José Serra: tudo aquilo que podia ter sido e não foi, e tudo aquilo que ainda poderia ser e não é

Jose Serra

 

José Serra anda falando pelos cotovelos nestes dias.

Estimulado pelas manifestações de 16 de agosto –e por sabe-se lá mais o quê–, Fernando Henrique Cardoso parece ter acionado o seu dispositivo secreto de atiçamento das aves tucanas, e agora elas voam para todos os lados.

Serra, num espaço de menos de 48 horas, deu entrevista no Valor Econômico, no Roda Viva, e na TVeja. Li e assisti tudo. Fiquei tão bêbado com a loquacidade política serrista que tive que ir dormir depois, pois não conseguia meditar criticamente nas idéias tão firmes e claras do senador peessedebista. Os olhos rútilos de Serra, quase hipnóticos, me dominaram. Suspeitei que poderia acordar tucano no dia seguinte.

Mas passou, isso passou. Nada é melhor do que um dia após o outro, com uma noite no meio.

Acordei já pensando, aqui comigo, que José Serra pode estar num avançadíssimo processo de decomposição física. Já deve estar chegando a hora do ritual do embalsamamento.

Fora este detalhe pitoresco, há que se notar outras coisas politicamente relevantes.

Primeiramente, toda a lucidez e competência política que Serra exibe lhe fez perder, não obstante, duas vezes a disputa de poder com o PT no campo presidencial. Em parte, o país está assim porque Serra conseguiu colher essas duas derrotas. Políticos são essencialmente diferentes de intelectuais por causa disso: eles têm que vencer. Um intelectual rejeitado pela sociedade pode se recolher e ainda dizer consigo: “não sabem o que fazem”. E ainda pode ficar satisfeito consigo, pois fez a sua parte. Um político jamais pode aceitar isso. A qualidade de um político não se mede somente pela sua integridade, pela sua confiabilidade, ou pelo acerto de suas idéias, e de seu diagnóstico político. Não. Tudo isso aí orbita em torno da capacidade central de se posicionar bem na realpolitik, de saber fazer as alianças certas, de saber atacar e também se defender, tudo isso para ganhar a disputa pelo poder. Embora José Serra seja, provavelmente, umas 479 mil vezes melhor para governar o país do que Dilma ou Lula, o fato é que isso não aconteceu. José Serra é um perdedor.

“Ah, mas ele venceu o PT em São Paulo várias vezes, na Prefeitura e no Governo do Estado!”, alguém diria. Mas pergunto eu: isso é uma proeza política? Tirar a cadeira de Senador de uma ameba como Eduardo Suplicy é uma coisa tão fantástica assim? Me digam uma coisa: QUEM não vence o PT em São Paulo? Só o próprio Serra, que não conseguiu nem ganhar de Haddad na última disputa pela Prefeitura. Sim, Haddad, dos desastres do Enem, do kit-gay nas escolas, esse aí mesmo ganhou de Serra.

Serra deveria ser um quase cadáver, politicamente. E só não o é porque o PT consegue alcançar o ápice da vulnerabilidade e da rejeição, pela mais pura e extrema incompetência e decadência moral.

Não quero, com essa análise, diminuir o trabalho real de Serra como político na sua carreira, ou mesmo a sua atuação presente como Senador da República. Eu votei em Serra várias vezes… quantas vezes já? Três, quatro? Nem lembro. O que ele fez e faz de bom ninguém lhe tira, é incontestável. A questão é clara: isto tudo é suficiente para o que o Brasil precisa na sua política? A resposta também me parece clara: não é.

