De novo, as emboloradas

Paul Dolan

 

Me veio de súbito à mente um apelido para as páginas amarelas de Veja (onde publicam suas entrevistas): “emboloradas”. Essas páginas –não bastasse já terem a cor própria do bolor– hão de ser tão esquecidas e abandonadas pela humanidade, por suas reiteradas inconsistências e irrelevâncias, que restarão intocadas pelos séculos futuros guardadas em museus, como se faz com fósseis.

De novo sou levado a ler com espanto as emboloradas da edição de Veja do dia 15 de julho. A revista entrevistou Paul Dolan (“A equação da felicidade”). Embora o processo de emboloramento histórico seja irreversível, é preciso notar o caráter nocivo para a nossa comunidade, para a nossa sociedade brasileira, da leitura de tais idéias.

Nem em pensamento farei uma leitura de parte a parte, como fiz na última edição, onde as emboloradas entrevistaram Neil Tyson. Aquela entrevista era potencialmente muito mais perigosa que esta.

Aqui o entrevistado é o economista inglês Paul Dolan. Todo descolado, o seu evidente esforço se auto-promoção me lembrou o próprio Tyson: em meu preconceito de ranzinza, de hidrófobo, os pensadores mais sérios não têm tempo para gastar com a sua própria imagem, pois os assuntos borbulham, transbordam de problemas.

Vejam vocês que a economia tem como objeto, tradicionalmente, o problema da escassez.

Eis a realidade humana, nua e crua: somos pobres por natureza. Nascemos extremamente carentes e paupérrimos. Viemos ao mundo, todos nós, carecas, banguelas, pelados, analfabetos, e sem nenhum tostão no bolso. Foi preciso percorrer milênios para que fosse possível, como é hoje, comprar com uns trocados um sanduíche de mortadela na padaria da esquina. A escassez é o problema econômico fundamental, que atravessamos os séculos tentando resolver ou atenuar.

No meio disso há idéias e teorias sem fim: liberalismo, socialismo, marxismo, keynesianismo, o diabo. E há toneladas e mais toneladas de dados e de relatos históricos sobre todas as experiências das comunidades humanas com o problema econômico. Surge a cada dia uma nova questão, uma nova crise, um novo problema, que requer o olhar econômico, e o entendimento econômico, para orientar os indivíduos, as empresas, os governos, os próprios intelectuais de todas as áreas, etc.

Pois bem, cheios de trabalho pesado nas mãos, os economistas labutam na sua vocação. As massas e os líderes exigem o avanço deste conhecimento.

Enquanto isso, Paul Dolan, este ilustre economista inglês escolhido por Veja para uma entrevista nas emboloradas, está faz dez anos estudando… o que faz com que as pessoas se sintam felizes.

Dolan não é qualquer um: o londrino é professor de ciências comportamentais (o que vem a ser isso?) na prestigiosa (palavras de Veja) London School of Economics. É formadíssimo, portanto. Está pronto para salvar o mundo a qualquer momento, na rapidez de um espirro. Um cientista de vanguarda.

E o seu problema é a felicidade das pessoas, vejam só.

O que isso tem a ver com o problema da escassez? Bom, só esta questão provavelmente requereria um compêndio inteiro de intrincados raciocínios para ser explicada. Nós vamos, como sempre é necessário fazer com a ciência moderna, dando tudo por pressuposto.

Época engraçada, a nossa: os antigos são chamados de obscurantistas, e os modernos são chamados de esclarecedores, iluminados.

Qualquer antigo que propusesse, desde um pódio econômico-administrativo, falar da felicidade humana, se não fosse um filósofo e sábio da comunidade, seria despejado a tapas da sua posição. Hoje, bem modernamente, lemos com atenção as idéias de um economista a falar de felicidade humana, e damos por pressuposto os motivos secretos que fazem a questão da felicidade ser tratada economicamente.

Mas falo, falo, e não digo muita coisa. Vamos aos fatos.

Veja pergunta para Dolan:

O senhor define felicidade como a combinação de experiências de prazer com propósito ao longo do tempo. Como é possível controlar este processo?

