O castelo trágico de Franz Rosenzweig

Franz Rosenzweig

 

Falo de uma impressão de segunda mão.

Não li A Estrela da Redenção, do filósofo Franz Rosenzweig.

Pior do que isso –e o assumo desde já–, não pretendo de fato ler a sua obra tão cedo, submerso e engajado que estou em outro plano de estudos. Só posso dar uma impressão que tive a partir do texto de Maria Cristina Mariante Guarnieri, “Franz Rosenzweig: o judaísmo como método”, publicado no número 2 da Dicta.

Poderia me abster de falar do que não conheço bem, e normalmente faria exatamente isso, se não fosse a minha sensação de ter que me manifestar mesmo a partir do pouco que já vi, para não deixar perder-se uma impressão que já me ocorreu, mesmo sabendo o pouco que sei, e que talvez tenha algum valor.

Comecemos pelo texto de Guarnieri, apresentando o pensamento de Rosenzweig:

O ‘novo pensamento’ se caracteriza por atender à vida, aos acontecimentos, ao instante, a tudo o que não está fora do tempo, descrevendo o sistema de correlações que o ‘senso comum’ experimenta na concretude da existência.  Ele supõe uma mudança de método – da lógica filosófica à lógica do sentido comum -, abandonando o método do ‘pensar somente’ e substituindo-o pelo método do ‘falar’. O falar está ligado ao tempo e requer que o outro – concretamente – escute e se manifeste sem que se saiba o seu pensamento; na realidade, sem que se saiba como ocorrerá o encontro, e é nesta tensão que o filósofo entende que o pensamento deve fluir, sem que se saiba aonde irá parar.

A diferença entre o ‘velho’ e o ‘novo pensar’ é o que o próprio Rosenzweig distingue como ‘lógico’ e ‘gramatical’. No caso do gramatical, o indivíduo deve levar o tempo a sério, pois como ele próprio explica, falar significa falar a alguém e pensar a alguém; e este alguém é sempre bem definido e tem, não só ouvidos, mas também uma boca. A ênfase está no diálogo, mas um diálogo que leve em consideração o outro em sua vida concreta, isto é, o ‘pensador falante’ que necessita do tempo. O que significa que, para se realizar, um pensamento não pode antecipar-se, devendo esperar por tudo o que depende do outro e não de si. Para o autor, é na conversação real que algo acontece.

Partindo da experiência da religião judaica, que é bastante demarcada pela atitude do diálogo, e pelo respeito pela vivência temporal que articula os diferentes atores em torno do desenrolar da história, Rosenzweig prudentemente se afasta dos apriorismos racionalistas da filosofia moderna, e recupera a perspectiva do valor do testemunho individual do filósofo, que se relaciona com o testemunho de outros agentes intelectuais tão vivos e potencialmente tão despertos quanto ele.

Isto está muito bom, mas só pode ter o caráter de grande descoberta intelectual se Rosenzweig ignorar antes o progresso da cultura civilizada a partir da sua base fundamental, que não é “lógica”, mas justamente “gramatical”: a literatura!

Desde uma formação intelectual mais completa, nós compreendemos que os produtores da literatura são os agentes nesse nível mais fundamental da linguagem humana, e que toda a discussão posterior –tanto no ambiente político quanto na ciência especulativa– depende da máxima absorção deste caldo cultural subjacente. Se, por um lado, Rosenzweig acerta ao reconhecer que o nutriente essencial da vida intelectual reside nesse “novo pensar gramatical”, ao redor do qual coerentemente vincula a própria experiência judaica, ele perde, por outro lado, a conexão com a tradição intelectual ocidental que sempre percorreu este percurso desde a literatura até a ciência. Quando digo “literatura”, refiro-me também à contribuição da religião no desenvolvimento do intelecto, afinal, literatura sacra ainda é literatura, e constitui perfeitamente essa substância “gramatical” que alimenta o espírito especulativo.

Por que, se Rosenzweig traçou uma solução correta contra a perda desta substância fundamental, ele não faz a conexão com toda a tradição ocidental que cumpriu com essa exigência intelectual básica?

Vejamos mais do texto de Guarnieri:

Rosenzweig entende a ‘metafísica’ como uma forma exagerada da doença a que todos estamos sujeitos. O senso comum, ao qual o autor se refere, é o lugar onde a vida flui. Frente ao fluir da vida, o filósofo se paralisa diante da pergunta pelo ser, porém para essa questão não há respostas: a vida é contingência. Para uma pergunta atemporal – o que tal coisa é? – temos uma resposta também atemporal, que se traduz na busca pela essência, presente na filosofia tradicional. Nesse sentido, o autor analisa a história da filosofia e nos mostra que toda vez que tentaram responder a essa questão, isso foi feito por meio de uma redução da complexidade real a um único dos elementos que, então, se torna o fundamento último. Assim, a filosofia antiga reduz Deus e o homem ao mundo, o que resulta em uma perspectiva cosmológica; a Idade Média reduz o homem e o mundo a Deus, perspectiva teológica; e a Idade Moderna tem reduzido Deus e o mundo ao homem, o que nos coloca em uma perspectiva antropológica.

