O poderoso timão

Corinthians 2015

 

2015

§ 120

O poderoso timão

 

Enquanto a Polícia Federal passa o rodo no Brasil hoje, nós continuamos aqui a nossa vidinha. Temos bastante coisa a fazer. Afinal, e eu sempre digo isso, além da parte destrutiva é necessário fazer um trabalho construtivo, e isso, no Brasil de hoje, só de falar já dá uma preguiça… parece um trabalho mitológico. Existe salvação para a decadência moral e intelectual do Brasil?

Claro que existe. A primeira parte boa da história é que não estamos sozinhos. Onde existe alguém que ainda acredita em coisas como a Verdade, o Bem, etc., esse alguém se liga aos outros tantos que comungam da mesma fé (no sentido religioso ou não do termo, tanto faz). A segunda parte boa da história é que não começamos do zero, pois nos apoiamos nos “ombros de gigantes”, muitos deles já mortos, mas alguns ainda vivos e atuantes no mundo real. E a terceira parte boa da história é que no longo prazo a tendência é que uma restauração intelectual séria, bem feita, deve vencer todos os outros projetos concorrentes, por natureza. O que mais você quer?

É evidente que num país onde se tornou a regra não se ter mais a visão realista de coisa nenhuma, parece à primeira vista, quando se acorda do pesadelo cotidiano, que tudo está perdido. Mas isso ainda é um vício de perspectiva, da nossa tosquice. O país não se resume ao PT, ou PMDB, ou PSDB, ou qualquer um desses lixos de grupos políticos que estão aí. Então, se o noticiário está focado nessas coisas, nós sabemos que o mundo por sua vez não se resume ao que o noticiário nos informa, certo? Existe essa crise moral, com transbordamento para a prática política, e para a economia, etc. Existe um mar de lama, literalmente, em Minas Gerais e no Espírito Santo. Existe a praga desse mosquito que passou a transmitir um terceiro tipo de vírus perigoso pelo país. Enfim, sentimos que estamos atolados em calamidades públicas, e isso é um sinal estranho e meio generalizado para todos os setores da vida, mostrando e simbolizando a podridão geral do Brasil. A corrupção é o mar de lama, os petistas são os mosquitos, assim como o mar de lama é a corrupção devastadora, e os mosquitos são petistas… Mas como eu sempre digo, ninguém reclama de sede sem saber o que é água, e ninguém reclama de fome sem saber o que é comida. Se o mal sacode o país, e tem essa origem moral e cultural profunda nas entranhas da sociedade brasileira, então é bom sinal que se sinta bem claramente esse mal, como amostra de que as coisas não vão como deveriam ir, e como índice de uma expectativa de um bem que está ausente, que nós abandonamos em nome de não sei o quê. No fim –-e aqui eu me adianto–, nós abandonamos a vida pelas ilusões da feitiçaria socialista, seja a de tipo hard comunista, ou seja a de tipo mais soft globalista. É estranho, no fim das contas, que aconteça isso? Não é. Se você pensar bem não é. Se existem nações historicamente mais conscientes e culturalmente mais ricas que sucumbem diante desses demônios, que resistência pode apresentar um país fraco e culturalmente confuso como o Brasil? Só pode apresentar justamente a resistência de uma confusão! Ou seja, os planos globalistas ou comunistas não funcionam bem no Brasil porque, veja bem, nada funciona bem no Brasil. Somos beneficiários da nossa própria incompetência endêmica. Quando eu falei do PMDB uns meses atrás, já dei essa dica aí: talvez o Brasil ficasse rapidamente entregue a interesses mais perversos se não fossem esses bandidos que salvam o país não para nós outros, mas para os seus próprios bolsos. Sei que parece estranho isso, mas é assim que acaba funcionando, se você analisar bem. O que não justifica os crimes, é claro. A questão é de perspectiva. É como aquele filme, A Lista de Schindler, que eu analisei aqui. Se não fosse a corrupção desses tipos como Goeth e Hoess, ou seja, se estes fossem mais certinhos e menos criminosos para os padrões da moral mais regular, mais não sei quantas milhares de vidas que foram poupadas teriam sido liquidadas na máquina de extermínio nazista. Então você tem que subir essa barra, tem que levantar essa visão para abarcar um horizonte maior. Só essa pequena mudança de patamar já ajuda muito a entender como somos tolos quando ousamos pretender ver e compreender a justiça divina, por exemplo. Se nós, na nossa miserável experiência, já conseguimos enxergar um pouquinho melhor dentro das nossas inescapáveis limitações se fizermos um esforço deliberado para compreender mais, imagine o que é então, não a convergência, mas a identidade perfeita entre Onisciência e a Justiça em Deus? Se você não perceber logo o quanto esta perfeição transcende a nossa capacidade humana, então eu sinto muito, mas você é muito burro mesmo.

Voltando, é preciso perceber rapidamente que você só se assusta com o mal porque conhece algo do bem e o deseja, e esta é a sua referência. Então o mal-estar na sociedade quer dizer, de algum modo, que esta ainda não está tão podre a ponto de abandonar completamente sua vocação espiritual. O que, aliás, ensejaria provavelmente o fim do mundo. Porque não? A misericórdia de Deus toca ainda a nossa sociedade. Nós temos coisas a fazer, quem diria. Mas tudo precisa ser bem compreendido e determinado. Com frequência os pessimismos ou otimismos concorrem, igualmente, para dar o discurso mais alienado e irresponsável possível a cada dia. O que importa mais é –e isto vale especialmente para a vida política de uma nação– conhecer bem a sua realidade, narrar e descrever bem esta vida que vivemos, e daí partir para esse duplo trabalho de destruição e de construção.

A narrativa do país ainda é muito pobre. Você vê as pessoas lutando ainda contra problemas já muito ultrapassados, intelectualmente falando. O socialismo, tanto o hard quanto o soft, é, intelectualmente, uma ruína e um museu. Mas as pessoas insistem nas suas manias, tanto do lado petista quanto do lado peessedebista, que monopolizam o debate político.

Não tem fim essa miséria? A depender dessas pessoas, não. Não tem fim para elas, porque elas decidiram acreditar em alguma coisa, entendem isso? O poder do ser humano, de acreditar no que quiser, é ilimitado. Já tratei disso no estudo do nosso Tema III, e voltaremos a isso um dia. Aqui, neste caso político do Brasil, você vê novamente o poder da crença humana. É um negócio impressionante. O estatismo levou, e continua levando, aos grandes desperdícios e aos grandes escândalos de corrupção, e não há um só líder político que apareça nas ruas e diga que a Petrossauro, por exemplo, deva ser privatizada. Isto é um escândalo! O modelo socialista, estatista, é falido. E hoje mais do que nunca aparece a realidade nua e crua de que isto, esta conversa populista e demagógica, não passa de um roubo. Está ocorrendo um roubo massificado no Brasil, custeado pelos impostos sobre 40% da produção, e justificado pela alegada defesa dos direitos da mesma população que é assaltada! Vocês conseguem entender a gravidade disso, o quanto esse nó é perverso? Não é só um crime enorme, mas é um crime que sustenta uma grande mentira –mentira essa que tem que ser reafirmada dia e noite–, é uma grande farsa que falsifica a vida do país inteiro, como se não vivêssemos no mundo real como qualquer outra nação, mas numa grande e grotesca piada macabra. Depois falam da Coréia do Norte, como se no Brasil, psicologicamente falando, as coisas fossem tão melhores. Nós apenas estamos em outra fase da revolução, mas a loucura é em essência a mesma.

