“Aí o problema não é da esquerda”

Meu amigo vive assustado.

Até ontem mesmo, enquanto o país vivia a sua suposta fase áurea, com petrolão funcionando a todo vapor, Dilma liderando a nação com suas poderosas mãos, quase másculas, com a vida política normal sem delatores, sem Lava-Jato, tudo corria bem. Meu amigo não se queixava de quase nada, que eu me lembre.

Bastou que toda essa normalidade civilizadíssima viesse à tona e escandalizasse o país, para que meu amigo começasse a ficar preocupado. Seriamente preocupado.

Tudo ia tranquilo, e de repente surge essa coisa toda? Pessoas nas ruas? Palavras de ordem? Movimentos políticos novos? Há algo de estranho nisso tudo. Muito esquisito e preocupante.

Meu amigo vive assustado. Não que ele consiga me dizer exatamente o porquê, mas eu acredito nele, no seu sentimento íntimo. Parece que há uma conspiração no ar, um não sei o o quê, que nos deveria tirar o sono, nos deixar alarmados.

Recentemente ele me passou um vídeo, como amostra dessa situação perigosa em que vivemos.

Adequadamente editado (a edição de vídeo, como vivo dizendo, é a sofística dos nossos tempos), o vídeo mostrava manifestantes contra o governo dizendo algumas barbaridades. Entre erros de pura ignorância e apelos por uma intervenção militar, o vídeo deu a entender que há um certo processo de esculhambação política, teleguiado por agitadores contra a ordem pública, certamente golpistas, de acordo com a ótica governista.

Esta é a arte da edição: não dizer claramente, mas dar a entender alguma coisa.

Quando se diz as coisas claramente, é possível o questionamento das idéias, pois estas estão cristalizadas, fixadas. Já o apelo insinuante pode sempre se esgueirar pelos cantos e escapar da luz como fazem as baratas.

Enfim, esse meu amigo fica preocupado, preocupadíssimo.

Eu, do meu lado, penso que um partido de origem revolucionária, aliado de ditaduras e de terroristas narcotraficantes, que está há mais de década no poder, que foi flagrado comprando o Parlamento, e depois comprando consciências e alianças até não poder mais com verbas de estatais, e que promete fazer uma coisa chamada “controle social da mídia”, enfim, penso eu que isso tudo é que é preocupante. Mas talvez eu seja ingênuo, vai saber.

Talvez o grande, verdadeiro e mais real perigo para o país seja uma meia dúzia de ignorantes descompensados falando suas asneiras nas manifestações.

Sou questionado, não obstante.

Respondo o que já havia dito antes em outra conversa: que entre os que seriam os melhores nomes da direita, muitos estão ocupados ganhando dinheiro.

Aí vem a resposta fulminante, estarrecedora, justiceira, equilibrando os méritos e deméritos dos povos numa balança cósmica: “aí o problema não é da esquerda”.

Vamos pensar. Pensemos nisso.

Uma democracia forte é composta de lados partidários e ideológicos opostos, que disputam o poder como adversários nas eleições, e fiscalizam um ao outro conforme o governo muda de mãos. A alternância do poder é, aliás, garantia da robustez democrática.

Se um desses lados perde força e capacidade política, não são apenas os seus militantes e as suas lideranças que se enfraquecem com isso. Os adversários, sem enfrentar uma oposição, começam a se corromper e a perder o juízo político. E então toda a sociedade sofre as consequências, pois a democracia não funciona sem oposição, e o governo nesta situação é dominado e abusado aos sabores e caprichos dos donos do poder.

Permito-me concluir, então, que a fraqueza da direita não é só um problema da direita, mas também da esquerda, e da sociedade como um todo. Não ver isso equivale a tratar a política como uma partida de futebol e ignorar o que é a democracia, e como ela funciona realmente.

Mas o caso é, na realidade, diferente.

Quem se arrisca a passar vexame maior é a esquerda. Acredito que se começarmos a editar videozinhos com a participação de quaisquer manifestantes de esquerda por aí, criaremos um dos maiores filmes de terror do Século XXI.

Qualquer boçal acharia injusto comparar o cardápio de um restaurante com o lixo de outro. Compare-se cardápio com cardápio, e lixo com lixo. Tenho cá comigo que o lixo da esquerda supera, em qualidade e quantidade, o lixo da direita. A conferir.

Se compararmos o nível da atividade intelectual (e é isso o que importa, e não coletar as opiniões encontradas na sarjeta política), é notável que mesmo sem o mesmo suporte político, financeiro, empresarial, cultural, acadêmico e midiático que a esquerda conquistou nas últimas décadas, os novos formadores de opinião na direita conseguem sucessos empolgantes.

A esquerda jornalística e intelectual ainda tem que melhorar muito para enfrentar em pé de igualdade um Bruno Garschagen, um Felipe Moura Brasil, um Flavio Morgenstern, um Hermes Rodrigues Nery, um Luciano Ayan, um Pondé, um Padre Paulo Ricardo, um Percival Puggina, e mesmo, sim, um Rodrigo Constantino. Para não falar de Reinaldo Azevedo, e de Olavo de Carvalho, que bebem lágrimas de comunistas no café da manhã como se fossem suco de laranja.

Preocupante. Muito preocupante.

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7 respostas para ““Aí o problema não é da esquerda””

  1. Isso é cair na pegadinha do CQC. Aquele programa deprimente faz isso: entrevista alguns malucos que estiverem na manifestação contra o governo, selecionam os que comentam mais merda, e põe no ar dizendo “todo mundo que estava lá pensa assim”. E muitos compram a ideia.
    Como falei pessoalmente a ti, mitou nessa parte: um partido com ligação com o crime, corrupto, totalitário, mentiroso e que está no poder, não é perigo; já uma meia dúzia de malucos falando merda na rua, é o perigo.

    E realmente, se sairmos colecionando pérolas de esquerdistas, o material não vai caber em uma matéria do CQC ou um vídeo curtinho de facebook.
    Quem há no Brasil como intelectual de esquerda? Eliane Brum? Leonardo Boff? Paulo Nogueira? É tão fácil refutar algum textículo deles, já eles nunca aparecem refutando o texto de algum dos autores que você citou no artigo.

    1. A paranóia esquerdista resulta de um fracasso intelectual monstruoso. Eles deitaram em berço esplêndido nessas décadas, e agora não sabem o que fazer com uma oposição intelectual que insurge contra o seu projeto totalitário.

  2. E um adendo: muito bom ter desmentido, no artigo, o título do mesmo, que é a frase cuja qual bróder nosso disse: que a esquerda está isenta de culpa se não há oposição tão forte. É culpada sim, por aproveitar-se dessa situação, corromper e ir ganhando mais espaço e poder, ocupando mais território, com projetos totalitários insanos. Não há democracia quando a esquerda é tão esganada como é a do Brasil.
    A indignação do nosso bróder com a aparição de uma oposição revela que não é só os esquerdistas mais loucos que estavam acostumados com a hegemonia cultural. Muitos, da própria população, que nem sequer pensavam nessas coisas, estavam acostumados. E agora compram o discurso do PT e das linhas auxiliares de que “quem está se opondo ao PT é inimigo do povo”. Complicado.

    1. Acho que Lula não subestima a inteligência dos seus militantes não, ele deve ter uma medida exata dela, e por isso mesmo deita e rola em discursos repletos de barbaridades.

      O mais preocupante é ele dizer que “não há quem possa”. Das duas uma: ou é uma demonstração de força num momento de fraqueza (um espantalho), ou é um sinal de que realmente por debaixo dos panos as cartas já foram trocadas, e a pizza logo mais sairá do forno.

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