Que falta faz um Nikola Tesla

Tyson Tesla

 

Cheguei, finalmente, na leitura da revista Veja de 8 de julho. Está dando trabalho, mas consigo avançar aos poucos até os dias atuais. Meus comentários sobre o que se publica na imprensa poderiam ter o subtítulo: “De Volta ao Presente”. Essa é a minha missão.

Deparo-me, então, com uma entrevista que a revista fez com o astrofísico americano, Neil DeGrasse Tyson, uma espécie de celebridade da ciência. A priori eu não comentaria nada de especial, se não fosse o apelo do cientista (e da própria revista, como veremos) para falar de religião, ao invés de falar de ciência. Esses caras são tarados, percebe-se. Fui obrigado a destacar uns trechos para fazer comentários. Vamos lá.

Antes de mais nada, quero deixar claro, de novo, que se Veja fosse uma revista conservadora, de direita, como tantos gostam de acusar (e como se isso fosse uma acusação, aliás), ela entrevistaria outras pessoas no lugar desse astro do show business cientificista, e mesmo se o entrevistasse, certamente conduziria a coisa de uma forma diferente.

Mas tudo bem, vamos em frente. Vou fazer o meu serviço.

Em alguns pontos vou ter que citar a pergunta de Veja e a resposta de Tyson, porque os dois têm que ser explicados. É o caso do primeiro trecho.

Veja: “Diante da dificuldade de chegarmos à origem de tudo o que está aí, uma busca infindável, aparentemente eterna, não seria o caso de aceitar com mais naturalidade e compreensão as interpretações religiosas?

Tyson: “A religião de cada um tira conclusões precipitadas sobre o funcionamento do universo.”

A pergunta da revista diz que a busca pela origem de “tudo o que está aí” é “infindável” e “aparentemente eterna”. Eternidade é um conceito que se aplica apenas ao que não tem começo nem fim no tempo e, portanto, a algo que dispensa e transcende a dimensão limitada de existência temporal, como os seres humanos e os próprios eventuais ETs que existam por aí, e que todos estão assanhadíssimos para descobrir. Se os ilustres desejam tão ardentemente expulsar a religião de nossas vidas, se desejam nos libertar dessa terrível opressão intelectual, deveriam começar por providenciar a expulsão do conceito de eterno da mente humana, e consequentemente a expulsão das palavras relacionadas a este conceito dos dicionários.

Se a busca pela origem de tudo o que está aí é uma prática humana, ela não pode ser eterna, desde que nós surgimos no tempo a partir de algum momento. Isto pode parecer uma bobagem irrelevante, mas não é. O homem não é o centro da realidade. E o modo como usamos a linguagem pode servir –como neste caso– para nos dar a ilusão de que somos tão centrais assim para o universo. E é engraçado isso, irônico até: o geocentrismo que foi supostamente refutado definitivamente pela ciência dispunha o céu girando ao redor da Terra, mas colocava Deus, e não o homem, no centro da realidade. A ciência moderna elimina Deus de suas cogitações, relativiza o céu em relação à Terra e, já que ficamos literalmente perdidos no espaço, como que magicamente os seres humanos se tornam o centro e a medida de todas as coisas. A compreensão dessa transformação na cosmovisão humana moderna é muito importante para entender os nossos tempos. Quando o céu girava ao nosso redor (era o que percebíamos e, pensando bem, é o que ainda percebemos naturalmente) Deus era o centro. Agora que nós giramos, junto com a Terra, voando caoticamente num universo sem Deus, o ser humano é que se tornou o centro e a referência. Sem o perceber, os cientistas que buscam vida inteligente fora do planeta, ou seja, com inteligência comparável a nossa, são absurdamente mais arrogantes que os fiéis que acreditam em Deus: porque um ET deveria ser limitado por essa tosquice cósmica chamada ser humano? Se é para barbarizar, eu preferiria um Cthulhu enlouquecendo a todos com sua mera presença, principalmente, e em primeiro lugar, os buscadores de ETs. Ou poderia ser aquela entidade do Hellboy, como é mesmo o nome? Ogdru Jahad. Prefiro um Cthulhu, um Ogdru Jahad. Daí o ser humano, esse vagante no ermo espacial sem Deus, que quer tanto encontrar vida inteligente extraterrestre, daí sim esse ser humano vai ver o que é bom para tosse mesmo.

Em seguida a pergunta fala se não seria o caso de aceitar as “interpretações religiosas”. Desde quando uma religião é uma interpretação da realidade sobre a origem de todas as coisas? Uma interpretação decorre de uma observação de alguma coisa. As religiões não se constituem como a filosofia e a própria ciência, que observam o mundo e o interpretam. Elas são constituídas de revelações, ou seja, de fatos que ao serem contemplados elucidam-se a si mesmos e elucidam a realidade em torno, e não carecem de interpretação, porque são a base mesma de inteligibilidade e interpretação de toda a realidade. As interpretações que ocorrem em religião já são trabalho doutrinal posterior ao fato das próprias revelações, e são, como a ciência, um trabalho que não termina nunca. Ou seja, temos aí uma ignorância teológica brutal na pergunta de Veja.

E a resposta não se sai muito melhor que isso, porque Tyson diz que as religiões tiram “conclusões precipitadas sobre o funcionamento do universo”.

Eu nunca vi parte da Bíblia, ou pregação de padre, pastor, o que fosse, que tirasse conclusões equivalentes ao discurso científico sobre o funcionamento de coisa nenhuma. Aliás, não vi sequer uma intenção religiosa que se parecesse com isso, exceto por representantes modernosos das religiões, que fazem cena de bons-moços para ganhar o nihil obstat do establishment cientificista.

Uma conclusão é aquilo que encerra um raciocínio. É o que ocorre em política, ou em ciência: você tem um argumento, um raciocínio, e espera que ele tenha coerência lógica interna, e que chegue numa conclusão que convença as pessoas.