Em segundo lugar, é preciso notar que toda a suposta capacidade política de Serra e de seus pares esteve muito bem escondida nestes mais de dez anos de governo petista. Ou não? Por acaso na época do mensalão, em 2005, o PSDB fez o favor, para a nação, de esculhambar definitivamente com Lula e sua gangue? Não fez, por alguma escrupulosidade misteriosa. Lula voltou a ser popular, ganhou eleição, e cá estamos nós, em 2015!, com a Dilma bagunçando a vida nacional. Não há ninguém que não tenha sentido a falta de uma oposição forte durante esses anos. Aliás, sente-se ainda! A recente manifestação de FHC, mais contundente, está pelo menos uns cinco ou mesmo dez anos atrasada! E não é, ainda, suficientemente enfática e realista, ao meu ver. Na minha visão, o país corre perigos muito maiores do que FHC, Serra e demais tucanos dizem.

O que nos leva ao meu terceiro ponto. Eis que a leitura intelectual da realidade política sob a perspectiva serrista é, no fundo, incompetente e enviesada. Perguntaram ao Senador se ele via a possibilidade de risco institucional no país. Ele diz que isso é possível. Assim, meramente possível. Qualquer um antenado na situação sabe que o PT está nas cordas, sim, mas que se sobreviver a esse assalto mantendo-se no poder, virará a mesa contra imprensa, oposição, e tutti quanti, e dominará o país ao estilo bolivariano. Claro que a situação não está fácil para o PT, mas isso não quer dizer que os riscos não sejam enormes. Embora Serra reconheça que a situação é confusa e sem saída clara, não me parece esclarecido o suficiente neste ponto dos riscos institucionais que corremos. E como Senador, e ator político tão experiente, Serra deveria avançar com coragem neste tópico. Ele diz que o PT não tem plano. Claro que se refere a um plano de governo, que todo mundo sabe que o PT não tem e nunca fez muita questão de ter mesmo. Mas a questão é: o PT não tem plano nenhum? Não tem um plano totalitário, alinhado com a ideologia e a orientação política do Foro de São Paulo?

Serra parece ser um ótimo político para uma democracia européia. Só que ele está no Brasil e se apresentou para atuar na política brasileira, eis a questão. Não adianta Serra ou o PSDB quererem civilizar o debate puxando os tópicos para uma discussão de administração técnica, enquanto os seus adversários –que, não obstante a sua fraqueza atual, estão ainda no poder– lhes cospem na cara, lhes chamam de golpistas, e mentem descaradamente sobre tudo o que há entre o céu e a terra.

Em um dado momento, Serra disse que o PT é patrimonialista, e que portanto não é um partido socialista, não é um partido de esquerda. Essa lavanderia moral que está sempre salvando o socialismo já está me dando nos nervos. Basta que um socialista erre para que ele deixe automaticamente de ser socialista para virar outra coisa qualquer. Nunca os erros provém das idéias socialistas.

Depois, contestado sobre o surgimento neste cenário de uma direita no Brasil, Serra disse que a direita no Brasil sempre foi estatista. Disse isso com uma cara e com um tom de desprezo olímpico que não condiz com a sua condição particular de político derrotado, e nem com a situação geral paralítica do país, no meio de tão grande crise moral, social, econômica, política e até institucional. Ele poderia ser menos agarrado às suas concepções políticas. Se fosse amante, verdadeiro amante da democracia, ele estaria aberto.

Digo eu, como direitista confesso, que a direita que me interessa e a muitos outros é democrática, liberal e conservadora. Nós não estamos, na direita, tão agarrados com a “direita estatista” do passado, tanto quanto essa esquerda esclerosada está agarrada aos próprios mitos e lendas da história do Século XX. A afetação de superioridade de Serra diante da hipótese política de direita no Brasil, além de ser intelectualmente anti-democrática, me traz um sentimento de rejeição sobre o Senador que dificilmente vai passar.

Se eu der ainda algum voto a Serra na minha vida, creiam-me, é por falta de alternativas, como aliás já ocorreu em diversas eleições. Nunca morri de amores pelo PSDB e nem pelo serrismo, mas a minha decepção consegue aumentar a cada dia.

Por um lado, FHC fez um grande favor ao país recentemente, chamando os seus cupinchas para a realidade política, para o comprometimento com posições claras. Por outro lado, a forma como esses grandes tucanos de alta plumagem se manifestam é, novamente, broxante.