Se existisse UM único político sério e íntegro, e consciente dos seus deveres, esta discussão seria imediatamente emendada com os atos populares nas ruas. Como este político não existe, e como esta sociedade vive de renovar esta mentira contínua, então não vai ter jeito: o limite da sanidade no país, a nossa reserva moral mínima, ainda será a Polícia Federal, o Sergio Moro, a Lava-Jato, etc. Só que estas instituições não levantam a sociedade, e não estão aí para isso. É preciso ter liderança. Do outro lado, no lado ativo ou positivo, o que é que temos? Quais são os movimentos sociais, os organismos civis, e os partidos políticos? Quem são as pessoas que estão nesses grupos e o que querem? Vocês entendem o tamanho do problema?

É isto o que você ganha, quando despreza a sabedoria. Digo isto claramente e com conhecimento de causa. Eu vejo empresários reclamando, dia sim e no outro também, da pobreza da qualidade da mão-de-obra disponível. As pessoas são mal educadas, mal formadas, meio marginalizadas, mas o empresário não acha que ele próprio tem nada a ver com isso. Afinal, como tudo o mais, “isto é um problema do Estado”. Se você disser para esses empresários, “vem cá, me dá um suporte para eu montar um negócio de educação, para eu escrever em sites, publicar livros, dar aulas, etc.”, o sujeito provavelmente não só negará a ajuda como ainda vai se gabar de ser mais realista e bem sucedido que você, afinal é você que bate na porta dele e não ele na sua. Então a produtividade baixa da mão-de-obra, causada pela ruína da cultura e da educação do país, ao invés de gerar comoção e idéias de novos projetos, torna os poderosos do momento mais encastelados ainda no alto das suas ilusões (e cuja maior de todas é, sem dúvida, a de não perceber que habitam no mesmo mundo), e dificulta enormemente o trabalho para sair desta situação.

Por outro lado, isto só reforça a base moral dos trabalhos positivos, de toda essa gente que a despeito de todas as dificuldades ainda busca falar de idéias novas, de estudos, de pesquisas, etc., para sair desta confusão medonha.

É em respeito a esses trabalhos todos, e também (por que não?) em memória do meu próprio trabalho passado de mais de dez anos, que decidi resgatar mais seriamente os meus projetos que foram abandonados ao longo do caminho, conforme eu fui pagando o tributo para essa insanidade da nossa sociedade. Eu nunca quis fazer parte desse “mundão”, de qualquer modo. E os anos passam e eu penso: não vale a pena mesmo.

Eu não tenho alunos. E não vou arrumar alunos como se fosse mágica. Não sou empreendedor e não quero ser um tão cedo, enquanto isso não parecer a última coisa a se fazer, um último recurso. Não sou socialmente bem relacionado. Meus bons amigos que confiam em mim e que me ouvem são os poucos que não estão tão embriagados com suas próprias vidas a ponto de serem surdos. Eu nunca quis interromper nada de importante na vida dos outros, por mais que isso me parecesse justo. Nunca quis me impor. E não quero. E não vou.

Então volto ao batente. Pensei em inventar uma “Escolinha do Terror”, onde, na ausência de alunos reais, só me restaria dar as minhas aulas para essas entidades sobrenaturais: Fantasma, Espectro, Aparição, Aura, Hectoplasma, Vulto, Assombração e Poltergeist, entre outros convidados especiais. Para tornar tudo menos assustador, vou usar nomes de personagens quaisquer. Os homenageados de hoje, por exemplo, são os jogadores do time do Corinthians, campeão em 2015. Pronto. Cada dia eu penso um grupo diferente. Por mais estranha que essa composição pareça, estes personagens todos estão sob o meu controle (assim espero) e servem ao seu propósito, que é o de dialogar com o seu professor que, embora seja bem real, está sozinho.

E não estive sempre, no fim das contas? Quando foi, REALMENTE, que alguém se alinhou comigo e falou “entendi o que você quer fazer, vamos nessa?”. Jamais. Amigos ajudaram, SIM, mas isso é diferente, porque cada um segue o seu chamado, a sua vocação, como é natural que seja. E não tem porque eu alimentar a ilusão de que seria um direito meu ter a mínima atenção de quem quer que seja. Pelo contrário. Quanto mais consciência temos das coisas, mais as nossas costas vergam sob o peso dos nossos deveres. Então eu tenho é que me aliviar logo desses tijolos e começar a construir alguma coisa com eles, algo que preste. Imagine uma casa, uma morada, que você constrói, mesmo que não saiba se alguém vai algum dia morar ali. Esta é a idéia. É melhor construir isso, mesmo que ninguém use, do que ficar carregando sacos de tijolos nas costas até se quebrar a própria espinha.

Não vou mais trabalhar com leitura do noticiário. O clipping, como já disse antes, é exaustivo. Acompanhar a mídia brasileira dá um prazer equivalente ao de se tomar um copo de areia todos os dias. É insuportável. Peguem uma revista como a Veja, por exemplo, supostamente a melhor revista do país (e o pior é que talvez seja, para se ter uma idéia da desgraça do Brasil), tida como uma revista “de direita”, etc. Se você começar a ler e pensar seriamente nas coisas que os caras escrevem ali, com aquele tom superior das verdades reveladas, você perde a sua calma. Não é possível levar muito a sério uma revista dessas, desde que você busque um entendimento realmente amplo dos assuntos. Eles acertam ocasionalmente, parece que quase por sorte. Podem ler o meu site: em 2015 eu revisei algumas reportagens e entrevistas de Veja, e pouca coisa se salva. A idéia de trabalhar com clipping era em parte a de fazer um serviço de media watch, com várias limitações, e em parte trabalhar no redesenho das narrativas sob o aspecto do combate cultural, mais ou menos como o Luciano Ayan trabalha no site dele. Mas eu não tenho a paciência necessária para fazer isso, especialmente porque penso em possibilidades nas quais vale mais a pena eu investir, considerando a minha formação, meu foco, etc.

