Dezesseis de agosto

Avenida Paulista Manifestacao 16 de agosto

 

Finalizada a minha leitura dominical de O Reacionário, entrava eu então na leitura (ou releitura? já não sei) da entrevista “Música é música, Sr. Gershwin” na Edição nº 2 da Dicta.

Mal começo eu, e os bárbaros batem à porta.

Vivo tendo que lembrar –como se alguma satisfação devesse, quase como se fosse uma sub-celebridade dessas de revistinhas–, que os meus finais de semana não são nada ociosos. Um bom ritmo de leituras compreende algo entre 60 e 90 livros lidos por ano. Digamos que é um pouco melhor que a média brasileira, certo? Qual é a média brasileira, mesmo? Acho que 1,7 livro lido por ano. Pois bem, eu quero fazer quarenta, cinquenta, sessenta vezes isso. É meu direito e, mais que isso, é meu dever. Só que isso dá trabalho. Quando vocês querem que eu leia os livros? De segunda à sexta, da meia-noite às seis da manhã?

Daí que não entendo que me achem caprichoso, que me façam cara de nojinho, quando eu digo que “vou ver” se dá para fazer algo ou não no final de semana. Mais compreensão, por favor. Olhem a minha situação com mais carinho.

Indiferentes mesmo às minhas necessidades intelectuais e espirituais, os bárbaros bateram à porta.

O mais insistente foi esse grande murista, essa neutralidade encarnada, que podemos chamar para todos os fins de “Ponto-Morto” (é, afinal, a mais neutra das marchas). Amigo de uns quase quinze anos. Já no dia anterior, me mandava ele as suas mensagens, dizendo que eu teria que ir na manifestação. Nem vi direito as mensagens, e ele já mandava outras novas.

No dia seguinte, nesse dezesseis de agosto, logo pela manhã Ponto-Morto já continuava o seu assalto inclemente. Mandou mais mensagens, ameaçando inclusive me ligar à cobrar se eu não lhe desse satisfação. Como eu ainda não tinha dado mesmo muita bola, em determinado momento ele cumpriu sua ameaça. Atendi paciente e inofensivo, mas disse-lhe que não iria na manifestação. De canto, meu olho brilhava de cobiça de ler a entrevista na Dicta, com o maestro Roberto Minczuk. Disse, então, ao telefone: “não vou, não”. O contra-ataque foi feroz. Ponto-Morto chamou-me de “hipócrita”.

Por que hipócrita? Pois é, não sei.

Eis uma gratuidade muito deselegante. Aparentemente, se eu quero o impeachment da Dilma e não vou na manifestação, eu sou logicamente, necessariamente, um hipócrita. Eis um juízo de sensibilidade de rinoceronte, de javali. Selvagem, animalesco. Quase quadrúpede.

Na minha auto-defesa mental, imaginei que estudando eu fico mais preparado intelectualmente. E sou, assim, potencialmente muito mais ofensivo contra o comuno-petismo brasileiro do que apenas como participante de passeata. Faz sentido estudar: eis o arroz-com-feijão para uns, e o oculto segredo místico do além para outros.

E, por outra, aqui entre nós, toda essa vastíssima população que votou na senhora Dilma Rousseff e se arrependeu de lá para cá, pois bem, toda essa multidão de desiludidos é que devem, em primeiro lugar, se manifestar contra o governo da dita cuja. É claro que os eleitores de Aécio, como eu, têm essa prerrogativa e, até certo ponto, esse dever. Mas os traídos, os enganados, que deram mandato a essa patifaria que está aí, esses deveriam lotar as ruas, galerias e praças por todo o Brasil. Deveriam bater no peito e puxar para si: “é conosco, amigos, é conosco.”

Enfim. Ponto-Morto me perseguia num domingo de manhã, imaginem a cena. Dizia-me: “eu vou aí! eu vou até aí!”. E, de fato, foi.

