Qual é a real?

Bandeira do Brasil

 

Foi algo doloroso para a minha sensibilidade (eu tenho uma, fazer o quê?) assistir ao último especial do programa Roda Viva, “Saídas para a crise”.

Se a organização política do país depender do tipo de consenso (ou da falta dele) que houve neste programa, nós estamos perdidos de antemão. Podem fazer as malas, vamos embora.

As opiniões se dividem entre as dos que não sabem o que fazer e acham que as coisas vão acabar mal, e as dos que não sabem o que fazer e acham que as coisas vão acabar bem.

Mas, ora, para ser otimista ou pessimista eu só dependo do meu próprio humor, não preciso ler ou ouvir “especialistas”.

Eu aprendi que antes de você tomar posição sobre o que quer que seja, é preciso que você tenha as condições de fazer uma leitura da realidade e de propor, assim, uma narrativa fidedigna aos fatos. Só depois que a narrativa estiver estabilizada e consolidada em fatos é possível especular a respeito das ações possíveis.

A vantagem que esse método simples traz para a nossa conduta é colossal. Porque, se pensar bem, isso é tudo o que separa os sãos dos histéricos.

E quando ouço falar em intervenção militar no Brasil de hoje, eu ouço muita histeria e pouca sanidade.

Todo mundo tem um apriorismo pronto para lidar com o assunto, enquanto os fatos são deixados para uma segunda, ou para uma terceira oportunidade, se ela vier um dia.

Enquanto isso, praticamente não há (com algumas exceções) narrativas fidedignas que possam ser usadas como ponto de partida para se pensar no assunto.

Eu entendo que ninguém queira ditadura. Eu também não quero.

Ocorre que, ao menos teoricamente, é possível que uma intervenção militar ocorra para impedir uma ditadura, e não para estabelecê-la.

E o pior é que, saindo da teoria e voltando para o terreno da história real, ocorreu em 1964 no Brasil isto: ao menos a razão alegada para a intervenção militar na ocasião foi o justamente o impedimento da instalação de uma ditadura comunista no país.

Porém, desde o motivo alegado até a evolução completa dos episódios históricos, a intervenção salvadora se tornou uma ditadura que durou décadas.

Isto ocorreu no Brasil e em diversos países que passavam pela evolução da Guerra Fria, na qual a URSS disseminava as revoluções pelo chamado “terceiro mundo”, dentro da sua estratégia de domínio internacional (na propaganda, para a “libertação dos povos” e coisas assim).

Compreendo perfeitamente que a experiência da nossa ditadura tenha sido traumática.

Mas, desculpem-me, não posso aceitar que esse trauma histórico determine os limites da discussão pública.

O lugar de gente traumatizada não é no debate público, é na clínica psiquiátrica.

A prova de que o assunto se tornou proibido é a ausência assustadora, fora da internet, de menções às Forças Armadas no seu papel institucional. Atenção, por favor, usem a alfabetização que espero que tenham recebido, eu conto com vocês: não estou falando de pedidos de intervenção militar, estou falando da discussão pública sobre o papel institucional dos militares.

Onde estão os nossos juristas, os nossos constitucionalistas, e os nossos cientistas políticos? Porque não se pronunciam sobre o papel dos militares? Porque o assunto tem que ficar restrito, como se fosse uma teoria da conspiração, às discussões fora do mainstream midiático e aos carros de som dos assim chamados golpistas?

Ninguém tem dúvida nenhuma, por exemplo, de que os militares têm o dever de proteger o país no caso de uma ação hostil de um país vizinho. Ótimo.

Ora, a Constituição diz que os militares têm também outras funções, entre as quais garantir o próprio cumprimento da Constituição e da lei, e preservar a ordem pública.

Se a discussão sobre este papel não entra em nenhuma pauta esclarecida dos nossos muito bem civilizados órgãos da mídia brasileira e grupos de debates, é porque para estes a Constituição e a ordem pública estão passando muito bem, obrigado.

Esta é a leitura feita, por exemplo, por Luiz Carlos Mendonça de Barros, e por Maílson da Nóbrega, nesta última edição do Roda Viva. A liderança inteira do PSDB, FHC, Serra, Alckmin, e Aécio, pensam a mesma coisa. Para eles o país tem estruturas econômicas muito melhores do que se pensa, há um pessimismo exagerado no ar, e as instituições funcionam muito bem no país. Parecem quase petistas falando.

Desde esta narrativa, é evidente que qualquer intervenção militar seria apenas um tiro no pé, um retrocesso, um meio-caminho para uma nova ditadura. Ou talvez até para a própria consolidação do petismo, já que aí além de poderem usar então plenamente o seu discurso de acusação de golpe contra a democracia, os petistas usariam também a sua natureza de oportunistas com a técnica da dialética revolucionária para absorver e usar para si os novos fatos da realidade política.

Muito bem, então não temos que falar em intervenção militar, certo?

Certo.

A narrativa contra-intervencionista, ou institucionalista, está aí, agora falta a sua consolidação em fatos.

Que consolidação é esta?