A pesquisa sobre Economia Política, por exemplo, que eu continuei neste ano de 2015, me pareceu muito mais produtiva. Porque eu costurei isto aqui: o fato é que no campo das finanças pessoais o cidadão só tem poder mesmo para cortar as despesas, mas do lado da renda ele está dependente em grande parte da prosperidade da sociedade em que vive. Então eu precisei costurar isso. As finanças pessoais levam à economia, e mais, levam à economia política, pois é preciso enxergar o quanto a prosperidade de uma nação, e consequentemente a renda de seus cidadãos, pode ser perturbada pela agenda política. Se não foi a pesquisa que eu mais gostei de fazer neste ano, certamente foi uma das melhores.

E faz sentido pensar nessas coisas. Neste último domingo, dia 13, eu estive na manifestação a favor do impeachment da Dilma, chamado de “esquenta”, preparando as manifestações maiores que deverão surgir em 2016 quando o Congresso decidirá enfim a questão. Eu ouvi os líderes do MBL – Movimento Brasil Livre, principalmente o Renan Santos, reclamando muito da imprensa. Com razão. Esse enquadramento da imprensa é necessário e justo. Só que é incompleto, não é? É incompleto. Porque falta mostrar quem são esses caras, as suas conexões, e a enxurrada de dinheiro que vai do governo para esses órgãos. Ok, não é essa a busca do MBL ou dos outros movimentos. Eu entendo isso. Mas se essa imprensa vendida faz uma cobertura ruim, isso não os prejudica e não traz este assunto para a pauta do dia dos movimentos? O Reinaldo Azevedo apoiou a reclamação do MBL e disse ter ficado com vergonha dessa cobertura jornalística. Mas nós sabemos, está aí na internet, que a própria Veja recebeu, o quê?, uns R$ 500 milhões do governo petista. Meio bilhão. E tem essa agenda progressista descarada, que quando não é petista é peessedebista, ou seja, é socialista do mesmo jeito. Isto quer dizer que o Reinaldo está na confusão? Não que se saiba, e acredito que não esteja. Se Reinaldo estivesse no esquema esquerdista, ele seria um grande mestre da técnica da desinformação. Mas a imprensa em geral está presa nesse esquema. E isto quer dizer, se o MBL e outros movimentos querem realmente uma democracia plena, que a guerra política tem que ser estendida para o setor da informação. Gente realmente independente deve ser fortalecida e deve fazer a concorrência contra a imprensa alinhada com interesses políticos. Temos aí o Ceticismo Político do Ayan, o próprio Reinaldo trabalhando pesado na Veja, na Folha e na Jovem Pan, o Mainardi e seus parceiros em O Antagonista, com enorme audiência. O que o MBL tem que fazer –e os outros movimentos de liberdade e democracia– é perceber a oportunidade de ouro que há hoje, não só de limpar o cenário político, mas também esse braço imundo, sujo, da imprensa. Opa, temos uma primeira pergunta.

TiteIsso não torna tudo mais difícil? O próprio MBL teve que fazer contato e parceria com a oposição, o PSDB, para levar adiante o impeachment. Se fossem sem isso, talvez não conseguiriam avançar em nada. Agora, se for para cima da imprensa, vai ficar mais complicado, não vai? E os petistas ainda vão aproveitar para chamar isso de golpismo, censura.

Ah, mas vão mesmo. Como os petistas reagem ou deixam de reagir, não é o nosso problema. A questão é identificar problemas reais. Você está vendo claramente que o país foi dominado por uma gangue, por uma organização criminosa, e que isso só foi possível com o apoio, com a colaboração ATIVA da imprensa. Ora, isso simplesmente faz parte do jogo agora. Se você quiser fazer política e ignorar esse peso maciço do efeito da imprensa a favor do PT e da esquerda em geral, você vai fracassar. Então não é possível deixar de lado este assunto.

Sobre a questão do PSDB, que você disse, olha, até hoje há quem diga que isso foi um erro dos movimentos, essa aliança, mesmo que provisória, com a assim chamada “oposição”. De qualquer modo, já aconteceu. E não criou um vínculo de dependência, eu espero.

Na parte da imprensa, o que tem que fazer é criticar, apontar os vínculos, e apoiar o trabalho dos jornalistas livres. Tem gente boa em vários lugares. Você lê os editoriais do Estadão? É um negócio bom até, considerando o nível da nossa imprensa. E temos aí o Mídia Sem Máscara, entre outros projetos. O que você tem que fazer é fortalecer os caras que trabalham sério. Não é ganhar apoio político na imprensa. Não, é dar força para os caras que são bons e sérios. Porque se você, do seu lado, é sério, tudo o que você precisa é de uma cobertura justa. Não precisa de ninguém para fazer propaganda de você. Mas precisa dar força para essa limpeza da imprensa, pela via da concorrência. Não tem censura. Tem competição, tem que competir. É claro que em algum momento esse fio que veio da política e puxou a questão da imprensa, vai puxar mais coisas, como a questão do apoio de grandes empresas e bancos a essa safadeza toda. Neste momento será preciso continuar e ir fundo, e mostrar toda a canalhice para a nação. Ninguém precisa ser eternamente condenado, não existe isso. Os empresários podem tocar a sua vida, os jornalistas, e os políticos. Todo mundo. Só que você diz: não vem com sacanagem, que agora o país já entendeu o seu esquema, então agora não tem mais.

Agora, a nossa parte é a discussão pelo lado intelectual. É o que mais me interessa. Por exemplo, se, por um lado, intelectualmente falando, o liberalismo já jogou o socialismo nas cordas, por outro lado falta levar essa notícia para as escolas, para a mídia, etc. Este é um caso de trabalho intelectual. Eu escrevi sobre esse assunto diversas vezes no meu site neste ano de 2015, e sei que algumas pessoas leram. Pois bem, o assunto precisa ser aprofundado, as discussões devem gerar cursos, palestras, seminários, eventos, livros etc. Não é suficiente dizer simplesmente que “imposto é roubo”. Porque isso é uma frase que a pessoa simplesmente aceita. É como “o inverno é frio”, ou “os bebês choram”. O que a pessoa pode fazer com isso? Absolutamente nada. Ela tem que aceitar como um fato natural. Mas esse esquema bandido não tem nada de natural, então você tem que descascar esse abacaxi e servir parte por parte, e mostrar para a pessoa exatamente como é que o mecanismo funciona. Eu não escrevi que imposto é roubo, eu fui lá e digeri o Orçamento da União. Está no meu site. Eu sugeri cortes que chegam até R$ 1,1 trilhão em 45 anos. Mas um superávit já poderia ser alcançado com relativa facilidade em 2017. É isto que precisa ser discutido e levado para as ruas, é esse tipo de coisa. Senão, hoje você quer somente o impeachment da Dilma, e amanhã, você vai querer o quê? Se o Temer e o PMDB, junto com o PSDB, governar o país sem roubo (ou com menos roubo) e com competência mínima, nós ficaremos felizes? É claro que seria melhor isso do que essa patifaria petista, mas isto não é o suficiente. Ao menos para mim, não é. A base para a corrupção e para a ineficiência vai mais fundo que isso e já virou um problema estrutural: é a falta de liberdade econômica e o excesso de intervenção do Estado na vida das pessoas. Metade do país, ou algo assim, vive às custas do governo, ou seja, da outra metade do país que gera o PIB. Desculpem, mas o PSDB não quer resolver isso aí. Ele pode dizer que é menos corrupto e mais competente que o PT, mas esse problema a que me refiro, eles sequer o reconhecem.