Somado a esse método nada sutil, vinha o apelo de outro amigo, bem mais civilizado, que também queria que eu fosse com ele na manifestação. Este amigo, também de mais de década, posso chamar de “Memorialista”: ele é, na sua mente para a qual nada escapa, um meu HD externo, um HD vivo. Se for necessário um dia, se for do interesse de alguém, saber como eu vivi, perguntem a ele. Ele é automaticamente o meu biógrafo, e automaticamente o biógrafo de todas as pessoas que conhece mais de perto. Não precisa nem se esforçar, não precisa coletar documentos ou rever notas: está tudo na sua memória. Fazer uma pergunta sobre o passado para ele equivale a apertar o botão de um computador: lá vem a resposta, pronta, sem demora. Um prodígio, um dom impressionante.

Pois bem. Assim como o exército grego sob o comando de Agamenon desejou vencer os muros de Tróia para perturbar a pacata vida dos súditos de Príamo, Ponto-Morto e Memorialista avançaram aos brados, exigindo que eu abrisse-lhes os portões e permitisse a invasão do meu domingo. Sem um Heitor que defendesse minha fortaleza, capitulei.

Antes de sairmos, pensei apenas, por um segundo: “levo a minha carteira, ou não?”

Qualquer amontoado de gente sugere alguns riscos aos nossos bolsos. Afinal, não estamos na Suíça. Mas, como não se tratava de manifestação de petistas, concluí que poderia sair de carteira no bolso sem sofrer grandes perigos.

Ao tomar o ônibus, fiz ainda o inevitável gracejo de bom partícipe da elite branca golpista que sou: “quanto é a passagem? aceita cartão de crédito?”

Chegamos então os três na manifestação, nesse grande “convescote de rico”.

Como previsto, estava abarrotada de gente. Tinha gente até no lustre, diria um Nelson Rodrigues. Se tudo isso aí é elite golpista, seria uma felicidade, uma alegria. Que bom seria ter um país com tantos ricos assim.

Tomamos a Avenida Paulista e, triunfalmente, até mesmo a ciclo-faixa de Haddad.

Uma senhora quase pulava, quase dava saltos mortais, de satisfação de pisar na “ciclo-faixa do Haddad”. “Vamos para a ciclo-faixa do Haddad!”, gritava de alegria, eufórica de finalmente poder usar, para alguma coisa, a caríssima e ilegalíssima estrovenga. Ocupamos tudo quanto podíamos ocupar. Uma outra senhora levou a sua panela –na verdade, uma frigideira–, e a sua colher de pau, e batia alucinadamente, entre os apitos e cornetas, em seu singelo e individual protesto. O dia era nosso.

Ponto-Morto, um incansável prescrutador de incongruências e contradições, reais ou ilusórias, fez então a pergunta fatal, como Sartre quando deu sua conferência no Brasil: “e os negros? onde estão os negros?” Não demorou muito e os negros apareceram.

Elite branca golpista

Ainda assim, Ponto-Morto achava que eram poucos. Poucos a ponto, talvez, de serem todos alienados de uma suposta verdade racial revolucionária que os impediria de estar ali, protestando contra o PT, contra Lula, Dilma, etc. Eis uma indecência política, um pensamento pobre de espírito. Mas pode ser pior e, repito, pode ser pior. Se a clientela assídua do petismo são todos os pés rapados, os miseráveis da terra, e não havia negros o suficiente na manifestação contra o PT para o gosto de Ponto-Morto, é possível conjeturar um insuspeito racismo que associa ideologicamente os negros com a miséria. A mentalidade revolucionária move no tabuleiro político, assim, as identidades sociais a seu favor, criando da soma das minorias uma maioria vítima de uma opressão elitista qualquer, contra a qual o Partido então se ergue como o salvador de todos os oprimidos da nação. Com tal contorcionismo extravagante é possível, enfim, transformar um Partido tão corrupto, totalitário e nefasto, numa vítima ele mesmo de conspirações e golpismos.

