O argumento perdido, irracional, de Beltrame

Beltrame

 

Continuo lendo a revista Época de 29 de junho.

Eu até gostaria de passar essa revista rapidamente, de uma vez, mas eles não me deixam. A cada página há o esforço deliberado de nos convencerem de algo que tem que ser checado, pensado, porque são assuntos importantes.

Deparo-me com uma entrevista que a revista fez com o Secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame. O título cita o entrevistado: “A guerra às drogas é perdida, irracional”. Vejamos.

Há um tanto de petitio principii na fala do Secretário. Uma petição de princípio é um tipo de argumento falacioso, onde a conclusão está embutida nas premissas.

Embora a função pública de Beltrame não seja a de legislar, e sim o de executar a lei, ele resolve debater a questão das drogas como se fosse um parlamentar, com opiniões, idéias, conceitos, etc. Até aí, é uma prerrogativa que ele tem como cidadão, do qual pode usufruir até como um especialista no assunto. Só que ele não está dispensado de apresentar as suas razões para pensar como pensa.

Isto acontece com abundância escandalosa no Brasil: autoridades executivas ou judiciárias, que estão habituadas a arbitrar no exercício de suas funções nominais, extrapolam o seu modus operandi avançando para dentro do debate político, dando-se por entendidos e autorizados para afirmar as coisas com grande prestígio. Se repararem, encontrarão isso às pencas no Brasil.

O motivo é simples: o legislativo, o poder político por excelência, é muito fraquinho, composto de gente mal preparada, que não assume o seu papel. Basta ver o escândalo que se faz quando surge um tipo como Eduardo Cunha (a despeito de qualquer culpa que este tenha sobre a face da Terra, ressalvo, para os plantonistas da idiotice perpétua), para entender como o Brasil não está acostumado com um Poder Legislativo forte.

Em virtude disso o Executivo legisla com as MPs, e o Judiciário também adora palpitar sobre os mais diversos assuntos, como se representassem os interesses da população para essa finalidade. Jamais me esquecerei do voto que o Ayres Britto deu no STF sobre a questão do aborto, terçando placidamente sobre o surgimento da pessoa humana, e concluindo que nós nascemos e temos direito inalienável à vida mais ou menos na época de quando nossos pais nos registram em cartório, algo assim. O Legislativo, enquanto isso, fazia sei lá o quê.

Pois bem, voltando ao Beltrame.

Existe uma lei no Brasil, eis o primeiro e inconfundível fato.

Como Secretário, o senhor Beltrame foi escolhido pelo Executivo estadual para executar esta lei, e não para dar opinião a respeito.

Se quiser, não obstante, opinar, como qualquer um de nós (e até como os parlamentares!) ele deve apresentar as suas razões. Deve argumentar. O que ele faz?

O Secretário resolve arbitrar sobre o assunto de forma imperial e absoluta como um Nero, um Calígula. Ele não nos deve explicações. Simplesmente sabe o que é melhor para o mundo.  Vejamos.

Em Portugal, o assunto ‘drogas’ não está inserido na polícia, mas no Ministério da Saúde. Com a ajuda de juízes, procuradores, psicólogos, médicos e integrantes da sociedade civil.”

Em Portugal se faz assim ou assado… e o que isso tem a ver com o Brasil? Tirando a língua portuguesa, no que Portugal se assemelha ao Brasil, para tirarmos de lá alguma sabedoria? E mais, mais importante: porque a forma de lidar com o assunto “drogas” em Portugal tem algum valor superior a forma que se lida no Brasil, com a lei que temos? POR QUÊ? Ele não nos diz.

Simplesmente Portugal tem algo de melhor, uma superioridade qualquer indecifrável, indizível, que nós temos que aceitar e ponto final. Petição de princípio: o que deveria ser demonstrado foi dado por pressuposto.

Continua Beltrame:

A polícia [em Portugal] pega o usuário e ele é convidado a participar de encontros. São 90 clínicas em Portugal, completas com toda a assistência, voluntários e visitas.”

E daí?

Como diria o Sergio Mamberti, “quedê”? Quedê os argumentos?

Os usuários de drogas são convidados pela polícia a participar de encontros… ah, entendemos tudo agora. É só uma questão de civilidade! Se nossa lei não fosse tão brutalmente aplicada por esses policiais grosseiros, se nós convidássemos os usuários a participar de encontros, tudo estaria resolvido. Talvez os traficantes também pudessem participar desses eventos, até para abastecer o coffee break, que ninguém é de ferro.

Mas não vai ser palhaçada, não. É tudo seríssimo:

E uma comissão fiscaliza isso“.