EliasÉ aquela questão de servir ao projeto maior, mais amplo, dos globalistas?

É por aí. Não quer dizer que não existem outras linhas de interferência nesse sentido, mas as principais são essas. Por um lado, você tem o Foro de São Paulo, que em resumo é a continuidade do projeto comunista na América Latina, que por sua vez é ligado ao projeto maior russo-chinês pós-URSS, eurasianismo, etc. O PT está grudado nisto, serve nesta linha aí. Por outro lado, você tem o globalismo, o que seria mais propriamente chamado de “atlantismo” na visão dessa guerra, e daí vem ONU, governo mundial, NOM, etc. É o lado onde está alinhado o PSDB. Pergunto eu: o que nós, brasileiros, temos a ver com isso? Nada. Na verdade, a maior parte da população terrestre, de todas as nações, não tem e não quer ter nada a ver com essa guerra de demônios. Só que esses caras têm poder e influência. Esse é o problema. É como um amigo meu, muçulmano, fala a respeito do terrorismo e do radicalismo no Islam: é uma minoria, mas é a minoria que tem todo o dinheiro e todas as armas na mão. Aí fica difícil, hein?

O que nós temos a ver com isso? Nada, rigorosamente nada. E o que queremos ter a ver? Nada também. Nós só queremos viver a nossa vida em paz. Não é isso? Queremos cuidar das nossas famílias, trabalhar, prosperar, evoluir. Só que este mundo tem esses problemas todos, e se você quer viver no mundo real e não no mundo da lua, então você tem que fazer este esforço mínimo para entender onde você está e o que está acontecendo. Dá um trabalho enorme, mas é possível fazer isto.

E essa linha intelectual, cultural, do esclarecimento, do aprendizado, e principalmente da absorção da cultura da nossa civilização, é importantíssima para a nossa recuperação social. Aliás, é o único caminho. Por um acaso esse lixo, essa excrescência, que são os materiais propagandeados pelo globalismo e pelo comunismo, são a única coisa que existe, ou nós temos séculos e mais séculos de cultura para ir atrás? Nós temos esse tesouro, essa herança civilizacional. Só que essa é uma herança que só tem efeito se você a usa, não é algo automático. Pelo contrário, automaticamente o que você tem é a decadência da civilização, pois que esses males contemporâneos não saíram de outro lugar que não seja a evolução da nossa própria história. Se quiserem pegar um esboço dessa visão, eu recomendo muito O Jardim das Aflições, do Olavo. Existe uma nova edição, inclusive, e que eu não li ainda, só li a velha. Leiam esse livro. Aí você terá um exemplo poderoso de como é que as idéias vão se relacionando ao processo histórico, e como você cai, de repente, numa grande confusão dos diabos. É sempre assim: tinha tudo para dar certo, mas não deu.

MarcielEntão não é de hoje isso, né?

Não é de hoje. Olha, se você quiser saber, este mundo aqui nunca teve muito jeito não. Quando uma civilização alcança o seu ápice, ela fica ali por um certo tempo, mas acaba decaindo por uma razão ou por outra. Individualmente o homem pode fazer muito mais coisa no campo do espírito e do intelecto, do que socialmente, esta é a verdade. Socialmente você fica ancorado pela qualidade média da população. É a sua limitação. Eras douradas surgem quando essa média sobe um pouco, ou quando há realmente uma reunião fantástica de vários espíritos superiores num mesmo tempo e lugar. Mas isto é a exceção. A regra da humanidade é a confusão, a decadência, quando não a barbárie.

Eu estava lá neste domingo, quando vi na minha frente o Renan do MBL gritar ao povo que os governantes, junto com a mídia, achavam que eram todos otários. “Paguem impostos e calem a boca.” Ok, isso é verdade e isso desperta indignação, mas isso não vai levantar essa âncora da média da população a que me refiro. Porque para levantar isso, para subir o nível e levar o povo junto, você tem que mostrar como ele foi e é feito de idiota, em detalhes, e com grande repercussão. E você tem que dar o exemplo e as alternativas para sair desta situação. Em suma, você tem que fazer muita coisa. Se o Brasil era um cadáver, então é verdade que melhoramos, porque esse defunto acordou e agora está andando por aí e reclamando da vida. Mas ainda falta alguma coisa, não pouca, para passar disso para uma melhora significativa no nível moral, cultural e intelectual da sociedade como um todo. E, desculpem, mas não é ensinar a tabuada para mais crianças na escola que vai resolver isso. Ensinar a tabuada é importante, sim. Mas não é o suficiente.

É preciso ensinar as pessoas a parar com a vitimização, e isso é mais difícil de ensinar do que a tabuada. Na verdade, o caminho mais rápido e infalível para a devida e saudável humilhação do ser humano é o cristianismo, para colocar o homem no seu devido lugar. Mas como os nossos bispos querem ser mais comunistas que o próprio Marx, então fica difícil mesmo, nós vamos ter que dar uma volta aí, vamos ter que caminhar pela educação, pela filosofia, como propõe São João Paulo II na encíclica Fides et Ratio. Não tem problema, nós vamos fazer isso.

[INTERVALO]

Voltando.

Como já disse, não há razão para voltar ao clipping. Pelo menos por enquanto. Reconheço o valor desse trabalho, até porque como já vimos a questão da imprensa é importante nesse quadro de decadência em que nos encontramos. As pessoas não sabem disso, é claro. A maioria não faz idéia nenhuma disso. Porque é uma coisa natural que o jornalismo, a mídia, a imprensa, transmitam o que seria, idealmente, o consenso da sociedade em torno de todos os temas. A fé pública que essas entidades têm é um negócio assombroso, e é sem dúvida uma fonte de poder real, porque como eu disse, é um processo natural. As pessoas preferem desconfiar umas das outras no seu dia-a-dia e confiar nos jornais, quando provavelmente deveriam estar fazendo o contrário. Ou, no mínimo, por prudência, se eu estou cercado de safados por todos os lados, porque eu não acreditaria que há safadeza também no jornalismo? O mínimo que se deveria fazer, embora eu não recomende fazer isto porque daí se cai num ceticismo muito estéril e engessado, seria se desconfiar igualmente de todo mundo. É aquela coisa, “eu não tenho preconceito, eu odeio todo mundo por igual”. Isto seria uma prudência mínima. Mas não há isso. O que há é essa adesão quase que automática e sem crítica ao que a mídia diz. A Rede Globo é mais poderosa no Brasil do que o Vaticano. Alguém duvida? O William Bonner tem mais poder sobre a vida dos brasileiros do que o Papa. Porque o Papa fala alguma coisa de vez em quando, mas o Bonner está lá todo dia, escolhendo o que você vai saber, como vai saber, destacando e diminuindo o que quiser, etc. Então eu reconheço, e estou deliberadamente alinhando isto com o alerta que o Renan Santos do MBL disse no último domingo dia 13, o fato é que a imprensa possui um poder enorme e chegou a hora de encarar esses caras e cobrar deles alguma honestidade mínima. O serviço de clipping tinha esta função, só que eu não tenho saco nem tempo mais para acompanhar as notícias. E sei que tem gente boa trabalhando nesta área, tanto quanto pode haver mais ainda. Tem que desmontar cada notícia e mostrar o que realmente está acontecendo. Acompanhem o trabalho desses caras que eu mencionei, e busquem e incentivem novos trabalhos.