Não se enganem, esse sistema imita mesmo o modus operandi diabólico: elogios melífluos, incitação da vitimização e do orgulho, e depois o empoderamento na luta contra a opressão, e a consequente escravidão. Eis o que o diabo faz, sem tirar nem por, desde o Gênesis, desde Adão e Eva. Só não vê a estrutura satânica da mentalidade revolucionária quem não quer ver.

Seguimos a marcha.

Podem me perguntar: e o Memorialista, fazia o quê? Ora, guardava na memória. Se daqui a trinta anos perguntarem do dezesseis de agosto, ele dirá tudo o que aconteceu e mais um pouco.

Com o olho rútilo, Ponto-Morto ardeu de satisfação quando encontramos o carro dos que pediam a intervenção militar. Destacou, excitadíssimo, o termo “constitucional”. Para ele ficou claro, ali, o eufemismo: intervenção constitucional é o termo mais bonito que encontraram, até então, para o golpismo puro e simples. Não lhe ocorreu que o termo “constitucional” pudesse de fato significar outra coisa qualquer que não fosse um mero disfarce verbal.

Sabíamos todos que o grosso do povo estava pendurado nos carros do Vem Pra Rua e do Movimento Brasil Livre. Mas, como se sabe, quem procura, acha: aos buscadores do golpismo aquele carro da intervenção significava o centro ideológico de toda a manifestação.

Continuamos a nossa marcha.

Num dado momento, Ponto-Morto viu algo que lhe impactou, que o fez tremer em cima dos sapatos. Foi ele correndo atrás de alguma coisa no meio daquela manifestação toda. O que podia ser? Eu não entendia. Mas ele corria, zigue-zagueava por entre os manifestantes com destreza mercurial, atrás de um fato sublime qualquer. Será que era a própria Dilma, ou o próprio Lula, escondidos sob pesado disfarce, de peruca, óculos escuro e casaca, observando tudo de canto, com grande sutileza?

Ficamos eu e o Memorialista parados, atônitos, esperando a volta de Ponto-Morto com alguma revelação debaixo do braço. Depois de alguns sofridos minutos de suspense, volta ele com a verdade, a dura e cruel verdade.

Na esquina da Joaquim Eugênio de Lima vira ele, ao canto da assombrosa marcha, uma família necessitada. Com grande indignação, Ponto-Morto confessou o seu sentimento candente, profundo: no meio de tamanha mobilização social não havia ninguém que desse conta daquela família de famintos. Ninguém ajudava os necessitados. Curiosamente, mesmo diante de tão sofrida cena, meu amigo não vertia lágrimas de compaixão. Ao contrário, terçava sua constatação com ar sarcástico e até um pouco sádico, pois naquela cena simplíssima sentiu finalmente a certeza interna de que precisava, de toda a hipocrisia e malevolência da manifestação: todos estavam preocupados com o PT e com Dilma, enquanto os necessitados passavam fome ao seu lado, sem que os golpistas dessem a menor bola. Todo o sentido metafísico do dia pareceu de repente descer à sua consciência com a força fulminante de um raio. Não sei se ele próprio deu algum tostão para os carentes, além de conversar com eles e registrar a injustiça da sua situação em foto. Mas que importa? Os carentes, afinal, estão aí no mundo para fazer a propaganda da justiça da causa petista, e não para serem salvos.