As religiões são constituídas de narrativas de fatos, tanto das próprias revelações originárias quanto das vidas dos continuadores da tradição religiosa. Que diabos tem isso a ver com tirar conclusões sobre o que quer que seja? O “funcionamento do universo” é claramente um assunto da ciência e da filosofia. Religião é outra coisa. A base religiosa, o seu fundamento, é constituído de narrativas como “bom dia, meu nome é fulano”, e “isto aqui é um sanduíche de mortadela, vamos comê-lo”. Não são argumentos que tentem demonstrar coisa nenhuma.

Ou seja, de cara, com esse começo, fica claro que há todo um papo de comadres entre Veja e Tyson, ambos firmemente comprometidos em não entender nada do que falam sobre religião. A máxima concessão que Tyson faz é dizer que a religião tem autoridade sobre o assunto da moralidade humana, mas mesmo assim o faz com suas ressalvas, evidentemente.

Mais adiante, respondendo uma outra pergunta da revista, diz Tyson:

Ok, Deus então fez as leis da física, como já definia o filósofo Baruch Espinosa no Século XVII. Só que isso quer dizer que Ele ouve suas preces? Ou que ajuda religiosos a vencer guerras contra outros religiosos? Ou que Ele tem barba? Foi esse Deus que falou com Moisés? Se tudo isso for tomado como verdade, então podemos dizer que Deus deixa pessoas inocentes ser atropeladas na rua. Ele permite, portanto, que uma criança morra de leucemia. Ou ainda faz vista grossa diante de furacões e vulcões que matam milhões, incluindo jovens e humanitários. Para acreditar em Deus, é preciso levar tudo em conta. Se Ele está por trás de tudo, é muito bom em matanças. Afinal, mais de 99,9% das espécies de seres vivos que passaram pela Terra foram extintas. Isso é o acaso da natureza? Ou é Deus? Seja qual for a resposta escolhida, é preciso assumi-la tanto para o lado belo como para o terrível.”

Deus nos ajude. Tyson pensa sobre religião como um adolescente ranheta, ignorante e presunçoso. Espero que ele não faça ciência com esse mesmo espírito.

Vou desmontar essa estrovenga parte a parte, mas de cara sou obrigado a notar que Tyson tem uma postura no mínimo temerária: não está de acordo com a atitude científica julgar sem conhecer. E Tyson evidentemente, flagrantemente, não se deu ao trabalho de conhecer religião nenhuma do mundo, para dizer sandices tão ridículas, que o fazem passar um papel de idiota em público, mesmo que não o saiba.

Primeiro, Deus não fez “as leis da física”. Deus fez a realidade inteira. As leis da física são um conjunto de constantes da natureza que foram observadas e catalogadas pelos cientistas ao longo do tempo, e que são necessariamente mais falíveis do que os princípios da própria ciência que estuda estas constantes. Por exemplo, os princípios de identidade, não-contradição e de terceiro excluso são absolutos e imutáveis. Já as leis naturais, que são essas constantes, não são absolutas, e podem ser ilimitadamente aprofundadas pelo estudo científico que usa, para tanto, justamente os princípios científicos que são perpétuos. Existe uma física newtoniana, depois uma física einsteiniana, etc. Não faz sentido nenhum um cientista dizer que “Deus fez as leis da física”. Que leis? Essas que estão mudando a cada Século? Não fez mesmo. Deus fez a realidade, esta que os cientistas estão tentando entender e que para tanto usam princípios lógicos-científicos que Deus também fez, vejam só. Deus não só fez a realidade terrestre, eis a questão. Ele é criador dos Céus e da Terra, e isso quer dizer que Ele fez não só o que é terrestre, como também fez o que é celeste: tudo o que é eterno, imutável, perpétuo, faz parte da realidade de Deus, da realidade que parte Dele como Criador. A ignorância de Tyson sobre esses dados teológicos (que são elementares, não é nada tão difícil assim) é brutal, acachapante, invencível.

Segundo, o que tem a ver Deus ouvir as nossas preces, ajudar religiosos a ganhar guerras contra religiosos, ou ter barba? Qual é a conexão entre essas coisas, e o que Tyson quer dizer com cada uma delas? O astrofísico tem, evidentemente, uma confusão mental medonha com esses dados. Mistura-os, confunde-os, e nos divulga essa gelatina psíquica crendo que nos passa um sólido argumento contra Deus, ou contra as religiões. É uma crença dele. É preciso que alguém informe o senhor Tyson de que a sua bagunça particular não traz clareza alguma ao assunto, pelo contrário, é de um obscurantismo ferozmente anti-científico. Ter eu, do meu modesto posto intelectual, que ensinar método científico a um cientista, ei aí algo surpreendente. Ou não.

Ele diz que se toda essa anarquia que ele próprio montou for verdade, então podemos dizer que… Deus deixa pessoas inocentes ser atropeladas na rua!

Entenderam?

Não, vocês não entenderam.

Vocês não entenderam, eu não entendi, nem Tyson entendeu. Ele acha que disse algo muito verdadeiro e terrível, numa sequência lógica impecável. Mas não disse nada, foi um flatus vocis.

A origem dessa algazarra mental de Tyson é o terrível incômodo espiritual de uma psique desalinhada, gnóstica. Vejamos.

O fato de pessoas inocentes morrerem atropeladas significa, para Tyson, ou que Deus não existe, ou que, se Ele existe, é malvado, porque deixa esse tipo de coisa acontecer. Isso aí é o arroz com feijão do ateísmo. Só é possível ter esse tipo de pensamento se, antes de mais nada, o humanismo colocar o homem no centro do universo na sua cosmovisão moderna. Desde esta posição central o homem é capaz de julgar tudo quanto for, inclusive Deus, por que é ele o referencial, é ele a medida de todas as coisas. A presunção de inocência de uma pessoa, por exemplo, qualquer que seja, já supõe obviamente uma noção de justiça que seja capaz de atribuir culpas. Se Deus não é o centro do universo, simbolicamente falando, então é o próprio homem o julgador de todos os fatos, e a própria justiça emana da sua consciência humana da realidade. Quando um pobre diabo como Tyson diz que Deus permite isso ou aquilo, ele ignora que Deus, para ser Deus, não só não pode ser julgado pelo ser humano desta forma, como é Ele mesmo a origem da justiça que dá ao homem a noção de culpa ou de inocência, noção essa que lógica e necessariamente o ser humano vai ter sempre de forma mais imperfeita e incompleta que Deus. O argumento do mal no mundo como problema teológico é, na verdade, um dos mais fracos que existem. É verdade que existe a teodicéia, e todo tipo de estudo sobre este assunto (coisas que Tyson ignora como um palpiteiro de nível de estudante sub-ginasiano). Mas teologicamente este problema não é grave, desde que se reconheça que Deus é Deus, e que só Deus é Deus. Então o verdadeiro problema é o gnosticismo, é essa sensação de abandono, que modernamente é reproduzida em escala industrial graças à influência dos abolidores da transcendência filosófica, Descartes, Kant, etc. Tyson não o sabe, mas a sua posição sobre religião se insere na história das idéias na proporção com que uma pulga participa de uma guerra. Tyson é essa pulga cartesiana, kantiana. E não o sabe. E muito menos a revista Veja, é claro.