Da minha parte voltarei para as pesquisas, na linha do que já comecei a fazer sobre a área econômica neste ano, entre outras coisas. Algumas linhas serão abandonadas. Por exemplo, aquela coisa de Vocação que foi tratada em 2011 num curso a parte, isto aí acabou. Poderia voltar a pesquisar o assunto, mas ele é maior do que o meu próprio interesse por ele. Tenho aquela linha proposta, “vocação é o encontro das melhores possibilidades internas essenciais com as melhores possibilidades externas circunstanciais”…, etc., mas o que eu fiz foi apenas cotejar alguns mestres como Frankl e, obviamente, o Ortega y Gasset, e daí misturei um pouco para ver no que dava. Não é uma pesquisa que eu quero continuar, ao menos não por enquanto.

Outra coisa que queria fazer era um estudo na área do Direito Constitucional. Falei deste assunto para um amigo meu recentemente, que é aliás um estudante de Direito, e ele concordou com meu ponto: a ignorância brutal das massas a respeito da mais elementar noção legal sobre a Lei maior do país é absolutamente avassaladora. Só que ao invés de sentar e chorar, como é o nosso costume nacional, eu pensei numa dúzia de livros para ler, montar essa pesquisa, e quem sabe escrever um curso básico para leigos a respeito da nossa Constituição e sobre o Direito Constitucional como um todo. O projeto é lindo. Só que, quando se é adulto, sabe como é, você tem dinheiro, tem tesão, mas não tem tempo. A vida adulta, falando bem seriamente, é praticamente feita dessas renúncias. Escolher é renunciar. Cada sim para algo é um não para outra coisa, e vice-versa. Como quero conduzir certos estudos na área mais central e pura de filosofia, infelizmente deixarei este belo projeto de lado por enquanto. Espero poder voltar a ele antes de morrer, quem sabe?

Outra pesquisa que vou deixar de lado por enquanto é a que comecei a fazer sobre finanças e que cresceu e acabou abarcando a economia política. Atingi novamente um certo patamar. Em 2011, ou 2012, eu havia montado um Curso de Finanças Pessoais. A idéia era divulgar o projeto com alunos do Curso de Vocação. Isso acabou não acontecendo e eu deixei a questão de lado. Mais tarde, no ano passado, retomei o assunto, e continuei a pesquisa com uma invasão de alguns territórios da economia. Já tinha feito um pouco isso, mesmo apenas na parte de finanças, quando abordei o tema da inflação. Agora a invasão foi mais vasta, porque eu tinha que responder aos questionamentos que eu mesmo me fazia sobre a questão da geração de renda. Se você pensar bem aquela questão do Adam Smith, da origem da riqueza das nações, é uma pergunta muito mais esperta e interessante do que pode parecer à primeira vista. Não é uma questão acadêmica, ociosa, inútil. Ao contrário, e tanto é assim que eu cheguei nela por refazer, mentalmente, o percurso silogístico que um aluno meu qualquer faria a partir dos conhecimentos de finanças pessoais.

O aprendizado sobre as finanças pessoais passa em primeiro lugar pela consciência da diferença entre a questão lógica e a questão psicológica do problema.

Logicamente, as finanças são reguladas pela relação orçamentária e pela aplicação consistente de superávits em investimentos cujo retorno supera a curva de inflação no longo prazo. Ponto final.

Psicologicamente, porém, a questão das finanças se relaciona com o problema da relação entre a experiência do tempo presente com o tempo futuro. No limite, a capacidade de gerar riqueza –do ponto de vista estritamente financeiro– está relacionada com a capacidade de cortar custos, ou seja, de aceitar um nível de vida inferior hoje para se obter um nível de vida superior no futuro.

Só que, francamente, isso é o suficiente?

Não é! Qualquer um sabe que não é. Não é só isso que determina a geração de riqueza para o indivíduo.

StivenA pessoa tem que ganhar dinheiro também!

Sim. A pessoa tem que ganhar dinheiro. É claro que isso é premissa do cálculo orçamentário, porque o negócio só funciona se o sujeito ganhar mais do que gasta, então ganhar dinheiro com alguma coisa é a premissa de toda a idéia de finanças.

Só que isto, em si, não é uma questão financeira. Tanto quanto o problema psicológico de relação entre a vida presente experimentada e a vida futura imaginada, embora tenha extraordinária repercussão na vida financeira, em si mesma também não é um problema de natureza financeira.

Existe uma literatura interminável sobre meios de enriquecimento, olhando para a ponta da renda. E o fato mesmo de existir tantas dicas significa que nenhuma delas é infalível, ou é “a melhor”. Mas uma coisa eu percebi e nem precisava ser um gênio para perceber: a capacidade de geração de renda no nível individual possui uma relação importante, decisiva, com a capacidade coletiva de geração de riqueza, ou seja, com a produtividade econômica da sociedade. Daí que se cai, vindo de um individualismo inicial, na questão da “causa da riqueza das nações”.

Foi por isso que expandi, principalmente agora em 2015, a pesquisa para a questão da economia política. O problema não é o de compreensão de complexos esquemas e modelos macroeconômicos, etc. A ciência econômica às vezes se exalta demais, digamos assim. Há muita conversa mole e desnecessária na área econômica que pode ser resumida e endereçada com sucesso ao cenário político, que é a origem das questões decisivas. A vida política é o miolo desse negócio. É daí que vêm os erros, propositados ou não, que causam as grandes distorções econômicas, e que travam o crescimento e a prosperidade dos povos.

Já expliquei, da melhor forma que pude, que o liberalismo termina tendo uma certa razão final na discussão, quando se considera que o Estado é usado para a realização de agendas ideológicas que causam os mesmos problemas que prometem resolver. É um sistema meio diabólico. O diabo não faz isso? Sim. Ele te tenta, faz você errar, e daí te culpa pelo erro. Ele tem o seu sistema retroalimentado de decadência espiritual. Da mesma forma, e de modo bem similar até, a vida econômica das nações é levada ao erro por tentações ideológicas, que causam problemas que servirão, retroativamente, para justificar as mesmas escolhas ideológicas que serviram para o erro inicial. É algo inteligente e simples ao mesmo tempo. Uma marca do sobrenatural.