Eu, que sou um grande fã do despudoramento mental, da pornografia das idéias, disse para o Ponto-Morto que o fato, bem ao contrário de invalidar a manifestação, a justificava: quem são, afinal, os mais necessitados dos bilhões roubados pela camarilha petista, senão aqueles mesmos que passavam fome ali ao nosso lado? A manifestação era mais por eles do que por quaisquer outros. Eis o fato escandaloso: a “elite branca golpista” é a última da fila dos que têm a perder com o petismo. O país cai de quatro diante do assalto petista, e da destruição das bases da economia e da credibilidade do país. Os mais fracos são os que mais perdem, sempre. Todo mundo que estuda o socialismo entende isso rapidamente. Era isso o que queria dizer, implicitamente, um pequeno panfleto colado num poste ali por perto: “Menos Marx, mais Mises”. Ponto-Morto achou graça desse cartaz, e ao mesmo tempo ficou escandalizado com a pobreza descuidada daquela família. Não via, e não vê, a conexão entre o socialismo e a miséria: o socialismo é uma fábrica de miseráveis, sempre foi, e sempre será. Pois os miseráveis são necessários ao socialismo como a gasolina é necessária num motor. Eis que a imaginação socialista não consegue ultrapassar a visão do “mundo melhor para todos”, e para além disso ligar mais que três ou quatro fatos aparentemente desconexos do mundo real.

E no entanto, tudo isso é perdoável: mesmo que timidamente, mais adiante Ponto-Morto soltou ao menos um gritinho de “Fora Dilma”. Da boca para fora ou não, ele participou do sentimento popular, participou dessa manifestação.

Em dado momento, passávamos pelo carro de som do Vem Pra Rua. Chamaram um tal Reverendo para dizer umas palavras de ordem. Não vi o mesmo, mas reconhecia a voz. Não podia olhar, porque estávamos mais imobilizados no meio do povo do que o atum em lata da Gomes da Costa. Mas a voz me era familiar e não me trouxe boas lembranças. Este Reverendo, se não me engano, foi aquele que empurrou Dom Odilo Scherer contra a parede na questão do aborto, numa edição do Roda Viva, e tomou uma leve surra (https://www.youtube.com/watch?v=xbbpLADR2D4). Não que D. Odilo seja a fina flor do catolicismo, mas o argumento do Reverendo foi então bem vagabundo, citando as 200 mil mulheres mortas por ano por causa de aborto, dentro do número total de 1 milhão de abortos clandestinos. Que se façam estatísticas sobre fatos clandestinos, já é uma proeza da burocracia estatal, incompreensível para nós, reles mortais. D. Odilo respondeu coerentemente, e o ponto fulminante foi a lembrança de que os mortos, se fossem verdadeiros os números da ONU defendidos pela ministra Eleonora Menicucci, seriam no total um milhão de duzentos mil pessoas. O Reverendo não compreendia D. Odilo. Como um milhão? Não eram duzentos mil cadáveres, duzentas mil mortes de mulheres? E D. Odilo fez o mínimo: lembrou que cada criança não nascida foi assassinada, e o escandaloso número de mortos na tragédia abortista seria, pela lógica, de 1,2 milhão de pessoas. Enfim. Ouvi a voz do Reverendo, vociferando atrapalhadamente contra Dilma e o PT, e me lembrei do episódio de Roda Viva. Fiz um sinal negativo para Ponto-Morto, que sentiu-se, finalmente, autorizado a esboçar uma vaia. Aliás, vaiou de fato, durante uns três ou quatro segundos. Mais do que isso pegaria muito mal. Não lhe estimulei além desse ponto.

Seguimos adiante na brava marcha, em direção ao MBL que estava pela altura do MASP. Neste ponto o volume de gente beirava mesmo o insuportável, para a minha frágil constituição de um quase misantropo, de um quase antissocial. Pelas tantas, enquanto tentávamos manobrar por entre as idas e vindas da massa, fomos separados. Vinha um bandeirão por cima das nossas cabeças, e o cordão dos manifestantes impediu que continuássemos juntos os três na nossa alegre jornada política.

Sofridamente busquei sair da avenida e ganhar um ar. Involuntariamente me vi debaixo do bandeirão. E não sabe quem nunca esteve debaixo de um bandeirão num dia de calor, a aflição que dá. Sou amante dos ares abundantes, do céu aberto acima, de toda a liberdade possível. Saí dali atropelando e levando comigo tudo quanto havia, tropeçando em cornetas, apitos e cartazes. Finalmente ganhei a Alameda Casa Branca e desci até a Alameda Santos.