Tyson diz que Deus permite que uma criança morra de leucemia.

Meu caro Tyson. Deus criou o mundo, criou as crianças, criou a morte, criou a leucemia, criou tudo isso e muito mais. E o senhor acha que está arrasando ao dizer que Deus permitiu alguma coisa acontecer… como se Deus fosse uma repartição pública que vivesse de permitir realidades.

Tyson diz, ainda, não satisfeito, que Deus faz vista grossa diante de furacões e vulcões. Fantástico!

Deus criou os furacões e os vulcões para que Tyson depois viesse dizer que Ele faz vista grossa, que esse projeto está mal feito… já que milhões morrem por causa de vulcões e furacões. Como se Deus precisasse dessa revelação, desse toque de Tyson, para prestar atenção nas coisas que faz.

Vejamos alguns detalhes nessa vagabundíssima argumentação. É como se eu estivesse discutindo ciência e religião na cracolândia. Incrível, mas não é isso: essa argumentação paupérrima, descompensada, mais estúpida que sei lá o quê, saiu de um renomado astrofísico entrevistado por Veja

Mas vejamos os detalhes.

Primeiramente, do ponto de vista de Deus, todos nós somos igualmente mortais, tanto os que morrem atropelados, ou quanto os que morrem por causa dos vulcões e furacões, ou quanto os que morrem engasgados com um sanduíche de mortadela. Se Deus criou a todos nós como mortais, não faz sentido responsabilizar Deus pelas mortes de uns milhões em virtude de vulcões e furacões. Deus matou a humanidade inteira já passada, está matando a já existente, e vai matar toda a que ainda está por existir. Matou porque é da natureza das coisas naturais morrerem. Isto é elementar demais para que Tyson continue sendo respeitado na sua posição. Se eu fosse o entrevistador, neste momento eu assumiria todo o meu fundamentalismo religioso radical e intolerante e iria embora, sairia andando para fumar um cigarro, ou iria para casa dormir. Faria qualquer coisa mais útil.

Em segundo lugar, é preciso notar algo bastante relevante. Quanto tempo leva para que vulcões e furacões matem milhões de pessoas? Sim, milhões de pessoas, quanto tempo leva para os desastres naturais matarem isso? Façam as contas. Somem, também, todos os problemas de saúde conhecidos aí: câncer, infartos, etc. Somem, também, as vítimas de guerras por ações de guerra. É claro que é bastante gente, afinal, note-se, todo mundo morre de alguma coisa. Mas notem que coisa peculiar: quando o ser humano resolve destruir a si próprio em escala industrial, na forma de genocídio e democídio, ele é imbatível! Deus pode fazer o esforço que queira para assassinar as massas, mas ele perde sempre em velocidade, quanto o ser humano resolve industrializar a morte. E eis o detalhe fulminante: os mortos pela indústria genocida não morrem nas mãos de religiosos fanáticos, mas nas mãos das ideologias de massa ateísticas, agnósticas e niilistas.

Se Tyson tivesse um pingo de decência moral e de escrupulosidade científica, ele se obrigaria a reconhecer que mesmo todas as mortes naturais somadas às mortes por guerras (“religiosas” ou não, e vou discutir esse termo depois) não equivalem ao ritmo infernal dos homicídios massificados pelas ideologias corroboradas pelo tipo de cientificismo ateu QUE ELE DEFENDE.

É por essas e outras que, por mais terrível que seja, é compreensível a passagem do Apocalipse em que o último anjo aterroriza o mundo inteiro derramando sobre ele o cálice contendo a ira de Deus. Também pudera! Pudera!

Eu, que não tenho a infinita paciência divina, tenho que passar ao próximo tópico, antes que comece a xingar o senhor Tyson com toda a violência que o meu coração permite e exige.

Mais uma coisa, aliás. Mais uma coisa. Tyson não me deixa em paz. Ele emenda bobagem com bobagem como as musas emendam os cantos divinos pela eternidade.

Eis que Tyson disse, ao fim do seu patético discurso insidioso contra Deus, que entre os milhões de mortos (esses que levam séculos e mais séculos para morrer com causa mortis vulcânica e afins), incluem-se especialmente os “jovens e humanitários”. Tyson parte do patético ao cômico com uma fluidez admirável. A fé cientificista já tem os seus eleitos, o seu povo escolhido: são os jovens e os humanitários. Mas seria cômico se não fosse, antes, trágico. Repare bem, leitor: se você não for o que Tyson chama de jovem, ou de humanitário, você é um tipo de segunda categoria, um tipo que está valendo menos de acordo com a altíssima ciência tysoniana. E, portanto, você é um sério candidato a participar como vítima no próximo genocídio a ser feito em nome de ideais científicos, se prepare.