RalfNão entendi a questão do sobrenatural. Por ser simples e inteligente a idéia é sobrenatural? As ideologias não são feitas pelos homens?

Olha, a marca das idéias humanas naturais é a provisoriedade, o erro e a ignorância. Até a mais alta ciência humana segue assim e num ritmo muito lento. Ou seja, para acertar em alguma coisa por suas próprias forças o ser humano tem que se esforçar muito, mas muito mesmo. E esses acertos levam séculos para se desenvolver, criando ao redor muitos erros entre poucos acertos. Certamente algumas ideologias podem entrar nessa categoria, mas eu acho que as principais, essas que determinam os acontecimentos num nível superior, possuem uma origem sobrenatural, justamente porque em pouco tempo conseguem uma efetividade enorme, não se esvaem facilmente, e dominam a imaginação de milhões de pessoas como se fosse mesmo uma entidade. Quando você vai ver, por trás, o esquema é inteligente, sim, mas também é simples demais, ou seja, não é alguma coisa que alguém ficou muitos dias martelando na cabeça até achar aquela idéia, é algo que parece ter surgido como sugestão pronta. Não sei o globalismo, mas a respeito do comunismo existe documentação sobre isso. Veja o que o pastor Richard Wurmbrand fala do Marx, por exemplo. Era alguém possuído por um demônio, ou no mínimo aberto para sugestões e tramas desta natureza.

RalfMas se as coisas são assim, porque os estudiosos, os intelectuais, etc., não matam essa charada nesses termos mais simples? Porque ainda hoje se discute essas coisas em universidades. Existem mais livros, mais discussões… se as coisas são simples, então toda essa energia é gasta à toa? O sobrenatural parece entrar aí como explicação fácil para questões que são mais complicadas.

O sobrenatural não é explicação, é causa. E isso se for, porque eu nem afirmo que seja realmente, digo apenas que parece que é, porque é muito bem bolado para um comedor de feijão qualquer ter criado isso. A questão é a seguinte: esse pessoal todo que estuda o assunto econômico, eles o estudam sob qual aspecto e com quais ferramentas? Eles fazem isso olhando tudo sob os aspectos econômicos e com ferramentas econômicas, certo? Então tudo o que eles vão concluir, sempre, é que todos os problemas são de natureza econômica. Do contrário, acabarão concluindo que o problema escapa da sua especialização, que é justamente o que eu acho que deveriam fazer. Os economistas deveriam dizer: “os políticos são safados, os ideólogos são loucos, estão todos alucinados e esse é o problema, não é com a economia”. Pronto! Mas eles não podem fazer isso, porque é meio humilhante, e não justifica a liberação de verbas, não justifica a indústria de pesquisa, de publicação, etc., que é o que sustenta esses caras.

A especialização é o que mata o espírito realmente científico, que é por natureza um espírito amplo, imaginativo, criativo. A especialização amarra isso tudo, dita normas, limites, controles, etc., enfim, é algo de uma miséria e de uma pobreza fora de série. Por isso eu não quero ir para uma universidade. Eu poderia ir para a universidade e pesquisar, por exemplo, essa questão do valor da caridade para a distribuição de renda, ou até da criação de um selo de responsabilidade social voluntário? Jamais. Eu seria taxado de ingênuo, no mínimo, ou ainda de agente alienante da burguesia exploradora, etc. Ora, eu estou cagando e andando para que me achem ingênuo ou agente secreto. Aqui, no meu site, com meus alunos, posso dizer livremente o que eu quero. Já expliquei que o que trava a prosperidade é essa doença estatizante, geradora de corrupção, desperdícios e ineficiência, e que se esse dinheiro voltasse para a sociedade, e se, por sua vez, a virtude da caridade reassumisse o seu nobilíssimo papel, sendo até incentivada com os devidos instrumentos sociais voluntários, tudo ficaria bem melhor e bem rápido. Dei meus motivos para entender as coisas assim, dei até exemplos e sugestões. Estou satisfeito. Deus me livre ser um especialista. Se eu fosse um especialista, jamais poderia juntar de forma que não fosse artificial as idéias de “caridade” e “liberalismo” num mesmo pensamento. E tanto é verdade isso que ambos os especialistas em virtudes e em liberdade econômica não se conversam no mundo real, pelo contrário até, costumam combater uns aos outros.

Pois bem, se tenho um pouco a sensação de dever cumprido neste ano de 2015, foi nessa pesquisa da parte econômica, em continuidade à pesquisa de finanças feita em 2011.

Mas não voltarei ao assunto a não ser que me peçam. Escrevi bastante coisa, e está tudo aí no site, quem quiser saber vai ler. Se a partir disso alguém quiser pensar em algo mais, estarei à disposição. Para o meu propósito, que era o de complementar a questão das finanças pessoais no lado da geração de renda, o assunto está concluído. Mas estou à disposição. Aliás, isto é uma espécie de teste. Se eu tenho leitores reais que levam as coisas a sério, mais cedo ou mais tarde haverá pelo menos UM que me questionará sobre a criação do selo de responsabilidade social nos moldes que sugeri. Não é possível que não se questione isso! Uma simples prática, que pode ser adotada voluntariamente, pode servir para gerar um enorme efeito em massa, se não de distribuição efetiva de renda, pelo menos de consciência social: lá estão os ricos pendurados na sua própria versão da luta de classes, coitados…

E os coitados poderiam, assim, também ser boicotados… não se esqueçam de que nós somos os produtores e os consumidores, somos a origem e o fim de todo o processo econômico, somos causa final, formal, material e eficiente da economia. O “grande capital”, sem a sociedade, é tão inútil quanto um grande navio sem ninguém dentro.

Bom, até aqui eu já disse sobre várias coisas que não vou fazer, então falta dizer o que vou fazer no fim das contas. Estou ainda em dúvida a respeito dos comentários esporádicos sobre livros e filmes. Não sinto mais tanta vontade de fazer isso, e nem sei se é algo que sai muito bem no resultado final. Anos atrás escrevi um comentário sobre A Metamorfose de Kafka, e este foi um dos piores textos que eu já escrevi na vida. Me lembrou as redações forçadas da época de escola. Não faz sentido. Sei que existem coisas que merecem ser bem comentadas, como Lost, por exemplo, mas agora não é a hora, ainda. E também não vou embarcar em ondas do momento. Agora, por exemplo, é a ocasião de falar de Star Wars. Eu poderia publicar uma puta análise sobre todos os filmes, comentários, etc. Mas o fato mais importante é que eu não quero fazer isso. E não vou. Sei que havia começado a organizar esse trabalho, mas vai ficar por aqui, por enquanto. Já tinha outro filme solicitado, depois da análise de A Lista de Schindler, mas não vai dar, sinto muito.

