A medonha confusão do editorial da Veja de 12 de agosto

Facepalm

 

Vejam só vocês como eu avanço a largos passos rumo ao presente.

Já estou na leitura da Veja do dia 12 de agosto. Faltam só quinze dias para alcançar o dia de hoje. Que não será mais o dia de hoje quando for alcançado, mas, enfim, vocês entenderam o que eu quis dizer.

É verdade que eu tive que ignorar uma dúzia de barbaridades no meio do caminho –coisas que não valia a pena citar nem como maus exemplos–, mas também é verdade que passei direto por coisas irretocáveis, como a ótima e impecável entrevista com o Bruno Garschagen nas emboloradas do fim de julho último.

“Quedê?! E as outras revistas, quedê?”, perguntaria um furioso Sergio Mamberti.

Bom, como o meu tempo é escasso, não posso ler tudo quanto se publica, e por isso fico por enquanto com a supostamente “conservadora”, “de direita”, Veja. Bons serão os dias em que eu puder ler e comentar uma Carta Capital. Bons não por causa do material em si (de qualidade altamente duvidosa), mas porque se chegar neste ponto, é porque algum milagre aconteceu e está me sobrando muito tempo livre.

Eventualmente pego em outras revistas além de Veja, ou em jornais, quando aparece alguma coisa notável. Por enquanto é isso o que dá para fazer.

Pois bem. Abro a edição de 12 de agosto de Veja e encontro o seguinte editorial (Carta ao Leitor): “O Uber e a pós-ideologia”.

O texto ia muito bem, obrigado, explicando que os jornalistas decidiram criar um “Índice Uber”, que cruzava os dados de rejeição de uso do aplicativo com as informações sobre a percepção de corrupção, burocracia e intervencionismo estatal em diversos países. Parece que o estudo deu certo, que esse cruzamento bateu bem (com a exceção do caso da Espanha), e existe até uma matéria especial sobre o assunto dentro da revista, que eu ainda não li.

Mas daí vem o porém da história, que é a conclusão da Carta ao Leitor, numa linha de pensamento já suspeitada desde o termo “pós-ideologia” no título.

Vejamos:

Mais interessante é ver o Uber como o primeiro fenômeno pós-ideológico de alcance mundial. Ele não é de esquerda nem de direita. É novo. Quem melhor definiu isso foi o escritor, humorista e roteirista Gregório Duvivier em seu Twitter: ‘pessoal acha q ser de esquerda = ser a favor da estatização de tudo. esquerda = distribuição de poder. nada mais de direita q a máfia do táxi‘. O deputado estadual Edilson Silva, do PSOL de Pernambuco, citou Karl Marx em defesa da novidade e filosofou: ‘O Uber será utilizado por seu valor de troca, ou seja, baseado em critérios de produção de bens e serviços em escala de massa. Quem oferecer melhor preço e qualidade levará o cliente. Socialismo com liberdade é assim’.”

Lendo isto a minha vontade imediata foi de jogar a revista no lixo. Eu paguei para ler um texto claro, e recebo esta obscuridade.

O fato é que, ressalvada a hipótese de ironia pura (que analisarei mais adiante) a revista não apenas citou as figuras de Duvivier ou de Edilson Silva, mas endossou obliquamente o que eles disseram, passando assim o maior atestado de estupidez e inconsciência política que poderia haver sobre a face da Terra. Isso no editorial da revista de maior circulação do país! É preciso, com isso, fazer ainda um grande esforço para pensar a quantas anda a nossa vida intelectual?

Bom, vamos dissecar esse corpo de texto cadavérico, espectral, fantasmagórico.

Primeiro, a Veja diz que é interessante ver o Uber como o primeiro “fenômeno pós-ideológico de alcance mundial”.

Que diabos significa isso?

Queremos uma definição. Exigimos uma definição.

O que significa “fenômeno pós-ideológico”? O que significa?

O QUE SIGNIFICA?

Veja não diz.

Utilizando-se de um apriorismo muito do vagabundo, o editorial fala do assunto como se falasse de algo banal e arqui-conhecido, ignorado apenas pelos menos estudados. É o truque retórico mais velho do mundo (“todo mundo sabe que…”, “quem é que não sabe que…”).

Mais: a revista arroga-se aquela autoridade superior que todo proponente utilitarista e pragmático (uma mentalidade que não é nem um pouco nova, por sinal) tem na sua própria cabeça. Todas as discussões políticas de esquerda e de direita seriam formas ultrapassadas de se fazer política, cabendo aos esclarecidos, aos ilustrados pela ciência moderna, desbravar o mundo consertando tudo quanto possam, arrumando todos os problemas que existem, sem ter que apelar a essas baixezas toscas como as ideologias de esquerda e de direita.