Tyson diz que Deus é muito bom em matanças. Isso qualquer religioso sabe de antemão: Deus inventou a morte, uai. Quando Tyson diz que 99,9% das espécies que já habitaram o planeta foram extintas, ele quer dizer que isso seria uma conta impagável para Deus, mostrando, com isso, que sua idéia de Deus é bem tosca, bem porca mesmo. É curioso que cientificamente a extinção de 99,9% das espécies não significa nada: não é um assassinato natural, não é uma matança abissal. Mas se Deus existe, de repente surge no coração de Tyson uma compaixão avassaladora, um amor profundo pelas 99,9% de espécies extintas. O que nos leva a admitir: Deus faz Tyson ser uma pessoa melhor, mesmo que este não o queira. Como cientista Tyson é um insensível. “Morram todos!” Esse é o destino desse universo desgovernado. E tudo fica ótimo assim. De repente, se existe Deus por um minutinho, Tyson chora lágrimas inconsoláveis pelos extintos que não estão mais entre nós, pelos dinossauros, pelos sapos jurássicos, pelas moscas antediluvianas. Que possa ser possível e, aliás, não só possível como necessário, que os ciclos de vida de todas as espécies estejam submetidos ao poder divino que os transcendem, isso é algo que escapa às sérias cogitações de Tyson, apesar de todo o seu brilhantismo estelar.

De um lado ele coloca o acaso da natureza, e de outro ele coloca Deus. Deus, portanto, seria uma espécie de garantia de compreensão absoluta da realidade que, se o homem não tem, comprova a inexistência de Deus. Tyson, em sua divagação, não vai além do nível primário e falacioso de um argumentum ad ignorantiam. Grande diligente das ciências, esse Tyson. Impecável no seu interesse pela verdade, no seu escrutínio científico.

Diz Tyson que entre um acaso que não explica nada e um Deus que para ele explica menos ainda, nós temos que escolher, e assumir a resposta “tanto para o lado belo quanto para o terrível”. Com grande impetuosidade Tyson nos coloca contra a parede usando um tertium non datur absolutamente não demonstrado, e insinua que os religiosos têm uma alta dívida ao responder pelo lado terrível da resposta crente diante da realidade.

Eu acho que na realidade é o contrário, não é não?

Vejamos.

Religiosamente, o lado terrível da natureza assume o caráter numinoso da realidade, e convida o homem a uma posição de humildade e modéstia diante do sublime, e dos infindáveis mistérios da vontade divina. No entanto, essa posição não é aterrorizante. Pelo contrário, a admissão da pequenez nos permite viver uma vida cheia de sentido e de aventuras, nas mãos desse destino invisível, e dessa ordem transcendente misteriosa e absoluta. Daí nascem a fé em nós mesmos e nos outros, e a esperança no destino individual e mesmo coletivo.

Já o lado terrível da perspectiva científica é a necessidade de tudo medir e controlar, já que se não há ordem nessa porcaria, nós temos que fazer as coisas acontecerem. É o pleno exercício da razão como categoria essencialmente humana por sobre uma realidade em si mesma irracional e caótica, portanto, uma realização perfeitamente kantiana. Como esse controle é impossível sobre a realidade material, que jamais pode ser dominada de forma absoluta, até porque a própria mortalidade humana retira de nós a posse individual do que quer que seja, o controle passa a ser exercido sobre o homem, psicologicamente, e sobre a forma que o homem vive socialmente, para que coletivamente o homem organize e domine a realidade. Disto você pode retirar todas as tiranias totalitárias modernas do século passado, todos os sonhos demoníacos das revoluções passadas, atuais e ainda por existir.

Realmente, temos que assumir a resposta tanto pelo lado belo quanto pelo terrível. Será que Tyson faz isso?

Continuemos, enfim.

Veja: “O senhor acredita em Deus?

Tyson: “Dediquei tempo para pesquisar listas de deuses na internet. Demora muitos minutos só para passar o mouse, sem ler, por um compilado de divindades nas quais a humanidade acredita. São milhares!

Argumento desonestíssimo, desonesto até a medula!

Vejamos.

A questão sobre se uma pessoa acredita ou não em Deus tem a ver, eminentemente, com a posição espiritual dessa pessoa com relação à transcendência das coisas. Existe um além? Existe um sentido, uma ordem? Existe uma origem, existe um fim? No que a pessoa acredita, afinal? E a pessoa discorre, daí, por si, sobre a sua posição espiritual, se acredita em Deus, em deuses, em homens, ou em repolhos celestiais, o que for.

Tyson esquiva-se desta abordagem, como o pugilista seu homônimo, e diz que dedicou tempo para pesquisar listas de deuses na internet.

Eu não conheço qualquer religioso sério (e até não sério, pensando bem) que tenha encontrado a sua fé através de busca em listas de deuses na internet, como se procurasse por uma receita de um bolo, ou de um pudim. O senhor Tyson acredita que a sua crença pessoal não tem nada a ver com o que ele acredita no seu coração, e nem com o que outros acreditem. Não. Para entender responder se acredita em Deus ou não, Tyson diz que o negócio é buscar listinhas na internet.

Sobre um fenômeno antiquíssimo, profundo e riquíssimo de história e simbolismo, Tyson diz com grande desleixo que “demora muitos minutos só para passar o mouse”, como se fosse um assuntinho assim pequenininho, ínfimo, que não merece mais do que o tédio de tão nobre caráter, de tão profunda alma, como ele.

Mas tudo isso passa e, repito, tudo isso passa. A cafajestagem, a desonestidade, foi Tyson falar que são milhares as divindades nas quais a humanidade acredita, como se a fé humana fosse mesmo um perpétuo desfile de escolas se samba.

Ora, apenas as religiões abraâmicas somam uns quase quatro bilhões de fiéis, entre judeus, cristãos e muçulmanos.

Isso aí é mais de metade da humanidade e, o mais importante, o monoteísmo cristão e islâmico é o que mais cresce em adeptos se comparado às demais religiões, e comparado inclusive ao agnosticismo e ao ateísmo.

Que conversa é essa de milhares de divindades nas quais “a humanidade acredita”? A humanidade, na sua maioria, e cada vez mais, senhor Tyson, acredita em UM DEUS.

Então essa gracinha no começo da resposta não passa, como se vê, de uma desconversa para animar a militância ateísta, que deve babar na gravata de admiração a cada show de Tyson. Ele eventualmente entra na questão do Deus único que, especialmente no Ocidente, é o que interessa.

Segurem-se nas cadeiras.