A resposta do economista da felicidade é irrelevante. A pergunta contém a suposta definição de Dolan (e não, não vou ler o livro dele —Felicidade Construída— apenas para confirmar isso) sobre a felicidade.

Para começo de conversa, e não sei se a cagada é de Veja ou de Dolan, o que a revista descreve não é uma definição, é no máximo um critério de identificação. Até aí, não espero mesmo que Veja saiba distinguir uma coisa de outra, e muito menos os seus leitores. Passemos. A felicidade seria uma mistura de prazer com propósito.

O problema aí é que os nossos propósitos costumam cobrar os nossos prazeres.

Ter propósitos na vida significa ter de abdicar necessariamente, em algum grau, das nossas vontades mais animais, mais habituais, do dia-a-dia. Se um propósito sério não cobrasse isso de algum modo, ele se desdobraria com tamanha facilidade que nós não o perceberíamos como tal, e todas as vidas humanas seriam vidas cheias de propósitos até a tampa, com a maior naturalidade do mundo. Sabemos que não é assim que acontece: quando você admite que algo é mais importante que a sua própria vida, bom, aí começa a lista de sacrifícios…

Ou seja, essa mistura de prazer com propósito está muito longe de ser harmônica e, mais ainda, está bem distante de trazer em si a felicidade. Como a busca do prazer se coloca inevitavelmente em posição contrária à realização dos propósitos, e nos obriga a fazer uma escolha, essa relação entre prazer e propósito em si é no mínimo de tensão, podendo evoluir para insatisfação e frustração e até resulta, eventualmente, em um colapso.

Pense num dos prazeres mais básicos que nós temos na vida: o de descansar preguiçosamente numa cama, num sofá, numa cadeira de praia, numa bóia de piscina. Não há ser humano na Terra que não saiba que, sem propósitos que valham mais que esse prazer elementar do nosso corpo –a vontade de repouso–, nós não levantaríamos para fazer praticamente nada, e provavelmente ainda viveríamos em cavernas.

Os leões, por exemplo, que não têm muito o que fazer pois não têm propósitos quaisquer além de viver as suas vidas instintivamente, dormem umas vinte horas por dia. Essa é a vida animal.

O ser humano, que tem um potencialzinho maior, digamos assim, enxerga propósitos para a sua porca vida, e propõe-se realizá-los. Essa disposição nos faz levantar da cama todo dia, de manhã. Se eu fosse harmonicamente sincronizar o meu prazer de dormir até tarde com os meus propósitos que me obrigam a acordar cedo, longe de isso me trazer felicidade, isso só me traria um transtorno de nervosismo. Eu ESCOLHO realizar um propósito e, para fazer isso concretamente, eu atropelo uns duzentos prazeres por dia.

Todo mundo faz isso.

Será que o senhor Dolan, o economista da felicidade, não faz? Acho que ele nem parou para pensar no assunto, falando francamente. Está a falar de coisas que ele acha que existem.

Os nossos prazeres não têm relação nenhuma com a felicidade verdadeira, ou seja, com a felicidade que não é essa que está contida nessa porcaria de “definição” de Dolan, mas a que é a estudada pelos melhores da área há milênios. Se a felicidade verdadeira dependesse minimamente do prazer, não seria possível milionários se suicidarem enquanto catadores de lixo seguem suas vidas. Aliás, a taxa de suicídios no mundo seria insanamente enorme, horripilante, se a felicidade dependesse, mesmo que em parte, do prazer.

Dolan está faz dez anos estudando sei lá o quê. Com 10% da verba que ele gastou e um terço do tempo eu escreveria uns três livros muito melhores que o dele. Sou um convencido? Não: só sei do que estou falando.

Viktor Frankl

Dolan não conhece Viktor Frankl? O que o médico austríaco observou nos campos de concentração nazistas não vale nada para o economista da felicidade? Frankl observou uma resiliência obstinada naqueles prisioneiros que amavam os seus parentes, e que amavam os seus projetos de vida, e foram esses propósitos que deram sentido às suas vidas e lhes fizeram resistir ao inferno nazista, enquanto ao redor todos os que vivam antes dependentes dos prazeres cotidianos da vida sucumbiam insanos, deprimidos, suicidas. Porra, Dolan! Vai estudar, caralho!

