Amir Khair para o Syriza

SYRIZA

De novo, o Amir Khair coloca (O Estado de S. Paulo, 22 de novembro, “Há que segui-los”) o mercado financeiro como o vilão da crise econômica.

Já havia feito isso em Edição especial do programa Roda Viva, e agora volta à carga com este artigo (eu imagino, mal informado como devo ser, que ele respire este assunto 24 horas por dia).

Sim, é verdade que os juros no Brasil são altos, e que transformam o problema da dívida pública numa bola de neve.

Mas eu não entendo o seguinte: os juros são pagos de graça, ou são pagos porque existe em primeiro lugar uma DÍVIDA, causada, por sua vez, por um gasto maior que uma arrecadação, ou seja, por um desequilíbrio fiscal?

A pergunta é: QUEM FOI QUE GASTOU O DINHEIRO EM PRIMEIRO LUGAR, FORAM OS BANQUEIROS?

Eu não gosto de banqueiros, particularmente. Na verdade, nem gosto nem desgosto. Sou indiferente, praticamente.

É realmente preciso fazer toda uma trama fictícia, com direito a agiotas (preferencialmente judeus, para ilustrar bem a idéia?) conspirando junto com os produtores do marketing capitalista consumista, para cogitar que o vilão definitivo da crise seja o mercado financeiro.

Khair tem razão num ponto –e posso reconhecê-la sem nenhum transtorno– quando afirma que as reservas cambiais do país poderiam ser usadas para o abatimento da dívida pública. É justo e é racional.

Mas simplesmente esquecer a relação objetiva, FACTUAL, que existe entre déficit público e os juros, é para um economista como ele praticamente uma questão de desonestidade.

Leiam:

Esta política [de ortodoxia econômica], como ficou evidenciado, tem o grave erro de condicionar a queda das taxas de juros ao ajuste fiscal. Só que paradoxalmente a causa do desajuste fiscal em primeiro lugar é a elevada Selic, em segundo a perda de arrecadação com a recessão e em terceiro a redução das despesas. Assim, enquanto não for reduzida a Selic vai piorar a situação fiscal.”

Fora o fato de Khair não saber usar a pontuação muito corretamente (uma fobia de vírgulas, talvez?), o que é perfeitamente perdoável num economista, escandaliza um especialista (ah, os especialistas…) dizer que a causa do desajuste fiscal é em primeiro lugar a Selic!

Crê este senhor, evidentemente, ser lido por analfabetos funcionais, ou por uma platéia hipotética de um eventual fã-clube dele próprio.

Não é possível. Vamos desenhar isso.

A Selic gera custo porque é aplicada sobre a dívida.

Quanto menor a dívida, menor o custo com a Selic.

O que gera a dívida é o gasto maior que a receita.

Os próprios juros só aumentam a dívida porque a mesma não é paga com superávit fiscal.

Ou seja, o déficit nas contas públicas não só gera a dívida que gera, por sua vez, os juros, como ele continua aumentando a dívida e, consequentemente, os juros, a cada novo déficit fechado no orçamento.

Usar a situação atual de crise da dívida e dos juros e fazer tabula rasa esquecendo dos fundamentos econômicos e da lógica mais elementar é de uma desonestidade intelectual ímpar.

Se o Banco Central sobe um pouco mais os juros do que deveria, ou se o governo não usa as reservas como poderia, são questões abordáveis razoavelmente, mas não alteram o vício marcante desse modo de pensar que inverte causa e efeito de maneira absurda.

A argumentação de Khair é safada, imperdoável.

Ele deveria ser o economista-chefe do Syriza na Grécia.

 

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