É claro! Tudo o que precisávamos era de mais uma comissão. O brasileiro já paga poucos impostos, mesmo. Nós precisamos de mais burocracia. Eis a solução de Beltrame, à moda da terrinha (com todo respeito aos portugueses, que têm o direito de resolver os seus problemas como bem entenderem).

Continua o Secretário:

Todos se juntaram para combater essa doença, porque o vício é uma enfermidade, e não um crime. Sem vaidade, sem luta de poder.”

Secretário, deixe-me informar uma coisa: as drogas ilícitas são… ilícitas.

A lei não é uma “vaidade”.

Se na sua opinião o uso de drogas é uma doença e não um crime, convença-nos!

Na minha opinião o vício em drogas é tão sério e tem consequências tão terríveis, tanto para os usuários individualmente quanto para a sociedade, que dizer que isto é apenas uma questão de saúde pública me parece uma temeridade.

As leis repercutem a visão de mundo que a sociedade tem, traduzida pela representação parlamentar. Sou liberal o suficiente para achar que o Estado não tem que se meter nos nossos vícios particulares, inclusive no uso das drogas mais pesadas. Tudo isso a priori. Só que nós não vivemos num mundo a priori, vivemos num mundo real. E o Brasil é um pedaço de terra voando pelo espaço sem rumo. Se fosse um barco, o Brasil estaria à deriva numa tempestade terrível, com a tripulação bêbada e o capitão dormindo.

O que quero dizer é que nós temos tão pouca estrutura civilizacional e cultural no país, que se você liberar as drogas aqui, me desculpe, mas não teremos clínicas, juízes, procuradores, médicos e comissões para dar conta do recado! Seremos a nação mais fracassada, perdida e alucinada de todos os tempos. E olhe que já não estamos muito longe disso.

Por exemplo: o Brasil já consome quatro vezes mais cocaína do que a média mundial.

Esse consumo vai diminuir com a legalização das drogas?

É ISSO, ESSA É A IDÉIA?

É assim que se resolve esse “problema de saúde”?

Posso dizer do meu lado, sobre educação.

A maioria das pessoas já tem uma atenção muito dispersa, e uma capacidade de concentração tão ínfima, que já é preocupante que haja o consumo de drogas legais como as novelas da Rede Globo, as revistas de celebridades, etc. Se ficar fácil usar as drogas, creio que daremos com isso um passaporte só de ida para uma grande parte da nossa juventude, para que percam totalmente o contato com a sua realidade pessoal, quanto mais para a sua realidade política.

As drogas são usadas para escapar da realidade grotesca que é o mundo formado pela filosofia moderna, pelo ateísmo, pelo niilismo, etc. Ao invés de recuperarmos a sabedoria da filosofia tradicional e da religião, nós vamos ofertar maconha, cocaína, heroína, crack? Essa é a oferta que fazemos aos jovens?

Eis a minha visão de mundo: as pessoas precisam de paz, de sabedoria, de entendimento, de consciência histórica e política. Precisam da redenção e da salvação. O resto é o que vem do capeta.

Por mais que deteste a intervenção estatal no modo de vida do indivíduo, o fato é que a situação brasileira pede mais consciência e leitura de conjuntura. Quando formos um país de gente educada e com oportunidades como é o caso de Portugal, daí nós podemos falar de liberar as drogas, até porque já serão poucos os dependentes dessas porcarias, os realmente perdidos no mundo, que são –esses sim– caso de saúde pública.

Mais adiante, Beltrame escorrega vergonhosamente, sai do papel de mero opinador, e confessa algo que, se não me engano, seria crime:

Nunca foi nosso objetivo acabar com as drogas“.

Opa! Espera aí, vocês não têm que cumprir a lei?

Eis o método esquerdista em plena ação: você cria uma realidade fingindo que ela já existe. Se a lei não liberou o uso de droga, não tem problema, a autoridade já dá por resolvida essa questão, definindo para si objetivos outros que estão bem longe do espírito da lei. Ou por acaso pela lei as drogas são ilegais, mas não devem acabar?

Continua:

É impossível [acabar com as drogas]. Parece que os brasileiros não acordam para o desperdício dessa guerra. Não existem vitoriosos. Discriminalizando [sic] o uso, um dos efeitos é o alívio na polícia e no Poder Judiciário, que podem se dedicar aos homicídios, aos crimes verdadeiros.”

Jesus Cristo! Nossa Senhora! Vou começar a usar luvas e máscara para ler esse tipo de revista. Tenho medo de me infectar com a estupidez.

Senão vejamos.

Primeiramente, o Secretário diz que nunca foi o seu objetivo acabar com as drogas.