Socrates

Sócrates explicava que a felicidade é viver uma vida refletida, ou seja, a vida de quem busca conhecer, já que o mal essencial, para o filósofo, é a ignorância. Isso também não vale nada para o senhor Dolan, aparentemente. Sócrates, o fundador da filosofia, aceita até morrer em nome da verdade que amava e que era o seu propósito de vida. Será que a morte é um tipo de “experiência de prazer com propósito ao longo do tempo”? Acho que não, e nem por isso Sócrates deixou de ser feliz na sua firmeza filosófica, no seu amor pela sabedoria.

A brutalidade moderna é espantosa, escandalosa.

Santo Agostinho

Santo Agostinho, esse outro ilustre desconhecido para Dolan, explicava que ser feliz é querer tudo o que se deve, e ter tudo o que se quer. O Doctor Gratiae volta, portanto, à questão socrática: pois para saber o que lhe é devido, qual é o seu SENTIDO, o homem precisa ter antes a sabedoria. Será que Dolan deu-se ao trabalho de estudar, na sua extensíssima pesquisa, sobre Santo Agostinho?

É claro que não. Dolan é um “economista” moderno, desperto, que não precisa aprender nada com os obscuros antigos.

Segue Dolan com a sua idéia de felicidade construída, sem perceber sequer que propósitos e prazeres NÃO se bicam, que não podem trazer felicidade alguma quando conjugados, pois são realidades de naturezas hierarquicamente distintas. Os propósitos estão necessariamente acima dos prazeres. Uma alma feliz é aquela que domina o corpo como se domina uma fera, em nome dos propósitos superiores. Toda uma literatura de séculos e mais séculos trata, aliás, justamente desse enfrentamento contínuo dos espíritos humanos com as fraquezas da carne, e Dolan passa incólume diante de toda essa tradição, de toda essa história, querendo descobrir do zero a realidade humana como se fosse o gênio dos gênios.

Quando é que esses caras vão entender que tudo isso é uma palhaçada?

“Ah, mas a revista Veja não pode ir muito além dessas coisas mais superficiais…”, alguém poderia dizer.

Discordo violentamente.

Permitam-me perguntar: vocês entenderam o que eu escrevi acima sobre a felicidade? Entenderam, resumidamente, os testemunhos de Sócrates, de Santo Agostinho, e de Viktor Frankl? Acredito que sim, certo? E foi preciso eu ser um gênio para escrever essas coisas, ou vocês serem gênios para entender? Não foi, certo?

Pois bem, o que obriga a Veja a dar atenção a uma mediocridade, a uma nulidade como Dolan, nas suas emboloradas?

Nada obriga. É uma escolha que a revista faz, mas que nós, leitores, não podemos fazer. A única coisa que podemos fazer é deixar de ler essas revistinhas, ou então, melhor ainda, criar outras revistas novas, que tenham ao menos o senso do ridículo.

O pior de tudo isso é que, enquanto o senhor Dolan brinca de construir felicidade, o socialismo segue a sua rotina de escravização dos povos. E o socialismo pode e deve ser enfrentado e derrubado por iniciativas várias, entre as quais as econômicas. Refiro-me particularmente à questão do aumento ilimitado da produtividade atrelado ao aumento contínuo do índice de investimentos em inovação. Os economistas podem estudar essas variáveis particulares e, mais ainda, podem estudar formas novas de distributividade da renda que estejam relacionadas ao aumento da produtividade sem lastro necessário em disponibilidade de mão-de-obra.

Ao invés de pegar no batente onde é mais necessário, segue o senhor Dolan a sua brincadeira de economista da felicidade, enquanto no front ideológico o pau está comendo no mundo inteiro. No máximo o seu estudo será aproveitado pela engenharia social globalista, que também é escravista, e isso na melhor hipótese, se não for mesmo um puro lixo. Belo serviço.

E eu sou obrigado a respeitar necessariamente uma London School of Economics?

POR QUÊ?

Podemos respeitar indivíduos, iniciativas e idéias respeitáveis. O resto é resto.

Eis mais uma embolorada que vai para o sarcófago do esquecimento eterno.

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