Indo além, debrucei-me sobre o Deus mais popular do Ocidente, o judaico-cristão. Quais são suas propriedades celebradas? A bondade, o poder absoluto e a onisciência. Visto quanto a natureza mata, quer dizer que Ele é assassino? Se sim, não é bondoso. Se não, Ele não é onisciente, ou todo-poderoso. Para mim, essas escolhas parecem randômicas. Não vejo evidências que corroborem a existência de Deus. Se há um terremoto, não é fúria divina. Geólogos avisaram que a área era vulnerável. Não adiantava rezar pelo Haiti. O terremoto que abalou o país recentemente ocorreria de qualquer jeito. Não me importo se acreditam em deuses. Só acho que quem segue essa linha cega não pode distribuir culpas por aí.”

O “debrucei-me” foi mesmo um gracejo, um charme todo de Tyson. Dá a entender que ele analisou seriamente, cientificamente, como pede o seu pedigree social, toda essa questão do Deus mais popular.

Mas não o fez, porque se o tivesse feito, ele jamais diria uma jumentice como “visto quanto a natureza mata, quer dizer que Ele é assassino?” Ora, a natureza mata da mesma forma que um assassino qualquer mata? O que é um assassinato? Um coelho que come cenoura é assassino de cenouras? Um lobo que come coelhos é assassino de coelhos? Mesmo que se use o termo assassinato a estes casos, mesmo assim: alguém atribuiria culpa a esses seres que agem de acordo com a sua natureza? Ninguém faria isso. Mas Tyson pensa que se um Deus gerou essa natureza onde ocorre a morte dos seres criados, esse Deus seria então um assassino.

Podemos tranquilamente partir para exemplos mais terríveis, sem medo. Não só a cadeia alimentar dos bichos causam mortes: os desastres naturais matam pessoas e, pior ainda, também assassinos stricto sensu matam pessoas. E Deus deixa isso acontecer assim, sem mais nem menos? Para Tyson, essas calamidades só provam que Deus não pode existir com as propriedades a Ele atribuídas, porque se fosse onipotente, onisciente e onibenevolente, não poderia deixar essas coisas acontecerem.

Esse é o raciocínio impecável do ateísmo militante, repetido ad nauseam por toda parte, e que nos obriga a voltar às coisas óbvias, realmente evidentes. Vamos lá.

Onipotência, onisciência e onibenevolência são atributos de perfeição e infinitude.

Vejam bem: dizer que Deus tem essas propriedades significa reconhecer que Ele não possui limites quaisquer, de nenhuma natureza, ao seu poder, ao seu conhecimento, e à sua bondade. Isto é o que diz a sabedoria religiosa.

Isto quer dizer que mesmo que ocorra a maior atrocidade possível, por exemplo, um estupro seguido de tortura e assassinato praticado contra uma criança indefesa, embora isso nos escandalize (e o escândalo é, religiosamente, justamente aquilo que “abala a nossa fé”, esse é o significado tradicional de escândalo), não nos é possível querer ter uma noção maior de justiça do que Deus tem a ponto de julgá-Lo por essa omissão, ou derivar do fato a conclusão de que Ele não tem poder infinito, ou não é infinitamente bom, ou não é infinitamente ciente de tudo o que ocorre. O maior não pode ser medido nem julgado pelo menor. O escândalo mais justo e vertiginoso que exista não altera a desproporção infinita que há entre a nossa capacidade de julgar uma situação e a grandeza de Deus.

Quero complementar isso com duas observações.

Primeiro, quero dizer que dentro desse sistema entrópico de destruição da natureza, que tanto aflige o pobre Tyson, Deus mata todos os seres humanos, acabando, junto com a sua vida terrena, com todos os seus sofrimentos. Mas é dito também que nós somos almas imortais, e não apenas animais corporais. Ou seja, nós ultrapassamos essa realidade da qual nos escandalizamos. E a vida eterna é justamente a vida livre do mal que há neste mundo. Por isso, apesar dos escândalos, os fiéis permanecem esperançosos, pois observam que este mundo aqui não foi mesmo feito para dar certo, sob qualquer aspecto que se olhe. Ou seja, na sabedoria divina esse assassinato das pessoas conspira, na verdade, para a sua salvação, desde que a sua natureza essencial é de almas e não de corpos. Tal sabedoria, incrivelmente, não é só patrimônio da religião, mas é também da filosofia, mãe dessa ciência que Tyson diz tanto adorar. Sócrates ensinou que é melhor sofrer uma injustiça do que cometer uma. Porque será que ensinou isso? Será que Sócrates é burro? Ou será que, na sua sabedoria, já percebeu que entre este e o outro mundo, o que interessa mais é o outro? A explicação da encarnação dos seres sofredores que é redimida pela sua salvação final faz parte de toda a cultura ocidental ao longo de milênios. Tyson ignora a teologia, ignora a alta cultura ocidental, ignora tudo. Ignora até mesmo algo simples como aquele diálogo em Lost, em que Jacob diz ao seu irmão: “só acaba uma vez, e tudo o que acontece até então é apenas progresso.” Eis uma fala que Tyson provavelmente jamais entenderá. Por que ele não quer entender,  evidentemente.

Segundo, quero dizer que se Tyson fosse minimamente íntegro na sua pesquisa, como insinuou que fosse com o seu “debrucei-me”, ele descobriria a discussão da teodicéia ao longo de milênios, ou seja, o estudo teológico e filosófico sobre a explicação do mal no mundo, apesar de Deus (religiosamente), ou apesar do Sumo Bem (filosoficamente). Ele encontraria, por exemplo, Leibniz ensinando coisas preciosas a esse respeito. Será que, cientificamente, Tyson se acha mais evoluído e esperto que Leibniz? Tenho comigo a idéia de que Leibniz seria humilde de buscar aprender algo novo com Tyson. Mas já sabemos que Tyson não quer saber de Leibniz. Por aí é que se mede a grandeza e a pequenez dos homens.