Depois, ele diz que é impossível fazer isso.

Escolha, Secretário. Se o senhor nunca teve o objetivo de acabar com as drogas, como é que pode nos dizer que isso é impossível?

Pessoas menos ortodoxas que eu diriam que isso é uma contradição.

Continuando, o Secretário diz que parece que os brasileiros não acordaram para o desperdício dessa guerra. A mim, modestamente, parece que o Sr. Beltrame é que não acordou ainda para o seu papel. Existe LEI no país, LEI! Não é mais para cumprir? Desde quando é papel de um Secretário de Segurança Pública deixar de cumprir o seu dever, confessar que o fez, e ainda por cima dizer que a população ainda não acordou? Na maior cara de pau, como se estivesse cantando um samba.

Diz o Secretário que “não existem vitoriosos”. Eu me pergunto o que é que os traficantes pensam sobre isso.

E por fim afirmou que um dos efeitos de liberar as drogas é que a polícia e o judiciário ficarão menos sobrecarregados… ai tadinhos! Vamos ajudá-los! Afinal nós pagamos tão poucos impostos, para esses pobrezinhos terem que se preocupar com coisas tão irrelevantes… são só uns crimes aí, tipificados no Código Penal, só isso.

Beltrame se tornou uma entidade sobrenatural, justíssima, acima do Bem e do Mal, interpretando a lei escrita e disposto a nos revelar o que é crime verdadeiro, e o que não é. É uma figura típica da burocracia ilustrada, produto de uma cultura socialista até a medula.

Farsa. Essa entrevista é uma farsa, uma piada.

Beltrame está jogando para a torcida dele, levantando a bola para que o STF depois marque “o gol” da descriminação das drogas. Quem viver, verá. Basta o Legislativo perder força e voltar a ser o cachorrinho do Executivo, que o Judiciário vai lá começar a palpitar sobre todos os assuntos do universo, com a maior naturalidade.

Mas a entrevista ainda não acabou. Sinto muito, mas ainda não acabou.

No Brasil, estamos em retrocesso. Eu tiro fuzil de policiais, levo uma surra quando tento tirar armas de bombeiros e uma grande parte da população continua querendo se armar.”

Maldita população! Maldita seja, que não deixa o Secretário em paz com sua visão de mundo!

Vocês pensam que a “grande parte da população” apita alguma coisa numa democracia? Estão enganados… bem-vindos à ditadura confessada, cuspida, escarrada. É bem mais soft na aparência, sem tanques na rua ou palavras de ordem. Mas garanto que nos fundamentos da sua violência contra o indivíduo, é bem mais hard, invasiva e totalitária, justamente porque é mais sutil, de enfrentamento mais difícil. Uma ditadura qualquer se limita a controlar a sua liberdade. A revolução cultural quer controlar a sua consciência, quer fundar um novo homem. Gramsci era possuído por um grande demônio, só podia ser.

Voltando.

Beltrame se anima, de repente. Recupera a iniciativa, apesar dessa população mentecapta, desses brasileiros com o discernimento de quadrúpedes, que não conseguem cogitar o que é melhor para si mesmos:

Agora, quero um plano de ação. Quem vai fazer o que, para quem e para quando. No início de abril, criei o Comitê Executivo de Políticas Públicas e Sociais nos Territórios Pacificados e convoquei para esse grupo representantes de todas as secretarias envolvidas com cidadania. Da água e esgoto à iluminação, educação, saúde, urbanização.”

Uau!

Beltrame quer refundar, nada mais, nada menos, que o Estado do Rio de Janeiro! Ele quer fazer tudo de novo, tudo melhor, mais bacana.

Sabe quanto o Brasil vai dar certo, assim?

Nunca.

Existe uma realidade, e existe uma lei.

A realidade é que o tráfico de drogas é a atividade criminosa ao redor da qual orbitam muitos crimes, principalmente os mais graves, entre os quais muitos homicídios.

E a lei diz que essas atividades são criminosas, e que o Estado deve combatê-las.

Beltrame não se contenta com a modéstia do seu papel público, que seria combater o crime e trazer segurança para os cidadãos que ELEGERAM o governo para o qual ele trabalha, e que PAGAM os impostos que sustentam tudo isso.

Ele quer refundar todo o Rio e, quiçá, a própria República. O céu é o limite para ele. Para que combater apenas o crime? Isso é ultrapassado, nunca foi o objetivo deles, e além do que, não se esqueçam, é impossível.

O que se deve fazer, então?

Genial, Beltrame já o fez: criou o Comitê Executivo de não sei o quê…

O Brasil não existe, e jamais vai funcionar.

