A triste e ridícula arte de se tentar ocultar o maior no menor

Presságio

 

Não há, rigorosamente, problema nenhum em se misturar numa narrativa elementos simbólicos referentes a camadas diferentes da realidade, quando as diferenças resultam apenas da ignorância humana, que naturalmente não é capaz de classificar a realidade inteira de uma vez para sempre, pela sua característica finitude.

Assim, toda a dualidade que há entre elementos de tecnologia e de magia, de ciência e de religião e, em última análise, de natural e de sobrenatural, representam oposições somente desde a perspectiva limitada do conhecimento humano. Por si mesmas estas dualidades devem idealmente girar como aspectos em torno de unidades perfeitas e mais simples que sintetizam em si os elementos que observamos separadamente, por limitação da nossa capacidade de concepção e, principalmente, de referência.

Todo discurso é necessariamente inferior e mais limitado nos seus recursos internos do que os objetos referidos, mesmos os objetos mais insignificantes. Daí se pode já presumir, fazendo umas contas rápidas, o quanto não nos deve escapar, nas nossas referências limitadas pela linguagem, de riqueza das realidades mais sutis das nossas vidas e, mais ainda, das grandes realidades que envolvem a natureza da vida política, e enfim das realidades mais supremas da existência.

Conscientes das nossas limitações, nós podemos transitar entre os modos de abordagem simbólica desses níveis com mais tranquilidade, pois já desistimos –sabiamente– de tentar capturar e dominar completamente a realidade com os nossos parcos recursos mentais.

E por isto tudo é que não haveria problema algum a priori na narrativa de um filme como Presságio, quando assistimos a cena em que como anjos os ETs –com direito até às asinhas– descem para buscar as crianças e levá-las ao novo mundo em sua nave espacial.

Esta cena, embora perturbe a nossa ortodoxia religiosa (ainda existe, em nós, essa ortodoxia? Espero que algo dela tenha sobrevivido em algum buraco deste mundo) por sugerir que o mito religioso é uma derivação ou um disfarce de uma verdade diferente, “mais realista” e menos sobrenatural, faz de qualquer modo uma espécie de resgate da tradição, uma referência que rompe com o ceticismo puro e simples. No final das contas o descrente John Koestler, vivido no filme por Nicholas Cage, cai de joelhos diante da cena, como se estivesse maravilhado com um milagre. Uma nave espacial usada por anjos extraterrestres não é exatamente um milagre, mas é sempre bom assistir um niilista perder as suas desastradas convicções ao testemunhar uma verdade que transcende a sua estupidez.

Qualquer um que tenha um sentimento religioso mais ou menos em ordem (eu acredito que tenho) achará o filme muito forçado no seu fim, mas, ressalvado o que merece ressalvas, a coisa toda até que passa.

Só que na prática a teoria é outra.

Eu já tinha assistido esse filme uma vez anos atrás, mas só recentemente, ao revê-lo, é que percebi uma coisa óbvia que muda todo esse julgamento.

No fim do filme John vai se reconciliar com o pai antes do fim do mundo, o que aliás já estava na cara que ia acontecer e todo mundo já sabia.

Eles se abraçam para o ato final, e o pai de John, que é um reverendo, diz: “este não é o fim, filho”.

E John responde: “eu sei”.

Este “eu sei”, que é uma referência inquestionável ao próprio nome do filme (o título original chama-se Knowing), é o inclemente golpe de marreta que derruba toda a credibilidade narrativa que o filme ainda poderia ter, após nós já termos feito todas as concessões compreensivas a este final mirabolante.

O reverendo, pai de John, diz que aquilo não é o fim por causa da sua fé religiosa.

John diz que sabe que aquilo não é o fim, mas não porque tenha uma fé qualquer, como o seu pai, mas porque sabe que a humanidade está salva, porque testemunhou o resgate do seu próprio filho pelos ETs.

Se o pai, por seu lado, diz que aquilo não é o fim porque crê na vida eterna, o filho, por sua vez, diz que aquele não é o fim porque a humanidade sobreviverá em outro planeta qualquer.

O pai refere-se à salvação da alma imortal, individual.

O filho refere-se à sobrevivência material da espécie humana, coletiva.

Ora, a desproporção que existe entre os conceitos de salvação e de sobrevivência é incalculável, porque é de nível de realidade. É maior do que a desproporção que existe entre um verme e uma estrela, porque o verme e a estrela ainda fazem parte de um mesmo nível de realidade, enquanto a sobrevivência e a salvação não fazem.

Toda a vida temporal de mil espécies, de um milhão de espécies, ou de um bilhão de espécies, não valem, ontologicamente falando, a vida eterna de uma única alma imortal, que em si contém possibilidades e potencialidades que transcendem ilimitadamente o conjunto das realidades temporalmente situadas. Isto é metafísica elementar.

Pois bem, daí a brincadeira de se misturar elementos simbólicos na narrativa passou dos limites. Já não é um mero cruzamento de referências que explora a própria ignorância humana, mas é o achatamento da dimensão transcendente dentro da dimensão imanente. É uma farsa.

Assim sendo, este filme –assim como vários outros que brincam para além dos limites com os mesmos conceitos– não vale nada. Podemos gostar dos efeitos especiais, do suspense, etc., mas para além disso não há valor algum em Presságio.

O filme poderia até preservar um valor mínimo sem aquela última cena.

Esta última cena, de um kantismo para ninguém botar defeito, é como que uma lição compreensiva e magnânima que o filho dá a si mesmo e à platéia, como que dizendo: “o que o meu pai acredita irracionalmente e confusamente, tendo fé num além qualquer que não existe, eu e vocês sabemos o que é e como funciona realmente, e então fica tudo certo aqui entre nós”.

Lamentável.

É o desempenho da triste e ridícula arte de se tentar ocultar o maior no menor.

 

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