Deixei Ponto-Morto e Memorialista entregues a sua própria sorte. “São adultos e se viram bem”, pensei. Além do que, estão numa passeata muito pacífica, muito ordeira. Só corria risco mesmo, por ali, um petista qualquer desavisado, um Sergio Mamberti que gritasse “quedê?! quedê os black-blocks?!”

Caminhei pela Alameda Santos para encontrar o epílogo da minha aventura. Encontrei. Foi um taxi com ar-condicionado, que como bom partícipe da elite branca golpista eu precisei tomar, para me levar para casa. Para que eu retomasse a minha leitura. O taxista falava da bagunça do país, da falta de confiança, do caos geral. Dizia que tinha que ajudar não sei quantos parentes seus do Nordeste, porque senão estariam entregues ao Bolsa-Família, fazendo filhos como a fábrica de Coca-Cola faz latinhas. Uma afilhada sua era um orgulho, e ele se enternecia de contar, quase às lágrimas. Essa afilhada tinha ingressado com esforço num curso de Agronomia, com a ajuda do taxista. Disse eu: “só a família ainda salva alguma coisa nesse país”. Ele concorda, e penso comigo, “Deus salve as famílias”.

Estes foram os fatos.

Perguntam-me, então, quais são as conclusões sobre as manifestações.

Desde que esculhambei devastadoramente um outro amigo meu anos atrás, que havia me pedido opinião sobre “os terremotos no Japão”, todo mundo sabe que não sou de opinar sobre fatos. Fatos são aceitos. O que discutimos são idéias. Mas as manifestações, bom, esses são fatos políticos, e podem ser pensados de algum modo. Então vamos lá.

Primeiramente, posso dizer sem receio que o que eu pensava sobre manifestações populares não mudou em um milímetro depois que participei deste dezesseis de agosto. Digo isso com o que talvez pareça alguma frieza, mas é apenas objetividade: não há em mim sentimento nenhum de escatologia patriótica, ou seja, de um ânimo explosivo e descompensado que ignore a realidade política do país.

É excelente que haja manifestações, não há dúvida.

Mas o petismo e, mais ainda, e melhor ainda, o esquerdismo como um todo, construiu a sua hegemonia política no país depois de décadas de trabalho estratégico e de ocupação de espaços, muito além de produzir as manifestações. Ocupar a Avenida Paulista, que fique claro, por favor, não é o que em estratégia política chamamos de “ocupação de espaços”.

As manifestações populares me lembram em parte as próprias eleições.

São ações e atitudes democráticas e necessárias no jogo político, mas não são auto-suficientes e completas. Há que se ter um escoamento, uma ressonância, entre o sentimento popular e a sua necessária representação num sistema democrático. Sem a representação corremos sempre o risco dos petistas sacarem do bolso do colete o texto do Decreto 8243 sobre a “participação social”, como se fosse a solução para todos os males. Tudo é uma oportunidade para o projeto revolucionário. Não há gente política mais oportunista que a petista, não há. São mestres em ler as brechas, as rachaduras, os buracos por onde podem se enfiar maliciosamente.

Existem os movimentos, é claro.

Não estamos a esmo como em 2013, na época das acéfalas manifestações de rua sem mote, sem propósito, sem direção. O pedido da massa na Avenida Paulista foi claro: ninguém mais quer PT, Dilma, Lula, etc. Impeachment. Este é o pedido claríssimo, unívoco, do povo.

Ocorrem aí, porém, duas coisas.