IgorPediram o Apocalypse Now do Coppola, né?

LuccaE também A Outra Face de um Crime, com o Edward Norton.

Pois é. Quem sabe um dia? O Apocalypse Now é uma maravilha de filme. Os atores são bons, mas aquela atmosfera é simplesmente fantástica. Você sente o peso da realidade desnudada, mas não é um choque, não é um escândalo. É o realismo mais forte possível, talvez. Não há nenhuma cena que não seja densa, pesada, e que não seja ao mesmo tempo totalmente suportável. O ser humano é esse alguém que procura realizar um dever no meio de uma zona caótica, não é isso? É isso mesmo, e está no filme. E isso imita muito bem o Coração das Trevas de Conrad, o livro que inspirou o filme. Muito bom o filme, e muito bom o livro. Numa das minhas últimas férias eu li quatro ou cinco vezes seguidas o livro de Conrad. Vale a pena mesmo. Já li também o Nostromo, uma vez, e A Linha de Sombra, uma vez também. Falta ler o Lord Jim. Recomendo o velho Joseph Conrad a todos.

Mas não, eu não vou comentar Star Wars porque a Disney resolveu lançar agora um filme novo. Tenha a santa paciência. Até porque é enorme, colossal, a distância que eu quero tomar dos assim chamados “criadores de conteúdo” da internet dos nossos dias. Meus Deus, como eu odeio a minha geração.

Posso continuar falando aqui e ali do cotidiano, do noticiário, e livros e filmes, mas tudo isso vai ser espontâneo, lateral e acessório ao projeto principal de agora, que é o da retomada dos Doze Temas de filosofia desde onde esta pesquisa havia parado, por volta do primeiro semestre de 2013.

Os Doze Temas (Tempo, Realidade, Inteligência, Morte, Liberdade, Eternidade, Ordem, Infinito, Destino, Hierarquia, Individuação e Perfeição) são uma coleção de idéias que responderam satisfatoriamente, ainda que provisoriamente, aos questionamentos que eu tive desde a adolescência a respeito da vida e do mundo. Pode parecer pouca coisa, mas isso já dá uns quase quinze anos de “pesquisa”, no sentido mais amplo e impreciso da palavra. Os Doze Temas resumem em si tudo de melhor que eu coletei dos meus estudos nos últimos anos, principalmente a partir de 2005, quando comecei a estudar mais séria e consistentemente com Olavo de Carvalho. Para ficar bem fácil de entender, suponha que eu tivesse a oportunidade de mandar uma mensagem de poucas páginas para mim mesmo no passado, para o meu “eu” de quinze anos atrás. Eu não contaria a mim mesmo o que eu deveria fazer ou deixar de fazer no futuro. Mas eu mandaria um aprendizado resumido nos aspectos intelectuais, filosóficos e espirituais, que não seriam nada mais e nada menos que um resumo desses Doze Temas. E mandaria junto, é claro, alguns números de sorteio da Mega-Sena, que ninguém é de ferro.

Pois bem, a explicação inicial dos temas eu já fiz, em textos que hoje não estão online, mas que posso subir um dia desses a partir do material gravado e impresso que tenho. Não vou fazer isso por enquanto porque gostaria de revisar o material antes, e agora não é hora para fazer isso (como se vê, tenho trabalho para umas duas ou três vidas). Se editados, acredito que os textos renderiam hoje uns dois ou três livros.

Além da explicação dos temas um por um, também entrei na análise conjuntural, porque esta é, aliás, a coisa mais preciosa: sendo todas as realidades estudadas pelos Doze Temas simultâneas, a apreensão do assunto se completa quando há esse golpe único de visão, quando tudo aparece funcionando ao mesmo tempo, o que aliás é a mais pura realidade. Basta ver, para quem lembra, o encaixe natural e complementar dos Temas XII e I: a forma mais perfeita possível de se buscar a perfeição é realiza-la no único tempo disponível para isso, ou seja, o momento presente. Isto quer dizer que a estrutura limitadora, “afuniladora”, do fluxo temporal não só não impede a realização da perfeição humana, como é uma das suas funções ou condições necessárias, visto que só não pode buscar a perfeição quem não existe no tempo e, inversamente, para poder buscar ser minimamente mais perfeito, basta estar vivo e ter ainda um segundo que reste para decidir alguma coisa. Entenderam? A busca da perfeição só é possível e só faz sentido porque vivemos no tempo. Aliás, o diabo só quer a nossa morte por causa disso: porque sabe que podemos ser melhores amanhã do que somos hoje.

Não só os Temas I e XII se conversam e fecham o ciclo de todos os Temas, mas há uma série de relações recíprocas entre os Temas, que eu prometi estudar e ainda faz parte do programa. Apenas não será por esse lado que nós vamos continuar essa pesquisa agora.

Percebi que é chegada a hora de um segundo mergulho, e desta vez um mais demorado e profundo, na tradição filosófica, antes que de voltar à superfície e a dar mais palpites.

Isto significa retomar uma linha de pesquisa que foi interrompida em 2013, que passa por: 1) comentário dos verbetes análogos e similares aos Temas em Dicionários de Filosofia; 2) estudo e comentário dos principais filósofos destacados na apresentação anterior.

Os estudos sobre os verbetes nos Dicionários, sinceramente, não são do meu mais alto interesse atual. Anos atrás parecia uma boa idéia, lógica. Era uma espécie de concessão ou tributo parcial que eu pagaria ao rigor acadêmico e à filosofia institucionalizada. Hoje isso parece quase que totalmente desnecessário, mas, por via das dúvidas, já que eu já joguei tanta coisa de lado hoje, prometo revisitar essa possibilidade e dar meu veredicto ainda este ano.

RildoEsses Dicionários, são de citações de filosofia?

Não. São chamados “Filosóficos”, com a pretensão de agrupar em verbetes tudo de relevante ou de importante que se disse a respeito de cada assunto ao longo da história. É claro que esse organizador teria que ser meio genial, certo? Para poder separar o que vale mais do que vale menos. Não é possível escrever tudo o que se disse a respeito de um assunto em milhares de anos. Há alguma seleção. Mas, se há uma arbitrariedade, há também o filtro da própria história. No fim acaba sobrando mesmo o que é mais atemporal, que é justamente o que vale mais. Aliás, essa dicionarização funciona um pouco como uma História da Filosofia ordenada por assuntos e não por ordem temporal, mais ou menos como o modelo antigo comparativo de História da Filosofia, ou “modelo aristotélico”, conforme o Olavo explicou no curso História Essencial da Filosofia, logo no começo, aliás.

Vou dar uma olhada nisso, para entender se vale a pena fazer um Pit-Stop nessa tarefa, ou se é o caso de passar direto.

