O PSDB está pronto para fazer a sua parte

Aécio Neves

 

Podia ser pior.

Esta foi a minha conclusão com a leitura da entrevista de Aécio Neves nas emboloradas da Veja de 12 de agosto.

O político, que recebeu maciços 51 milhões de votos em 2014, cumpre hoje um mandato como Senador da República por Minas Gerais, e é além disso o presidente do PSDB, o principal partido da assim chamada “oposição”.

Não é, portanto, qualquer um, cá entre nós.

Apesar deste currículo musculoso, não tem jeito: eu ainda vejo um adolescente em Aécio.

Vejo alguém em busca de uma aprovação qualquer, de uma confirmação emocional para a sua causa, seja ela qual for. Detesto interpretações intimistas desse tipo, os escrutínios eivados de psicologismo, mas confesso que esta ainda é a minha impressão com o político. Posso ter ficado marcado pela sua fisionomia nos debates da última eleição: o olho rútilo, as sobrancelhas arqueadas em ansiedade, não perdiam nada para a expressão de um adolescente pedindo, implorando, as chaves do carro do pai para dar uma volta no quarteirão. Querendo ser presidente do Brasil Aécio falava o que fosse preciso, mas a sua face nos dizia, pidona: “Deixa! Deixa!”

Enfim, chega de memórias. Vejamos o que ele diz na entrevista.

Com o PT, o Brasil perdeu vinte anos de conquistas. A situação do país é muito grave, para qualquer governo. Mas só um governo que tenha capacidade de dizer a verdade à população –de forma que as pessoas reconheçam a razão dos sacrifícios, mas consigam enxergar lá adiante uma possibilidade real de melhoria– tem condições de encerrar essa espiral e dar início a um novo processo. O governo que está aí dá seguidas mostras de não ter condições de fazer isso.”

Que o petismo não tem mais quase nenhuma credibilidade, não chega a ser uma novidade. E que a credibilidade é necessária para governar, também não é nenhum mistério. Agora, eu me pergunto: se o PSDB, como oposição, não diz a verdade para a população, porque o faria enquanto governo?

Prestem atenção (sinto muito, mas para entender um texto, além de ser alfabetizado o leitor precisa também prestar atenção, é assim que funciona, não posso fazer nada quanto a isso): não estou dizendo que o PSDB seja igual ao PT. Não é igual. A questão não é essa.

Aécio diz claramente que “só um governo que tenha capacidade de dizer a verdade à população tem condições de encerrar essa espiral e dar início a um novo processo”. Ok.

Que verdade é essa? É toda e qualquer verdade sobre a crise, ou é apenas a que seja conveniente num determinado momento?

Porque se for o caso de se dizer para a população toda e qualquer verdade sobre a situação do Brasil hoje, o PSDB poderia ter dito, por exemplo, que o PT é um partido vinculado à estratégia continental do Foro de São Paulo (o que a legislação brasileira proíbe) e que usou seu poder no governo de acordo com esse alinhamento. E poderia ter dito também que o roubo na Petrossauro só foi possível porque essa estrovenga não foi privatizada.

Não são verdades?

Por que, então, se como oposição o PSDB não diz a verdade, ele diria a verdade como governo?

Minhas perguntas não são ingênuas, são francas.

Confundir franqueza com ingenuidade é um vício do pensamento malicioso. Fica a dica.

É óbvio que não espero nenhuma resposta a estas perguntas. O meu único intuito é o de mostrar o quanto esse rasgo de bom-mocismo só engana trouxa.

O PSDB é esse grupo de pessoas bem asseadas, limpinhas mesmo, que querem vender a sua idéia política dizendo que o povo brasileiro não é burro, mas contando, bem lá no fundo, que ele seja. No meio da desconversa, enquanto rodam a bolsinha demagógica, não cumprem o seu dever.

O dever do PSDB, se fosse uma oposição realmente interessada no país, seria, sim!, denunciar o Foro de São Paulo; seria, sim!, lutar pela privatização da Petrobras.

São estas coisas, entre outras, que interessam para o país. O resto é perfumaria.

Mais adiante a Veja questiona: “Que medidas práticas e imediatas o senhor imagina que poderiam ser tomadas para estancar a corrupção no Brasil?

Aécio: “Na campanha eu apresentei uma, que continua valendo. O caminho mais curto para diminuir a corrupção é tirar o PT do governo. É a medida que antecede todas as demais. Enquanto isso, há outras. Nesta semana vou apresentar uma PEC para que, mesmo em cargos de indicação política, a pessoa tenha de passar por um processo de qualificação. Pode haver indicações para esses cargos –que a meu ver têm de ser diminuídos em ao menos um terço–, mas precisamos profissionalizar a burocracia. Fiz isso em Minas Gerais.