Primeiro, que o impedimento de Dilma requer que as instituições que estão aí funcionem. E estas instituições, para além de qualquer legalismo utópico, são formadas por pessoas reais, com uma origem e uma história real, e com compromissos reais. Nem Reinaldo Azevedo, tão acusado de legalismo (não por mim), pode negar esse fato. E tanto é que não pode, que não nega. Está a acusar tramas nos bastidores, de um acordão que inauguraria a maior e jamais sonhada fornada de pizza política de todos os tempos. Em O País dos Petralhas (não me lembro se no primeiro, ou se no segundo livro), diz explicitamente o Reinaldo (no texto “Por que o Brasil é um dos países mais corruptos do mundo”): “Não há sistema bom que resista intacto a homens maus. A qualidade individual dos políticos certamente faz a diferença.”

Mal sabe quem acusa Reinaldo de ser professor de um reles idealismo político, que esse idealismo de superficial não tem nada. É nada menos que a filosofia política ensinada pelos monstros absolutos, pelos mestres universais do pensamento ocidental, que ombreiam individualmente em importância com as influências ambas do legado judaico-cristão e do direito romano: Platão e Aristóteles. A quem quiser superar essa tradição, digo eu: boa sorte. Vai precisar.

Que quero dizer, afinal?

Voltando. Quero dizer que o sucesso concreto do apelo da manifestação pelo impeachment depende da ação de agentes políticos existentes, dentro das instituições existentes. Se esses agentes que estiverem aí (e com “agentes” não me refiro apenas aos parlamentares, mas também aos membros do poder judiciário) não conseguirem vencer a pecha de golpismo e mostrar a legalidade do ato do impedimento, não vai ter jeito dessa história acabar bem. Não há outro modo, a não ser um suposto intervencionismo de um outro poder, não-político, que todos os bem pensantes querem evitar, justamente por quererem uma solução POLÍTICA.

Isso me leva ao segundo ponto.

Os problemas políticos do Brasil são cadavéricos, poeirentos, ancestrais. Remontam à época de múmias e de sarcófagos milenares. Não se resolve essa bagunça toda do país com a simples reunião das massas, porque as massas só podem gerar capital político a ser aproveitado por uma atividade de liderança política consciente, ideologicamente consistente, e partidariamente constituída.

Onde estão essas lideranças políticas?

Não estou falando, repito, dos líderes dos movimentos. Estes fazem o seu trabalho, e muito bem. Souberam ocupar o espaço, e já era mesmo tempo de isto acontecer. Mas não falo destes. Estou falando dos partidos políticos.

Ora, os nossos partidos políticos são maciçamente de esquerda. Que raio de democracia pode haver, com oposição de verdade a um governo de esquerda, se não for uma democracia que tenha uma direita bem constituída? Nenhuma democracia, evidentemente.

Então o sentimento popular presente nas manifestações escoa lentamente para um ralo de desperdício político, sinto muito em dizer. Mas não é esta a sensação? De água escorrendo pelas mãos, escapando pelos dedos?

Todos queremos que o PSDB –ou até o PMDB, dirão alguns–, assuma o poder no país, para garantir o retorno à estabilidade econômica, para resgatar a confiabilidade interna e externa do país, etc. Tudo isso é necessário, claro.

Mas, sonhemos que o impeachment ocorra, ou até uma mítica renúncia de Dilma. Ok, o PSDB assume, dividindo o pote com o PMDB, esse grande garantidor da governabilidade (a um preço bem caro, diga-se, mas pagável).

E o day after?

Alguém acha que, mantido o espectro partidário e ideológico atual, o PSDB consiga resolver os problemas profundos do país? Não conseguirá por duas razões simplérrimas: primeiro, quem disse que o PSDB quer resolver esses problemas profundos, sendo ele também um partido de esquerda? Segundo, quem disse que a oposição, também de esquerda e mais ainda à esquerda!, vá deixar o PSDB arrumar alguma coisa, mesmo que o queira?

Com isso, não quero dizer que o impedimento de Dilma não deve ocorrer. Deve, sim. E o PSDB deve assumir o poder, sim. Já disse: tudo isso aí é ótimo.