O Secretário continua divulgando a sua grande sabedoria de gestor do combate ao crime:

Não estou pedindo para encarcerar, criminalizar esses menores. Mas, na rua, eles não podem ficar. A polícia falha, sim, mas por que se culpa só a polícia? Esse rapaz de 16 anos que tinha 15 registros e foi acusado de esfaquear o médico ciclista na Lagoa, ninguém foi saber quem era, onde morava, quem era a família, se frequentava a escola, se fazia parte de um programa assistencial.”

Estrondoso, espantoso, escandaloso.

A preocupação de Beltrame, SECRETÁRIO DE SEGURANÇA PÚBLICA, é que os menores, na rua, não podem ficar. Ele fala do “rapaz de 16 anos” como se este tivesse mais direitos que o médico, a vítima. A vítima, no Brasil, como se sabe, tem o direito de ficar quietinha. Se Beltrame fosse o Secretário de Cultura, de Esportes, etc., eu poderia até conceder uma licença, poderia até deixar para lá. Mas estando no seu papel, é algo preocupante que pense assim. Ele se queixa de que “ninguém quis saber quem era”. Francamente, é preciso saber? O que marginaliza os menores é esse papinho paternal, dócil, que aceita e absolve atitudes criminosas, até homicidas. Os menores precisam de exemplos de firmeza, para crescerem conscientes de que têm escolhas importantes a tomar, e que responderão por essas escolhas. Mas com essa cobertura, fica difícil pedir esse amadurecimento.

O Brasil é o país dos coitadinhos que não respondem por nada. E o destino do país será que só vão sobrar coitadinhos irresponsáveis nele, e eles se devorarão uns aos outros como feras, como bestas desalmadas. Tudo sob a cobertura da mentalidade idealista e sublime de tipos como Beltrame.

Defensor do desarmamento (e grande fã de Obama, como teria evidentemente que ser), Beltrame quer desarmar o cidadão, as polícias, os bombeiros, todo mundo. Só faltou combinar com os bandidos, mas esses se viram, não precisam dos rigores da lei, por definição. Os bandidos começam então a matar até na faca. O desarmamento é uma mentalidade pacifista terrível, que desarma não só as mãos, mas também o espírito. As pessoas se entregam ao mal como o cordeiro ao sacrifício. De tão inocentes que se tornaram os cidadãos, bovinos, pacientes, aguardando que a salvação venha da Segurança Pública, daqui a pouco rouba-se um banco com estilingue. Beltrame, porém, faz uma ressalva sapientíssima:

Tomar uma atitude contra a faca também é uma discussão atravessada. Se não tem faca, o assaltante vai usar um caco de vidro.”

Grande! Magistral!

Se não tem faca, o assaltante vai usar um caco de vidro.

Ou seja, seja com arma de fogo, com faca, ou com caco de vidro, o que temos garantido é que todos nós estamos perdidos. Mas nem pense em se armar e se defender! Nem pense nisso! Beltrame nos salvará, com a Comissão Executiva de não sei o quê…

Não subestime o ideal de um estadista como José Mariano Beltrame:

Meu sonho é criar uma comunidade-modelo, uma UPP integral, que englobe segurança e todos os mecanismos de cidadania. Pretendo fazer numa comunidade pequena, a Vila Kelson, com não mais de 10 mil habitantes. Vou apresentar o projeto a órgãos públicos e a empresários. Precisa ter rua com placa, calçamento, casas ou pequenos prédios em vez de barracos. Precisa ter saneamento, Comlurb, Light, CEG, creche, posto de saúde, hospital, maternidade, ouvidoria civil, agência de crédito para empreendedores locais, centro cultural, biblioteca, escola. Para mostrar o que deve ser feito se quisermos de verdade que a UPP dê certo. O projeto nós temos, com a Associação Brasileira de Arquitetura. Nós todos somos passarinhos de uma asa só, precisamos nos abraçar para poder voar.”

Deus criou o mundo em seis dias.

Os gregos e romanos criaram a civilização em milênios de experiência política.

Beltrame é o próximo da lista.

O que toda a civilização ocidental aguarda ansiosamente para saber é: quando teremos, finalmente, a UPP integral?

É um paraíso na Terra, como se vê.

Não precisamos mais aguardar a parúsia, a Segunda vinda de Cristo.

Beltrame nos trará a UPP integral.

Vocês estão cansados de assaltos, sequestros, homicídios, balas perdidas? Seus tolos! Vocês não sabem, mas são passarinhos de uma asa só! Precisamos nos abraçar para poder voar!

Entenderam?

 

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