Ora, é o próprio funcionamento das instituições.

Se as instituições do país são de fato robustas, então elas podem vencer a disputa de forças com o projeto de poder do Foro de São Paulo, do qual o PT é a ponta da lança no Brasil.

É ótimo ser contra a intervenção que abala as instituições, mas o ônus da prova de prescindência da intervenção é dos representantes das instituições que estão aí e dos seus defensores, e não dos militares e nem dos defensores da intervenção.

Isto quer dizer que quem defende a intervenção militar para tirar o PT do poder pode ter sim uma leitura errada e uma narrativa falsa dos fatos, mas toda a comprovação do seu equívoco depende, antes, lógica e necessariamente, de que as instituições prevaleçam contra o esquema revolucionário petista.

E isto não aconteceu ainda, razão pela qual os intervencionistas continuam defendendo, desde a sua narrativa, uma ação militar.

Esperam que vocês leiam o que estou escrevendo e não o que vocês acham que estou escrevendo.

Eis que é sobre o fio desta navalha, da divergência entre essas duas narrativas –a dos que crêem no colapso das instituições e a dos que crêem na sua prevalência– que reside o destino do país.

Em 19 de fevereiro O Antagonista disse que, de acordo com um ex-ministro da Defesa, “os generais afirmam que o papel constitucional de mantenedor da lei e da ordem será cumprido em qualquer circunstância — seja para evitar a derrubada pela força do atual governo, seja para conter baderneiros que ameacem a Pátria, caso venha a ocorrer o impeachment da atual presidente da República“.

Então os militares riscaram uma linha no chão e disseram: “tirar a presidente no muque não vamos tirar, podem gritar o quanto queiram; mas se ela for legalmente impedida de exercer o mandato, nós iremos garantir que isto aconteça”.

Isto em fevereiro.

De lá para cá, corrijam-me se eu estiver errado, mas nada parece ter acontecido com o mandato de Dilma, certo?

Pois bem.

Os intervencionistas continuaram dizendo “não funciona! está tudo dominado!”, e os institucionalistas continuaram dizendo “tem que funcionar! a intervenção será um desastre!”

De lá para cá, apesar do descalabro absoluto, completo e irrevogável do governo petista e da situação geral do país, ainda não se mostrou publicamente uma prova sequer de crime que sirva para o impeachment. O que não quer dizer que nenhuma prova tenha sido produzida, atentem para este detalhe. Tudo depende de que os representantes das instituições exerçam o seu papel. E, se alguma prova já foi produzida, isso ainda não ocorreu.

Pior: o condutor natural do processo de impeachment no parlamento, o deputado Eduardo Cunha, entrou na linha de tiros da máquina petista, de tal forma que os seus próprios opositores são levados (pelo amor ou pela dor?) a dançar o mesmo samba. FHC chega a dizer que o impedimento da presidente teria que ser conduzido por uma liderança com autoridade moral (sugerindo evidentemente que não seria o Cunha a fazer isso), e Aécio, mais recentemente, chegou a explicitar que Cunha deveria renunciar à Presidência da Câmara se virasse réu na Lava-Jato.

Pergunto eu, então: as instituições estão funcionando?

É claro que a nossa mentalidade repugna a interferência dos militares na esfera política.

É claro que os problemas políticos requerem soluções políticas.

É tudo muito claro.

Mas é claro também, para vocês, o quanto a nossa repugnância pela idéia de intervenção militar é imune ao processo de décadas da hegemonia esquerdista que demonizou o golpe de 1964 que havia frustrado os planos deles?

Passou pela cabeça de vocês, por um minuto sequer, a idéia de que a rejeição incondicional do apelo à força para defender o país do movimento revolucionário seja uma reação estimulada e programada pelos próprios revolucionários para impedir a repetição da história?

Já estou ouvindo a acusação: “você é intervencionista! maldito seja!”

Na-na-ni-na-não.

Não se preocupem comigo. Eu estou bem, agradeço o interesse.

Preocupem-se consigo mesmos.

Estou só fazendo perguntas. Será que reações automáticas diante de perguntas sinceras (e são mesmo) não denunciam uma submissão da racionalidade diante de emoções? E será, pergunto ainda, que essas emoções aí não foram… digamos… plantadas?

Odeio insinuações veladas e pensamentos indiretos, camuflados. Sempre detestei. Se estou fazendo estes questionamentos para vocês, é só porque realmente os estou fazendo em primeiro lugar a mim mesmo.

Os fatos estão aí. Os intervencionistas continuam dizendo que as instituições não funcionam mais, e os institucionalistas continuam dizendo que funcionam sim. Todos sentem-se bastante patriotas e, aliás, sentem-se mais autorizados no seu próprio patriotismo do que os outros.

O tempo passa.

Em 18 de agosto O Antagonista publicou: “Fernando Henrique Cardoso decidiu que o PSDB deve caminhar para o impeachment juntamente com o PMDB, porque os militares fizeram chegar aos seus ouvidos que a eventual cassação do mandato de Dilma Rousseff, com a convocação de novas eleições e um interregno de meses, poderia acarretar riscos para a estabilidade institucional.