Apenas há um dia seguinte e eis uma característica ausente no direitismo brasileiro, este ser ainda no seu estágio protozoário: pensar na frente, num prazo mais longo. É assim que a esquerda faz.

Hoje nós derrotamos um PT para amanhã surgirem dois ou três substitutos formidáveis. Como uma Hidra, o monstro socialista se refaz multiplicando-se. Já fazem fila as alternativas revolucionárias ao petismo: PSB, PSOL, Rede, etc.

Vocês se lembram de como Hércules derrotou a Hidra de Lerna?

Depois de frustradas tentativas, ele cortou as cabeças e cauterizou as feridas, impedindo que ressurgissem dali novas cabeças.

Pois bem, o nosso equivalente, a nossa solução hercúlea, seria uma cauterização do socialismo, que vejo, sob a forma democrática, como a guerra cultural e ideológica que neutralize e compense a hegemonia esquerdista. Não há outro meio.

Daí retorno, enfim, ao meu arroz-com-feijão.

O fundamento dos problemas no Brasil é o ódio ao conhecimento, que gera a banalização e o ceticismo político, que acaba por premiar os ineptos e medíocres, levando-os ao poder.

Assim como as esquerdas levaram décadas para gerar o seu sistema hegemônico, a direita deve batalhar intelectualmente para criar as suas alternativas.

Pensem, por um minuto, no seguinte: quantos filhos e filhas desses manifestantes de ontem não entraram hoje nos colégios de todo o Brasil e já viram neutralizados os sentimentos políticos recém despertos pelo “ensinamento” escolar de um exército de professores ideologicamente alinhados e comprometidos com a hegemonia esquerdista? Quantas revistas, rádios, jornais, televisões, etc., já não estão hoje bombardeando as nossas cabeças, desarmando os corações, confundindo as mentes, boicotando toda a possibilidade de alternativa política ao sistema esquerdista?

Vocês querem desfazer um por um esses nós todos, lutando a esmo e inutilmente como Hércules arrancando cabeças sem fim da grande Hidra?

Não adianta lutar com paus e pedras contra um inimigo formidável e armado até os dentes, treinado, preparado, etc.

É preciso produzir reação intelectual de peso que tenha estrutura e robustez para de fato compensar o debate cultural e político.

Por isso que as manifestações, por mais justas e melhores que sejam no jogo político, não são suficientes. Acabo de ler, agora mesmo, uma colocação do Financial Times: dizem os ingleses que se Dilma caísse, seria apenas substituída por outro político medíocre.

E não é que é verdade?

Apavorados, os nossos direitistas hão de se questionar, alguns talvez pela primeira vez: “onde estão nossos líderes?! onde estão?!”

Não estão em lugar nenhum, porque não foram criados! Política não é mágica. Não se tira lideranças políticas como coelhos da cartola.

É preciso investir, é preciso cultivar, construir para o longo prazo. Os comunistas investem em gerações e mais gerações de revolucionários, atravessando séculos. Será que estamos fazendo isso, ou estamos sequer imaginando fazer isso?

Eu, um mero ator marginal na vida intelectual, jamais recebi, não digo dinheiro e apoio material, mas sequer a mínima compreensão e apoio moral do ambiente ao redor, exceto por esses poucos amigos, que conto nos dedos de uma mão. Ao contrário, eu tenho que dividir os frutos do meu trabalho para ajudar projetos alheios (o que faço com muito prazer e satisfação). Tudo bem que eu não sou ninguém, aceito isso. Mas e Olavo, por exemplo? Os caras ainda estão tentando coletar dinheiro para fazer um mísero e único filme biográfico sobre ele, e cadê o dinheiro? Não aparece. Não duvido que se passassem a sacolinha na manifestação de ontem para ajudar a fazer o filme, não coletariam mais do que uns trocados para pegar um ônibus, talvez, no máximo, de ida-e-volta. Isso por culpa dos manifestantes? Não.

