Henry Ford disse quase tudo

Henry Ford

 

Make the best quality of goods possible at the lowest cost possible, paying the highest wages possible.”

Faz uns dois ou três anos que venho meditando sobre esta frase de Henry Ford.

A sua tradução para a nossa língua de Camões seria mais ou menos esta: “Faça produtos com a melhor qualidade possível sob o menor custo possível, pagando os maiores salários que puder.”

Não sou, porém, estudioso do fordismo em teoria da administração, e nem sou entusiasta de toda e qualquer idéia de Ford sobre qualquer assunto.

Alguém pode sempre lembrar que o industrial americano foi condecorado pelos nazistas em 1938, como simpatizante do regime alemão. Ford foi autor de textos antissemitas no jornal The Dearborn Independent, que foram depois reunidos na obra The International Jew. O livro acusa uma conspiração judaica internacional (ao sabor dos Protocolos dos Sábios de Sião, que são aliás citados e comentados no texto) contra os povos livres e trabalhadores de todo o mundo. Diante de tal currículo intelectual, qualquer um poderá dizer que as idéias de Ford não valem nada. Como não vou deixar de enfrentar esse problema, faço então duas ressalvas.

A primeira ressalva é que o texto de O Judeu Internacional, desde que não seja lido com o fígado, parece ser no seu racismo um pensamento paranóico como aquele que levou muitos intelectuais alemães (e não só) a apoiar o nazismo no período entre-guerras. Ou seja, é um pensamento preconceituoso oriundo de uma massa de propaganda subjacente que criou a fantasia de conexões históricas entre coisas realmente desconexas. Mas não é possível, analisando friamente, afirmar que o teor conspiratório não possui nenhuma repercussão na realidade política, se considerarmos a atuação maciça, presente, dos interesses globalistas no jogo da geopolítica. Seria o caso de se fazer a simples distinção da eventual origem judaica dos líderes e pensadores globalistas como um acidente, e focar a denúncia da conspiração real que é a do projeto de dominação dos povos por vários meios não-democráticos dentro da Nova Ordem Mundial. Se pensarmos bem, se abstrairmos esse condenável e imperdoável antissemitismo de Ford, e substituirmos o termo “judeu” por “globalista”, teremos uma denúncia espantosamente viável contra o globalismo, parcialmente válida até os dias de hoje. Declaro, porém, que essa ressalva NÃO constitui de forma alguma a reabilitação de The International Jew. O máximo que podemos pensar, como atenuante, é que Ford fez uma grande confusão ao tratar preconceituosamente de coisas sobre as quais não tinha condições intelectuais de julgar, e com isso errou e escreveu um texto danoso, tóxico, que criou mais confusão do que esclarecimento.

A segunda ressalva é que todos os erros e preconceitos de Ford em assuntos políticos ou culturais não mudam a validade da sua experiência e das suas idéias no campo da administração e da economia. Isto é básico, mas é necessário lembrar de qualquer maneira, em tempos que o ad hominem prospera avassaladoramente como método argumentativo. A verdade é a verdade, dita até pela boca do diabo. Se o próprio Hitler anunciasse, com toda a convicção, que 2 + 2 = 4, não teríamos nada mais a fazer do que dizer, com relação a isso, que é a verdade e, portanto, que Hitler, apesar de ser Hitler, disse a verdade. Ford, que não é nenhum tirano assassino de massas, mas provavelmente apenas um especulador desavisado e mal fundamentado nas suas teorias antissemitas, pode dizer as suas verdades sobre o que quer que seja verdadeiro, principalmente no campo de sua experiência profissional.

Eu poderia muito bem ignorar a questão das idéias descabidas de Ford, e centrar apenas no que me interessava desde o início. Afinal, corro o risco de perder, a partir de agora, toda a credibilidade sobre o assunto a ser comentado, já que comento a fala de um notório antissemita, e a maioria das pessoas tem um grave histórico de não conseguir separar bem as coisas. Mas fazer isto –esconder os fatos–, se não fosse mesmo desonestidade intelectual, seria pelo menos uma omissão intelectual de minha parte, que poderia ser a posteriori interpretada como conivência ou até como alinhamento com esse lamentável antissemitismo de Ford. Como definitivamente este não é o caso, não há o que se temer em querer deixar as coisas muito claras e bem estabelecidas. Já se o leitor quiser, de sua parte, a partir de agora, questionar a validade moral das idéias de Ford sobre economia e administração, já que este foi o autor daquelas idéias lamentáveis sobre outros assuntos, esta é uma decisão do leitor. Não posso fazer nada além de ser honesto e dizer tudo o que penso a respeito, como já disse.