Agora, existe essa lista de filósofos para estudar e comentar, que é o trabalho de uma vida, e é o que me interessa agora. Preciso “recuperar as energias”, e nada melhor para isso do que voltar aos velhos mestres. Me lembro que tempos atrás estava completamente distraído e murcho, quando me caiu na mão um texto de Leibniz, nem lembro qual. Bastou eu ler aquilo e mudei de ânimo, foi como se tivesse sido eletrocutado. Essas coisas funcionam. Esses mestres estão aí falando conosco agora, a qualquer momento, basta que queiramos aprender.

Pois bem, essa lista tinha quinze nomes, e depois cresceu um pouco mais, e hoje tem dezessete. Alguns nomes são mais comuns e conhecidos. Outros são mais “complicados”, no sentido da indisponibilidade das obras em línguas que eu consigo ler bem (inglês, espanhol e o próprio português, evidentemente). Isso fora a densidade natural dos textos de praticamente todos esses mestres, e todas as complicações do ramo da filosofia. Esses são problemas bons, saborosos, pois é daí que sai o que interessa. Como o Olavo já explicou várias vezes, um texto de filosofia não é simplesmente lido, ele é executado internamente, como se fosse uma partitura. Entender o que um filósofo diz é tomar possa da linguagem dele como se fosse a sua própria, e isto quer dizer levar muito a sério tudo o que se diz, e confiar muito na honestidade do cara.

A lista hoje está assim: Platão, Aristóteles, Plotino, Agostinho, Tomás de Aquino, Boaventura, Duns Scot, Suarez, Leibniz, Schelling, Husserl, Lavelle, Zubiri, Voegelin, Lonergan, Mário Ferreira e, é claro, o próprio Olavo. Desta lista já li alguma coisa, com mais ou menos atenção, de Platão, Aristóteles, Agostinho, Tomás de Aquino, Leibniz, Zubiri, Voegelin, Mário Ferreira e Olavo.

A tarefa agora é clara: fazer uma leitura mais completa e dedicada a cada um dos nomes da lista toda, destacando trechos e fazendo comentários.

Para este negócio não ficar árido demais, vou pincelar alguns desses trabalhos deixados de lado e que eu citei aqui. Não tem outro jeito, aliás. O noticiário, os filmes, tudo isso faz parte da nossa vida cotidiana, e de um jeito ou de outro temos que comentar e usar esses fatos e imagens da melhor forma que pudermos. Apenas, deixando bem claro isso, o que procurarei fazer de forma sistemática é a leitura dos filósofos, enquanto todas as outras atividades restarão para quando for mais conveniente, por qualquer razão.

VágnerHoje mesmo, por exemplo, tem essa manifestação contra o impeachment. É um assunto importante, está todo mundo falando. O pessoal está comparando com o Domingo…

É o “mortadelaço”. Não tenho dúvidas de que a nossa querida imprensa vai fazer o seu papel de cobertura, e dar uma bela inflada nos números. Mas isso nem importa tanto. O que está esquentando é o clima de Brasília antes do recesso. Todos querem deixar as peças na melhor posição possível do tabuleiro antes da cortina de 2015 fechar. E também a Polícia Federal está todo dia inaugurando manchetes explosivas. O país vive uma fase explosiva, que me lembra 2005. Dez anos atrás tinha muita merda indo no ventilador, mas tinha menos, e não tinha essa Lava-Jato tão abastecida com delações. O sistema jurídico se tornou mais sofisticado, é verdade. Até aceito isso, concedo que há alguns ganhos institucionais aí. Mas se você olha os fundamentos do país, desculpe, tem muita coisa errada para mexer ainda. Mas é ótimo que ocorram essas coisas. Tinha que acontecer mais. E o povo tinha que ser mais ativo também.

CássioO brasileiro é muito mole, não é? Teve gente no Domingo, mas menos do que teve em Agosto, por exemplo. E agora a coisa está pior, tem mais escândalos, mais coisa acontecendo.

O brasileiro é politicamente cínico. Leia o meu texto sobre isso no site. Escrevi uma explicação, breve até, sobre isso, logo depois que a Dilma deu aquele discurso em que “saudava a mandioca”. Eu quis explicar para mim mesmo como era possível um Presidente da República ser eleito para acabar falando aquelas coisas. E lá eu dei esse caminho: primeiro você despreza a sabedoria, depois você se torna um cínico, e enfim tomam o poder os piores tipos que existem na sociedade. É uma receita pronta para o fracasso. A origem é totalmente cultural, começa quando o debate político não acontece porque as pessoas não conseguem mais se entender, justamente porque desprezaram a sabedoria. Não estou dizendo que as pessoas devem ser filósofas, amar a sabedoria, etc. Não precisa amar, mas também não precisa odiar e desprezar, não é? Se você despreza a verdade, a verdade acaba te desprezando de volta. Como é que você quer discutir política se as coisas forem assim?

Não vai ter discussão que preste. Porque ninguém acredita em mais nada: desprezar a verdade implica em se tornar descrente de que qualquer verdade seja possível, e isto leva do mero ceticismo ao cinismo puro e simples. Tudo vira arbitrariedade.

Você ouviu o discurso do Jader Barbalho na ocasião da decisão do Senado sobre a prisão do Delcídio do Amaral? Aconteceu recentemente. Aquela é a prova mais cabal –aquele discurso–, de que a política brasileira não só beirou como invadiu mesmo a irracionalidade, é a luta simples pelo poder, nada mais e nada menos, restando às palavras não designar realidades, mas apenas o papel de adereço. Alguém pode me dizer “ah, mas é o Jader”. Não! É um Senador da República. Ele não deveria estar lá. E, estando, não deveria ser tolerado pelos seus pares. Se eu, que não tenho nada a ver com o assunto, sinto vergonha por esse episódio, quanto mais não deveriam sentir os partícipes da cena? E não falam nada, aceitam, deixam passar. Eu sei que não era o centro da cena. Mas este é o meu ponto: deveria ser o centro. Mas nós nos tornamos muito, muito cínicos.

As pessoas perderam o censo de proporções, de valores, de tudo. Então, se você pensar bem, é até surpreendente que tantas pessoas tenham ido à rua no último Domingo. Como é surpreendente que esses movimentos de hoje em dia consigam fazer o que fazem sem ter, aparentemente, pelo que se sabe até aqui, nenhum conchavo com interesses quaisquer no espectro político, como têm os movimentos da esquerda que foram hoje às ruas.

Opa, mais uma pergunta?

EliasNinguém vai entender nada com esse negócio do time do Corinthians no seu texto, não é?

Olha, dá para entender, mas dá trabalho. Então não é que quero causar confusão. É mais um sadismo da minha parte, torturar o sujeito para que leia um mínimo, pelo menos até que entenda o que tem a ver o Corinthians com o assunto. Quando finalmente ele entender que não tem nada a ver, daí pode até ficar decepcionado comigo, mas já terá tido oportunidade de entrar no texto e ler um pouco mais. É quase um golpe de marketing, mas está mais para sadismo mesmo, puro e simples.

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