Por culpa dessa característica brasileira, desse ódio ao conhecimento. Sou obrigado a insistir.

Voltemos a uma teoria política básica: existe a classe trabalhadora que sustenta toda a sociedade; existe a elite econômica que cria e aumenta a riqueza da sociedade; existe a elite política que defende a liberdade da sociedade dos seus inimigos internos e externos; e existe a elite intelectual que esclarece e orienta a sociedade.

Cada um tem o seu papel.

A classe baixa e média que foi na manifestação de ontem faz parte da massa de trabalhadores que sustentam o país nas costas com o seu trabalho. De forma muito justa, estão protestando.

É necessário que haja uma elite política que defenda essas pessoas, representando-as no jogo democrático.

Só que essa elite política só pode surgir se existir ANTES uma profunda e maciça atuação da elite intelectual, que abra o espaço na cultura, na educação, e na mídia, e que crie a base social sobre a qual a elite política possa surgir e agir com peso.

Essa elite intelectual, por sua vez, não pode assoviar e chupar cana ao mesmo tempo. Desde a Antiguidade, e passando por toda a Idade Média (inclusive com a fundação das primeiras Universidades européias), todo mundo sabe que as melhores mentes têm que ser cultivadas e incentivadas, e que a única forma de se fazer isso é libertando-as do estorvo das necessidades comuns da vida material. Isso significa que a elite econômica tem de reconhecer antes de mais nada a sua própria necessidade de inteligibilidade cultural, devendo, portanto, dar todos os incentivos para o florescimento da vida intelectual e protegendo a mesma na sociedade. É a velha explicação de Simônides: por que os sábios batem na porta dos ricos? Porque eles sabem de que precisam. Enquanto os ricos, se não batem na porta dos sábios, não sabem de que eles próprios precisam.

Voltamos, então, ao problema básico: o ódio ao conhecimento não permite que uma elite intelectual atue com força por falta de reconhecimento social e de apoio da elite econômica. A elite econômica, inevitavelmente, cumpre o seu papel de sustentar a vida intelectual, e como os espaços estão ocupados pelos integrantes do projeto da hegemonia cultural socialista, são estes que recebem o dinheiro, o reconhecimento, o apoio, etc.

A única saída de longo prazo que existe é o ressurgimento espontâneo, laborioso (e como!), da elite intelectual consciente da situação, que refaça por si um mínimo da alta cultura no país que seja suficiente a ponto de garantir um pouco do reconhecimento social, alheio ao establishment ocupado pela esquerda, e que possa, assim, voltar a ocupar espaços e dividir o poder de influência sobre a sociedade, recuperando algum equilíbrio democrático DESDE CIMA.

Este projeto já está em andamento.

Se é possível organizar hoje as manifestações de rua em torno desses movimentos, é em grande parte porque este projeto já está funcionando nos bastidores, apesar de toda a gritaria e histeria paranóica da esquerda.

Concluo, enfim, lembrando isto: não é possível ter força política ou econômica antes de ter força intelectual. A inteligência vem antes.

A esquerda já reconheceu isso, dando fôlego e energia para a revolução cultural gramsciana, o que lhe permitiu tomar o poder apesar de todos os descalabros.

E a direita, quando vai reconhecer?

Só quando, em primeiro lugar, os indivíduos vencerem dentro de si mesmos o ódio ao conhecimento e, em segundo lugar, vencerem o seu ceticismo político, que é quase um niilismo autodestrutivo.

Assim, e só assim, quem é de direita poderá dizer sem medo “sou de direita”, e consequentemente poderá defender abertamente o projeto de ganho de musculatura intelectual para dividir os espaços, como a esquerda já faz há décadas. Isso atrairá a atenção da elite econômica, e consequentemente da elite política, e permitirá, enfim, que haja um pouco de sanidade e de equilíbrio político no país.

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