Embora taticamente seja muito bom e assertivo vincular o PT com a corrupção e levar esta questão para o cenário político, como já não estamos mais (ou não estamos ainda) em eleições essa solução passa necessariamente para o estrito terreno do cumprimento da lei. Aécio não está na verdade defendendo nada além do que já ocorre na Lava-Jato. E nisso o político Aécio não faz diferença nenhuma para nós. Sergio Moro pesa quinhentas vezes mais neste quesito.

No que o político Aécio faria diferença –leia-se: a diminuição do Estado, já que ladrão não rouba o que a sua mão não alcança– ele cita os cargos de indicação política que a sua PEC busca alcançar. Não vou dizer que isso não vale nada, mas proporcionalmente é insuficiente e inócuo como alguém querer usar um estilingue na batalha de Stalingrado.

Privatização da Petrossauro? Nenhuma palavra.

Extinção de ministérios? Nada.

Plano de reduzir um pedaço, uma pequena parte que seja, daquele total de R$ 1,1 trilhão do orçamento federal, que apontei no meu texto sobre o assunto? Nem um pio.

Só a privatização das estatais implicaria num alívio de mais de R$ 150 bilhões por ano no orçamento federal. Mais que o dobro da primeira meta fiscal que o Levy anunciou para 2015, na época em que o ministro ainda achava que poderia ser feliz. Aécio não menciona nada disso.

Sigamos.

Aécio [sobre a recondução de Rodrigo Janot]: “Eu acho inconcebível nós, aqui no Senado, negarmos apoio ao procurador-geral se for ele o indicado. No que depender de mim, vou defender a aprovação do nome escolhido pelo Ministério Público. A beleza desse processo é que, apesar de tudo, dessa crise, do desatino do governo e das pressões, as instituições no Brasil funcionam em sua plenitude. São elas que darão o impulso necessário ao país para que retome a rota do crescimento.”

Pois é.

A beleza é que apesar de tudo “as instituições no Brasil funcionam em sua plenitude”.

Marquem bem isso. Esse é o diagnóstico de Aécio hoje: as instituições funcionam em sua plenitude.

Em sua plenitude.

Plenitude. Plenitude. Plenitude.

Seja qual for o destino do país, Aécio está nos garantindo –e está até mesmo extasiado com tanta beleza– que as instituições no Brasil funcionam em sua plenitude.

Diz-nos isso o Senador da República, líder da oposição, que não tem acesso aos dados dos empréstimos secretos do BNDES para financiamento das ditaduras aliadas do PT.

É permitido rir?

Aécio é um sarro. Continuemos.

Veja: “O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso reafirmou recentemente que Dilma Rousseff é uma ‘pessoa honrada’. O senhor concorda?

Aécio: “Pessoalmente, nunca questionei a idoneidade da presidente. Mas se existe algo com que o presidente FHC, eu e milhões de brasileiros certamente concordamos é que não há dúvida de que a presidente e seu governo foram beneficiados pelo maior esquema de corrupção já montado dentro do Estado brasileiro. A questão é saber se ela fez isso conscientemente ou por omissão. Isso cabe à Justiça descobrir.”

Paulo Maluf não desconversaria melhor do que isso.

A expressão “se existe algo que concordamos é que não há dúvida de que” é de uma ortodoxia embromatória malufista impecável. Aécio é mesmo um político, não tenhamos mais dúvidas.

Aécio diz que a questão é saber se a Dilma (uma pessoa de quem Aécio nunca, ufa! que alívio!, questionou a idoneidade), essa mesma Dilma que foi beneficiada pelo esquema de corrupção –e a mesma Dilma que era Presidente do Conselho de Administração da Petrobras durante o petrolão–, enfim, a questão é saber se ela fez isso conscientemente ou por omissão. Eis a grande questão existencial e metafísica da política brasileira. E o que acontece, então, é que… isso é problema da justiça. Aécio realmente não desce o nível, não é? Que menino educado! Ele poderia ser membro da Câmara dos Lordes. Ou no mínimo poderia ganhar o concurso de etiqueta de qualquer clube de chá de senhoras, com o voto já garantido de FHC.

Vamos logo ao final.

Veja: “Qual será a saída para a crise econômica?