Me parece que contra a doença da filosofia moderna, o nosso filósofo reagiu abruptamente e, como se diz, “jogou a criança fora junto com a água do banho”.

A crítica ao “pensamento lógico” da filosofia moderna é extremamente pertinente e certeira, mas o erro é atribuir esse método à toda a história da filosofia, como se os modernos fossem os sucessores legítimos da tradição filosófica ocidental, o que definitivamente não são: são o contrário, revolucionários que criaram uma ruptura profunda com a tradição que os antecedeu.

A “velha” filosofia que Rosenzweig critica é, na verdade, a nova filosofia, cartesiana, kantiana, etc. Os erros desta não implicam continuidade alguma de supostos erros da filosofia precedente. E se assim o parece, é só porque entre as grandes calamidades da filosofia moderna se encontra a deturpação do pensamento antigo, que resulta num ensino equivocado da tradição para as novas gerações, prática que deve ter capturado a mente de muitos e, provavelmente, até a de um possível gênio como Rosenzweig.

Se o pensamento moderno reduziu tudo à perspectiva antropológica, não é possível dizer, correspondentemente, que os antigos reduziram tudo à perspectiva cosmológica, e que os medievais, por seu turno, reduziram tudo à perspectiva teológica.

Rosenzsweig morreu cedo para um filósofo: foi-se deste mundo com apenas 43 anos de idade. Ele estaria em tempo, com mais vinte ou trinta anos de estudos, de emendar as suas brilhantes especulações com a descoberta de um tesouro vastíssimo provindo da tradição filosófica. Essa descoberta quebraria a estrutura sistemática da concepção do filósofo, mas o faria ganhar um aporte intelectual monstruoso, talvez o suficiente para que ele montasse uma outra concepção mais genial e abrangente ainda.

Me parece que Rosenzweig quis, diante da desolação da filosofia moderna (que o filósofo confundiu com toda a tradição anterior, por culpa provável da precariedade do ensino), construir um seu castelo de resistência. Ele assim o fez, com aparente genialidade, em A Estrela da Redenção, pelo que podemos captar da apresentação cuidadosa do texto de Guarnieri.

Só que este castelo é uma morada isolada.

É uma morada livre dos erros modernos, certamente, mas não livre do modus operandi revolucionário da filosofia moderna: crer-se um pensamento descobridor de verdades novas que implicam na relativização ou até na destruição total do legado anterior. Esse vício, aplicado como método, é bem moderno. É, na verdade, um hábito kantiano. Rosenzweig livrou-se dos erros modernos, mas não do vício moderno de ver-se como pioneiro onde já havia uma larga exploração antecedente, por antecessores que ele ignorava.

Isto mostra –até onde a minha análise for acertada em relação ao magnum opus de Rosenzweig, que já confessei não ter absorvido– o quanto o mau ensino pode ser prejudicial. Mesmo um grande gênio pode se ver impelido, por causa de falhas grosseiras de educação e formação, a errar entre seus vários acertos. Tragicamente Rosenzweig defendeu-se da hediondez do pensamento moderno e bloqueou, no mesmo esforço, toda a tradição filosófica sadia de milênios, que poderia ter-lhe dado os meios de produzir uma contribuição muito mais pujante e perfeitamente alinhada com a história da filosofia.

Me parece que os castelos que podemos construir –e que até devemos, para sobreviver à maré estupidificante– são as nossas próprias biografias e as nossas obras sempre meramente mundanas e limitadas.

Quanto à grande obra da cultura universal, o que podemos fazer, quando muito, é colocar alguns tijolos, ou, ao máximo –tarefa reservada aos monstros da filosofia–, construir uma ala nova na grande morada universal do intelecto humano.

Devemos temer como a peste qualquer insinuação de novidades revolucionárias no pensamento, que pareçam invalidar toda a tradição filosófica que nos antecede.

Podemos, sim, construir castelos de resistência, mas devemos ligá-los aos nossos colaboradores contemporâneos e, principalmente, aos colaboradores que nos antecederam, que são os nossos mestres na tradição filosófica.

Se não fizermos isso, corremos o risco de construir moradas intelectuais isoladas como o castelo trágico de Franz Rosenzweig.

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