Os militares traçam mais uma linha no chão. Agora dizem: “se a chapa for cassada [caminho do TSE] o PT vai fazer bagunça.”

Confiram comigo no replay: primeiro os militares dizem que estão prontos para garantir o impeachment; depois complementam, e dizem que a cassação do mandato de Dilma “poderia acarretar riscos para a estabilidade institucional”.

Se os militares estão seguros de garantir o impeachment e ao mesmo tempo falam de riscos institucionais no caso de cassação de mandato, isto quer dizer que a inteligência militar (não me refiro a cafés filosóficos, estou falando de uma salinha com especialistas dentro) já tem um cálculo a respeito das diversas opções. A confiar no que divulgou O Antagonista, a liderança das Forças Armadas já prevê cenários de riscos institucionais.

Podemos permanecer contra a intervenção o quanto quisermos, evidentemente, com a ressalva de que as instituições podem falhar.

E, se me permitem uma digressão histórica, gostaria de lembrar-lhes de que o transcurso de tempo na evolução de um processo de colapso institucional leva à mudanças drásticas do cenário político.

Um exemplo.

Antes do início da Segunda Guerra Mundial, Mussolini achava que Hitler era um insano que destruiria a Europa inteira, e que o mesmo tinha que ser parado a qualquer custo (era um intervencionista).

As lideranças européias, traumatizadas com a Primeira Guerra (era o 1964 deles), não queriam declarar guerra contra a Alemanha de jeito nenhum, e confiaram na diplomacia e nos acordos de paz (eram os institucionalistas).

Depois que os nazistas rasgaram o Acordo de Munique em 1938 invadindo o restante da Tchecoslováquia, e Chamberlain enfiou a sua viola no saco, a Inglaterra e a França continuaram sem ação contra a Alemanha.

E continuaram, em nome da paz, sem ação, mesmo após a invasão da Polônia em 1939!

Quantos milhões de vidas custou mais tarde esta inação pacifista de ingleses e franceses, numa fase em que ainda era relativamente fácil derrotar militarmente a Wehrmacht?

Puxem um cigarro, acendam, e comecem a calcular o tamanho do desastre.

Por sinal, o que Mussolini fez logo que viu que tudo ficou tão fácil para Hitler na Europa?

Aliou-se a ele.

O poder abomina o vácuo.

Antes ainda dos trágicos desdobramentos, quando Chamberlain tinha voltado feliz para Londres carregando debaixo do braço o seu acordo de “peace in our time“, Churchill disse: “Entre a desonra e a guerra, escolheste a desonra, e terás a guerra”.

Depois, quando já era tarde para fazer qualquer coisa senão enfrentar uma dura nova realidade, o novo primeiro-ministro inglês só pode prometer ao povo sangue, suor e lágrimas.

Volto da minha digressão.

O meu único, modesto e singelo ponto aqui é o seguinte: há uma clara medição de forças entre as instituições do Brasil e o esquema de poder do Foro de São Paulo.

Para que qualquer intervenção militar seja de fato uma bobagem, é preciso antes que estas instituições civis entreguem o que prometem e o que é necessário: a saída do PT do poder. Aí, e só aí, poderemos dizer que a narrativa institucionalista não só faz sentido logicamente, mas que é consolidada pelos fatos.

Até lá, por menos que se goste ou que se queira, sempre haverá quem diga que as instituições civis já não funcionam, e que apenas uma intervenção da instituição militar poderia resgatar o Brasil do projeto de dominação do Foro.

O que os petistas, peemedebistas e peessedebistas querem, no fundo, no fundo, é que tudo volte ao “normal”. A normalidade seria o fim da crise política (independentemente da crise econômica), e a retomada, por parte do PT, da sua agenda: controle da mídia, reforma constitucional, etc. Ou seja, a retomada do projeto totalitário do Foro de São Paulo ao modo bolivariano.

Assim como, antes da questão crítica do corredor polonês em 1939, os nazistas ganharam terreno e tempo com a Anschluss em 1936 e com o acordo sobre os Sudetos em 1938, tudo o que os petistas estão fazendo agora é ganhar terreno e tempo antes das suas próximas medidas revolucionárias.

O impeachment da Dilma é urgentíssimo.

O MBL e os outros movimentos estão cobertos de razão de concentrar força neste pedido.

A questão é: vai ter impeachment?

Se não tiver, a narrativa mais realista dos fatos seria retroativamente a dos intervencionistas, mas então já será tarde, porque não existe ação política com efeito retroativo. Só se chamarem o Exterminador do Futuro.

Então, se não tiver impeachment, vocês já sabem: é sangue, suor e lágrimas…

Se as instituições não prevalecerem e o esquema criminoso revolucionário imperar, vocês já sabem que o ônus das consequências não será dos que pedem a intervenção hoje. Não sou intervencionista –não tenho calibre intelectual suficiente para cacifar essa posição–, mas isso eu posso dizer.

Estamos no debate das narrativas políticas.

Qual é a real?

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