Sobre a Igreja da Consagração da Rússia

Esqueminha

 

Tempos atrás eu publiquei um texto afirmando que apenas a Igreja que fosse capaz de condenar claramente a idéia política de justiça social seria capaz também, ipso facto, de realizar o ritual da Consagração da Rússia.

Eu gostaria agora de explicar mais detalhadamente como funcionaria o papel desta Igreja na prática, para fazer esta transição do papel abjeto de reserva moral do socialismo para o papel que lhe é próprio, de mater et magistra.

Não vou rever de parte a parte toda a teoria econômica que dá suporte à idéia de mudança da mentalidade da doutrina social da Igreja, até porque esse é um trabalho pesado que não tenho condições de fazer agora da maneira mais apropriada. Mas, creiam-me, existe um pensamento econômico de base para justificar as minhas especulações. Sua natureza intelectual não é nenhum mistério: é o liberalismo. Mas é um liberalismo que avança para a solução das desigualdades sociais, esse carvão que queima os fornos revolucionários.

Na verdade, a mais adequada e consciente interpretação da história econômica moderna nos revelaria exatamente o seguinte: as vítimas do começo do processo de industrialização que forneceram o gás revolucionário moderno foram salvas não pelas conquistas da luta socialista, mas, a despeito delas, pela própria evolução do capitalismo. O engenho mental revolucionário conseguiu capturar o sentimento universal de injustiça (que sempre houve, e que sempre haverá) e imprimi-lo ao processo de desenvolvimento econômico que foi, ironicamente, o maior beneficiador do modo de vida material das massas.

Esta feitiçaria revolucionária dominou muitos intelectos não só dentro da Igreja, mas muitos também fora dela. E eis que parece surgir, do nada, o consenso universal: a idéia de justiça social deve ser verdadeira, pois tanto os sacros quanto os profanos concordam entre si em torno da causa. Que todos esses estejam sendo usados desde longe por um esquema mental realmente malicioso, isso não ocorre à maioria, pois parece escandaloso e conspiratório demais. As pessoas temem o que desconhecem, e seu dispositivo básico de sobrevivência é negar que exista o que lhes ameaça a sanidade. Eis o truque diabólico clássico: sumir do debate, fingir que não existe.

E nem o tradicionalismo mais puro da Igreja a salva deste mico histórico, pois que como forma de combater a mentalidade revolucionária os tradicionalistas negam o processo histórico real, e se tornam socialmente inócuos. Onde chega a mensagem tradicionalista? Aos já convertidos, aos já adeptos.

Ocorre que o aumento da produtividade pelo advento das tecnologias modernas não é um causador de desigualdades, ao contrário, é um seu pesado atenuante.

Eis a armadilha: astutamente o movimento revolucionário divide a Igreja entre os adeptos da justiça social, e os tradicionalistas anti-modernistas. Junto com todos os erros reais do modernismo são condenados, pelos tradicionalistas, também os acertos dos avanços tecnológicos que permitem a melhora do meio de vida das massas. Os tradicionalistas impedem, assim, o avanço da única ferramenta eficaz para o enfrentamento da idéia revolucionária de justiça social: a prosperidade.

Não sou nem um pouco reformista no meu pensamento. Ao contrário! A Igreja deve ensinar a Caridade para os povos, e não a justiça social. Acredito que nisto sou impecavelmente fiel à sabedoria da Igreja. Só que a caridade supõe a riqueza que possa ser voluntariamente repartida. Não se faz caridade alguma com pobreza, miséria e desolação social. Não cabe à Igreja, ouso dizer, condenar a prosperidade moderna: esta prosperidade deve ser incentivada tanto quanto possível, e deve ser alinhada com a virtude superior da caridade, da qual a idéia política de justiça social é uma perversão demoníaca.

Se a Igreja tradicional –que é a Igreja real, esta mãe e mestra– não aceita de sua parte apoiar inequivoca e corajosamente a prosperidade dos povos, ela se torna refém do sistema ideológico socialista, para não dizer palavras piores.

Por outro lado, se também os liberais deseducados, deserdados por decisão própria da herança tradicional da Igreja, não aceitam a idéia de Caridade como substituta legítima da idéia de justiça social, jamais poderão estes enfrentar o combate ideológico com os socialistas.

Eis então a macumba suprema da modernidade: os socialistas, que por si não produzem nem riqueza nem sabedoria, travam a colaboração mútua dos geradores de riqueza e dos portadores da sabedoria, respectivamente os liberais e a Igreja, impedindo o advento da divulgação da Caridade como o único caminho virtuoso para a sociedade moderna.