Seguindo, Tyson diz que se há um terremoto, não é por que houve fúria divina. Ora, mas eu, que me acho cristão, não digo que seja ou não seja a fúria divina. Acho que o Papa também não disse isso, nem os sábios muçulmanos… do que Tyson está falando? Será que é da superstição fantasiosa que ele tem na cabeça, sob a figura da religião? Nos EUA há muitos protestantes. Com todo o respeito aos protestantes, o fato é que quando se joga no lixo a tradição de uma religião, vai embora com ela a riqueza simbólica que permite a melhor interpretação dos fatos sob o aspecto do sagrado. Então você tem aí evangélicos achando que os vulcões, os furacões e os terremotos são diretamente interpretáveis como sinais da vontade divina, como se Deus não fosse mais que um operador da natureza, um maestro dos elementos. Simbolicamente, se me permitem uma breve observação, me parece que aí os evangélicos estariam confundindo as potências angélicas com o próprio Deus. Seja como for, pode ser que o senhor Tyson tenha ficado deprimido com o aspecto superficial de alguma religiosidade local, e daí tenha querido auferir o valor da religião como um todo, o que é uma tolice. Ele deve ser mais precavido e diligente que isso, JÁ QUE pretende palpitar publicamente sobre esse assunto.

No fim dessa passagem, Tyson adota uma postura de superioridade olímpica sobre o assunto, dizendo que não se importa se as pessoas acreditam em deuses. Só faz a importante, fulminante ressalva: “Só acho que quem segue essa linha cega não pode distribuir culpas por aí.” Que culpas? Os mais de seis bilhões de pessoas que têm religião, entre os quais este que vos escreve, ficam atônitos, mudos. De que o senhor Tyson está falando?

Será que ele está falando de moralidade? Se estiver, qual é a prioridade do seu cientificismo (e digo “seu” porque há, graças a Deus, ciência feita por gente mais qualificada no mundo) para falar de culpas? Outra coisa: pouco antes o próprio Tyson havia reconhecido que se a religião não podia interpretar a origem das coisas (coisa que não é ocupação da religião, por sinal), a ela poderia restar algum espacinho para falar sobre moral. Agora parece que nem isso quer nos conceder, o sábio Tyson.

Infelizmente, e sinto muito contar-lhes isso, o senhor Tyson não está manjando muita coisa nem mesmo de ciência. Vejam só:

Tenho uma definição simples para ele [o pensamento científico]. Raciocinar cientificamente é realizar o que for preciso para não se transformar em burro. Não aceite verdades vindas de cima e procure provar argumentos. Esse elemento fundamental da ciência nunca deixará de existir.”

Tyson não tem mesmo medo do ridículo. É um feroz, é um bravo.

Primeiramente, ele não sabe o que é uma definição. Uma definição procura identificar alguma coisa buscando o gênero próximo e a diferença específica. Agora analisem a colocação “realizar o que for preciso para não se transformar em burro”, e tentem entender aí onde está definida a ciência, como parte de um gênero de coisas, e diferida essencialmente pela sua especificidade. Não adianta procurar, vocês não vão encontrar. Sabe porquê? Por que o astrofísico Neil DeGrasse Tyson, renomado cientista, não sabe o que é uma definição.

Em segundo lugar, ao substituir na sua “definição”, o termo “ciência” por “raciocinar cientificamente”, ele subentende que a ciência é uma forma de raciocínio, e definitivamente ciência não é isso. A ciência é o próprio conhecimento ou a busca dele enquanto atitude da nossa alma, mas mesmo nesse segundo sentido a atitude transcende o mero raciocínio. O raciocínio é elementar com relação à atitude, à disposição da alma. Episteme (ἐπιστήμη) está mais para o movimento de uma sabedoria humana que vai em busca de uma sabedoria suprema (ou divina, mas evito o termo para não assustar as alminhas sensíveis dos ateus). Ou seja, ciência é a própria sabedoria de algo (noesis) ou a busca dessa sabedoria (dianoia). O mero raciocínio é uma prática normal e igualmente exercitada em níveis menos científicos do discurso humano. A ciência não aprimora a capacidade raciocinante em si, mas a direciona para um alvo superior, desde as imagens e as opiniões até os modelos ideais e transcendentes. Não tenho a mínima idéia se Tyson poderia entender essas coisas.

Em terceiro lugar, essa nossa “transformação em burro” é tão esclarecedora quanto um buraco negro. O que significa isso? Alguém sabe me dizer, exatamente, o que significa essa expressão? Não obstante, não é notável como dentro da própria definição de ciência um cientista modernoso consiga ser obscuro? Fica aí a dica.

Quando Tyson diz “não aceite verdades vindas de cima”, o que ele quer dizer? O que é que está em cima? É uma autoridade social? Daí concordo com ele. Embora eu não posso dizer que isso seja uma atitude científica: é apenas uma atitude de honestidade e de integridade intelectual. É até um pré-requisito da ciência, mas não chega a ser a ciência ela mesma.

Quanto a “procure provar argumentos”, neste ponto Tyson conseguiu realmente ignorar perfeitamente o que é a ciência no seu ponto mais elevado: a verdade mais indestrutível, apodítica, que é o ideal da ciência, é justamente aquela testemunhada apenas pela consciência individual, que por sua vez não pode dar quaisquer provas do conteúdo dessa verdade a não ser o seu próprio testemunho. Um argumento é apenas um índice de verdades que subsistem por si sós e dependem, para o seu reconhecimento, do ato de consciência individual. Se Tyson não percebeu isso é porque ele nunca, jamais na sua vida, percebeu verdade nenhuma de forma consciente, e tudo o que ele está fazendo é, ora vejam, “aceitar verdades vindas de cima”, ou seja, verdades intuídas por outros e demonstradas a ele com tais e quais provas. É muito simples isso: Tyson não pode me provar nem mesmo a sua própria existência individual sem contar com o meu ato de consciência, porque a observação desta verdade requer o meu testemunho individual que reconheça as provas como evidências sobre uma verdade que as transcende necessariamente. Vamos supor que Tyson faz uma cagada qualquer, por exemplo, dá uma bosta de entrevista na Veja. Isto prova que ele existe? Não prova diretamente, porque eu tenho que reconhecer primeiro essa entrevista como provinda de um ser real, com nome, telefone e endereço reais, para daí evidenciar que ele deve existir, porque quem não existe não dá entrevistas, e entrevistas não são dadas por seres que não existem. Mas vejam que no meio do caminho eu tive que apelar para a minha consciência da realidade desta relação entre o provado e o verdadeiro, fora o fato de que eu tive que confiar que a entrevista não foi uma fraude.