Pois bem.

O notável na posição de Ford sobre a regra de se produzir os melhores produtos com o menor custo e pagando os mais alto salários, é que ele claramente distingue e separa a idéia de “custos” da idéia de “salários”.

Um salário pago não é um custo como qualquer outro. E tanto não é, na lógica de Ford, que na busca pela eficiência um industrial deve forçar ao máximo a diminuição de todos os custos de produção, mas, ao contrário, deve também buscar pagar os mais altos salários.

Isto parece uma contradição. A premissa econômica básica diz que os salários são custos de produção como outros quaisquer.

Se o são, como podemos reduzir todos os custos e, ao contrário, aumentar os salários?

Qual é a lógica de se fazer isso?

Existem ao menos duas explicações, uma administrativa e outra econômica.

A razão administrativa de se separar os salários dos outros insumos industriais na gestão dos custos de produção é a de permitir a criação e a retenção dos melhores talentos na mão de obra disponível, e incentivar, portanto, a competição entre os assalariados, de forma que estes busquem se qualificar e se aprimorar para conquistar os melhores cargos e salários. Se o salário é equiparado aos demais custos de produção e é, portanto, vítima da mesma pressão administrativa por cortes e diminuições, o que ocorre é o inverso do pretendido: desestimula-se, assim, os trabalhadores a buscarem produzir o melhor, a se qualificarem e a se interessarem pelo seu ofício, de vez que a gestão tende a não reconhecer os méritos dos empregados e, ao contrário, a puni-los com downgrades, cortes de benefícios, demissões, etc.

A razão econômica é a de fortalecer o consumo. A prática de pagamento de salários mais altos tende a forçar a concorrência a entrar na competição pela mão de obra disponível e, portanto, a também aumentar a sua remuneração. O efeito sistêmico desta prática quando massificada é o de fazer crescer a renda e, portanto, a demanda na economia, aquecendo por sua vez o mercado, o que estimula a produção e faz crescer os lucros das empresas.

Embora esta forma de pensar seja extremamente simples e de uma auto-evidência insofismável, é incrível como a administração moderna voltou as costas para essa possibilidade e tratou de gerenciar os salários como quaisquer outros custos, na luta renhida pela busca de produtividade e de lucratividade.

Poderíamos ficar meses e anos discutindo porque isso é assim.

Seria preciso fazer um estudo histórico profundo e rever uma série de pensamentos econômicos, desde os alinhados com o marxismo até os do lado mais liberal do espectro ideológico.

Mas como eu não tenho os meios e nem mesmo (confesso) a disposição para fazer tudo isso, posso à guisa de uma explicação dizer que uma condição indispensável para a funcionalidade da idéia de Ford é a sua aplicação sistêmica.

É preciso que todos os agentes econômicos –ou se não todos, ao menos a maioria economicamente relevante– decidam agir sob esta racionalidade. Se isto não ocorrer, é difícil que um agente sozinho consiga competir bem no mercado aplicando apenas a si essa metodologia, pois o que seria uma grande vantagem econômica quando realizada em massa se torna, neste caso, um fardo que diminui a competitividade do agente isolado que adota este pensamento individualmente.

O que nos traz aos dias de hoje.

É evidente que a “realidade” (inventada!) da luta de classes virou de cabeça para baixo toda a perspectiva de colaboração entre os empresários e os trabalhadores.

O socialismo apareceu no meio do caminho, através de militância, sindicatos, partidos políticos, etc., como o intermediador e representante dos interesses da classe trabalhadora. Ora, com o advento de um atravessador armado até os dentes como esse, como é possível sequer cogitar seriamente a perspectiva de Ford (que é de colaboração entre as classes) para os nossos tempos?

De um lado, o socialismo impede que os trabalhadores busquem soluções harmônicas e moderadas com os seus empregadores. Há, por toda parte, um incentivo para a hostilização e o antagonismo, não só desde o discurso ideológico e partidário mais aberto (“quem bate cartão não vota em patrão!”), até as várias pressões sutis disseminadas pela cultura, em filmes, novelas, músicas, em universidades e escolas, no jornalismo, etc.

Do outro lado, o socialismo faz recuar os empresários, que assumem uma postura defensiva contra qualquer organização de empregados, e acabam então, evidentemente, classificando os salários como qualquer outro insumo produtivo, na coluna de custos do seu orçamento.

Esse problema, longe de uma solução, parece ser cada vez mais agravado.