Em geral, os liberais detestam a tradição, e os tradicionalistas detestam o liberalismo.

E assim os aliados mais necessários um ao outro se tornam adversários, por incompetência intelectual de ambos para detectar a superioridade estratégica da mentalidade revolucionária que domina a ambos. O socialismo faz, por um lado, os tradicionalistas identificarem o mal com tudo o que é moderno, e faz ainda, por outro lado, os liberais condenarem o anti-modernismo da Igreja como atrasado e datado.

Caso este meu pensamento ainda pareça muito exótico e aventureiro, convido-lhes a meditar sobre o problema real que o socialismo causa, e sobre como a solução para este problema teria de advir, necessariamente, da colaboração entre o liberalismo e a Igreja.

Vejamos.

Primeiro, entendamos o funcionamento do vírus socialista na economia.

Qualquer aumento na distribuição de renda requer que haja antes, lógica e necessariamente, o aumento da riqueza gerada.

O aumento da riqueza gerada depende do aumento da produtividade da economia.

A produtividade da economia depende de pesados investimentos no sistema produtivo, na infra-estrutura e nas inovações tecnológicas.

Os investimentos em produção dependem de uma alta taxa de poupança.

A alta taxa de poupança depende da lucratividade do sistema econômico.

Aí entra o vírus socialista, pelo lado político.

A justiça social requer que o Estado tribute cada vez mais a lucratividade do sistema econômico.

Daí, por um lado, o Estado socialista torra a riqueza sequestrada em ineficiência, corrupção e sonhos totalitários.

E, por outro lado, com a diminuição da lucratividade do sistema econômico reduz-se a taxa de poupança.

Que reduz o investimento.

Que reduz a produtividade.

Que reduz o aumento da riqueza.

Que reduz, finalmente, a capacidade real de distribuição de renda.

O socialismo, sob a promessa distribuir renda ao povo, destrói paulatinamente os únicos meios reais de gerar riqueza a ser distribuída.

E assim o povo empobrece, e vai se tornando miserável.

Como a miséria é a realidade que alimenta o discurso ideológico socialista, os revolucionários criam, assim, as próprias vítimas que prometem defender da exploração capitalista. E por isso mesmo o socialismo é como um vírus dentro da sociedade: quanto mais enfraquece o seu hospedeiro, mais se fortalece.

Este, repito, NÃO É um pensamento econômico avançado ou pioneiro. É a interpretação mais simples e até banal da realidade econômica desde a perspectiva liberal.

O problema é que os próprios liberais se confundem na solução do problema. Acham que a missão moderna é a qualificação das massas que permita o aumento da produtividade em larga escala pelo lado da participação da mão-de-obra, o que faria aumentar a riqueza a ser distribuída e resolveria, quase que acidentalmente, o problema socialista.

Isto não funciona na prática simplesmente porque a inovação tecnológica, ao contrário de requerer mais mão-de-obra qualificada, está requerendo cada vez menos. Não é possível gerar mais empregos produtivamente úteis para as massas em larga escala, porque a inovação tecnológica caminha na direção contrária.

Os liberais se vêem, assim, presos dentro da idéia marxista do paradoxo do capitalismo: o aumento ilimitado da produção não é acompanhado pelo aumento da demanda, gerando o colapso do sistema.

E aí está todo o busílis.

É preciso passar a distribuir a renda gerada pelo aumento da produtividade para as massas sem ter como contrapartida o meio economicamente clássico, que é o fornecimento do insumo mão-de-obra.

Isto não só é possível como é NECESSÁRIO, pois o aumento da produtividade pela via tecnológica gera, de fato, uma riqueza abundante que prescinde e independe cada vez mais da mão-de-obra dos trabalhadores que, não obstante, precisam sustentar a demanda com o seu consumo.

Para que a produtividade possa crescer ilimitadamente é preciso, portanto, aumentar a renda que sustente a demanda, sem o condicionamento da geração de renda com o fornecimento da mão-de-obra, que é cada vez menos necessária.

No fundo, no fundo, todos os economistas que estudam a evolução histórica da produtividade se deparam com esse problema. Só que eles não têm a ferramenta que resolva.

A meritocracia falha como solução, pois, como vemos, a questão é criar sim o famoso “almoço grátis”. Pela linha da meritocracia, o único caminho viável seria um brutal despovoamento do mundo que permitisse o realinhamento de oferta e demanda. O único jeito do capitalismo não colapsar é diminuir a quantidade de bocas improdutivas para ser alimentadas. Só que isso é uma burrice descomunal, brutal: os liberais simplesmente não têm a ferramenta necessária para sustentar o aumento da oferta e da demanda.