Acho ótimo que se procure provar argumentos, mas o fato é que em 90% ou mais das nossas ações nós confiamos em um monte de coisas não provadas –e temos que fazê-lo para sobreviver–, e no resto conseguimos saber de muitas coisas que não podemos provar de maneira nenhuma, pois a maior evidência que temos é o nosso próprio testemunho individual.

Na verdade eu nem queria entrar nesses detalhes todos, mas Tyson, esse grande pugilista das idéias, me obrigou. Ele tem mais a dividir conosco, vamos lá:

Veja: “Em que se baseia sua conhecida convicção de que existem formas de vida fora da Terra?

Tyson: “Qualquer um que estude o tema chegará à clássica resolução de que vivemos em um planeta qualquer, que orbita uma estrela não particular, em uma galáxia indistinguível. A probabilidade matemática de haver vida fora da Terra é praticamente de 100%. Aí, voltamos à religião. Algumas crenças se apóiam no pressuposto de que a vida terrestre é sagrada. A Bíblia afirma que Deus criou os céus, a Terra e o homem. Ponto. Não os céus, a Terra, o homem, e também outros planetas, outras estrelas, outros seres. Encontrar vida fora daqui desafiará esse pensamento. Mas sobreviveremos. Como soubemos viver depois de notar que o Sol não rodeava a Terra.”

Primeiro, Tyson diz que vivemos num lugar qualquer perdido no espaço, muito embora seja nesse lugar qualquer que nós vivamos desde sempre, e onde o próprio Tyson viva a sua linda vida que Deus lhe deu, com amores e ódios, alegrias e tristezas, etc. Mas tudo bem, aceitemos que nós estamos numa periferia qualquer sem importância. Pois bem, desde esse subúrbio galático Tyson diz que fizemos todas as contas aqui, e entendemos que a probabilidade matemática (existe alguma probabilidade não matemática?) de haver vida fora da Terra é praticamente de 100%. Ótimo, ótimo. Então esse marginal do espaço, esse favelado cósmico, que é o ser humano, vai gastar muitos dos seus recursos (que devem estar sobrando) para encontrar uma vida extraterrestre, sei lá, uma bactéria marciana, um fungo saturnino. Ou até, quem sabe, vida muito inteligente e, quem sabe, até elegante e respeitável, com quem poderemos trocar umas idéias.

Até aí, tudo isso é prerrogativa dos cientistas com seus planos malucos. Pode-se contestar o monte de dinheiro gasto nesses programas, mas mesmo isso é menos importante, afinal sempre há incrementos tecnológicos relevantes descobertos nessas pesquisas, que podemos usar com outras funções no nosso pobre, humilde, planeta Terra. Isso me lembra os comunistas. Ah, os comunistas. Os americanos gastaram milhões para inventar uma caneta que escrevia no espaço, sem a gravidade da Terra. Os soviéticos, mais espertos, levaram lápis. Brilhantes, os comunistas. O que ninguém diz é que essa tecnologia milionária da caneta espacial vai ter duzentas e setenta e nove aplicações na indústria, etc. Detalhes da história.

Voltemos.

A questão é que Tyson diz, por sua livre, espontânea e encantada vontade, que quer voltar ao assunto religião. “Aí, voltamos à religião.” Então tá, voltamos. Reparem: ele voltou, não fui eu.

Antes até de entrar no argumento dele, vejam bem que a pergunta de Veja era sobre qual era a base da convicção de Tyson sobre a vida extraterrestre. O que é que a religião tem a ver com a sua convicção sobre a existência de ETs? Objetivamente, não há conexão nenhuma. A religião não pode ser base material, nem intelectual para a convicção de Tyson. Ou seja… é uma base psicológica. Eu detesto fazer psicologismo, mas os fatos estão aí! Veja pergunta para Tyson qual é a sua base para falar de vida fora da Terra. Ele diz que tem quase “100% de probabilidade matemática” (ainda bem que é matemática…), e emenda rapidamente na sua resposta, sobre a mesma questão: “aí, voltamos à religião.” Como disse, estamos falando de tarados, de obcecados com religião. Esse é o limite do meu psicologismo.

Ok, então voltamos à religião. Como a religião vê a vida humana como sagrada, para Tyson a descoberta de vida extraterrestre será como que um choque para a religião. Falácia: é um non sequitur. De que a vida humana seja sagrada, não se segue que a descoberta de qualquer outro tipo de vida conteste essa sacralidade.

Bombasticamente, Tyson resolve apelar ao Gênesis. Se está dito que Deus criou os Céus e a Terra, isto quer dizer que, como conhecemos outras estrelas, galáxias, planetas, etc., que a Bíblia não mencionou, então a religião está errada. Falácia: outro ad ignorantiam. Porque a Bíblia não fala de outras coisas além de “Céus e Terra”, não quer dizer que essas coisas não existam, e muito menos quer dizer que a Bíblia afirme que outras coisas não existam. A desonestidade de Tyson é brutal, violenta e indesculpável. A revelação de Deus revela, por excelência, apenas aquilo que Deus quer nos revelar, ó raios! Do contrário a Bíblia teria infinitos anexos: tratados de mineralogia, manuais de contabilidade, listas de espécies animais, relatórios de estoques de petróleo… Aqui algum engraçadinho poderia dizer que eu é que estou sendo desonesto. Mas pense bem, muito bem, antes de alegar isso. A premissa de que a vida extraterrestre contestaria a revelação bíblica é que está em questão e precisa ser provada. Dar por pressuposto é outra falácia, petitio principii. Sejam mais espertos. Se aparecer um ET na porta da minha casa amanhã de manhã me dando bom-dia, isto não contesta a revelação bíblica nem a sacralidade da vida humana. Porque a Bíblia teria que falar de seres extraterrestres, se não falou de bilhões, trilhões de coisas que existem? E, mais importante, porque a presença de ETs dessacralizaria a vida humana? O ônus está com os antagonistas da religião.

