Quem tem que sair do armário é o socialismo

Sair do armario

 

Leio um artigo da revista Época de 29 de junho passado, chamado “O fisiologismo sai do armário”, de Guilherme Fiuza.

O autor diz que o petismo assume diante de toda a situação política, e especialmente com uma fala recente de Lula, que é fisiologista como qualquer outro partido, na prática política típica no Brasil de sempre. Finaliza o texto defendendo o que seria supostamente o nosso sentimento universal de cidadãos mal representados pela classe política: “Ou o Brasil resolve isso agora, ou assume de vez que virou agência de empregos”.

Essa análise está tão longe da realidade dos nossos problemas que eu realmente vou ter que resumir as coisas aqui, para não dar uma longa aula a respeito, que é uma coisa que simplesmente não dá para fazer agora.

Vejamos o texto na sua parte mais vital:

Lula está fazendo a parte dele: além de alertar que sua criatura está na lama, o ex-presidente informou ao país: ‘A gente só pensa em cargo’. Demorou, mas finalmente o fisiologismo petista saiu do armário.

A confissão de Luiz Inácio da Silva é um dos momentos mais dramáticos da história recente. Percebendo a si mesmo e a seu partido afundados no volume morto da política nacional, o número um abriu o peito e soltou de lá de dentro a verdade sufocada, dolorida, obscena: o PT só pensa em emprego, só pensa em ‘ser eleito’ como meio de vida, para viver à custa do Estado brasileiro fantasiado em bandeiras bondosas. Claro que Lula quis dizer que o PT ficou assim, tipo de repente, mas não é preciso ser psicanalista para captar a autodelação: ‘A gente só pensa em cargo’ –é assim que somos, e sempre fomos. O famoso ‘partido da boquinha’, conforme apelido cirúrgico criado por um colega de populismo parasitário.

Primeiramente, devemos sempre ler e ouvir um agente político ou cultural nos seus próprios termos, ou seja, devemos entender do que se trata o assunto de acordo com a visão do próprio autor de uma idéia. Quando Lula disse essas coisas que Fiuza comenta, ele disse também que “o PT perdeu a utopia”. Nós temos que entender o que ele quer dizer nos seus próprios termos. Devemos fazer isso por alguma bondade? Não. Apenas para entender a realidade na sua verdadeira densidade. Eu não sinto um grama de simpatia por Lula ou pelo PT. E não preciso sentir para compreender que Lula discursou aos companheiros para lembrar do ideal socialista, utópico, do tempo em que havia gente que “trabalhava de graça”, para resgatar o partido da sujeira do fisiologismo. Isso é Lula nos seus próprios termos. Fiuza diz que essa confissão de fisiologismo vale para o PT de sempre, o que dá a entender que a utopia petista sempre foi uma farsa para cobrir o fisiologismo. Será?

Porque um partido e suas hostes podem “viver à custa do Estado brasileiro fantasiado em bandeiras bondosas”? Não será justamente porque são socialistas? Como seria possível a um sistema político fisiológico vampirizar o Estado, se não houvesse antes o discurso que legitimasse o “populismo parasitário”?

Quando Lula diz aos petistas que eles devem voltar à utopia para escapar da decadência fisiologista, o problema não é a confissão do fisiologismo em si, como se este tivesse sido sempre o mal do PT. Não. Esse pode ser o mal de um PMDB, de um PFL, etc., enfim, de qualquer comparsa dos donos do poder. O mal do PT –e que nisto se iguala ao PSDB–, foi vender sempre o utopismo socialista que arrasta o país ao desastre fazendo o Estado crescer esmagando sob suas patas a sociedade.

O que deve ser condenado na fala de Lula não é a confissão da prática fisiologista, mas o discurso do utopismo socialista, que é a base intelectual podre que sustenta toda essa bagunça por trás.

Fiuza ataca o sintoma e não a doença.

É compreensível que assim o faça, porque o socialismo permeia e determina a mentalidade de todos os partidos brasileiros que disputam o poder. Para mim, longe dessa patacoada recente de Lula, que Fiuza destacou, um dos verdadeiros “momentos mais dramáticos da história recente” foi quando Lula exaltou o fato de que só partidos de esquerda estavam disputando a presidência do país.

Mas reconhecer que o que tem que sair do armário é o socialismo equivale a jogar a toalha: por ora não há a menor chance de sair da desgraça, até que haja uma outra geração que possa, talvez, pensar diferente dos mandamentos socialistas, que vêm de vícios arrastados desde a nossa Constituição, que resolveu distribuir direitos como se contasse com a onipotência divina, sem dar a menor conta da realidade das coisas.

Atacando o fisiologismo, fica mais fácil para a imprensa justificar e participar desse sentimento nacionalista e patriótico que deseja (e o faz justamente) expelir o PT do poder. Não é isso o que todo mundo quer? Que governe o PSDB, ou mesmo o PMDB? Todo mundo quer isso para poder tocar a vida, para “sair da crise”.

Essa crise, porém, é apenas a ponta do iceberg. É um problema institucional de momento, uma crise econômica por falta de credibilidade. É possível tirar o país disso combatendo o PT, nem que seja no seu confessado fisiologismo e nas suas práticas corruptas.

Só que a verdadeira crise é moral e cultural. Sem revisar a atmosfera ideológica da nossa política, ou seja, desse socialismo indesculpável e catastrófico, tudo o que veremos é a troca dos fisiologistas de ocasião por outros novos, sejam de que partido forem.

Se querem saber, o fisiologismo é dos males o menor. O maior risco de consequência da utopia socialista petista é o autoritarismo.

Talvez o país seja inclusive salvo –vejam só que ironia– graças à corrupção, que não permitiu ao PT avançar na sua agenda que já contemplava o controle da mídia, seguindo a linha totalitária bolivariana.

Conclusão: é fácil bater no fisiologismo, como faz o senhor Fiuza. Difícil é bater no socialismo, que é uma crença tão cara aos corações das elites e da mídia ilustrada. É fácil condenar a confissão de fisiologismo na fala de Lula, mas o difícil é condenar o discurso de utopia que levou ao fisiologismo como mera consequência.

O que tem que ser combatido é a utopia. O fisiologismo é um filhote da utopia socialista, tanto quanto a tirania, e a ineficiência econômica, entre tantos outros males.

Quem tem que sair do armário é o socialismo.

 

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