E quem tem esta ferramenta?

A Igreja.

O nome da ferramenta é: CARIDADE.

A Igreja tem o que os liberais precisam para escapar do paradoxo do capitalismo, e também da idéia genocida do despovoamento da Terra.

Não falo de nenhum milagre misterioso. Falo da simples substituição da doutrina da justiça social pela boa e velha virtude da caridade.

Como se faz isso? Os ricos vão simplesmente sair por aí distribuindo riqueza, como um Ebenezer Scrooge em dia de Natal?

Claro que não farão isso: eles estão já muito ocupados se defendendo do socialismo e tramando o controle populacional.

Primeiramente, é necessário a Igreja condenar de forma completa a justiça social e voltar a pregar a caridade. É preciso expulsar os socialistas da Igreja. E é preciso, em seguida, que os povos ouçam claramente essa mensagem, ricos e pobres, governantes e governados, todos.

Em segundo lugar, é preciso que umas boas mentes liberais e tradicionalistas aliem-se para gerar as soluções que concretizem essa mudança ideológica da Igreja. Se o socialismo, que como já vimos é maligno, é tão criativo para gerar as suas engenharias, não seriam os não-socialistas capazes de pensar em algo?

Eu, sozinho na minha pequenez e insignificância, pensei em algo.

Vejamos.

A caridade deve ser voluntária. Isso é o que a diferencia da justiça social. Mas ela pode, não obstante, ser reconhecida na sua legitimidade. É perfeitamente possível reconhecer a caridade e a generosidade sem corromper quem é generoso e caridoso. Afinal, a venalidade está no coração do vaidoso, e não no coração de quem atesta uma realidade pura e simples.

Podemos então migrar a idéia de responsabilidade social, desde um conceito de obrigatoriedade legal imposta pelo Estado, para um conceito de ação voluntária socialmente reconhecida.

Eis aí uma idéia: um selo ou uma certificação que indique claramente aos consumidores quais são os negócios socialmente mais responsáveis, ou seja, os que distribuem a maior parte da riqueza gerada pela sua atividade para a maior parte da sociedade através de renda não ligada ao investimento (renda dos acionistas), e não ligada ao emprego (renda dos trabalhadores).

Não só grande parte da maciça riqueza hoje já desperdiçada pelo Estado em ineficiência, corrupção e tirania seria direcionada para essa distribuição voluntária e certificada de renda, mas muito mais o seria a riqueza gerada com o uso de outra parte destes recursos para o aumento contínuo da produtividade gerado pelo direcionamento da lucratividade econômica não ao Estado, mas ao investimento em produção e inovações tecnológicas.

O papel da certificação nisto é claro: apontar aos consumidores um outro eixo da sua escolha. Além de qualidade e preço, eis a responsabilidade social como fator de escolha. A demanda será informada e orientada por uma variável social importantíssima. Qualquer empresa pode, é claro, prescindir do seu papel social e investir pesado na melhor qualidade, ou no melhor preço, ou em ambos. Só que os consumidores sentirão por si, no seu bolso, o efeito da escolha contínua por um consumo mais ou menos socialmente consciente. Os ciclos econômicos de expansão ou de retração poderiam ser assim em parte absorvidos ou introjetados dentro deste novo papel dos consumidores, que poderão coletivamente determinar, pela soma de todas as suas decisões individuais, o ajuste de demanda e oferta, como só o bom sistema de mercado pode fazer.

Mas que tour!

Não sou besta de fantasiar utopias econômicas, depois do amargo caldo socialista que todos tomamos nos últimos tempos, e que continuamos tomando.

Mas acredito mesmo que sem esse avanço –ou o avanço de algo que o valha–, não será possível destravar os inúmeros benefícios possíveis pelo aumento da produtividade advindo da inovação tecnológica, benefícios esses que serão os responsáveis pela provável destruição final, definitiva e irrevogável do socialismo.

O socialismo trava a produtividade, que por sua vez trava o aumento da riqueza a ser distribuída. As desigualdades do capitalismo só tendem a aumentar, como já apontei e todo mundo bem informado está careca de saber. E a fúria socialista só tende a crescer também, proporcionalmente.

Se a Igreja não condenar a justiça social e não voltar a ensinar a caridade, os liberais jamais conseguirão resolver o paradoxo capitalista.

E é bem possível que em algum ponto os globalistas e os revolucionários acabem colaborando entre si para exterminar populações inteiras, um projeto demoníaco que atende aos interesses de ambos.

A Igreja precisa condenar a justiça social e ensinar a caridade.

Esse é o papel da Igreja da Consagração da Rússia, a Igreja Católica.

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