Mas, Tyson, que é realmente um especialista, não erra jamais só por um lado. Além de sua desonestidade, brota, pulula abundante, a sua ignorância. Cosmologicamente, a tradição religiosa inclui no símbolo de “Terra” toda a manifestação temporal, todo o reino dos fenômenos físicos. Então, meu caro Tyson, todos as estrelas, planetas, cometas, buracos-negros, etc., tudo isso aí simbolicamente é chamado de “Terra” na linguagem tradicional das religiões. Se amanhã eu encontrar em pé na minha frente um ET na fila do almoço, esse também faz parte do que a religião chama de “Terra”. Já “Céu” é aquilo que não depende de existência terrestre, é tudo o que transcende a temporalidade, ou seja, todas as idéias das quais as coisas existentes são partícipes, todos os princípios supremos que ordenam essas idéias, todas as propriedades de Deus, todas as criaturas espirituais da hierarquia celeste, serafins, querubins, tronos, dominações, virtudes, potestades, principados, arcanjos e anjos, além das esferas celestes sub-uranianas que simbolizam os graus de relação entre o imanente e o transcendente, descendo de Saturno até a Lua. Com tudo isso eu não pretendo, em nenhuma hipótese, que Tyson queira aprender uma titica, um grama sequer, de simbolismo tradicional. O que quero é mostrar que a audácia tysoniana contém em si, além de desonestidade, uma ignorância maciça.

Mas diz Tyson, com um otimismo franco e esperançoso, que nós sobreviveremos ao encontro com os ETs. Apesar de termos idéias tão contrárias, eu até que compartilho desse otimismo dele. Só não sei ainda os termos que terei de usar quando encontrar meu primeiro interlocutor intergalático: “senhor” serve, ou é melhor usar um “ilustre”, ou ainda um “excelência”? Não vejo a hora de Tyson e seus colegas começarem a escrever os manuais da etiqueta cósmica, para nos tirar dessa aflição.

Só um detalhe, ainda. Tyson diz que nós “soubemos viver depois de notar que o Sol não rodeava a Terra”. A verdade é que nós soubemos viver depois de notar que, apesar de o Sol na prática não rodear a Terra, para todos os efeitos ainda parece que ele faz isso e a vida continua numa boa. Continuamos dizendo que vamos acordar “antes do Sol nascer”, e que vamos navegar em alto-mar só em “dia de Lua cheia”. Nossa realidade cotidiana de seres humanos foi muito menos alterada por essa bagunça científica moderna do que presume a vã filosofia de Tyson e companhia.

Estou começando a ficar de saco cheio do assunto, para falar a verdade. Vou encerrar logo. Mas vejam que sou um resistente, um obstinado das idéias.

Diz, ainda, o nosso Tyson:

Muita gente julga [a ciência]: ‘não é importante’. Mas logo depois recebe no celular uma ligação da vovó, que mora a 3 mil quilômetros de distância. Amigo, isso só foi possível ocorrer por haver ciência. A população por vezes tem nossas descobertas e realizações como algo normal. Mas não era comum falar com alguém tão longe, em tempo real, há poucas décadas. Quem permitiu isso? A ciência. Não é interessante?

O que é interessante é que Tyson –que ao que me consta não inventou um parafuso na vida–, arrogue-se porta-voz de uma ciência que ele pelo visto não conhece tão bem, já que está mais ocupado com divulgação e em encher o saco da religião. Cientistas comprometidos com o ideal de ciência certamente não têm tempo para asneiras e picuinhas e certamente não se submetem a um ridículo tão completo como o faz o senhor Tyson. Talvez sem o saber, o senhor Tyson esteja sendo usado por uma agenda política totalmente alheia a qualquer preocupação ou cuidado científico. Digo “talvez sem o saber” porque, mesmo tendo dito coisas duras sobre Tyson, dou-lhe ainda, como todos esperamos receber sempre, o benefício da dúvida. Ele pode ser, sim, apenas um desavisado.

Só um alerta: ciência e técnica não se misturam tão perfeitamente quanto Tyson alega, em defesa da ciência. Embora a tecnologia possa fazer proveito de investigações científicas, e vice-versa, o fato é que o grande avanço da técnica se deve somente em parte aos estudos científicos puro-sangue, que se distanciam abstrativamente dos problemas práticos concretos, que são o assunto da tecnologia. Muita coisa se faz por mero desafio prático. Por exemplo, a caneta que escreve no espaço, que citei acima. É verdade que algum conhecimento científico contribuiu para esse feito tecnológico? Sim, certamente. Mas os construtores da engenhoca lidaram muito mais com questões práticas e com a improvisação e adaptação de outras tecnologias prévias, do que com ciência pura, teórica.

Isto só para mostrar que o buraco é mais embaixo. Se usamos celulares hoje, isso é por ter havido não só cientistas teóricos especulando sobre a natureza das coisas, mas sim, e principalmente, pelo avanço da própria técnica que aprendeu o uso de materiais e forçou sua evolução pela necessidade prática.

Por sinal, um dos pioneiros que falaram pela primeira vez nessa possibilidade de telefones celulares foi um inventor croata nascido em 1856, Nikola Tesla. Amante não só da tecnologia, mas também da ciência, Tesla era um monstro da investigação e da invenção. E era humildemente capaz de reconhecer o que lhe era superior, ou seja, a própria origem da sabedoria, que por isso mesmo lhe amava e lhe concedia uma mente genial.

Disse Tesla, entre outras coisas:

O dom do poder mental vem de Deus, ser divino, e se nós concentrarmos nossas mentes nessa verdade, nós entramos em sintonia com esse grande poder.”

Minha mente é apenas um receptor. No universo há um núcleo do qual nós obtemos conhecimento, força, inspiração. Eu não entrei nos segredos desse núcleo, mas eu sei que ele existe.”

Quem é para a ciência e para a religião Neil DeGrasse Tyson, perto de Nikola Tesla?

Uma mosca, uma formiga. Ou menos ainda.

É apenas um pensamento que já passou.

Que falta faz um Nikola Tesla.

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