Essa visão das coisas equivale à pré-infância da filosofia política.

Acham que estão arrasando no seu modernismo –e para dar essa impressão tomaram carona numa coisa realmente moderna e avançada, que é o próprio Uber–, enquanto na verdade estão atrasadíssimos na sua consciência política.

A política desideologizada é tecnocrática, essencialmente burocrática, e necessariamente desalmada. É o transbordamento de competências que são naturalmente de segundo ou de terceiro escalão para o primeiro. A efetividade disso como regra política máxima é bastante limitada. Mas é possível fazer, não obstante. Isto significa que é possível governar os assuntos de uma comunidade utilizando-se somente as leis e as instituições “cientificamente” constituídas por técnicos, sem cor partidária alguma. Mas esse governo é incapaz de tomar a primeira posição moral que for necessária, a favor ou contra qualquer coisa, pois não tem no seu corpo político um negócio que se chama liderança.

O bom governo exige uma liderança que tenha para si valores positivos, uma visão de mundo que é endossada democraticamente pela maioria dos eleitores, e que permite o pleno governo dos negócios e dos assuntos da comunidade.

Ter que explicar isso para a equipe editorial da, repito, maior revista do jornalismo brasileiro, é vergonhoso.

A revista cita como “definição” dessa realidade pós-ideológica um texto do humorista Gregório Duvivier.

Primeiro, que Duvivier não fez definição nenhuma.

Isso já aconteceu antes. A revista ainda não sabe o que é uma definição. Arroga-se uma autoridade monumental, e não sabe nem porcamente o que é uma definição. Se soubesse, diria que Duvivier “explicou”, “demonstrou”, “exemplificou”, “indicou”, etc., mas nunca “definiu”. O pessoal de Veja ainda não sabe escrever.

Segundo, que Duvivier usa (valha-me Deus!) conceitos de esquerda e de direita (erradamente, mas usa) que supostamente estariam superados pelo “fenômeno pós-ideológico”, e o uso que fez deles atestaria esta mesma superação!

Então é assim: Veja diz que Duvivier definiu (sic) o “fenômeno pós ideológico” que não é “nem de esquerda nem de direita”, usando, para tanto, conceitos de esquerda e direita.

A possibilidade deste texto ser sério é tão remota, mas tão distante, que somos obrigados a interpretar a colocação como uma ironia. Ok, vamos seguir como ironia, então. Será que funciona?

Se a revista quis fazer uma ironia fina, acabou afinando demais e criando poeira pura, uma medonha confusão sem sentido. Vejamos.

Se o Uber está confundindo os ideólogos de plantão, que não sabem o que fazer com a novidade, isso não demonstra (e muito menos define) o seu caráter de “fenômeno pós-ideológico”. Até porque o uso de exemplos para a demonstração de uma tese não substitui a sua explicação, que Veja não deu em nenhum momento, e deixou por entendido. Estou lendo uma revista de uma seita secreta que fala em códigos legíveis apenas aos seus membros?

O texto demonstra apenas, no mínimo, que esses ideólogos citados não conseguem mais compreender a realidade política e interpretar os fatos (e, de fato, o nível intelectual da nova esquerda brasileira é tenebroso, catastrófico). E demonstra, no máximo, que a própria Veja não consegue enxergar na sua própria análise o alinhamento que há entre posições políticas ideológicas concretas e as realidades de “corrupção”, “burocracia” e “intervencionismo estatal” a que se referiu no seu estudo sobre o “Índice Uber”.

A revista afirma que há uma relação entre os países mais corruptos, burocráticos e intervencionistas, e as reações agressivas contra o Uber.

Ora, se há uma relação, e se essas características nacionais são derivadas das respectivas idéias políticas de cada país (e como poderiam não o ser?), então há uma relação sim entre o Uber e as ideologias, ainda que indiretamente. A questão não é o aplicativo ter ou não ter características ideológicas (o que é quase impossível, por sinal, tratando-se de uma ferramenta comercial), mas a de ser mais ou menos aceito em cada país por causa da força das ideologias que determinam a vida política.

Se a revista tivesse consciência do significado ideológico da conexão entre a liberdade do uso aplicativo e esses problemas todos dos países mais fechados para a inovação, jamais poderia colocar-se como intérprete autorizada do “fenômeno pós-ideológico”, até porque esse tipo de fenômeno NÃO EXISTE.

