eikasia.

Pois bem, o tempo passou e com uns anos a mais de idade perdi algo daquele tônus mais juvenil, daquela ousadia. Hoje, mais modesto, ouso apenas dizer que somos inteligentes, ao menos naquele nível básico da eikasia, e penso até se com isso não declaro muito, não ouso muito. Penso, inevitavelmente, no fracasso de dizer obviedades: os que entendem já viram, os que não entendem arriscam-se a não ver nunca, ainda que debaixo de um porrete pedagógico.

Mas o fracasso só não é tão besta e inútil quanto o próprio sucesso. O assim chamado “sucesso” –essa coisa que é vendida pelas esquinas como se fosse chiclete–, como bem apontou Chesterton um dia, é uma falácia. Nelson Rodrigues já disse: “o único sujeito realizado é o Napoleão de hospício, que não terá nem Waterloo nem Santa Helena”.

Mas todas essas divagações não valem o tempo de um cafezinho. São as coisas efêmeras assim que nos levam a perder a vida.

O tema vale tudo!

É isto o que importa. O tema, e o nosso trabalho com o tema. Lembro-me de Sertillanges, que lembrou de São Tomás. Basta-me.

Pois bem, o tema da inteligência.

Disse eu no vídeo que sem essa concepção provisória do que seja inteligência, não adianta de nada querer compreender o que é a formação intelectual. Essa inteligência é uma graça que nos é dada universalmente desde que nascemos, simplesmente por participarmos da nossa espécie. É uma maravilha, se você pensar bem, se você levar em conta o que te separa do mais sofisticado dos chimpanzés. Há um mundo inteiro, ou mesmo uma dimensão inteira, de distância entre a animalidade presa na sensação imediata, dependente da realidade concreta para tudo, inclusive para lembrar e raciocinar, e a inteligência humana que percebe os esquemas de possibilidades por trás dos seres, ou seja, as idéias. Para muito além das mais estratosféricas cogitações dos símios, nós vemos as idéias independentemente dos entes que delas participam. Mais: vemos o Ser do qual tudo o que existe participa necessariamente. Nós percebemos a eternidade! Como medir, como valorizar apropriadamente, uma graça dessas?

Não há como ser grato o suficiente. O máximo que podemos fazer –e que já dá um trabalho–, é viver dignamente, em respeito e de acordo com essa graça, honrando-a.

Mas geralmente não se faz isso. Usa-se a capacidade de ver o Eterno para fazer continhas, para organizar coisinhas, numa vidinha bem miserável, uma vida de calendário.

Como reconhecer o que é formação intelectual, sem antes falar do intelecto reconhecendo o seu peso monstro na nossa vida? É impossível. Por isso não resisti a gravar o vídeo e falar dessas coisas. Mas ainda não publico…

Há quem estude e fale de dianoia e noesis, com propriedade intelectual, mas sem emoção no coração. Corações de pedra, esquecem da eikasia, que é essa maravilha, que é esse passaporte para a eternidade. “Espíritos encarquilhados, corações ressequidos”, diria Sertillanges. Discorrem sobre a dialética e sobre a intuição sem nenhuma admiração, sem nenhum espanto. Agem como espectros sugando um resto de alma que habita um corpo. Analisam e abstraem o intelecto humano como se faz uma operação de retirada de apêndice.

Esses açougueiros do espírito fazem tremer os fundamentos do mundo. Usam a inteligência como uma calculadora numa mesa de trabalho, num balcão de mercearia. Essa inteligência maravilhosa… das graças uma das maiores, e a mais esquecida.

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