O PSDB poderia, hoje, voar com os dois pés na porta e pedir a privatização de Petrobras e outras estatais, por exemplo. O povo precisa receber esta mensagem, está praticamente pronto e pedindo para isso, diante do desastre do socialismo petista. O establishment esquerdista, nas universidades, na mídia, etc., combateria a idéia furiosamente, mas sob uma clara e bem orientada liderança do PSDB o povo poderia começar a compreender, finalmente, que a existência da Petrossauro vai contra os seus interesses reais. Poderia, além disso, e subsequentemente, rever e pontuar os vários gastos obscenos do orçamento do governo federal. Mas é claro que isso implicaria em adotar idéias contrárias ao espectro ideológico de esquerda, socialista. E os peessedebistas não querem romper com essa geléia ideológica. A oposição teria que enfrentar claramente os grupos de interesse que estão levando o país à falência, e se tem uma coisa que já sabemos sobre o PSDB, é que ele tem uma grande dificuldade para o enfrentamento político. O PT sempre teve coragem para isso, até mesmo uma grande cara-de-pau, e aí está o resultado: mandam no país e ninguém sabe ainda como eles vão sair de lá. O PSDB, de moderação elegantíssima, civilizadíssima, está chupando o dedo enquanto o país vai ao desastre.

Se a falta de posicionamento firme do PSDB ainda lhes desse alguma vantagem estratégica para a vitória política, tudo bem. Mas o que ocorre é o contrário! A ideologia petista ainda determina a pauta nacional, e o PSDB só reage. Se o lulopetismo, como FHC e o próprio Serra chamam a mentalidade governante, se aproveita da hegemonia cultural esquerdista desenvolvida durante décadas, por outro lado a moderação tucana não consegue nem começar a arranhar esse pensamento, pois estes mesmos ditos oposicionistas foram ideologicamente capturados na “estratégia das tesouras”, dividindo a cena com o PT dentro do mesmo cobertor ideológico. Acho, por exemplo, curiosa a reação de Serra, e dos socialistas em geral, diante da idéia do PT de se passar a cobrar por consultas no SUS. Claro que isto é um absurdo, um escândalo. Mas a questão é: porque não é igualmente absurda a altíssima carga tributária que sustenta esta porcaria de sistema de saúde que não resolve a vida do povo?

Serra jamais confessará o problema. Pois depende do nihil obstat do esquerdismo universitário e midiático que sustenta essa cultura política no país. Para Serra, aliás, na sua época a saúde avançava de vento em popa, era uma maravilha… e o PT só estragou tudo, não por ser socialista, mas por não sê-lo o suficiente! Eis que o PSDB de Serra, embora não faça parte do Foro se São Paulo, é voluntaria ou involuntariamente um colaborador lateral do movimento revolucionário, por ser um partido socialista de origem.

José Serra não só carrega em si todo o peso do que podia ter sido e não foi, como carrega ainda o peso do que ainda poderia ser e não é.

Minha dó nesses casos é padrão: é igual a zero.

As soluções políticas para esse quadro são complexas e de longo prazo, mas certamente existem. Só que dependem de gente interessada na realidade do país, e não na sua própria identidade ideológica.

O fato é que a democracia brasileira é bem mais fraca do que se supõe, por estar entregue à hegemonia socialista que já dominou o espírito político desde a Constituição de 88.

O PSDB não vai cumprir o papel histórico que lhe caberia neste momento que o país vive, porque mais importante que o Brasil é, para eles, a sua própria mentalidade.

A vaidade intelectual dos tucanos é a sua própria ruína.

A desgraça é que, junto, arruína-se o país.

Diz Ésquilo:

“Pilhas de mortos, até a terceira geração,

sem voz falarão aos olhos dos mortais

que mortal não deve ter soberbo pensar.

A soberbia, ao florescer, produz a espiga

de erronia, cuja safra toda será de lágrimas.”

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