Eu concordo com a revista que o Uber não é nem de esquerda nem de direita: não poderia ser jamais, um aplicativo não pode ser em si ideológico, seus idiotas! Mas isto não quer dizer, ó raios, que a sua aceitação maior ou menor não tenha nada a ver com o matiz ideológico de cada país que reage à inovação.

Veja cita Duvivier e de Edilson Silva como exemplos de confusão advindos do “fenômeno pós-ideológico”, ou como seus intérpretes autorizados?

Não sou nenhum scholar, mas acho-me bom o suficiente em interpretação de textos, e posso dizer sem dúvida: o texto de Veja não é claro.

Mas nem precisa ser claro para ser ruim, como de fato é.

Já vimos que se Veja quis ironizar, a revista apenas escorregou na sua própria casca de banana, ao ignorar completamente a possibilidade de simples ignorância dos seus citados, ou até mesmo a sua própria.

E se a Veja não quis brincar, então o problema é pior ainda.

Porque os citados se referem explicitamente a uma interpretação do Uber de acordo com a sua visão ideológica. Eles jamais poderiam, portanto, atestar o “fenômeno pós-ideológico”.

Eis o cume da produção da imprensa iluminada pelo cientificismo moderno: uma obscuridade brutal com ares de grande clareza e sofisticação.

Se ainda for preciso, podemos fazer até a análise das risíveis citações de Duvivier e Edilson Silva.

Duvivier é, em primeiro lugar, um artista do humor. Nunca podemos esquecer disso: este tipo de artista é o sucessor dos antigos bobos da corte, os únicos que podiam falar qualquer coisa na frente dos reis sem sofrer nenhuma punição, até porque este era o seu papel social. É a posição politicamente mais irresponsável que existe, nos dois sentidos: por um lado o seu ocupante não possui autoridade alguma, e por outro lado também não pode ser culpado por nada que diz.

Como esquerdista –um papel secundário ao de humorista– Duvivier é tremendamente mal formado, como é comum ocorrer com essa geração de esquerdistas num cenário de pós-hegemonia. Com um domínio quase completo de todos os espaços do establishment, a esquerda acaba produzindo inteligências indolentes, preguiçosas e ignorantes. Duvivier é aquele que foi expulso de uma manifestação feminista, ignorando completamente a dialética revolucionária de dividir para conquistar. O episódio me lembrou o caso do outro humorista, o Fabio Porchat, que foi elogiar o Acre e recebeu reclamações de volta. Ele ficou chocado com isso. Esquerdismo muito mal informado, este. Mal sabe o Porchat que décadas antes, com fantástica ironia, Nelson Rodrigues já se referia ao coitadismo de traço esquerdista ao se referir ao estado do Piauí, que ele também havia citado em bons tons na sua época e recebido de volta como agradecimento umas pesadas críticas.

O conceito que Duvivier tem de esquerda é incrivelmente oportunista e desqualificado.

Se a idéia de esquerda é igual à de distribuição de poder, então podemos dizer que Fidel Castro não é de esquerda, por exemplo. Nem os líderes da China, nem os líderes da Coréia do Norte… serão todos esses então uns mafiosos de direita? É isso que Duvivier quer dizer?

Fica pior ainda: os EUA seriam então desde a sua fundação um dos países mais esquerdistas do planeta, dada a sua preocupação com a distribuição do poder que permeou a sua política desde a sua criação há mais de dois séculos atrás. A mesma coisa poderíamos dizer da Inglaterra: a Carta Magna escrita em 1215 seria de um esquerdismo total e irrevogável.

É isso?

Proponho que Duvivier faça uma discussão na USP, com a Marilena Chauí, defendendo que Fidel Castro seja de direita, e que os EUA e a Inglaterra tenham a natureza de países de esquerda desde a sua fundação. Que tal?

A ignorância de Duvivier é alucinante.

O Edilson Silva não fica muito melhor. Aliás, não fica nada melhor.

Ele defende o Uber dizendo que “quem oferecer melhor preço e qualidade levará o cliente”, e chama isso de “socialismo com liberdade”.

O iluminado descreve o que é mais puro exercício da liberdade, e tem a duríssima cara de pau de dizer que isso é “socialismo com liberdade”. É de uma desonestidade REPUGNANTE.

Perguntem ao Edilson Silva o que é liberdade sem socialismo.

Os miolos dele provavelmente vão fritar.

Eu não tenho mais estômago para ler a Veja.

Se ainda o faço, é por amor a vocês, leitores, que são a razão da minha vida.

Beijos.

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