Aécio: “Temos instituições que funcionam e uma economia razoavelmente estruturada. Somos ainda os melhores do grupo dos Brics. A Rússia é excessivamente dependente do petróleo e do gás. A Índia tem 90% da sua economia na informalidade e uma burocracia ainda mais impenetrável que a brasileira. A China investe na sua rede de proteção social o pouco que investíamos na década de 70. Já a África do Sul está com uma taxa de desemprego de 25% e problemas fiscais gravíssimos, mesmo em comparação com os nossos. Temos estrutura para sair da crise, mas isso é insuficiente quando a presidente não transmite confiança e não demonstra capacidade de governar. Quem tem condições de nos tirar da crise é o PSDB. Acredito que em breve o partido será chamado a assumir sua responsabilidade de tirar o Brasil desse poço sem fundo em que o PT nos enfiou. Estamos preparados para isso.”

Primeiro Aécio diz que tudo funciona bem institucionalmente, e que a economia mesmo não vai tão mal assim. Depois diz que o PT nos enfiou num poço sem fundo. Tudo isso que vivemos então é apenas um pesadelo? Quando o PT sair do poder (e SE sair, repito sempre), nós vamos continuar a nossa vida tranquilamente? Mais acima Aécio disse que “a situação do país é muito grave, para qualquer governo”. E depois ele diz que o Brasil é uma maravilha, por causa das suas estruturas econômicas e das suas instituições (que “funcionam em sua plenitude”), e que quem pode nos tirar da crise é o PSDB.

Como sempre na política brasileira, existe o Brasil real e o Brasil ideal.

A relação entre esses dois países não se dá por planos e estratégias consistentes, mas pela simples posição do agente político em relação ao poder.

Quando se é oposição, fala-se do Brasil real.

Quando se é situação, fala-se do Brasil ideal.

Como Aécio pertence hoje a essa gelatina, a essa oposição-quase-situação, ele é obrigado ao mesmo tempo a esculachar com o caos do país e dizer ao mesmo tempo que tudo vai acabar bem.

A argumentação comparativa que Aécio fez com os países do grupo dos Brics comprova isso: da mesma forma que o governo petista alegava até recentemente, desonestamente, que o motivo da nossa crise econômica era o problema internacional, Aécio vai buscar esses Brics para dizer que comparativamente as estruturas econômicas do Brasil são boas. Isso também é desonesto. Assim como não estamos falando de crise internacional, também não estamos falando de Brics. E, pior, o fato é que enquanto as economias de China e Índia crescem perto de 7% ao ano, nós entramos numa recessão sem termos ainda uma data para sair. A comparação de números dos Brics apenas nos quesitos nos quais o Brasil sai em vantagem é muito safada. Depois Aécio ainda diz que o PT é quem desrespeita a inteligência do brasileiro, como se essa oposição nos tratasse muito melhor.

É verdade que o Plano Real, lá trás, não foi apenas um ideal. Foi uma realização boa do PSDB. Funcionou mesmo. E somos todos gratos. Ainda que eles não tenham feito mais do que a sua obrigação, ainda assim podemos ser gratos, e somos.

Mas até quando o PSDB vai viver de nos vender o Plano Real? Já era. Ele já vendeu, nós já compramos, e já deu tudo certo.

Nós precisamos de outras coisas além do Real. Precisamos enfrentar o Foro de SP, precisamos vender essas estatais falidas e reduzir essa gastança absurda. Para quando vai ficar isso tudo?

Quando Aécio diz que eles (do PSDB) estão “preparados”, eu até acredito. Mais ainda: votei em Aécio nas eleições, e gostaria ainda que amanhã de manhã mesmo ele fosse até o Palácio do Planalto e entrasse por uma porta enquanto a Dilma saísse pela outra. Para mim estaria ótimo.

A questão é que não há mudança política estratégica que impeça no longo prazo, mesmo com a queda do PT, que a política brasileira continue monopolizada pelo espectro ideológico socialista e que seja, assim, sempre capturável pelo movimento revolucionário, que tem outros tentáculos além do PT.

O raciocínio é simples: se eventualmente, por qualquer razão, o PSDB assumir o poder e com ele a missão de consertar o país, estará cumprindo o ingrato papel de arrumar a bagunça petista até o advento de um outro novo socialismo mais radical que dispute o poder com os peessedebistas, reprisando a história da entrega de um governo mais arrumadinho pelo socialismo soft nas mãos de um socialismo mais hard, como ocorreu entre FHC e Lula.

Essa é a relação simbiótica entre a social-democracia e o socialismo revolucionário.

Dentro desta realidade, o PSDB cumpre muito bem o seu papel, impecavelmente.

O PSDB está pronto para fazer a sua parte.

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