Desde Ford, que na sua época já vivia uma revolução na indústria, nós vivemos um século inteiro de uma avassaladora evolução na inovação tecnológica, até que chegamos ao ponto em que hoje de fato cada vez mais bens podem ser produzidos com cada vez menos mão de obra. Pior: a tendência é que essa desproporção aumente ilimitadamente com o tempo, através dos avanços tecnológicos em sistemas de informação, robótica, nanotecnologia, etc.

É necessário, portanto, não só a retomada do pensamento de Ford sobre salários e custos de produção, mas um aprimoramento deste pensamento, de forma que possamos avançar neste desafio histórico que se apresenta cada vez mais premente.

Se isto não for feito, a pressão social alcançará níveis insuportáveis, porque junto e consequentemente com a desproporção entre o aumento da produtividade e a diminuição da mão de obra necessária, virá uma brutal desigualdade social que levará massas inteiras de pessoas economicamente inúteis a serem movidas, pelo socialismo, contra o status quo dos “exploradores” capitalistas. A ruína do sistema econômico, no entanto, já está dada independentemente da atuação dos socialistas, pois a queda brutal da renda média da maioria da população significará inevitavelmente a diminuição da demanda, fazendo ir pelos ares toda a riqueza potencial a ser gerada pelos ganhos de produtividade provindos dos incrementos tecnológicos. O marxismo passará, de repente, desde o papel de uma base ideológica pobre e maliciosa, para o papel de profeta de uma assertividade insuspeita, por ter declarado a inevitabilidade do colapso do capitalismo.

Mas então é isso? O marxismo e, com ele, o socialismo, é um pensamento verdadeiro, que diagnosticou uma realidade histórica inevitável e infalível como uma lei matemática?

Longe disso.

O marxismo é no máximo profeta de si próprio.

O socialismo antecipa o colapso do capitalismo tanto quanto um assassino antecipa a morte de sua vítima: o marxismo criou as condições e o direcionamento necessários para essa tendência histórica. A luta de classes, que nunca foi a realidade central e substancial da sociedade humana, passou a ser pela simples adesão dos iluminados que acreditaram que já o era. O marxismo é uma mentira que, se acreditada, se torna o novo centro de consciência e de motivação social, e tomando para si a iniciativa dos movimentos da história, cria o cenário que anunciou como profecia supostamente ilustrada cientificamente.

Se voltarmos para Ford e para a sua distinção básica entre custos e salários nós veremos que sempre foi possível, mesmo após o advento do marxismo, pensar na realidade econômica como tal de forma realista e assertiva, e tirar com isso conclusões contrárias à concepção da luta de classes.

E podemos, hoje mesmo, conceber perfeitamente uma saída para o “paradoxo do capitalismo”, revendo a idéia de Ford e fazendo a devida adaptação.

E a única adaptação necessária é, como já venho dizendo em vários outros textos, não só manter a diferença entre salários e custos, como aumentar mais ainda a desvinculação dos salários com a produtividade (o que Ford não fez)–como já está sendo anunciado pelo ritmo das inovações tecnológicas–, e começar a vincular os ganhos de produtividade extraordinários com uma renda não atrelada ao fornecimento de mão de obra.

O aumento desta “renda livre” é necessário para a sustentação da demanda, e só é possível ocorrer se existir a disposição voluntária dos empresários e acionistas em distribuí-la, usando-se quaisquer recursos sistêmicos para tal fim, entre os quais talvez um que eu sugeri, que seria a certificação dessa distributividade que sirva como recurso concorrencial aos consumidores, que teriam então o poder de arbitragem sobre esta nova variável econômica (o que requereria a mínima intervenção estatal, apenas sob a forma de um marco regulatório).

Este não é um construto revolucionário, tanto quanto não o era o conceito de Ford sobre a administração empresarial.

É apenas uma idéia que pode ser ou não realizada, conforme a decisão dos agentes econômicos e políticos ao longo do processo histórico. Se cabe algum papel aos agentes intelectuais, é apenas o de conceber essas idéias e alternativas e sugeri-las, como modestamente estou tentando fazer ao longo destes textos todos que versam sobre este assunto.

Se Ford quis dar uma alavanca que acabou sendo jogada de lado para apodrecer, estou agora usando o que sobrou disto para construir outra ferramenta conceitual modificada, que talvez possa ser de alguma utilidade.

Se é verdade que o magnata americano falou barbaridades sobre a conspiração judaica contra o mundo livre, sobre economia, ao menos, o fato é que Henry Ford disse quase tudo.

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